Segurança Privada
21 XIX - Décimo Nono.
Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa.
— Platão.
O café-da-manhã se passou arrastado. Karin, vez ou outra pigarrava, olhando de esguelha para Kakashi, que sorria devasso.
Os olhos de Sakura não deixavam passar qualquer cena despercebida e, a todo o momento, sentia-se constrangida pelas olhadas do mais velho.
— Está uma linda manhã, não é mesmo, Sakura? — ele a perguntou em seu hábil inglês.
Sakura mastigou o alimento, engolindo-o como se o pão francês fosse uma pedra afiada que passara rasgando por sua garganta. Após, bebericou o café-com-leite na fútil tentativa de desentalar-se.
— Sim. — fora a única palavra que proferiu.
Não via quaisquer necessidades de prolongar aquela conversa, visto que estava nítido o quão provocador aquele homem quisera ser.
— Karin me disse que ouviu alguns barulhos estranhos durante à noite... — ele insistiu naquele assunto que Sakura julgava um tanto quanto incomodo.
Ela sentiu o próprio rosto esquentar tamanha ousadia do homem. Sabia que sua face denotava uma coloração avermelhada e isso fê-la sentir-se uma idiota — tamanho constrangimento.
Sakura sabia dos “barulhos estranhos” que Kakashi se referia, e sabia ainda mais que isso era pura provocação, pois não houvera quaisquer barulhos. Sasuke e ela não fizeram absolutamente nada após o agarramento na soleira da porta. Ela havia entrado no quarto e se trancado no banheiro por, pelo menos, 50 minutos antes de tomar coragem para deixar aquele pequeno cômodo que se tornara tão abafado pelo vapor provocado pela água quente.
No momento que deixou o banheiro, sabia que Sasuke já estava na cama. Ele usara o banheiro do corredor. Não seria a primeira vez que fazia isso. Sempre que ela demorava no banho, Sasuke usava o outro banheiro.
Um longo suspiro escapou de seus lábios assim que avistou a cama vazia. Ela própria não percebera que o segurou até que o deixou escapar.
— Onde ele deve estar? — perguntou-se num sussurro.
Contudo, Sasuke não retornara para o quarto durante toda aquela noite e ela não sabia se sentia-se feliz ou não por isso. O que pôde concluir fora a quietação dentro de si. Aquela noite ela sonhou com o dia do aniversário do seu segurança. Sonhou com a intimidade em que aderiram com o passar das semanas, e sonhou com a súbita alegria que sentiu ao fita-lo com aquele brilho fascinante nos olhos assim que abriu o presente que ela comprara para ele.
E ela fora acordada com um suave barulho e dera de cara com ele, o protagonista dos seus utópicos sonhos. Sasuke.
— Não posso imaginar que barulhos estranhos possam ser! — afirmou em alto tom assim que regressou de seus devaneios, relaxando os ombros em seguida. Não tinha motivos para se sentir envergonhada. Ela não fizera, absolutamente, nada de errado.
O que era um beijinho ou outro? Ah, fala sério! Kakashi falava como se eles tivessem transado na porta de casa.
Tudo bem que a interrupção dele fora um dos motivos deles terem parado e ela não tinha a menor ideia do que poderia ter acontecido se Kakashi não tivesse interrompido-os. Porém, ele estava ridicularizando-a como se ela fosse uma criança, deveras.
— Ah, então não rolou? — perguntou Kakashi, enfatizando a última palavra e usando as costas da mão esquerda para bater na palma da direita. Um gesto um tanto quanto absurdo, julgou Sakura, revirando os olhos.
— Por Deus, não tenho que ouvir isso. — ela reclamou pronta para se retirar da mesa.
Kakashi sorriu por trás da máscara. Os olhos castanhos crisparam na medida em que o sorriso se alargava.
— Calma, calma. Eu só estava brincando, madame.
— Não tem graça esse tipo de brincadeira.
— Tudo bem, parei. — ele mostrou os palmos das mãos em sinal de rendição. — Karin também não está gostando. — ele fitou a ruiva e tornou a olhar para Sakura. — Ela não entende nadinha do que estamos falando. Vê se pode! — sussurrou as últimas palavras como se o contexto delas fosse absurdo.
