Notas iniciais
Desculpem se estiver muito ruim, agora que estou voltando a escrever...

A foto manchada me encarava, desafiando-me á mergulhar em suas lembranças masoquistas. Meu pensamento já não se concentrava mais na carta que escrevia, a caneta estava parada em minha mão, esperando um movimento que não viria para escrever no papel. Todos os momentos de anos atrás voltavam em um turbilhão torturante a todo minuto, enquanto eu tentava me desvencilhar deles para voltar ao presente.

Olhei pela janela, esperando achar em seu negrume algo para me distrair. Um raio cruzou o céu, iluminando por instantes as nuvens cheias que pairavam sobre o mar. As ondas raivosas batendo nas pedras ao longe eram semelhantes á confusão que se instalava em minha mente todos os dias.

As lembranças me engoliram de volta àquela tarde ensolarada, sinto o calor em minha pele e a areia esfarelando em meus pés, á minha frente, ela observa o mar calmo, sem perceber o vento puxando seus cabelos negros para trás. Meu único desejo era ficar nesse momento para sempre.

Ela percebe que estou observando-a e olha para trás, lançando-me um doce sorriso que petrifica aquele momento em minhas memórias. Eu não dera nenhum passo em sua direção, absorto demais com a sua pureza se misturando com o mar. Ela veio até mim com um olhar divertido, com uma pitada de ironia escondida; atravessando a pequena distância entre nós em curtos passos.

- Vamos? – ela perguntou, seu olhar denunciando todo seu divertimento com a situação.

- Claro – disse, devolvendo o sorriso, sem lhe falar que o que eu queria era apenas contemplá-la.

Ela sorriu e correu de volta para o mar; finalmente se sentindo em casa. Chega a ser irônico como esse seu lugar de sonhos virou seu pesadelo fatal.

Um trovão na penumbra que a janela denunciava puxou-me de volta ao presente. Encarei a chuva que escorria pelo vidro, distorcendo o fraco reflexo de mim que persistia na escuridão. Ainda podia ouvir seus pedidos de socorro.

Seu olhar puro perdendo o brilho em um último momento de consciência, sua boca murmurando as palavras forçadas de uma frase inteligível, enquanto as ondas do mar batiam á nossa volta; voltando á sua falsa inocência.

Eu não consegui chegar á tempo, a água lutava comigo, querendo mantê-la junto de si pela eternidade. Talvez apenas alguns instantes a mais e eu a teria salvado. Mais alguns segundos perdidos.

Percebi as lágrimas queimando meus olhos mais uma vez, como naquela cena. Tudo minha culpa, eu que deveria ter me afogado naquele mar miserável, não ela, ela não merecia nada disso.

Os soluços agora se tornam compulsivamente altos no quarto abafado, tento descontar toda a minha frustração no choro que inundava minha alma, mas sabia que nunca estaria livre daquela dor que me acompanhava dia e noite.

Olho pela janela uma última vez, á procura de um consolo manchado na chuva; percebo meu reflexo contorcido, quando olho atentamente, vejo seus olhos declarando desculpa me encarando.

Em um impulso impensado, chego perto da janela, apenas para ver que a imagem não fora feita por minha imaginação. Seu rosto delicado mirava-me pelo vidro. Toco na superfície fria que contorna sua face, mas a imagem desaparece no mesmo instante.

- Vamos? – ouço a pergunta novamente, alta o suficiente para me fazer duvidar da realidade.

Olho pelo quarto, ela agora está parada ao lado da porta, convidando-me a sair. Assim que chego perto, ela anda em direção à saída de casa, que leva para o mar.

Obcecado pela sua imagem impossível, apenas sigo seus passos, não percebendo que nos aproximávamos do mar. O vento trazia arrepios á minha pele, mas parecia uma leve brisa para ela. As gotas pesadas congelavam o caminho de minha pele por onde passavam, mas ela parecia não senti-las.

Ela entra no mar, mesmo que seu corpo não se molhasse com as ondas que batiam, fiz de seus movimentos os meus, e senti a água invadindo minha roupa assim que coloquei o corpo na água.

Nadei para longe como ela fazia, não percebendo que agora meus pés não tinham mais o apoio da areia. Uma onda quebrou sobre mim, puxando-me para as profundezas, lutei por um pouco de ar, mas a cada movimento minhas chances se tornavam menores, chegando a serem insignificantes. Eu estava tendo o fim que merecia, deveria estar feliz por isso, não?

Percebo pela última vez seu olhar alegre se aproximando de mim, posso ouvir a frase que nunca havia entendido.

“Todos tem a sua vez”.

Notas finais
Cara, mesmo se estiver péssimo, manda um review?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!