Segurança Privada
12 XI - Décimo Primeiro.
Notas iniciais
Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas.
Consegui não descobrir.
—Manoel de Barros
Sasuke discava rapidamente os números memorizados. Os dedos trêmulos não passaram despercebidos por Naruto, que repousou os olhos sobre o moreno.
— Cara, você ‘tá bem?
Ele apenas acenou com a mão livre, a outra pressionava o aparelho celular na orelha. Esperou alguns segundos, na quarta chamada a ligação iniciou.
A linha ficou muda e Sasuke soube as medidas de precauções de Kakashi ao receber uma ligação de um número desconhecido.
Caminhou até o cômodo ao lado, ignorando a intromissão em uma residência desconhecida. Parou próximo ao armário de parede branco, de frente para à porta onde os outros dois estavam.
— Kakashi? — sussurrou, esperando o mais velho reconhecer seu tom. Observou à entrada da cozinha com cautela, constatando não ser observado.
— Sasuke? — o Hatake perguntou, não conseguindo entender o porquê de estar recebendo uma chamada de Sasuke com um número diferente. — O que aconteceu mais cedo? — perguntou, preocupado com o acontecimento anterior.
— Kakashi, preciso de duas passagens para a Espanha e também preciso de duas identidades.
— Certo. Quais sexos?
— Um casal. — respondeu. O tom de voz quase num sussurro.
— Pra quando?
— Próxima semana.
— Providenciarei imediatamente. — Kakashi afirmou. — Você ainda não me disse o que está acontecendo...
— Preciso desligar. Não me ligue, espere que eu faça contato. — Kakashi concordou.
Sasuke sabia que a partir daquele momento teria de agir por si mesmo, o que o deixava extremamente cauteloso quanto suas ações. Ligaria para Kakashi em breve para saber qual dia da semana era o voo.
Encerrou a ligação sem despedidas e voltou para a sala, encontrando Sakura sentada no sofá de dois lugares; e Naruto, em pé próximo à janela.
— O que pensa que está fazendo? — disse ríspido, andando na direção do loiro e fechando as janelas com a cortina. — Você quer ser morto?
O loiro se assustou de início, olhando para Sasuke com o cenho franzido.
— Esse lance ‘tá muito errado, não entendo... vocês foram assaltados e agora não podemos nem olhar na janela?
— Naruto, apenas faça o que o Sasuke está pedindo. — a voz trêmula da jovem chamou a atenção de Naruto, que anuiu, se aproximando dela.
— Você está bem? Quer beber alguma coisa?
— Não, tudo bem.
— Tem certeza?
— Tenho. — ela garantiu, abaixando o olhar e fitando os pés descalços.
Sasuke observou aquela cena, mirando ambos enquanto sua mente trabalhava à mil. Pousou os olhos nos pés de Sakura, que estavam descalços.
— Naruto, certo? Tem algum chinelo sobrando? — o loiro afirmou, sumindo na porta ao lado sem nada dizer.
Sasuke se aproximou de Sakura, se sentando ao lado da jovem. Encostou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos e suspirando em seguida.
— Você está bem? — ele perguntou, tendo a certeza que ela havia mentido anteriormente. Abriu os olhos para fitá-la.
Ela o olhou.
Seus olhos se encontraram e, por um momento, Sasuke compreendeu o quão perdida ela estava. Sakura respirou fundo, suas próprias mãos alisando uma a outra.
— E-Eu não entendo o que está acontecendo... — começou a dizer, tentando formular seus pensamentos errôneos. — Estava tudo bem e, de repente, as coisas saíram do controle...
Ela o olhou novamente, os olhos umedecidos pela camada de lágrima. Sasuke queria lhe dizer algo; algo que a confortasse, ao menos naquele momento.
— Sakura, você nã-
— Achei esses chinelos. — Naruto disse, interrompendo as palavras do moreno, que fechou a boca olhando para o loiro.
O chinelo era grande, mas serviria para que a mulher não permanecesse com os pés no chão. Ela calçou-os, agradecendo a Naruto por emprestá-los.
— Não tem de quê. — ele respondeu, coçando a nuca num gesto espontâneo.
O silêncio perdurou nos próximos minutos, se alongando mais de uma hora. Naruto sentou-se ao chão com as costas apoiadas na parede, enquanto Sasuke e Sakura estavam no único sofá da sala.
