Notas iniciais
Estarei respondendo aos comentários do capítulo passado durante essa semana, então é isso, obrigado a cada um deles e boa leitura.

Em tempo de paz convém ao homem serenidade e humildade; mas quando estoura a guerra deve agir como um tigre!
—William Shakespeare



A cortina vermelha do amplo quarto, acompanhada do blackout, impedia qualquer fresta reluzir no ambiente. A cama perfeitamente arrumada com lençóis escuros, harmonizava com o restante da decoração escura.

O aparelho celular tocava, ininterruptamente, sobre a cabeceira da cama, tendo o som abafado pelas águas abundantes que caiam do chuveiro.

O corpo másculo refrescava-se, apoiando ambas as mãos na parede, deixando o líquido quente escorrer por seus ombros relaxando-os na medida em que os minutos passavam. Gaara relembrava diversas coisas, dentre elas os compromissos em que se ausentou, e ponderava em sua viagem que estava marcada para dali a duas semanas.

Quais eram as chances de um possível imprevisto? perguntava-se Gaara, todavia, equilibrava-se em sua pose, alternando o foco sempre que oscilava suas expectativas.

Era inevitável ter que cortar o mal pela raiz antes que algo maior acontecesse e sobre isso já havia tomado medidas, estas que deveriam ser o suficiente, assim pensava. Já havia se informado com seu maior subordinado, Yamato, que lhe disse ter tudo sob controle. Não que duvidasse das capacidades explícitas de Yamato, tampouco de sua fidelidade, mas quando se está neste ramo, toda precaução é pouca.

Suspirou, deixando que a água caísse sobre seu rosto.

Era um homem de negócios, sério, com grandes expectativas pela frente, porém isso não significava que não tinha pontos fracos e sabia admitir que, no momento, essa era sua maior preocupação.

Ficou de se encontrar com um de seus homens. Era um assunto importante, por isso não poderia se dar ao luxo de não comparecer. Ontem, sua salvação foi encontrar com o prefeito, onde teve uma conversa reservada e delicada. O sujeito era um depravado, Gaara sabia, porém não podia negar que a grande influência do político era notável.

Novamente suspirou, desligando o chuveiro e secando-se com a toalha branca. Após estar parcialmente seco, se enrolou no roupão e saiu do cômodo, ouvindo o som estridente de seu celular privado. Andou a passos largos até à cabeceira da cama, onde pegou o aparelho e deslizou o dedo indicador na tela.

— Fale.

— Gaara...? — perguntou hesitante uma voz masculina.

— Diga o que quer. — foi curto e grosso ao responder.

O senhor Inuzuka pediu para entrar em contato com você. Ele precisa de algumas informações e somente o senhor pode fornecê-las.

— Fale para o filho da puta do Kiba, que quando ele quiser falar comigo, que ligue ele mesmo e não mande um de seus capachos fazer. — falou Gaara. O tom de voz do ruivo saiu extremamente ofensivo, o que fez o homem do outro lado da linha estremecer.

E-Ele está em uma reunião importante, por isso me pediu para ligar.

— Que ele esperasse a porra da reunião acabar para entrar em contato comigo! — exclamou. — Se não tem mais nada para falar, passe bem.

Gaara tirou o celular da orelha e estava prestes a encerrar a ligação, quando escutou os berros do sujeito no outro lado da linha. Revirou as íris, movendo o celular até a orelha, novamente. Se estivesse cara a cara com o sujeito, certamente acertaria uma bala bem no meio da testa do infeliz.

— Fale o que você quer, filho da puta. — disse entredentes.

Gaara, meu amigo, sou eu, Kiba.

— Ora, ora, se não é o maior covarde da Inglaterra. — zombou Gaara. O ruivo daria tudo para ver a expressão raivosa do seu sócio ao escutar a ofensa.

Estava em uma reunião importante. — mentiu descaradamente.

— Tudo bem, tudo bem, fale logo o que quer. — Gaara sentou-se na borda da cama esperando que o indivíduo lhe dissesse o que queria.

A mercadoria transportada para a Espanha voltou, não sabemos o que aconteceu, mas parece que barraram à entrada.

Gaara estreitou os olhos, desconfiado. Por que suas mercadorias seriam barradas logo na Espanha, um país que sempre lhe favoreceu? Estranhou o fato, porém, se Kiba estava afirmando isso, era verdade.

