Tinha um corredor que levava para um jardim no térreo, um muito bonito com plantas que os alunos do clube de jardinagem semeavam dia após dia, o ar arejado e com cheiro de terra molhada era agradável em dias de chuva como aquele. No entanto, ao mesmo tempo que era a área favorita de muitos estudantes, também era um lugar que queriam manter distância, porque ao lado ficava a sala de pedagogia. Zoro estava sentado num banco, ouvindo os zumbidos dos insetos no jardim, enquanto esperava a bronca que levaria da pedagoga. E depois de dois assentos vagos, encontrava o motivo para levar mais uma detenção: Sanji, um rapaz loiro e que tinha espirais nas sobrancelhas, estava de braços cruzados e com a cara emburrada. Zoro controlava seu pulso para não dar mais um soco naquele bico nojento estampado na sua cara.

Zoro e Sanji brigavam muito e não se lembravam mais quando foi a primeira vez em que ganharam detenção ou voltaram pra casa com hematomas.

A pedagoga recebeu os dois ao mesmo tempo e mais uma vez deu um castigo, teriam que cuidar do jardim pelos próximos 30 dias. O portão ficava sempre trancado para impedir os alunos de entrarem e preservarem melhor os estados das plantas, por isso ficaram com a chave.

Não tinham jeito de terem tal responsabilidade, apenas tinham 16 anos, mas a pedagoga disse a eles que seria uma experiência boa e quem sabe conseguiriam entender melhor a profissão dela, uma em que era responsável por tantos estudantes, e finalmente poderiam deixá-la em paz de uma vez.

Começariam a partir daquele dia, após as aulas e até faltariam em seus respectivos clubes. Zoro notou lixos, como copos descartáveis e rótulos de salgadinhos em alguns pontos do jardim. Vinham da sacada de cima e perguntou-se se havia lixos nos outros dias.

Sanji viu algumas bitucas de cigarros e puxou seu colarinho, como se estivesse incomodado. Pensou se alguma vez jogou um deles enquanto fumava. — Quando esse lugar ficou tão sujo?

— Ham... — Zoro levou um pequeno susto com a voz do colega. — Sim, pensei que o clube de jardinagem cuidasse disso.

— Clube de jardinagem? Ele fechou faz tempo.

— É? Como sabe?

— Nami-swan que fazia parte, me disse!!!

De repente, Sanji começou a agir de forma estranha, rodopiava com corações no olho descoberto pela franja, e Zoro continha seu pulso mais uma vez, porque detestava quando ele ficava assim e sua vontade de meter porrada só aumentava. O sobrancelha enrolada era um tarado nato e de alguma forma, Zoro não conseguia ignorar, não entendia por que, já que não tinha nada a ver com a vida dele.

— Mas olha... não é só lixo, a relva está alta e têm plantas secas também, acho que ninguém mais toma conta desse jardim. — Sanji voltou ao normal e olhava ao redor.

Zoro teve que concordar com aquele desprezível tarado. — Será que a escola está nos usando?

— Deve ser, mas você entende de planta.

— Eu?

— Sim, afinal você é uma alga.

— Vai se fuder!!

Praguejou o desgraçado e seu pulso não aguentava mais, tiveram outra briga. Zoro era um rapaz de cabelo esverdeado, algo que incomodava Sanji tanto quanto a sua sobrancelha enrolada incomodava Zoro, até o chamava de marimo.

Os dois vestiram as luvas e começaram a trabalhar, Zoro resolveu usar a tesoura para podar as plantas, já Sanji usava o borrifador para molhá-las mesmo estando regadas pela chuva de horas atrás. Ariavam o solo e arrancavam as ervas daninhas, enquanto pensavam que teriam que arrumar mais ferramentas para fazer o trabalho mais pesado, o de cuidar do gramado. Também plantavam sementes.

Fizeram um serviço bem feito, Zoro pensava que Sanji fosse um filhinho de papai por seu terno ser sempre bem passado e, bem, Sanji pensava que Zoro fosse um preguiçoso por dormir tanto, mas tiveram uma surpresa por tudo ter dado certo.

— Você se dedicou. — Zoro quebrou o silêncio, os dois caminhavam pelo bairro a fim de voltarem pra casa, já era noite e continuava a não chover. Sanji fumava um cigarro por não ver nenhum adulto por perto, quando se assustou com a voz rouca do marimo.

— Quê? — Sanji não entendeu.

— No jardim.

— Ah... — Finalmente entendeu. — O que você pensa de mim, marimo? Você acha que deixaria você fazer tudo?

— Um aproveitador. Sim.

Sanji revirou os olhos. — Pensa como quiser... — Deu de ombros. — Não ligo, você não é nenhuma garota.

Zoro apertava a alça de sua pasta e não conseguiu conter um riso.

— Rindo? Ué, pensei que você não soubesse o que era isso.

— Pelo visto não sabemos nada um do outro. — Retrucou, encarando os olhos de Sanji, que respondeu com um sorriso igual ao dele. Os dois continuavam a andar lado a lado.

— Hum... o que você disse tá mais que certo. — Assoprou a fumaça pro alto. — Você precisa voltar pra casa agora?

Zoro parou o passo e Sanji fez o mesmo. — Não, por quê?

— Tá a fim de ir na minha pra jogar algum jogo inútil? Você pode comer lá também.

— Ok. — Respondeu sem hesitar, sempre teve curiosidade de saber se o sobrancelha enrolada cozinhava tão bem como dizia sua fama.

— Ok, então vira pra essa rua, marimo. Por que tá entrando nessa? Esse nem é o caminho da sua casa, doido.

— Cala a boca.

Começou a rir por ver Zoro constrangido, mas não começaram a brigar. Continuaram a andar pelo bairro, enquanto conversavam sobre tudo, o marimo até disse do que gostava nas garotas e Sanji contou que praticava esporte também. Chegaram na conclusão de que aquele idiota não parecia ser tão idiota assim, talvez não seria tão ruim ver todo dia um otário depois das aulas em um jardim por 30 dias.

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