Segurança Privada

17 XVI - Décimo Sexto.


Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
— Fernando Pessoa.



— Desembarcaremos em minutos. — avisou Sasuke. Ele se levantou do sofá pegando a bolsa que carregava consigo.

— Você... você sabe andar por aqui...? — Sakura se arrependeu de tê-lo perguntado assim que concluiu a pergunta. Era patético perguntar algo assim quando Sasuke afirmara momentos antes que nascera e crescera nesse país.

Constrangida pela tola pergunta, ela deixou um sorriso libidinoso escapar.

— Foi uma pergunta tola, certo?

— Sim. — ele anuiu, observando as duas covinhas que se formaram enquanto a moça sorria mais abertamente.

— É, eu percebi isso assim que a fiz. — num gesto espontâneo, deu dois tapinhas na própria testa. — Que desatenta, não?!

Sasuke não precisou concordar, visto que a moça se ergueu do estofado, fitando admirada as construções do lado de fora dos vagões.

— É tudo tão lindo... — ela se virou para ele, seus olhos se cruzaram rapidamente antes que ela torna-se a olhar pela janela. — É tudo assim... sempre tão movimentado?

— Sim. As pessoas daqui são bem agitadas... — ele ponderou as palavras por alguns segundos. — Tudo aqui é agitado. — concluiu.

— Uau.

O clima entre ambos estava, de todo modo, harmônico. A viagem que durou cerca de duas horas e meia, fora tranquila. Claro, embarcaram num trem bala, um transporte ferroviário moderno que fazia quilômetros parecerem banais.

Durante o caminho, ficaram num clima tenso após as palavras difíceis de Sasuke. Ele sabia o quão doloroso era falar sobre aquilo, e ele não soube o porquê de tentar se abrir para Sakura. Ela era uma desconhecida, notoriamente uma pessoa que não estava interessada, de qualquer forma, em sua história de vida trágica.

Por céus, ele sabia que a mulher à sua frente estava tão confusa quanto ele próprio.

Os questionamentos entre eles eram distintos.

Sakura queria respostas quanto aos homens que buscavam a ela no museu. Queria respostas por descobrir que Sasuke manuseava armas com esplendor. Respostas por estarem na Espanha, quando ele havia lhe dito que era Americano, e respostas por estarem prestes a embarcarem num jatinho.

Já Sasuke... Bem, ele queria respostas do porquê de estar ajudando-a a manter o coração palpitando no peito.

Contudo, esses questionamentos permaneceriam em aberto, por hora.

— Chegamos. — anunciou Sasuke. Sakura, por outro lado, permanecera absorta mirando tudo com plena consciência da diferença cultural dos países.

Pigarrando levemente, ele atraiu a atenção dela, que corou ao perceber sua distração.

— Chegamos, né?

Ele assentiu suavemente. Antes de deixar a cabine, porém, Sasuke preferiu explicar um pouco do que a esperava fora da condução.

— Saiba que a pessoa que estará nos esperando é um pouco... — ele ponderou em completar a frase, buscando mentalmente uma palavra que se adaptasse mais ao físico de seu mentor. — diferente. — enfatizou a última ao proferi-la.

Sakura estreitou ambos os olhos. Sua boca se abriu levemente, mas tornou a fechá-la sob duvidas.

Mordendo o canto do lábio inferior, ela resolveu perguntar de uma vez. — O que quer dizer com diferente?

Novamente, Sasuke avaliou mentalmente, buscando da melhor descrição para se justificar.

— Kakashi é um homem sério. Ele... Bem... Ele tem uma certa característica física. Eu recomendo que não olhe muito para o seu rosto.

— Por quê?

— Só não olhe muito para o rosto dele e tudo ficará bem! — afirmou. Na verdade, afirmou mais para si mesmo.

Já podia imaginar as piadinhas eróticas que o maldito insistiria em usar para constrangê-lo. Já podia até mesmo fantasiar o desastre que seria o mais velho insinuar todos os tipos de coisas sem sentidos perto de Sakura, e usá-la como cobaia em suas ilustrações daquele maldito livro que Sasuke tinha certeza, permanecera em suas mãos durante todo o tempo.

