Kiba estava chateado. Talvez um pouquinho mais do que “chateado”. A vida havia lhe dado muitas chances de escolher mal, e o pobre coitado não desperdiçou nenhuma. Mas como podia ser diferente?! Ele se empolgava fácil com os começos, se envolvia de coração e quando achava que tinha encontrado um parceiro digno, um companheiro no sentido completo da palavra… quebrava a cara com a realidade.

Ali estava ele tentando, pela incontável vez, se recuperar da mais nova decepção. Até estava conseguindo. Era um Ômega dos mais passionais, tinha dificuldade em conter os próprios sentimentos. Manter seu lado animal sob controle, escondendo a tristeza, a decepção e a raiva era tarefa nada fácil.

Talvez o segredo fosse ocupar a mente e os dentes! Ele chegou ao restaurante, sentou-se à mesa (mal se dignando olhar o Alpha sentado à frente), ignorando todos menos o garçom a quem fez o pedido da refeição.

Comeu em silêncio, saboreando cada pequeno bocadinho, ignorando o clima alegre do restaurante. Um lugar ao qual não estava acostumado, já que era fora de sua rota normal.

Passear por lugares novos também fazia parte da “Técnica Inuzuka” para superar Alphas idiotas e retrógrados, com mentalidade do século passado.

E assim ele chegou ao estabelecimento agradável, limpo e acolhedor (embora cheio de casais apaixonados demais para o gosto do rapaz).

Pediu um lamen com o dobro de carne e suco de tomate. Alimentou-se sem pressa, quieto e introspectivo; muito diferente do Kiba de sempre.

Conquanto o “Kiba de sempre” estivesse cansado de tantas decepções, ferido por ser tratado como um mero Ômega, desanimado de encher-se de expectativas que terminavam em quedas feias direto para o chão da realidade, algo feito colidir com um chão mais sólido do que concreto.

E não se sentia melhor no final de noite de uma quinta-feira morosa, de um vinte e três de janeiro qualquer, dentro de um restaurante qualquer, desfrutando de uma refeição que até devia ser saborosa, embora naquele instante tivesse um gosto qualquer.

Talvez fingir, no fim das contas, não adiantasse de nada. Talvez precisasse voltar para a quitinete onde morava, jogar-se na cama e curtir aquele momento de tristeza antes de renovar-se e seguir em frente como das outras vezes...

E Kiba continuaria nessa lamentação silenciosa e íntima se não tivesse acabado o tempo de permanência para clientes sem reserva, e o garçom não se aproximasse com a comanda, insinuando com muito tato que a mesa seria ocupada por novos fregueses em breve.

Kiba olhou para o papelzinho, franziu as sobrancelhas. Um pouco de indignação escapou, porém conseguiu contrair o lado animal. A voz sai um tanto ácida:

— Por que está me dando isso? Quem vai pagar é ele! — e apontou o Alpha sentado à sua frente.

O clima ficou um tanto estranho...

.

Aburame Shino colocou a taça de vinho branco sobre a mesa e observou o dedo que rispidamente apontava em sua direção. Pensou com cuidado por alguns instantes. O que poderia dizer? Enquanto os segundos passavam, voltou a pegar a taça e beber um pequeno gole. Os olhos argutos por trás dos óculos de sol analisavam o Ômega, sabendo-se observado de volta tanto pelo rapaz com marcas vermelhas gêmeas no rosto quanto pelo garçom de expressão desconcertada.

Okay. Não conseguiu pensar em nada apropriado, gentil, correto ou adequado para o momento, a não ser o óbvio:

— Eu nem conheço você! — respondeu para o rapaz sentado à mesa logo na frente da sua.

Era um jeito inusitado de vivenciar aquela quinta-feira. Seu aniversário de trinta e um anos, na tradição de todos os anos: trabalhava o dia inteiro, conversava com o pai através de uma videoconferência, depois ia para o restaurante favorito, onde tinha uma reserva para comemorar o dia.

Estava esperando o prato principal, saboreando a entrada e o delicioso vinho. Percebeu de imediato o Ômega amuado, com a presença recolhida de quem tenta segurar fortes emoções. Mas logo voltou para o próprio mundo introspectivo e esqueceu-se do jovem, salvo uma ou outra espiadinha avaliativa. O desconhecido era bonito, com aqueles cabelos castanhos bagunçados, o rosto arredondado e harmônico, além dos olhos de constituição tão peculiar...

Bem, Shino percebeu que talvez não fossem meras “espiadinhas”, dando-se conta do quão consciente estava da presença alheia.

— Mas você é um Alpha, não é? — o tom amargurado o trouxe de volta das reflexões — E Alphas sempre pagam a maldita conta. Porque acham que assim podem te comer dep...

— Hn hn — o garçom limpou a garganta, cortando a frase. Não queria se ver numa situação complicada, devia apenas receber a conta e liberar a mesa!

Shino respirou fundo. Não precisava ser um gênio para notar o sofrimento oculto na postura defensiva. Trabalhou anos como professor, tempo suficiente para ser num exímio leitor de pessoas. Além disso, apesar da postura sombria que atraía julgamento, era dono de um coração muito humano.

Levantou-se do lugar e sentou-se à mesa do Ômega, que apareceu se inflar de indignação com a ousadia.

Mas antes que a reclamação viesse, Shino pegou a comanda e guardou no bolso do longo casaco cinza, enquanto oferecia:

— Quer um sorvete? Sem segundas intenções. Prometo — mal terminou e viu os lábios do rapaz se juntarem em um biquinho contrariado que não durou muito.

— Um especial da casa!! — falou para o garçom. Não teve dúvidas que aquele estabelecimento possuía um “especial”.