Novamente, Sakura revirou os olhos e tornou a sentar-se à mesa.
— Escuché mi nombre. (Escutei meu nome). — Karin interveio, olhando para Sakura. — ¿Lo que usted dice? (O que você disse?)
Sakura, no entanto, ergueu as sobrancelhas, desentendida.
— Eu não... — ela tentou argumentar.
— Ella no te entiende. (Ela não te entende). — Kakashi tomou as rédeas. — Dijo que es una mujer muy hermosa. (Disse que você é uma mulher muito bonita).
Karin bufou, olhando novamente para Sakura.
— Lo siento por eso. (Desculpe por isso) — pediu Karin, sabendo que Kakashi estava se aproveitando da inocência da nova mulher.
Karin sabia que Sakura não compreendia uma palavra sequer pronunciada anteriormente por si. Ainda assim, quis desculpar-se por Kakashi ser assim... um depravado.
— Ela sente muito por ter sido tão direto em relação... Você sabe... Aos barulhos. — Kakashi traduziu para Sakura. Uma tradução um tanto quanto fajuta, que fez Sakura corar e se retirar da mesa rapidamente, deixando Karin intrigada.
— Porque ella...? — não concluiu a pergunta, pois compreendeu que o Hatake havia traduzido suas palavras de forma distorcida. Aquele sorriso matreiro não era um sorriso qualquer. — Eres un inútil, Kakashi! — Acusou-o, antes de deixar a mesa e seguir os passos de Sakura.
Todavia, Karin sabia que não poderia chegar na rosada e tentar dialogar civilizadamente. A moça não entenderia uma palavra sequer que ela diria, e as duas teriam que se comunicar através de mimicas, o que seria um tanto quanto desastroso.
Suspirando, contornou os passos e subiu os degraus até o quarto que vinha ocupando desde que seus pesadelos começaram. Em breve daria um jeito de conversar com Sakura, nem que tivesse que contratar um tradutor para isso.
X
Havia se passado quatro dias desde o ocorrido na soleira da porta. Exatamente como Sakura previra, nem Sasuke tampouco ela, tomaram iniciativa de aproximação. Ao menos, “bom dia”, cumprimentavam-se, o que já era de grande tamanho.
Naquele início de tarde em Eivissa, os raios solares adentravam pelas janelas de alumínio, iluminando parcialmente os cômodos da casa. Do lado de fora, Kakashi aguardava sua companhia para aquela tarde.
Ele insistira em levar Sakura para um passeio. Dissera estar entediado da vida pacífica que vinha tendo.
Sakura, de início, negou o convite. A contragosto aceitou, após a insistência do mais velho. Ele sabia ser persuasivo quando queria, admitiu ela. Bastou começar a irritá-la com lembranças e gemidos que ela cedeu ao convite.
Não sabia para onde estava indo. Ele prometeu levá-la em um local privado, de grande importância na região que se encontravam. Estando as cegas, não se importou com a roupa que vestira. Um short surrado e uma blusa regata.
A camada espessa de suor prendia-se em sua testa, escorregando pela fonte, e ela limpou-a a cada minuto, inutilmente. Os cabelos presos em um rabo de cavalo alto ajudava a fraca brisa bater-lhe na pele como um convite mudo.
Os dedos dos pés remexiam-se constantemente. Kakashi não deixou de reparar tal gesto, revelando seu sorriso mais libidinoso enquanto dirigia pelas ruas estreitas e bem receptivas da pequena cidade.
— Está calor, não? — ele tentara puxar assunto. Era visível que a moça ao seu lado estava derretendo. No entanto, o carro estava com um problema no ar-condicionado que impedira seu uso.
— Muito. — respondeu ela, espontaneamente. Passou as costas da mão direita pela testa limpando novamente as gotículas acumulativas.
— Sinto muito por não poder te refrescar. Esse carro está com um problema no ar e eu juro que já tentei consertá-lo, mas o problema insiste em voltar. — ele dobrou à direita e estendeu o braço até o porta-luvas, retirando dali os óculos escuros. — Fico te devendo essa. — piscou antes de pôr os óculos na face.