O loiro pensou em questioná-los, no entanto, optou por permanecer calado até de manhã. Sasuke, não estava muito a fim de falar, o que dificultava as coisas. Ele havia os abrigado em sua residência e merecia, ao menos, uma explicação para tal fuga. Entretanto as poucas palavras que o casal proferiu foram insignificantes para suas próprias conclusões.
Fechou os olhos, lutando contra a ânsia de adormecer, porém não queria deixar dois desconhecidos em seu apartamento enquanto ele próprio tirava uma soneca.
— Sakura, durma um pouco. — Naruto escutou Sasuke dizer. Abriu os olhos para olhá-los melhor.
— Não consigo. — ela respondeu num tom extremamente rouco.
O loiro pensou em oferecer chocolate quente, mas estava tão cansado que optou por permanecer quieto em seu canto, observando como ambos agiam juntos.
— Você precisa descansar, amanhã cedo partiremos. — ele informou.
Após negar outra vez, ela bocejou, tentando segurar o bocejo, o que acarretou em uma careta cômica.
“Hm” foi o único som que Sasuke deixou escapar. A contragosto, deitou o corpo da jovem com a cabeça dela apoiada em suas pernas. Sakura protestou algumas vezes, se rendendo, em seguida, após não ter sucesso em seus resmungos.
— Durma. — ele ordenou.
Ela não rebateu, apenas fechou os olhos, sentindo a exaustão lhe invadir num único baque.
X
A manhã chegou se arrastando para todos ali presentes.
Sasuke, não havia sequer pregado os olhos. Suas ações, inteiramente calculadas para qualquer empecilho que viesse a acontecer, não o deixou sequer descansar.
A nebulosidade que sua mente se encontrava era intensa, pois permanecer à noite toda em claro era torturante, ainda mais quando não havia nada para fazer a não ser fitar a cara de um loiro encolhido em posição fetal, no chão, com um filete de baba escorrendo no canto dos lábios.
Suspirou impaciente, se retorcendo e levantando cuidadosamente. Com as mãos, apoiou a cabeça da Sakura no estofado, e se levantou.
Andou até a janela, usando a mão para retirar o pano que a cobria — apenas uma pequena fresta — e observou a rua. Não havia qualquer movimento suspeito.
Mordendo a parte de dentro da boca, visualizou toda a área da rua, cobrindo cada canto com os olhos, não deixando nada passar despercebido.
O fraco movimento naquela área não o atraiu. Tudo estava em perfeita ordem.
Deixou a cortina tapar novamente o vidro e olhou para Sakura, que dormia tranquilamente. O peito subindo e descendo em movimentos lentos.
O movimento de Naruto o chamou a atenção, mirando o olhar na direção do homem, que mantinha os olhos abertos encarando-o.
— Tem alguma coisa errada com esse suposto assalto, né?
— Naruto, você tem um carro? — perguntou, ignorando a pergunta que lhe foi dada.
— Tenho, por quê?
— Sakura e eu precisaremos dele.
O loiro gargalhou. — Está brincando?
Sasuke apenas o fitou, sério. Achava que assim Naruto compreenderia a gravidade da situação.
— Cara, eu nem conheço vocês. Não posso emprestar meu carro assim.
— Devolveremos assim que pudermos.
— Mesmo assim, quem me garante?
— Acha que temos cara de ladrões? — a pergunta retórica fora feita com tamanha ironia.
Naruto pareceu pensar, dando de ombros assim que novamente percebeu a face rude de Sasuke.
— Posso, ao menos, saber para onde estão indo?
— Para longe. — limitou-se a dizer.
— Tudo bem... — o loiro se levantou, espreguiçando-se no processo.
Do bolso da calça retirou a chave do carro, estendendo-a para Sasuke pegar.
— Cuide bem do meu bebê. — pediu, sentindo o coração pesar. Seu carro era como um filho para si. Ainda que a lataria não fosse lá grande coisa, havia sido um presente de seu pai, o que ocasionou num grande apresso pelo veículo. — Espero vê-lo novamente.
— Você verá. — garantiu Sasuke.
Agora teria de acordar Sakura, e iriam para um lugar afastado da cidade. Chamou pela moça, sendo ignorado um par de vezes até finalmente a bela adormecida despertar.
— Estamos indo.
— Para onde? — ela perguntou, sonolenta.