— Sabe o que aconteceu?

Não, mas não é só isso, parece que em todos os países da América ao qual fornecemos, também teve à entrada barrada...

— Como disse? — perguntou estridente.

Agora sim estava desnorteado. Nunca, jamais, uma coisa assim aconteceu durante seus anos no comando e isso o perturbava além do normal. Não podia cogitar a ideia de ter suas mercadorias barradas, estas que lhe aumentavam, consideravelmente, a conta bancária.

Trincou os dentes, suspirando em busca da paciência que já não mais estava presente.

Kiba, por outro lado, permanecia visivelmente calmo. Tentava ao máximo contar para Gaara o ocorrido sem que o ruivo se alterasse por completo. Sabia que Gaara tinha o temperamento curto e bastava pouco para tirá-lo do sério. Não podia deixar que o ruivo, a essa altura do campeonato, ficasse fora de controle.

Estamos tentando resolver esse problema. Shino e eu. — garantiu Kiba.

— E o que estão fazendo? Esperando que as notícias caiam do céu? É assim que vocês trabalham? É assim que resolvem os problemas? — perguntou alterado.

Era irrisório pensar que o maldito do Kiba travava de assuntos desse naipe nessa tranquilidade, quando Gaara já se desesperava diante do turbilhão de pensamentos irracionais. Fechou os olhos, fazendo uma nota numeral, uma, duas, três vezes até suspirar em frustração.

— Diga alguma coisa. — falou entredentes, mantendo os olhos fechados.

Estamos investigando. Você sabe, Shino é bom nessas coisas, ele garantiu que ainda hoje terá notícias a respeito desse imprevisto.

— Você sabe, Kiba, se algo acontecer com as minhas mercadorias, eu caço você igual cachorro caça gato, e corto pessoalmente isso que você chama de pau. Nem Hinata, nem nenhuma outra piranha vai querer você... — ameaçou, palavra por palavra, pausadamente.

Kiba estremeceu do outro lado da linha, sentindo a ameaça lhe atingir em cheio. Porque sabia, Gaara era capaz de tudo quando queria, e se ele quisesse acabar consigo, faria sem dó nem piedade.

Uma gotícula de suor escorreu de sua testa, mostrando toda a tensão que sentia. Kiba tratou de limpar o líquido pegajoso, sentindo seu coração palpitar forte no peito.

Fica tranquilo, Gaara, assim que o Shino entrar em contato, eu te aviso.

— Assim espero. — disse Gaara, encerrando a ligação sem ao menos despedir-se.

Agora era somente Gaara e seus pensamentos. Era somente seus malditos pensamentos que insistiam em lhe torturar, paulatinamente, à medida que o tempo passava, e isso o irritava mais que o normal. Caminhou até a cômoda onde uma garrafa de uísque se encontrava, e num movimento rápido, encheu um copo com a bebida cara. Voltou para a borda da cama, sentando-se e revirando o líquido no copo. Olhava a substância, perdido em pensamentos, enquanto sua mão balançava levemente o líquido.

O que podia ter acontecido com suas mercadorias para serem barradas? – ele pensava, alternando o foco entre o copo e sua mão esquerda em punho.

Nunca, em hipótese alguma, uma coisa dessas aconteceu. Sempre suas mercadorias foram recebidas com sigilo total, e a partir disso não conseguia entender o que houvera para algo assim ocorrer. Uma vez, uma única vez, sua mercadoria acabara sendo fiscalizada e isso acarretou em perdas de milhões de libras. Algo dessa magnitude não poderia acontecer de novo, pois isso era inaceitável para si.

Gaara apertou o copo com força, sentindo o próprio sangue ferver à medida que o tempo avançava. Tomou fôlego e trincou os dentes, aumentando o aperto no copo com o líquido intacto. Virou a bebida na boca, barrando com o dente à entrada do gelo, sentindo a garganta queimar no processo. Sua mente não mais pensava em coisas alheias a não ser às perdas que sofreria. Iria acabar com o infeliz que barrou à entrada de suas preciosas mercadorias na Espanha, e em toda a América.