— T-Tudo bem. — Sakura se ajeitou no banco do carona, ignorando os sutis gestos de Kakashi.
Ele falava seu idioma com tamanha perfeição que ela, por um segundo, esqueceu-se da distância em que se encontrava de seu país de origem.
Os pensamentos dela percorriam uma linha tênue entre segurança e perigo. Tais circunstâncias eram irrelevantes – se pressupondo suas atuais condições.
Não se dera conta de quanto tempo permaneceu sentada naquele banco. O tom da voz do Kakashi lhe chamando lhe tirou de seus devaneios, trazendo-a de volta à realidade.
— Onde estamos? — perguntou após alguns segundos analisando o local.
Estavam parados numa avenida movimentada, diferente das que passara ou percebera desde que chegara em Eivissa.
O prédio bem de frente pro carro era de tamanho atrativo. Com aproximadamente vinte andares, transbordava luxo e elegância. Certamente, pensou Sakura, era um prédio para fins comerciais.
— Estamos no centro de Ibiza. — respondeu ele. — Vamos! — disse, saindo do veículo.
Sakura estagnou por mais algum tempo antes de abrir à porta e descer do carro. Seguiu os passos de Kakashi, que eram direcionados ao prédio que ela tanto observou minutos antes.
A porta principal era eletrônica com sensor, que se abriu assim que seus corpos que aproximaram.
Sakura se sentiu em tamanho constrangimento, pois suas vestes não eram adequadas para aquele tipo de ambiente. De fato, ela estava acostumada com lugares sofisticados, porém, achou que iria até um local público qualquer. Contudo, cá estava ela, na recepção de um luxuoso hotel com pessoas transitando em suas vestimentas formais.
Suas bochechas pigmentaram-se em uma coloração avermelhada.
— Ka-Kakashi. — chamou o homem que estava três passos à frente. Ele parou e virou-se para olhá-la. Sua face indicava sua falta de conhecimento tamanha hesitação dela. — Eu acho que. Bem... Acho que não estou vestida adequadamente. — concluiu.
Ele arqueou a sobrancelha levemente, antes de entender a hesitação da mulher e soltar uma breve risada.
— Fique tranquila. — acalmou-a. — Estamos em território familiar.
Fora então que Sakura, indignada, observou mais abertamente ao seu redor.
A recepção era um tanto quanto calorosa, assim como os funcionários, que estampavam sorrisos genuínos. Bem acima do balcão principal do hall de entrada, havia o slogan do estabelecimento.
Uchiha's Corporation, ilustrado com a insígnia que era familiar a Sakura.
— Esse símbolo...
— Esta é a empresa que o Sasuke herdou do pai. — Kakashi completou, envolvendo a mente de Sakura com perguntas.
— Como ele pode ter algo assim... — sua frase foi perdendo-se em sua garganta. O choque era nítido em seu rosto corado.
Kakashi pôs as mãos no bolso da calça marfim. — Simplesmente por ele ter tanto dinheiro como você, ou seu noivo.
— Então, por que ele trabalhava como meu guarda-costas? Isso não faz sentido... — a pergunta fora mais designada para si mesma do que para o homem à sua frente.
— Essa pergunta você tem que fazer a ele, e somente a ele!
Ainda desentendida, Sakura pareceu buscar algo em sua mente. Sua boca ressecada levemente aberta e seus olhos opacos perdidos no chão.
— Eu não entendo...
— Não tem que entender. — Kakashi relaxou os ombros. — Vamos, precisamos pegar uma papelada e dar o fora daqui.
Sakura, ainda desentendida, seguiu-o — roboticamente.
X
Depois da descoberta inusitada, Sakura não conseguia pensar em nada senão o que Sasuke ocultava. Ele a trouxe para à Espanha, mostrou conhecimento quanto a armamentos pesados, sabedoria acima do que um guarda-costas poderia demonstrar. Ele tinha uma boa casa de praia e agora, bem, agora ela descobrira que ele tinha até mesmo uma empresa herdada do pai.
Era, de fato, muita coisa em pouco tempo para digerir.