— Tu-Tudo bem — ela concordou. Não sabia muito bem o motivo de não poder encarar o homem que ela ainda nem conhecia, mas faria exatamente o que Sasuke disse, ainda que fosse difícil, visto que é algo natural olhar para o rosto de alguém que acabamos de conhecer.

Pois bem, ela tentaria desviar o olhar do homem. Ou ele era bem feio, ou bem bonito.

“Talvez Sasuke estivesse com... ciúmes?”, pensou rapidamente, chacoalhando a cabeça para ambos os lados assim que notou o quão absurdo isso era. É claro que Sasuke jamais sentiria ciúmes dela. Eles nem tinham nada e ele deixou claro que o beijo que aconteceu somente uma vez havia sido um erro.

— O que foi? — perguntou ele, notando o balançar da cabeça feminina.

— Na-Nada. — respondeu, corando absurdamente enquanto desviava o olhar do dele. — E-Eu só estava pensando...

— Vamos, não podemos nos atrasar. — interrompeu-a, retirando-se da cabine. Sakura, contudo, permanecera alguns segundos parada.

Ela estava mesmo pensando em questioná-lo novamente sobre o beijo...?

Sacudindo a cabeça outra vez, ela deixou a cabine a passos largos.

Desembarcaram do trem, misturando-se a aglomeração de pessoas. Claro, precisavam se esconder caso algum guarda daqui os procurassem. Para a sorte deles, Alicante era um estado terminal afastado, consideravelmente, de Madrid. Com isso, muitas das pessoas que desembarcavam estavam a viajem, ou seja, havia pessoas esperando por elas, o que deixava a plataforma ainda mais cheia.

Eles seguiram caminho até o lado exterior da estação, onde Sasuke pôde avistar o veículo do Kakashi. Já estava tarde, ainda assim, as ruas movimentadas não condiziam com o horário. Típico da Espanha.

Pegando na mão de Sakura, deram uma leve corrida para atravessar a rua espanhola. Logo que pararam de frente para o carro, Kakashi abriu a porta, deixando somente o tronco à mostra.

— ¿Cómo estás, Sasuke? — a máscara no rosto impossibilitava ver sua boca.

Sakura teve que fita-lo por longos segundos até que percebera o erro, desviando o olhar rapidamente.

O tal Kakashi tinha em torno de 35 anos. Sua pele era um pouco mais tonalizada que a de Sasuke, e sua face era... Bem, sua face estava oculta sobre o pano preto. O que pôde notar fora a cicatriz que se arrastava do olho esquerdo até o pano, que cobria o restante e impossibilitava qualquer olho nu de ver o término. As palavras de Sasuke rapidamente vieram a sua mente. “Ele tem uma certa característica física”. Agora, ela finalmente entendera o que ele quis dizer.

Ela estava olhando fixamente para o chão, ainda que seu interior clamasse para tornar a olhar a face do desconhecido. No entanto, fora surpreendida pelas seguintes palavras de seu segurança.

— !Ya sabes cómo soy, Kakashi! No sé por qué lo preguntas. (Já sabe como eu sou! Não sei porque fica perguntando).

O tom grave, tão diferentemente do acostumado por ela, fê-la olhar diretamente para Sasuke, ou melhor, para os lábios másculos. Era surreal o jeito natural que ele falava, com um sotaque oposto ao qual ela costumava ouvir. Sinceramente, não entendera uma palavra sequer que eles falavam, mas a tonalidade vocal de Sasuke era extremamente diferente. Mais rouca, até mesmo mais... sexy.

— Parece que la personalidad sigue siendo el mismo. Inglaterra no ha hecho lo bien, Sasuke. (Parece que a personalidade continua a mesma. A Inglaterra não te fez bem).

Sasuke podia imaginar o sorriso libidinoso do maldito enquanto zombava de si.