— Apenas vamos. — estendeu a mão para que a jovem pegasse. — Naruto, prometo que devolverei seu carro. Como garantia, quero que fique com essas chaves. — jogou uma pequena chave prata. O loiro pegou o objeto no ar.
Não tinha muito que falar, tampouco o que fazer, apenas precisava sair da área imediatamente. E era exatamente isso que faria, levando consigo Sakura.
— Obrigada, Naruto. — Sakura agradeceu, despedindo-se do loiro.
— Tomem cuidado e, Sasuke, por favor, devolva meu celular.
— Acho que vou ficar te devendo essa. — murmurou Sasuke. Antes de sair, retirou do bolso do paletó uma quantidade razoável de dinheiro amarrada num elástico. — Tome. — estendeu para Naruto pegar.
Naruto olhou para o dinheiro. Estava mesmo precisando de grana, porém, aceitar algo assim não era do seu feitio.
Suspirou, ignorando a sensação de arrependimento que lhe invadia.
— Não quero, pode ficar! Apenas traga meu carro de volta e estarei agradecido.
Sasuke anuiu, saindo pela porta com Sakura ao seu lado.
— Não fique nesse apartamento. — ele disse, apertando a mão do loiro e depositando ali, na palma da mão, um bilhete que Sakura sequer percebeu.
X
Sasuke dirigia a lata velha que rangia a cada passada de marcha.
Vez ou outra, Sasuke bufava com a impaciência daquela situação. Sakura, ao seu lado no banco do carona, não retirava o olhar de cima de si.
— O que foi? — perguntou impaciente. Não a olhou, permaneceu com os olhos fixos na pista, dirigindo pela estrada a mais de uma hora.
— Nada. — respondeu ela.
— Hm.
Passaram cerca de trinta minutos em silêncio. No céu, uma tempestade ameaçava cair.
Paciência nunca fora seu forte, e dirigir aquela lataria, sendo observado enquanto orava aos Deuses para não enfrentarem uma tempestade, não estava sendo nada acolhedor.
— O que foi? — tornou a perguntar, não recebendo resposta. — Fala logo o que foi, Sakura!
— Me pergunto... Para onde estamos indo? — ela finalmente falou cerca de cinco minutos após ser questionada.
Agora fora Sasuke que não respondeu, deixando a pergunta pairando no ar.
— Sasuke, para onde estamos indo?
Ele respirou fundo, pressionando as mãos no volante.
— Vamos ficar num lugar um pouco afastado da cidade.
— Que lugar?
— Minha casa.
— Por quê?
— Porque é necessário. — as respostas eram simples. Sasuke tentava ao máximo não ser grosseiro, o que estava sendo terrivelmente difícil.
— Não entendo! — exclamou ela, e ele teve vontade de responder que ela não precisava mesmo entender porra nenhuma.
Permaneceram mais alguns minutos em silêncio até, novamente, Sakura interromper o que Sasuke julgava estar sendo aprazível.
— Vamos ficar muito tempo?
Ele esperou. Novamente sentiu toda a paciência esvair-se. Olhou de canto para constatar que ela realmente esperava uma resposta.
Suspirou.
— Tempo suficiente.
— E quanto é suficiente?
— Sakura, pelo amor de Deus, cala essa boca! — disse ríspido, fazendo-a se encolher no banco.
Agora sim sua paciência havia se esgotado, o que não era nada bom para uma situação dessas. Ela não precisava saber quanto tempo ficariam nesse lugar, precisava? E ela não deveria ficar lhe fazendo dezenas de perguntas sem fundamentos, tampouco lhe incomodando enquanto ele deveria estar focado na estrada.
Não percebeu em que momento, no entanto, Sakura discava alguns números no celular dela. Os próximos segundos foram rápidos, rudes, e extremamente necessários.
Com uma velocidade sobre-humana, Sasuke apanhou o aparelho celular de Sakura, apagando os números que ela discava. Retirou a tampa traseira e o chip, quebrando o pequeno objeto em seguida. Seu olhar contornava da estrada para o celular e, rapidamente, após quebrar o chip, colocou a mão sobre o volante, voltando o carro para o centro da pista. A estrada era reta, de mão única, o que não dificultou em ficar alguns segundos com as mãos longe do volante.
— O que pensa que está fazendo? — ela perguntou incrédula após ter seu celular e chip arremessados pela janela.