— De morango..? — Shino ofereceu, apenas por ter impressão de captar o aroma agridoce muito de leve assim que se acomodou.

— É minha fruta favorita! — a aprovação foi imediata.

— Por gentileza, pode trazer minha refeição — Shino logo imaginou que não haveria problema trocar de mesa e liberar a outra em que estivera — Me acompanha?

Kiba franziu as sobrancelhas de leve, um tanto desconfiado:

— Cara, todos os Alphas que conheci eram príncipes. Mas viraram sapos horríveis...

— Eu não sou um príncipe, muito menos um sapo. Só alguém querendo uma boa refeição.

— Sem segundas intenções?

— Nenhuma. Hoje é meu aniversário, adoraria ter companhia.

O Alpha não estava mentindo. Apesar de ser um tradição estabelecida ao longo dos anos, não seria de todo ruim ter alguém para partilhar alguns momentos da data que deveria ser especial, embora fosse um dia comum como todos os outros de sua vida.

Só não esperava que as coisas se desenrolassem de tal forma, sendo intimado a pagar a conta de alguém que nunca viu na vida, que até então estivera envolto numa ausência total de sentimentos, típica de Ômegas que tentam “abafar” as fortes emoções, justo o rapaz que exibia, naquele instante, um dos sorrisos mais bonitos que jamais viu antes.

— Porra, cara. Feliz aniversário! Sem problemas, vamos comemorar!! — e voltou-se para o garçom — Um chope pra mim e mais uma dose daquilo ali para o... er... como se chama?

— Shino. Aburame Shino.

— Prazer, Shino! Sou Inuzuka Kiba.

O garçom aproveitou a deixa para afastar-se em busca dos pedidos, no que marcaria um término de noite descontraído e adverso do que ambos os rapazes esperavam. E muito melhor também!

Conversaram sobre amenidades, temas cotidianos e nada íntimos. Assuntos sensíveis foram driblados, e o que poderia ter sido um desastre acabou com um resultado positivo.

O Alpha teve um último gesto de gentileza (que somou-se ao fato de realmente ter pagado a conta) e ofereceu carona para o outro, quando o restaurante se fechou e eles não tiveram opção a não ser ir embora.

Nesse momento recebeu um olhar cheio de desconfiança, ao qual rebateu com calma e empatia: sem segundas intenções.

Kiba sentiu confiança na oferta e na presença tão calma. Aceitou e não se arrependeu. Ao se despedirem à porta do prédio onde ficava a quitinete do Ômega, foi na certeza de que nunca se veriam novamente.

O quê, o futuro veio provar, estava equivocado. Uma vez que Almas Gêmeas se encontram, o reencontro é sempre inevitável.



Cena Extra


— Tem certeza... que... foi sem segundas... intenções?

A frase veio entrecortada por beijos possessivos que mostravam um lado secreto do Alpha sobre si.

— Absoluta — Shino respondeu aproveitando a breve pausa para livrar-se do casaco.

— Hum... — Kiba não teve tempo de pensar muito. Os beijos afoitos recomeçaram, tiravam o folego na mesma medida em que os amantes tiravam as roupas!!

Os dois estavam saindo a algum tempo, aquele era o quinto ou sexto encontro. Shino vinha mostrando que parecia ser a exceção confirmando a regra. Apesar de negar quando se encontraram a primeira vez, agia com a educação de um príncipe. E tratava Kiba como se também fosse um príncipe! Pouco a pouco as defesas foram cedendo e o Ômega resolveu confiar mais uma vez, entregando não apenas o corpo. Mas o próprio coração.


Cena Extra 02


— Você tem certeza que foi sem segundas intenções, maldito?!!

— Absoluta — Shino respondeu condoído, observando o marido deitado sobre o sofá, as pernas apoiadas em uma pilha de almofadas, dando alívio aos pés inchados como pães. Esse terrível incomodo se repetia na segunda gestação, piorando naquele mês de reta final.

Segurava nos braços a menininha de dois anos, primeira filha do casal, que os fez ir morar juntos no apartamento de Shino e formalizar a união que era sólida feito um casamento, faltando apenas o “sim” oficial.

— Hum... — o resmungo veio mal humorado e sonolento. Ficava letárgico com o barrigão e o clima. Sua primogênita nasceu na primavera. O segundo filhote chegaria em pleno verão. Bem-vindo como a estação favorita de Kiba! Apesar de todos os desafios, claro.

A felicidade era sempre quentinha.


Cena Extra 03


— Shino, diga: não teve segunda intenção nenhuma? — Kiba sussurrou tão logo ouviu o som de vidro quebrando, gritinhos de crianças e um berro adulto.

O Alpha suspirou, bem acomodado ao seu lado, assistindo o telejornal de Konoha com as notícias daquele vinte e três de janeiro. Aburame Shino completava setenta anos de idade, com um vigor invejável. A família se reuniu para comemorar, seus filhos e netos queriam mostrar como a data era especial. Mas sempre tinha muita bagunça também!!

— Talvez — por fim confessou, ajeitando-se melhor no sofá, observando de canto de olho o Ômega que era seu companheiro mais do que perfeito.

— Eu sabia!! — Kiba exclamou, batendo a bengala de leve na perna do marido. Era quatro anos mais novo e mantinha excelente saúde, mas havia sofrido uma queda no banheiro e machucado o tornozelo — Alphas...

Resmungou, com nada de mau humor e muito de amor. A lei suprema estava provada: toda regra tem exceção. E aquele Alpha foi a exceção nas decepções sofridas por Kiba. Um príncipe que não virou um sapo, trazendo apenas encanto para a vida do Ômega.

Notas finais
não foi betado! espero que tenham gostado ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.