— Cállate, Kakashi. (Cala a boca). — murmurou, fechando a cara, aparência contraditória a qual vinha tendo nos últimos minutos.

— Así que este es el famosa Sakura, hah? Es muy hermosa... (então essa é a famosa Sakura? É muito bonita...) — Kakashi disse, lançando um olhar avaliativo sobre a mulher. Sasuke revirou os olhos, agarrando o braço da moça.

— Vamos, ignore esse maldito! — disse, enquanto arrastava-a até o carro, abrindo à porta traseira para que ela entrasse.

Como se ela tivesse entendido uma palavra sequer dos dois.

— Mire, él sabe ser un cavalheiro. (Veja só, ele sabe ser um cavalheiro).

— Vete a la mierda, desgraciado. (Vá à merda, desgraçado). — Sasuke o xingou, e Sakura mentalmente imaginou que aquilo tivesse sido um palavrão pelo tom usado.

Sentada no banco traseiro, esperava por Sasuke e Kakashi. Assim que finalmente pensou que sairiam dali, o mascarado chamou Sasuke para algum tipo de conversa em privado. Ela, é claro, tentou espiar através do vidro fume, mas de nada adiantou.

Após longos minutos, finalmente retornaram para o carro, onde Kakashi dirigiu até o jatinho. Antes de embarcarem, porém, Sakura alertou Sasuke de seu desatento patético. — Não precisa se afastar pra tratar de algo importante. Se você se esqueceu, eu não falo Espanhol! — dito isso, entrou no avião, deixando um Sasuke pasmo para trás.

X

Naruto dirigia a uma velocidade considerável. Ao seu lado, Hinata colocava o cinto de segurança.

— Acha que vamos conseguir? — ela perguntou. Suas mãos apertaram o embrulho preto sobre o colo.

— Temos que conseguir, caso contrário, estaremos ferrados.

— Você só sabe xingar, é? Não consigo ouvir uma frase em que você não xingue! — exclamou Hinata, retorcendo os lábios em desgosto.

— É uma mania adquirida. Não posso fazer nada se as circunstancias não ajudam. — ele se defendeu, olhando para a moça, sorrindo-lhe calorosamente. — Vou tentar parar, um pouco, talvez.

— Ficaria agradecida se tentasse.

Naruto, não conseguindo segurar a vontade que lhe crescia na garganta, deixou escapar a gargalhada. Notoriamente o som saiu estremecido, deixando claro o quão nervoso ele estava, ainda que tentasse ocultar.

— Você é assim sempre tão rabugenta, senhorita? — ele apertou as mãos ao volante, olhando – da estrada – para Hinata, exibindo a fileira de dentes brancos e perfeitamente alinhados.

— Parece que você tem o dom de trazer esse meu lado à tona. — respondeu, revirando as órbitas. Naruto encrespou a boca, franzindo a testa.

— Então acho que causo um grande efeito sobre você! — concluiu ele, divertido.

Vez ou outra, desviava o olhar da estrada para mirar a mulher no banco do carona. Ela, por sua vez, sentia-se sendo observada, e suas bochechas adquiriam uma tonalidade avermelhada pela ousadia do homem. Ele não se importava em olhá-la descaradamente. Ainda que ela estivesse sendo extremamente rude, ele lhe sorria a cada vez que seus olhares se cruzavam. Tão caloroso...

— Acho que chegaremos em 40 minutos. — informou, após um longo período em silêncio.

Hinata nada respondeu, recostando-se à porta, deixando a cabeça pairar na janela. Ela fechou os olhos, suspirando profundamente em seguida. Suas mãos não afrouxaram um segundo sequer o embrulho.

X

Do lado interior do jatinho, Sakura se ajeitava ao banco. Ao seu lado, Sasuke olhava seriamente para Kakashi, que tentava se redimir, inutilmente, por não tê-lo avisado quem o aguardava.

Ali, bem de frente para Sasuke, Obito acomodava-se.

As mãos de Sasuke crisparam, lançando inúmeros olhares nada discretos para o Hatake, que ignorava ao máximo.