O mais frustrante era que Sasuke nunca sequer tocou no assunto. Ele agira naturalmente durante todo o tempo.
Por que Diabos ele esconderia coisas tão significativas dela? Ou melhor, por que ele, que era tão rico quanto ela, prestava serviços para sua família?
Um rápido lampejo passou por sua mente: e se Sasuke fosse um sequestrador?
Por Deus, ela fugiu de seu país confiando sua vida a esse homem. Mas... E se ele fosse o vilão de toda essa história? Se ele armou tudo aquilo para trazê-la e, em troca, pedir uma recompensa...
Ela estava refugiada achando que sua segurança estava intacta, quando, na verdade, estava apenas sendo enganada. Sua família poderia estar aos prantos e seu noivo...
Não que o sujeito fosse grande coisa. Porém, ele poderia estar desesperado à procura dela. Ela sabia o quão louco Gaara poderia ser, mas também sabia que a obsessão dele para com ela, era real. Ele iria até ao inferno para encontra-la, disso tinha certeza.
Céus, sua mente conturbada estava fantasiando diferentes coisas...
Chacoalhando freneticamente a cabeça, Sakura tentou apagar quaisquer vestígios de tais pensamentos irracionais.
Buscou se acalmar, respirando regularmente e contando mentalmente até dez.
Precisava de ar puro. Respirar o ar dentro da residência estava se tornando insuportável. E foi então que ela resolveu deixar seu aposento. Calmamente, relaxou o corpo e andou até próxima à escadaria, descendo os degraus, um por um, até completar o percurso. Parou somente ao escutar a voz de Sasuke um tanto quanto alterada.
Mordendo levemente o lábio inferior, hesitou em seguir a voz ou continuar o seu caminho até o lado exterior da casa.
Ela sorriu de si mesma ao concluir que não se aquietaria se não descobrisse o motivo daquele tom alterado, percebendo o quão boba ela era.
Com passos cautelosos, seguiu o som da voz do homem que vinha dominando sua mente, constantemente.
— Você não deveria tê-la levado lá! O que pensa que está fazendo?
Silêncio.
— Não importa suas conclusões precipitadas. Eu que dito as ordens por aqui!
Silêncio.
— Ela perguntou algo? Ficou desconfiada?
Silêncio.
Sakura não conseguia compreender as palavras de Sasuke. Ele estava brigando com Kakashi por ele tê-la levado ao prédio? Por quê?
Tentando entender as respostas de Kakashi, ela aproximou ainda mais o rosto da porta, colando o ouvido na madeira.
— Eu não quero que isso se repita, ficou claro? Que esse mal entendido termine aqui!
— Tudo bem. Eu não imaginava que você fosse ficar tão 'putinho...
— Foda-se, Kakashi! Foda-se!
Sakura podia imaginar a expressão furiosa do moreno. Mas, no momento, não achou qualquer graça mental. Estava mais assustada do que outrora.
— Deveríamos conversar em Espanhol. As paredes tem ouvidos...
Fora a voz de Kakashi, zombeteira.
— Sabia que é falta de educação escutar a conversa dos outros, Sakura?
A expressão de pânico dominou o rosto da mulher. Com os olhos esbugalhados, tocou na porta, hesitantemente, empurrando-a.
Assim que à porta se abriu, ela olhou para ambos. Sua face plenamente corada e seu coração descompassado.
— Des-Desculpa. — gaguejou.
Kakashi coçou a nuca, divertido. — Vou deixa-los a sós. — ele passou por Sakura, fazendo menção de fechar a porta. — Divirtam-se, pombinhos.
Como se ainda fosse possível, as bochechas da Haruno se avermelharam ainda mais.
— Idiota. — murmurou Sasuke.
— Ér... — Sakura mordiscou o lábio inferior, olhando diretamente para o chão. — Eu sinto muito por... você sabe, escutar atrás da porta.
Com a imagem da mulher à sua frente, tão envergonhada, Sasuke simplesmente esqueceu sua raiva, deixando a carranca de lado para o sorriso de canto transparecer.
— Está perdoada, mi hermosa.
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