— Eu que te pergunto: o que Diabos você estava fazendo quando não me avisou que estava com o celular?
— Não entendo porque deveria te avisar.
— Você quer que nos sigam? — ele questionou firme, impaciente, e ela negou com a cabeça. — Então, por que estava com essa porcaria ligada?
— Eu não pensei nisso...
— Você não pensa em muita coisa! — rebateu ele, sem pensar. E novamente, Sakura se sentiu angustiada com as palavras frias do moreno.
Após o fatídico acontecimento, finalmente Sasuke pôde dirigir tranquilo. Se soubesse que ser rude a faria calar-se, teria sido desde que entraram no carro.
Estacionou o carro numa costeira próximo a um pequeno galpão no meio do nada.
— Chegamos. — disse, desligando o motor, retirando o cinto de segurança e abrindo à porta. Não se incomodou em abrir à porta para Sakura, já que ela havia o perturbado o suficiente para fazê-lo querer manter metros de distância.
Ela o ouviu dizer, retirar o cinto e deixar o carro. No entanto, permaneceu com a cabeça apoiada ao banco, com o rosto virado na direção da janela do carona. O olhar tristonho não disfarçado entregava o quanto estava aborrecida.
Percebendo que a mulher não deixou o carro, Sasuke bufou, caminhando novamente para próximo do veículo.
— Venha. — disse ao abrir a porta, estendendo a mão para a moça, que olhou relutante por alguns segundos até finalmente a pegar.
Andaram até a porta do galpão. Sasuke retirou de dentro da carteira uma pequena chave, encaixando-a na fechadura e girando. Usando de sua força, subiu a porta, que era feita de ferro. Ambos entraram e Sasuke arriou as portas novamente, trancando-a por dentro.
Ele ascendeu à luz no interruptor ao lado da porta. O local era abafado, com cheiro de mofo. As paredes e tetos, na cor bege, descascadas. A pintura vetusta; certamente nunca havia sido pintada novamente.
O chão de cimento e teias de aranhas penduradas nas paredes. Sakura observou cada canto e só se deu conta de que Sasuke já não mais estava ao seu lado, após um barulho estridente. Caminhou rapidamente para próxima a ele.
— Que lugar é esse? — perguntou, confusa.
— Ficaremos aqui, por enquanto. — ele respondeu, ignorando a real pergunta.
Subiram uma escadaria de ferro com entrada para um tipo de passarela enferrujada que rangia a cada passo que davam. Sasuke abriu outra porta, esta que revelou um cômodo um pouco mais agradável — se é que Sakura pôde chamar assim.
O local era pequeno. Uma sala com um sofá de três lugares, televisão de 22 polegadas em cima de um minúsculo rack de ferro preto. Uma geladeira marrom bastante antiga e enferrujada, um mini armário branco sem portas, apenas gavetas. A cozinha americana, com apenas um balcão separando a sala; o fogão de quatro bocas e um armário de parede bem acima espremidos no canto. O lugar era extremamente pequeno.
Sakura, não podia imaginar como uma pessoa poderia viver ali, quanto mais duas.
— Fica à vontade. O banheiro é naquela porta. — Sasuke apontou para outro cômodo — que na verdade nem porta tinha — apenas uma cortina escondia o local.
— É a sua casa? — ela se obrigou a perguntar, sentindo a realidade lhe bater dura e friamente.
— Sim.
Ela novamente monitorou o lugar, engolindo em seco ao se imaginar vivendo ali.
— Quanto tempo ficaremos aqui? — novamente perguntou a mesma pergunta que vinha fazendo há horas, só que dessa vez a resposta era essencial.
— Sakura, ficaremos o tempo necessário! — ele afirmou, observando a expressão da jovem.
Ela mantinha os lábios entreabertos e os olhos fixos num ponto qualquer do chão. — Tudo bem. — sussurrou.
Ignorando a atitude dela, Sasuke caminhou até a geladeira, retirando dali uma garrafa d’água e tomando-a em seguida.
— Está com sede?
— Não. — ela respondeu. Na verdade, sua garganta estava tão seca quanto o deserto. Porém não tinha sequer forças para segurar aquela garrafinha transparente
X
Longe dali, Naruto terminava de fazer suas malas. O bilhete discreto de Sasuke o havia feito tomar algumas decisões, estas que mudariam sua vida drasticamente.
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