O clima tenso era nítido, de maneira que até mesmo Sakura o percebera. Ela, por sua vez, tentava manter-se pacata, respirando regularmente ao tempo em que contava mentalmente de 0 a 10, sucessivamente.

Assim que o jatinho decolou, Sasuke esperou cerca de 5 minutos para afrouxar o cinto e se levantar.

— Chega dessa palhaçada. Obito, venga. (Obito, venha). — concluiu a frase num Espanhol nativo.

Ele andou até próximo da cabine do piloto, que não era muito distante dos assentos.

Os assentos se encontravam aleatórios. Havia uma mesa de vidro com um assento bege em cada lado, dois no total. No canto direito, um sofá bege de veludo com quatro lugares. Ao lado esquerdo de Sasuke, posicionado na parede da entrada para a cabine do piloto, uma televisão plasma. Uma carreira composta de dois assentos, um de frente para o outro, um mini bar de madeira e um frigobar concluíam os móveis do jatinho.

Obito o seguiu, pairando próximo ao mini bar. Ele cruzou os braços no peito e se apoiou na parede.

— ¿Por qué estás acá? (Por que está aqui?) — Sasuke foi direto ao ponto. Não entendia como Obito estava ali, quando deveria estar no Reino Unido.

— Hace unas semanas que Obito aterrizó en suelo español. (Já faz umas semanas que Obito aterrissou em terras espanholas). — disse Kakashi, se aproximando dos homens para escutar melhor a conversa.

O Hatake sabia da desconfiança que Sasuke vinha tendo do tio. Ele, que na verdade era para ser o maior aliado de Sasuke, estava sendo irracional em diversos assuntos. Kakashi era prova disso ao afirmar que Obito vinha se contradizendo mais que o normal, ultimamente.

— Es como Kakashi dijo, hace unos días que estoy aqui. (É como Kakashi disse, faz alguns dias que estou aqui). — respondeu Obito, simplesmente. Ele olhou para o Hatake, rolando os olhos assim que confirmou o olhar suspeito sobre si. — ¿Qué es? — perguntou irônico.

— Usted sabe que no debería estar aquí, tío. (Sabe que não deveria estar aqui). ¿Es usted consciente de la cantidad de tiempo que estoy tratando de ponerse en contacto con usted? (Tem noção de quanto tempo estou tentando entrar em contato com você?)

— Obito sin duda tienen explicaciones plausibles para su desaparición, ¿no lo es? (Obito, certamente tem explicações plausíveis para o seu sumiço, não é mesmo?) — Kakashi o pressionou, colocando as mãos no bolso da calça, um gesto nítido de placidez.

— Hablamos por lo que estamos en Ibiza, ¿puede ser? (Conversamos assim que chegarmos em Ibiza, pode ser?) — Obito esperou pela resposta de Sasuke, que não tardou em vir.

— Conversaremos, tio, e você terá que me explicar algumas coisas. — Sakura pôde entender suas palavras, as únicas até agora. Ela se questionou internamente o que eles conversariam, e deu um grande olhar em Obito, que parecia bem à vontade ali.

Pelas palavras de Sasuke, aquele era o tio dele. Até que não poderia o questionar, pois ambos partilhavam de traços similares.

— Primero vienen a descansar, voy a estar aquí para explicarlo todo, querido sobrino. (Primeiro chegue e descanse, eu estarei aqui para te explicar tudo, querido sobrinho.) — Dito isso, Obito voltou para seu assento, trazendo consigo uma latinha de refrigerante que pegou no frigobar.

Kakashi lançou um olhar para Sasuke antes de se virar e voltar para o assento. O moreno entendeu o que aquele olhar significava, e apenas assentiu com a cabeça. Ficaria de olho no tio, de agora em diante.

X

Assim que desembarcaram em Sant Antoni de Portmany, percorreriam o restante do trajeto de carro.

A cidade não era grande, muito pelo contrário, era extremamente pequena, com construções modernas. A orla era magnífica, com uma enorme rua, areia e barcos enfileirados no mar, a maioria de luxo.

