Conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se a si próprio é verdadeiro poder.
—Lao-Tsé



A estreita estrada, pouco iluminada, dava passagem as arquiteturas conservadoras de Londres. A beleza histórica e a sofisticação contemporânea se enlaçavam perante o modernismo visível no bairro nobre. Os prédios vetustos harmonizavam perfeitamente com o céu nublado, opaco, e luminárias a cada 10 metros mantinham a rua mais luminosa.

Sasuke dirigia calmo e pacato. Seus olhos perdidos na estrada à frente, mantendo a mão direita sobre o volante e o braço esquerdo apoiado na janela aberta do carro. Vez ou outra direcionava o olhar para as mínimas pessoas que ali passavam. Perdido, sôfrego, indiferente.

Pensou em quanto tempo estava ali, no Reino Unido, e demorou um tempo elaborando suas contas mentais. Dois ou talvez três anos fosse o tempo que se afastara de sua terra para sucumbir ao seu desejo interior, completamente inerente de suas atitudes e decisões, longe de quaisquer resquícios que pudesse intervir a seus males.

Dobrou a primeira rua à direita e estacionou o carro próximo ao edifício de quatro andares. O prédio velho, mofado e até mesmo pichado continha uma escada de ferro ao lado esquerdo que ia até a cobertura.

Sasuke saiu do carro, batendo levemente à porta. Em seguida, olhou para o alto, seus cabelos chacoalhavam com o vento relativamente forte. Risadas atrás de si atraíram sua atenção, fazendo-o olhar para o outro lado da calçada onde um casal passava de mãos dadas. Seguiu ambos com o olhar. Caminhavam descontraídos, alheios a quaisquer atividades ao redor, sumindo na primeira esquina. Sasuke suspirou, colocando as mãos no bolso e apoiando o corpo no carro. Permaneceu parado esperando o indivíduo que não tardou em aparecer, caminhado até si lentamente, e parando à sua frente.

— Não achei que viria até aqui hoje.

— Não viria, mas resolvi te contar algumas coisas. — respondeu Sasuke, passando a olhar para o homem.

— Diga logo o que quer, não podemos ser vistos juntos. — puxou um cigarro do maço no bolso da calça, ascendendo-o com o isqueiro que retirou do outro bolso.

— Fui convidado para um jantar, todos estarão me esperando ao anoitecer. — disse. O homem à frente apenas assentiu para que prosseguisse. — Aceitei, é claro, parece que algumas pessoas estarão nesse jantar. Não sei dizer ao certo, mas pelo que entendi, será um jantar a negócios. Escutei Gaara falar ao celular e parece que até mesmo o prefeito se encontrará no local. Pode ser o momento propício para por em prática nossos planos.

O homem continuou inexpressível, tragando o cigarro, em seguida, lançando a fumaça para o alto.

— Meu querido sobrinho, você tem que ter mais paciência, não podemos nos arriscar sem um plano com antecedência. Hoje, para ser mais exato esta noite, não vamos tomar nenhuma decisão incoerente. Vamos continuar seguindo os planos antigos, tenho certeza que-

— Você está dando para trás. — falou alterado, cortando o homem que até então falava tranquilamente. — Não sabe o quanto estou ansiando por isso, Obito! Eu não aguento mais toda essa farsa, eu preciso acabar com isso de uma vez por todas e voltar para a Espanha. — Obito se aproximou, depositando as mãos uma em cada ombro de Sasuke, e fez com que o moreno lhe olhasse nos olhos.

— Devo lembrar que essa sua impulsividade não vai te levar a nada. Esperaremos a hora certa e só daremos o próximo passo quando for necessário.

— E agora não é? — perguntou. O cenho franzido por completo.

— Não, esse não é o momento certo, meu querido sobrinho. Tenemos que mantener la calma. (Temos que manter a calma). — respondeu em seu sotaque perfeito.

Sasuke suspirou, assentindo em seguida. Desviou as íris para um ponto atrás de seu tio, sentindo toda a indecisão pairar sobre si.

— No lo puedo soportar... Todo esto. (Não posso mais suportar... Tudo isso). — murmurou em baixo tom. Sentiu seu tio lhe dar três tapas nas costas e se afastar.

— Vamos conseguir. — afirmou. — Estoy seguro de que vamos a obtener. (Estou seguro de que vamos conseguir). — Sasuke anuiu lentamente. Suspirou, passando a mão pelo rosto. — Mantenerme informado acerca de la cena. (Me mantenha informado sobre o jantar).

— Sí. — garantiu, abrindo a porta do carro e entrando no veículo sem olhar para trás. Travou as portas e pisou no acelerador. À noite já caíra e deveria se encontrar no restaurante por volta das 19h. Olhou para o painel do carro, constatando que já passara do horário e praguejou.