Enquanto isso, Sakura e Hinata estavam na residência da Hyuuga. Ambas sentadas na cadeira de plástico branca, tendo o sol camuflado pelo guarda-sol pendurado no centro da mesa, ambos na cor branca.

Sakura usava a parte superior do biquíni branco com bolinhas minúsculas na cor verde, e a parte inferior era escondida pelo short tactel marfim. Seus cabelos num rabo de cavalo alto, e óculos escuro na face. Não tinha muita coisa para mostrar, afinal, era bastante delgada. Suas pernas talvez fossem o maior atrativo de seu corpo, pois moldavam o traseiro avantajado da jovem.

Hinata, por outro lado, usava o biquíni sem medo. A parte superior preta com rendas vermelhas e a inferior lisa. O pequeno pano deixava à mostra grande parte de seus seios, ressaltando o corpo curvilíneo da morena. As pernas grossas, torneadas, e a cintura fina só lhe proporcionavam mais grandiosidade. O longo cabelo solto, com uma faixa vermelha posicionada na altura da franja, lhe deixava ainda mais atraente. Qualquer homem se sentiria lisonjeado em ter uma mulher como a morena.

— Como andam as coisas por lá? — em certo momento, perguntou Hinata. A morena sentia que sua amiga estava um pouco acanhada.

Sakura suspirou antes de responder. — As coisas estão na mesma, não sei mais quando posso ser eu mesma, ou quando tenho que interpretar. Eu realmente não sei, Hinata. — Sakura olhou para Hinata. Abriu levemente a boca, mas tornou a fechá-la, em seguida. — Eu sinto que a cada dia me encontro mais presa e isso está me sufocando. — respondeu por fim.

Hinata pareceu analisar as palavras da amiga, todavia, sorriu de canto. Sua cabeça dizia que essa história já lhe era tão conhecida, pois era exatamente assim que vivia. Porém, diferente da Sakura, Hinata acabou conformando-se com o destino cruel, assim julgava.

Não era fácil viver assim, tampouco seguir ordens que não julgava certo, mas às coisas a guiavam sempre, e sempre, para o mesmo caminho, e alternar o foco parecia algo impossível.

— Não sei o que dizer... — murmurou em baixo tom.

O que dizer para alguém numa situação dessas? Pior, o que aconselhar para alguém, quando si própria encontra-se numa situação ainda pior? Essas eram perguntas que Hinata não soube responder internamente e, por isso, se calou. Sempre fora assim, calava-se quando não tinha as respostas certas. Calava-se quando sua mente pedia para gritar tudo que seu coração queria tanto desabafar. Entretanto, não podia se dar ao luxo de algo assim, pois estava nessa por vontade própria, ou pior, estava nessa por pura covardia.

As duas jovens permaneceram caladas por longos minutos, sentindo a fraca brisa bater em seus rostos pensativos.

— Fico feliz que tenha me chamado para passar o dia com você. — Sakura disse, quebrando o silêncio.

Hinata sorriu de canto, olhando para a amiga, em seguida. — Não foi nada, eu apenas queria ter certeza de que estava bem.

— É claro que estou! Eu sempre fico bem! — Sakura sorriu com suas próprias palavras.

— Sei... — Hinata franziu o cenho e torceu o canto da boca em evidente sinal de desagrado. — Sabe, essa noite eu tive um sonho estranho... Não consigo me lembrar muito bem como era, mas algumas cenas são bem nítidas.

“Eu estava andando por um lugar escuro, não conseguia ver nada direito, e não havia vozes nem barulho algum.” — Hinata analisa ambas as mãos em aflição. Seu rosto contorcido deixava claro o desagrado de falar sobre aquele sonho, porém continuou contando o que lembrava. — A todo o momento, eu andava perdida, e em algum momento eu me dei conta de que tudo em minha volta era coberto de corpos, corpos de pessoas que eu nunca vi antes.

“Eu fiquei apavorada quando percebi aquilo e tentei correr e gritar, mas o estranho de tudo era que eu só conseguia gritar uma única palavra.”

Hinata parou de narrar, olhando nos olhos de Sakura, que prestava total atenção às palavras da amiga. — Eu sei, é estranho, mas foi tão real que quando acordei, meu coração estava a mil. E antes que me pergunte: eu não vi nenhum filme de terror, faz até um tempo que não vejo.