Sakura amaldiçoou-se por estar de noite e não poder enxergar nitidamente o mar, que era a atração principal daquele lugar.

Kakashi dirigia o automóvel importado, Sasuke ao seu lado, no carona. Atrás, Sakura e Obito dividiam o assento. Ela se sentia, de certa forma, incomodada com as olhadelas do desconhecido, ainda que ele fosse tio do Sasuke, não o conhecia e sua imparcialidade lhe deixava inquieta.

— Acho que vocês precisam comer algo. — Kakashi falou, atraindo a atenção de Sakura.

Nesse momento, ela se deu conta do roncar de seu estômago. Com a face avermelhada, abaixou a cabeça e agradeceu mentalmente por Sasuke concordar em pararem para comer.

O carro parou cerca de minutos após. Sasuke abriu à porta para ela, que agradeceu com um aceno de cabeça.

A residência de Sasuke era localizada em Eivissa. Teriam que pegar um táxi até o local, que ficava alguns quilômetros de Sant Antoni de Portmany.

O local era esplêndido. Luzes emolduravam todo o espaço, mesas e cadeiras ao lado de fora, solvendo da fraca brisa do mar.

Sasuke, por um momento, fechou os olhos assim que estava de costas para Sakura. O sopro batendo-lhe no rosto era a melhor sensação de se sentir. Como havia sentido falta desse cheiro, o cheiro do mar. Sentira falta das pessoas, das luzes, do barulho das ondas se chocando a areia, do céu estrelado da Espanha. Oh, ele sentira falta de tudo relacionado à Ibiza.

— Aqui é muito bonito, Sasuke. — ela falou, tentando preencher o silêncio.

Seus olhos se prenderam segundos a mais nas madeixas negras, que balançavam à medida que o vento soprava.

Não obtendo respostas, mordeu o lábio inferior antes de o tocar no ombro.

— É lindo... — falou, agora encarando a face de Sasuke que acabara de encará-la. — Q-Quero dizer, esse lugar é lindo. — corrigiu-se, corando absurdamente.

Desviou o olhar para fitar as pessoas nos quiosques.

— Sim, esse lugar é único. — ele concordou, acrescentando de um adjetivo que ele próprio tinha certeza, se encaixava perfeitamente.

Após, entraram no restaurante Espanhol. A parte interior era ainda mais bonita que a exterior. Eles se sentaram num canto próximos ao balcão onde alguns doces ficavam à mostra.

Um garçom rapidamente veio atendê-los, saudando-os com um simples “boa noite”.

Sakura respondeu educadamente ao homem, já Sasuke, apenas acenou antes de pedir seu prato.

A sorte de estar na ilha era que as pessoas nunca paravam. Aqui, à noite era um atrativo, independente da hora que se passasse, pois o povo de Ibiza parecia não descansar.

— Eu não entendo absolutamente nada que está escrito aqui, Sasuke. — Sakura o avisou. O cardápio em mãos era inútil, pois ela não compreendia nada escrito ali.

O garçom, percebendo o desespero da moça, rapidamente lhe trouxe outro cardápio, este que era inteiramente em inglês. Sakura o agradeceu novamente.

Pediram a comida, que não demorou a chegar. O sabor era magnífico, e Sakura teve que elogiar, ainda que ela soubesse que parte disso era devido à fome que estava. Pense bem, vinha comendo alimentos terríveis desde que estava naquele galpão com Sasuke. Pão, geleia. Geleia, pão...

— Essa comida está maravilhosa. — ela falou, não deixando de apreciar o gosto dos alimentos um segundo sequer.

— Sim. — Sasuke concordou, evitando falar enquanto mastigava. Ele tinha lá suas regras de etiqueta, e ver a mulher que julgara tão refinada falando de boca cheia, era insólito.

Terminaram de comer, ambos satisfeitos. O garçom perguntou se queriam alguma sobremesa, os dois negaram, explicando que estavam satisfeitos. Sakura chegou a completar que nada mais cabia em seu estômago.