— Droga, não deveria chegar atrasado numa ocasião dessas. — murmurou. Pisou fundo no acelerador, passando dos 100 Km/h. Não considerava estar em alta velocidade se não estivesse nas ruas de Londres, estas que os carros não chegavam aos 100 km/h. Seus cabelos chacoalhavam, bagunçando-os ainda mais que antes. Apertou o botão próximo à porta, fechando as janelas do carro.

Essa noite ficaria o mais próximo possível da família Haruno. Tentaria ao máximo se enturmar e ser o mais aceito possível, tomando precauções para não ser identificado. Estaria atento a cada palavra dos indivíduos que estarão presentes no jantar e a quaisquer atividades suspeitas exercidas por Gaara.

Sim, precisava de mais para concluir seus objetivos. Seu tio estava completamente correto ao dizer que estava sendo precipitado quanto aos planos, pois não deveria se apressar quando as cartas estavam quase sendo postas à mesa. Esperaria até que pudesse mostrar seus trunfos e ganhar o jogo, este que veio praticando por muito tempo.

Parou ao sinal vermelho, observando as lojas sendo fechadas. Novamente seus orbes direcionaram-se para o painel do carro, constatando ser 19h45min.

Fechou os olhos, apertando suas mãos ao volante, tenso, inquieto. Ouviu sons de buzina, abrindo os olhos em seguida e deparando-se com a sinalização indicando a passagem. Pisou no acelerador, ainda escutando os malditos sons das buzinas ecoarem na rua iluminada pelas telas de propagandas de diversas marcas e comerciais. Reprimiu o impulso de abaixar o vidro da janela e xingar os filhos da mãe que o importunavam por paralisar apenas alguns segundos a mais.

Estacionou o carro no estacionamento indicado por Gaara. Hoje cedo havia recebido o convite para a autorização da entrada ao jantar. Quando Gaara o chamou para este evento, não imaginou que fosse algo grande pelo simples fato de ter sido convidado, entretanto, após estar em seu quarto esperando pela noite e receber o convite, compreendeu que o jantar era mais importante do que imaginara.

Desceu do veículo trancando a porta em seguida, sendo aguardado por dois seguranças. Um deles se aproximou. Sasuke constatou ser o manobrista e entregou a chave para o sujeito levar o veículo de propriedade particular da família Haruno. Por ordens de Gaara, não pôde vir como motorista e teve que usar um dos carros da família para aparecer no estabelecimento. O manobrista lhe informou que a partir dali ele assumia a responsabilidade pelo veículo. Sasuke apenas anuiu. Caminhou até à entrada principal, subindo os degraus, um por um, calmamente, até parar próximo à porta onde dois seguranças espreitavam a entrada.

— Boa noite, senhor. — os seguranças cumprimentaram em uníssono. Sasuke, apenas maneou a cabeça levemente.

Passou pelas portas duplas, adentrando ao cômodo unilateral. No chão, um tapete vermelho pairava e mesas circundadas com bebidas e tira gosto. O teto marfim com luzes postas em arranjos cristalinos.

Sasuke andou até o salão principal, surpreendendo-se com a decoração e todo o espaço amplo. Uma enorme escadaria ao centro, que ligava à entrada ao cômodo principal, parapeito cor de ouro unificando as escadas ao chão. Um enorme lustre banhado a ouro com diamantes pendurados encontrava-se ao centro do salão. No andar de baixo, mesas e cadeiras na cor branca, e ao redor, janelas fechadas impedindo a passagem do vento, mostravam a paisagem do lado de fora, onde uma enorme piscina com luzes em neon encontrava-se.

Sasuke, não pôde deixar de admirar tudo aquilo. Realmente tudo era fino e requintado, do mais bom gosto. Respirou fundo, passando as mãos no terno cafona que usava, desajeitadamente, e expirando o ar numa lufada só. Olhou para baixo novamente e, sem hesitar, desceu os degraus enquanto tentava encontrar seus patrões. Não encontrou nenhum deles e, ao chegar ao último degrau, pensou em desistir disso e voltar para seu quarto de fachada.

Algumas pessoas sentadas à mesa, enquanto outras bebericavam da bebida cara e trocavam conversa fiada uns com os outros, sempre olhando de cabeça erguida, soberbos, indiferentes. Seus olhos buscavam qualquer coisa que pudesse o distrair, chamar sua atenção mais que as mulheres insignificantes que falavam quem tinha o marido mais rico, ou qual vestido era mais caro, todavia não encontrou absolutamente nada digno de sua atenção. Novamente esfregou as mãos no terno barato que usava, secando a umidade do suor. O ar estava relativamente fresco e, ainda assim, transpirava consideravelmente. Deveria ser por estar um pouco nervoso por esta situação embaraçosa.