Sakura soltou uma risada abafada, ganhando um olhar reprovador da amiga. — Vamos lá, Hina, eu só não entendo por que você fica me contando essas coisas.

— É porque foi muito real... — sussurrou Hinata. Novamente a morena alisou uma mão à outra.

— Tá, tudo bem, mas o que isso tem a ver comigo? — perguntou Sakura. Não que não se interessasse pelos assuntos da sua amiga, mas não conseguia entender por que Diabos chegaram nesse assunto, este que Hinata nunca foi de comentar.

Hinata, hesitou por alguns segundos lembrando-se dos momentos que ficaram fixados em sua mente. Mordeu o lábio inferior antes de olhar para Sakura e respondê-la. — É que... a única palavra que eu conseguia gritar era o seu nome.

Sakura olhou surpresa para a amiga, que continuou encarando-a a espera de alguma resposta. A rosada não entendia muito bem o que a morena queria insinuar, porém não podia negar o leve arrepio em seu corpo. Talvez fosse a intensidade que Hinata usou as palavras que a fizeram sentir-se um pouco... assustada.

Engoliu a seco, pigarrando em seguida.

— Então... O que acha de sairmos às compras? — perguntou tentando mudar de assunto. Hinata percebeu imediatamente a tentativa da amiga, e deu de ombros.

— Tudo bem, vamos trocar de roupa. — concordou, levantando-se e se enrolando no roupão.

X

O carro preto parou em frente ao viaduto da estrada norte. Ali, naquela pista, poucos carros passavam e era o lugar onde Gaara costumava se encontrar com seus capangas.

O ruivo desceu do veículo, andando até o corrimão e apoiando os cotovelos ali. Seus cabelos chacoalhavam com o vento, resultado do amplo lugar, e Gaara instintivamente fechou os olhos.

O crepúsculo reluzia com as madeixas vermelhas, tornando a pele de Gaara ainda mais alva. Sua atenção foi desviada, do rio abaixo, para o carro que estacionou alguns metros de si, fazendo o ruivo virar e analisar o veículo calmamente.

— Desculpe a demora. — falou o homem, saindo do carro e batendo a porta em seguida.

Gaara não respondeu. Permaneceu encarando o sujeito, que andava em sua direção com uma pasta preta na mão.

— Assim que o Kiba me pediu para investigar, eu comecei as buscas e tive bons resultados.

— Fale logo o que me interessa. — disse Gaara, rude, esnobe.

O sujeito anuiu, abrindo a pasta e tirando algumas folhas de dentro. — Essas são as informações que reuni. Pelo o que identifiquei, as mercadorias estão sendo barradas por algum dos nossos, não tenho duvidas. — Gaara estreitou os olhos. — Tanto na Espanha, quanto na América, algum de nossos homens está tendo acesso e poder suficiente para barrar todos os pacotes. Não sei como, mas ele não está sozinho e pelo o que me informei, tem alguém mexendo os pauzinhos daqui, da Inglaterra.

O ruivo ainda encarava o sujeito. Em seu rosto uma confusão transparecia com seu olhar retraído. Suspirou algumas vezes tentando compreender as informações e estendeu a mão para pegar os papeis, folheando-os rapidamente. Um rosto conhecido pairava ali, na folha branca: Hatake Kakashi.

Gaara, ainda encarando aquela folha, separou-a das outras e amaçou, fazendo uma bolinha de papel. Atirou-a no rio com toda a força que conseguiu. Sentia seu sangue ferver por apenas olhar aquele maldito rosto. Agora tinha certeza, mataria o Hatake custe o que custar, e entregaria a cabeça dele de presente para a mãe do cuzão.

— Tem certeza? — foi à única pergunta que fez, tendo o assentimento de Shino, antes de se virar e caminhar a passos largos para o seu carro, entrando no veículo e dando partida.

Era mais um motivo para sua lista, que já se encontrava recheada, e dessa vez não falharia como outrora. Mataria Kakashi com suas próprias mãos, degolaria o bastardo, o faria sofrer lentamente e clamar por misericórdia. Sim, faria tudo isso com um sorriso luminoso na face. Já podia imaginar-se matando o gringo e arrumando a cabeça dele numa bandeja enferrujada.

Gaara sorriu, enquanto dirigia a mais de 100 Km/h.