Uma calma melodia tocava ao tempo que começaram um diálogo hesitante.

— É difícil estar num lugar que não estamos acostumados.

— Você se acostuma. — ele afirmou, e Sakura se perguntou quanto tempo permaneceria naquele lugar tão diferente de sua terra.

— Você costumava vir à praia? — Sasuke anuiu, cruzando as mãos sobre a mesa. — E-Eu gostaria de vir à praia também.

— Minha casa fica próxima à praia, podemos ir lá amanhã, se você quiser.

— Eu vou adorar. — ela sorriu mais abertamente, visualizando em sua mente a areia em seus pés. Óh, ela até mesmo gostaria de surfar, se fosse possível. E então, como um flash, lembrou-se de não possuir uma peça de roupa sequer. — Eu não tenho roupas...

— Amanhã eu te trago pra comprar algumas peças. — falando isso, Sasuke olhou descaradamente para os bustos dela, analisando algo que fez as bochechas de Sakura esquentarem, tendo que virar o rosto para não ser pega em flagrante. — Acho que tem algumas roupas em casa que caberão em você.

Sakura respirou fundo antes de olhá-lo, percebendo que ele não mais a olhava analiticamente. Ela até mesmo chegou a cruzar os braços ao peito, tentativa fula de se esconder dos olhos negrumes.

— Ah, tomara que caibam. — sussurrou, percebendo o quão constrangida ficara.

A questão era: ser analisada por aqueles olhos era constrangedor, ainda mais quando ela não tinha muito para mostrar na parte superior. Maldita genética dos Harunos!

O silêncio verbal preencheu a mesa. À melodia ao fundo se tornara uma atração aos ouvidos femininos. Ela não entendia uma palavra sequer da música, mas o som era relaxante e confortável.

Sakura quis apoiar os braços na mesa e debruçar a cabeça neles. Estava exausta, corpo, mente e alma. Suspirou longamente antes de ser pega por Sasuke.

— Está cansada?

— Um pouco. — Admitiu. — estou preocupada com a Hinata, até mesmo com o Naruto.

— Eles estão bem.

— Como pode ter certeza?

— Eu tenho. — ele sussurrou, deixando o assunto morrer com as últimas palavras.

Sakura pegou o garfo sobre a mesa, o mesmo que minutos antes usara para degustar os alimentos, e passou a brincar com o talher.

— O que está fazendo?

— Um círculo. — respondeu. — Agora, um coração. — ela levantou o olhar para mira-lo.

Seus olhos se cruzaram, e ambos sustentaram aquele declive. Sakura fora a primeira a romper o clima.

— Eu me pergunto... O que aqueles caras queriam comigo? — falou, enquanto voltava a fazer círculos no prato.

— Eu não sei.

— Você tem alguma suspeita de quem seja? — a pergunta fora algo banal, pois Sakura tinha certeza que, ou Sasuke mudaria de assunto, ou ele negaria.

Entretanto, para sua surpresa, a resposta veio, e rápida.

Seu noivo.

Ela entreabriu a boca em surpresa. Sua mão direita, que antes segurava o garfo, fora recolhida até sua boca.

— Por quê? Por que Gaara faria isso? — ela franziu a testa, semicerrando os olhos enquanto tentava aplacar seus questionamentos internos. — Ele não faria algo assim... — completou num sussurro.

— Sim, ele faria. — Sasuke estendeu a mão, pegando a mão de Sakura, depositando-a sob a sua, na mesa. — Eu não vou deixar ele te fazer nada.

— Você tem certeza que foi ele?

Ele hesitou. Internamente não tinha certeza de nada.

— Não, mas eu vou descobrir! — afirmou.

Sakura assentiu lentamente, agradecendo-o por ajudá-la.

— Eu não sei porque está me ajudando, senhor Watanabe, mas eu sou grata por isso.

Ele quis dizer que ele próprio não sabia porque estava se metendo nisso, quando seus planos eram outros. No entanto, permanecera calado. O silêncio era o melhor, por enquanto.

