Segundos Que Nos Separam
1 Capítulo único
Notas iniciais
Boa leitura :3
TEMOS QUEM PREFIRA AS HORAS, outros que prefiram os minutos e, temos, eu, que prefiro os segundos. São nos segundos que a vida acontece. São nesses mesmos segundos que alguém ganha a vida e outra perde, são também nos segundos que as coisas mais incríveis da vida acontecem. Foram nesses segundos que Alexander perdeu suas esperanças, foram nesses contínuos segundos que tudo fugiu de seu controle.
De um lado da cidade, Alexander se apressa para chegar a estação de metrô, tinha uma reunião importante de manhã, a reunião que iria, talvez, transformá-lo num dos mais renomados advogados da cidade. Do outro lado, Anne termina de pôr os livros dentro de sua bolsa, o ônibus logo chegaria e ela mal teria tempo de comer algo. Sua mãe a chama, apressando-a, mas os livros a impedem de obedecer a mãe.
A estação estava cheia de pessoas. Entre a multidão Alexander se torna apenas mais um. Mais um homem no meio de vários. Quando olha para o enorme relógio da estação, vê que está adiantado. Senta-se em uma lanchonete e pede apenas um café. O vai e vem das pessoas tornou-se parte do seu dia a dia, que mal repara nos rostos.
O ônibus parou na estação, dali, Anne só precisará pegar o metrô e ir para a faculdade. O relógio da estação marca 10:41, apenas quatro minutos para o seu trem chegar. Passos apressados a levavam para mais próxima de onde o trem pararia. Alguém na bilheteria grita:
— O trem das 10:45 irá se atrasar em vinte minutos!
As inúmeras vozes se tornam em um zumbido. Todos começam a falar juntos, alguns reclamam de ter que chegar atrasado no trabalho, outros de ter que inventar alguma desculpa. Incontáveis vozes se tornam mais altas. Sem outra escolha, Anne senta-se na lanchonete. Pede um simples suco e um sanduíche. Tira da bolsa um livro de poesias. Amava poesias como uma mãe ama o filho.
Alexander recebe a notícia do atraso do trem e torna a olhar para o relógio da estação. Ao baixar os olhos, vê aquela pequena criatura. Uma moça de cabelos dourados, dourados como ouro, olhos amendoados e pele clara, e tinha nos lábios uma tristeza de verão. Quando a noite chegou e no silêncio de seu quarto pôs-se a pensar naquela mais jovial criatura, sentiu-se bobo.
O dia de Anne era sempre a mesma coisa. De casa para a Faculdade, da Faculdade para o trabalho e de volta para a casa. Quando estava de novo na estação, dessa vez o trem iria chegar na hora, mas ela era quem estava adiantada. Sentou-se no banco e tirou da bolsa o livro de poesias.
Alexander sentou-se ao lado de Anne. De perto, soube que ela tinha a metade de sua idade. Alexander tinha seus quarenta anos e ela, não contaria com mais de vinte. O livro que ela lia, ele já havia lido antes e era um de seus preferidos.
— Estuda para o quê? - Ele perguntou. A moça olhou para ele, tão delicada fechou o livro e sorriu para ele.
— Medicina. - A voz dela era suave como a brisa de verão e foi como um sopro de vida para ele.
— Não parece, carrega um livro de poesias consigo, por isso pensei outra coisa.
— Amo poesias, e nem tudo é o quê parece.
De súbito Anne levantou-se e se misturou com a multidão. Alexander seguiu o lado contrário ao dela. Os dias passaram-se como um segundo passa sem ser percebido. Todos os dias eles conversavam, fosse para rir ou falar de coisas do mundo. Um mês se passou e, depois de todo esse tempo, Alexander resolvera confessar seu amor por Anne, aquela que um dia fora apenas uma entre a multidão, um rosto perdido no meio de outros. Escreveu a ela uma carta, dizendo-lhe tudo que sentia e no fim, acrescentou o poema preferido de Anne, um que ele mesmo havia escrito para ela.
Quando Anne chegou a estação no dia seguinte, lá estava Alexander, vestido com seu terno preto e a maleta na mão. Ela vinha pelo meio de muitos, com um doce sorriso nos lábios. Ele estendeu à ela o envelope, um envelope delicado como ela, tinha alguns desenhos de flores nas bordas. Ela abriu o envelope e quando tinha a folha entre os dedos, o vento carregou o papel para longe. Anne correu para pegá-lo. Enroscado entre os trilhos do trem, ela abaixou-se para pegar.
Os segundos, tão bons para um e tão cruéis para outros...
Ao se levantar, sorrindo com o papel nas mãos, Anne fora arremessada para longe. Os gritos de alguns foram abafados pela dor que Alexander sentira. O vento, aquele mesmo que tinha feito sua pequena Anne ir para a morte, soprava agora. O corpo esguio da garota estava lá, do lado dos trilhos, ela tinha a carta na mão, os dedos seguravam o papel com firmeza. Alexander tirou o papel de sua mão e rasgara-o em inúmeros pedaços e jogou-os ao vento.
Os segundos, amo os segundos, são neles que a vida ganha os minutos e então as horas e os dias, semanas, meses e anos. São nos segundos que a vida acontece. E foram nesses mesmos segundos, que Anne deixou seu Alexander viver mais alguns anos. Nos segundos...
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