Alguns múrmuros chamaram sua atenção, fazendo-o desviar os olhos para a escadaria em que se apoiava. A silhueta da mulher prendeu seus orbes inteiramente. Sakura usava um vestido verde musgo na altura dos joelhos, um salto scarpin preto, e os cabelos num rabo de cavalo firme, deixando a franja destacada e os fios alinhados.

Sasuke observou minimamente cada detalhe do traje da jovem, dos pés a cabeça, prendendo-se nos olhos verdes que lhe fitavam com um sorriso na face. Ela desceu, degrau por degrau, lentamente, sendo acompanhada pelas íris ônix que brilhavam em deleite.

A cena, aos seus olhos, era digna do desfile do mais alto escalão. Sakura excedeu suas expectativas, pois tamanha beleza o deixou boquiaberto. Não somente as roupas, mas também a mulher que ali se encontrava, sorrindo timidamente e olhando-o com a mesma intensidade. Era mútua a afeição que ambos demonstravam apenas com a simples troca de olhar.

Sorriu satisfeito, esquecendo-se por alguns segundos do propósito de sua presença e estendendo a mão direita para a mulher, que depositou os finos dedos sobre os seus. Levou as costas da mão alva até os lábios, depositando-o ali, demoradamente, ao mesmo tempo em que seus olhos observavam o rosto delicado e afeiçoado da Sakura. Sorriu assim que abaixou a mão dela.

— E então, fiz certo? — perguntou num murmuro baixo. Sakura anuiu, sua face ligeiramente ruborizada.

— Fez exatamente como deve ser feito. — Sasuke ousou acariciar as costas da mão dela antes de puxar o braço e entrelaçar ao seu.

— Vamos nos sentar.

— Si-Sim. — disse, sem jeito. Ainda estava deliciada com as atitudes do moreno, não conseguindo desprender os olhos do rosto sereno dele. Sasuke usava um terno preto, nada fora do comum ao qual estava familiarizada e, ainda assim, nesta noite, pôde olhá-lo melhor. Sua pele nívea fazia um contraste extremamente atraente com o tom forte do terno, dos cabelos e dos olhos. Mordeu a língua, repreendendo-se por seus pensamentos importunos e inadequados.

— Olha quem está aqui... — o tom de voz mordaz chamou àtenção dos dois. Sakura revirou os olhos, inalando o ar rapidamente antes de virar-se para encontrar o par de olhos verdes lhe fitando. — Meu amor.

— Boa noite. — disse quase num sussurro, rápido.

Gaara aproximou-se mais de Sakura, enlaçando a cintura da mulher e depositando um beijo suave nos lábios rosados. Sasuke se afastou alguns centímetros e observou a cena. Uma ruga se formou em sua testa ao mesmo tempo em que seus olhos desviaram-se para um par de olhos castanho claro. Olhou para o rosto repleto de plásticas e com um estalo interior, deduziu ser Mebuki... Haruno Mebuki.

— Sasuke, também veio? É uma surpresa que esteja aqui. — disse Gaara, com os lábios levemente repuxados para cima.

— Não faria uma desfeita dessas.

Gaara ampliou o sorriso, onde Sasuke pôde visualizar os dentes brancos e alinhados perfeitamente. O ruivo buscou por sua sogra, que prontamente o agarrou pelos braços.

— Este é o segurança particular de sua filha, minha querida Mebuki.

— Prazer, Sasuke. — estendeu a mão, mas foi ignorado pela mulher de cabelos loiros, que não desviara o olhar de Gaara, como se ele, e somente ele, fosse o centro das atenções no salão. Abaixou a mão, deixando um sorriso de canto transparecer.

— Desculpe por isso. — pediu Sakura. Olhava com receio para Sasuke, esperando pela resposta.

— Não peça desculpas.

— Sasuke está certo, querida. Não tem que ficar se rebaixando por coisas alheias. — Sakura bufou. — O que foi? — Ele riu instigado. — Falei alguma coisa errada?

O clima estava realmente tenso entre os noivos e certamente Sasuke não ousaria se intrometer no que não lhe convém. Tentou observar qualquer outra coisa, porém escutou uma voz diferente se aproximar.

— Gaara. — o homem saudou o ruivo. Apertaram as mãos em cumprimento.

— Alfred Charles. Que bom que veio até aqui hoje, sua presença é indispensável.

— Não seja tão moderno, Gaara, sabe que não faltaria a um jantar como este.

— Será bom tê-lo por aqui, podemos conversar melhor com as senhoritas. — Gaara fez questão de manear a cabeça até Mebuki, chamando a atenção da mulher.