E as palavras de agradecimento de Sakura eram tão genuínas. Ela havia o chamado novamente de Watanabe, e Sasuke quis dizer que aquele sobrenome não tinha nada a ver com ele. Um pensamento rápido cruzou sua mente, fazendo-o abrir a boca instantaneamente.

— Tem um lugar, El camiño para cruzar la Frontera, te levarei lá assim que possível.

— Como é o lugar?

— El camiño para cruzar la Frontera. — o sotaque Espanhol complementava Sasuke. Ele nascera para falar aquele idioma.

— El camiño o quê? — Sakura tentou pronunciar aquelas palavras, contudo, lhe pareceu terrivelmente difícil.

Sasuke, novamente, verbalizou palavra por palavra, sendo acompanhado por ela. Parecia até um adulto tentando ensinar uma criança a falar correto.

— El. Camiño. para- — ela deu um tempo tentando enrolar a língua para pronunciar a palavra seguinte. Sasuke quis rir da cara que ela fazia. — para cruzar la Frontera. — as palavras não saíram exatamente iguais, não quando Sakura trocou “L” por “R” e vice-versa.

Sasuke gargalhou, tornando a dizer palavra por palavra, estas que Sakura repetia. A cada nova tentativa, a mulher se aperfeiçoava, de certo modo, em sua pronuncia fajuta.

— El Camiño para cruzar la Frontera. — ela finalmente conseguiu pronunciar. É claro, quem escutasse saberia imediatamente que ela era estrangeira. Mas já era um caminho à parte, e Sakura sorria bobamente por ter conseguido tal façanha.

— São só palavras bobas, Sakura. — Sasuke tentava convencê-la de que aquilo não era nada. — Eu sei falar o seu idioma com perfeição. — gabou-se.

— Mas, senhor Watanabe, eu nunca tentei falar em Espanhol. Sabe o quanto é difícil enrolar a língua desse jeito? — ela pôs a língua para fora em demonstração. — Eu mereço aplausos por conseguir pronunciar isso.

— Eu daria zero pelo tempo que você demorou só pra pronunciar isso.

— Você é mau, sabia? — ele anuiu. Sakura tirou a mão que estava sobre a sua, e lhe deu um fraco tapinha nos costas da mão.

Só então ela percebera que durante todo esse tempo permaneceram com as mãos unidas. Suas bochechas pigmentaram em vermelho.

— M-Me desculpe.

— Tudo bem. — ele achou engraçado no quão fácil era constrangê-la.

O silêncio se impregnou novamente. Sakura sentia-se inteiramente constrita por momentos antes. Contudo, sua mente trabalhou rapidamente para minutos antes, quando Sasuke lhe dissera que a levaria ao tal camiño da frontera.

— Como é o lugar que você irá me levar?

— É... Bonito. — concluiu.

— O que significa esse nome?

— Vou te contar um segredo. — Sasuke se debruçou sobre a mesa. — Chegue mais perto... — ele pediu, e Sakura se debruçou também, ambos face-a-face. — O meu sobrenome, Watanabe, tem ligação com cruzar a fronteira.

— Cruzar a fronteira...?

— O caminho para cruzar a fronteira. — sussurrou pausadamente, como se estivesse contando um segredo íntimo para ela.

— É... — ela engoliu a seco antes de completar a frase. — Interessante.

Sasuke assentiu, voltando a se sentar na cadeira. Ela imitou o gesto dele, ainda confusa pelo jeito em que ele lhe contou o “segredo”.

— Já que é um segredo, obrigada por confiar a mim.

— Você gosta mesmo de agradecer as pessoas, senhorita Haruno. — ironizou.

Sakura, por outro lado, mordeu a ponta do dedo antes de concluir as palavras de Sasuke.

— Eu só agradeço quando merecem. — ela deu-lhe uma rápida piscadela.



Notas finais
O próximo capítulo será narrado no ponto de vista da Sakura. Beijinhos!