— Onde está sua mulher, Alfred? — perguntou Mebuki, fingindo interesse.

— Estava ao meu lado agora a pouco e já sumiu. — ele riu como se tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo. — Posso levá-la até lá. — Mebuki aceitou, agradecendo cordialmente ao homem.

— Ora, não havia visto a senhorita aqui. — disse Alfred ao observar Sakura parada ao canto, bem ao lado de Sasuke. — Está cada dia mais linda. Se me permite, senhorita Haruno. — aproximou-se, pegando na mão da jovem e levando-a até os lábios. — Tão linda... Gaara é realmente um homem de sorte.

— Somos, Alfred, somos. — Gaara garantiu. Alfred anuiu em concordância. — Ah. — Gaara pareceu lembrar-se de algo. — Esqueci-me de lhe apresentar ao meu convidado especial desta noite. Este é Watanabe Sasuke e este é Alfred Charles. — disse, apontando, respectivamente, para os homens. Sasuke ergueu o braço apertando a mão do senhor de aproximadamente 50 anos.

— Watanabe... Por acaso é herdeiro dos petroleiros? — perguntou curioso. Sasuke ergueu levemente a sobrancelha, sua boca minimamente repuxada para cima.

— Não, sou filho dos fazendeiros. — respondeu. Sabia que o senhor ficaria chocado com a revelação, afinal, estar num evento desses, convidado especial de Sabaku no Gaara, com certeza não era algo que se via todos os dias associado a um fazendeiro.

O homem deixou os lábios levemente abertos em surpresa. Bingo, Sasuke imaginou exatamente essa expressão do senhor e a satisfação de acertar algo banal o atingiu, fazendo-o sorrir mais abertamente.

Chegava a ser monótono sua pré-intuição e isso o deixou mais à vontade. O senhor parecia ainda perdido, quando Gaara o chamou àtenção.

— Vamos, precisamos conversar com mais privacidade. — Gaara disse. — Minha querida, nos acompanha? — perguntou a Mebuki, que assentiu.

Deixaram o local, encaminhando-se para o lado oposto ao atual. Sasuke, ainda permanecia sorridente, divertido com o embaraço que causou ao senhor. Sakura juntou as sobrancelhas, franzindo o cenho. Olhou para Sasuke e para o caminho que sua mãe, noivo e Charles faziam, e tornou a olhar para Sasuke.

— O que foi isso? — perguntou aturdida.

— Vai saber. — respondeu Sasuke, mais para si mesmo.

— Ele achou que você fosse herdeiro dos... — Sakura maneou a cabeça para os lados, embasbacada. — Uau.

— O que tem de mais?

— Nada. É que... Não sabia que o prefeito fosse confundi-lo. — Deu de ombros, porém Sasuke a olhou confuso.

— Prefeito? — Sakura anuiu. — Esse cara é o prefeito? — perguntou pausadamente, e Sakura novamente anuiu.

— Tem algum problema nisso?

Demorou alguns segundos para se dar conta do que acabara de acontecer e de quem acabou de debochar sem ao menos se dar conta. Sakura o perguntou novamente, chamando-o a atenção.

— Sasuke, tem algum problema nisso? — dessa vez a preocupação era notável em sua voz.

— N-Não. Deixa isso pra lá — murmurou, dando por encerrado o assunto. Sakura concordou, ainda que permanecesse levemente desconfiada pela atitude anterior que o rapaz demonstrou. Todavia, deixou sua curiosidade de lado e entrelaçou o braço ao do moreno, recebendo um olhar perdido de Sasuke.

— Vamos, quero lhe apresentar algumas pessoas. Não ligue, a maioria são como o prefeito, mas acho que você vai aguentar.

— Vamos fazer o seguinte. — disse, puxando a mulher para um canto qualquer, parando em frente ao corpo esguio. — Eu faço o que você quiser esta noite, mas depois você vai ter que fazer o que eu quiser. — Sakura estreitou os olhos, desorientada, desconfiada. Sasuke apertou sua mão levemente, e entrelaçou a sua.

— O que vô- — fora interrompida.

Shhh. Você apenas deve concordar ou não. — repreendeu-a. A jovem mordeu os lábios inferiores suavemente, ponderando em aceitar ou não.

O que Sasuke iria querer, afinal? Não sabia. No entanto, não se importava com a escolha do moreno desde que ficasse ao lado dele e pudesse esquecer-se dos problemas que sua ominosa vida lhe oferecia.

— Tudo bem. — sussurrou.

— Tem certeza, senhorita Haruno?

— Tenho! — exclamou convicta, olhando, em seguida, para seu segurança e vislumbrando o rosto másculo a centímetros do seu.

Notas finais
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