*Flashback*

Estavam deitados na cama de casal no quarto de ambos, Petruchio fazia seus dedos percorrerem toda a extensão do ventre de sua esposa, iam e vinham em movimentos suaves. Catarina não conseguia parar de sorrir. Fazia algum tempo em que ela não se sentia assim com Petruchio, completamente estarrecida, boba e sorridente. Demorou a admitir que o amava, mas agora, vendo ele se tornar um pai, se apaixonava mais. Era inevitável sorrir, mesmo para ela, que evitava ao máximo mostrar seus sentimentos.

— Meu filho… — ele depositou um beijo leve sob a camisola que ela vestia em seu ventre.

Catarina estava tão feliz que não conseguiu nem implicar com ele e com a menção a "meu filho". Estava atônita o assistindo ser pai pela primeira vez.

— É ocê que tá me dando a maior alegria da minha vida Catarina… — ela amava ouvir a voz dele suave quando dizia esse tipo de coisa, deixou que ele deitasse a sua cabeça em sua barriga e enlaçou seu dedo indicador em um cacho de seu cabelo, ficou mexendo o dedo enlaçando o fio num vai e vem, com a outra mão acariciava sua testa enquanto ele passava o nariz em seu ventre o acariciando de olhos fechados. Fazia carinho nele enquanto o sentia ser um pai que não conseguia ficar longe de sua barriga.

— Nunca pretendi ser mãe, mas estou tão feliz que agora acredito que sempre foi meu sonho. — ela respondeu calmamente sentindo ele voltar a beijar seu ventre. — Você sempre o responsável por me permitir fazer coisas inimagináveis.

Ele riu pelo nariz e esticou seu pescoço em direção ao rosto dela. Deu um beijo em sua testa, outros dois em cada lado da bochecha, até alcançar seus lábios, que estavam estranhamente fáceis naquele dia.

Ela retribuiu o beijando suavemente, suas duas mãos segurando seus cabelos pedindo para que ele aprofundasse o beijo e foi o que ele fez. Apesar das constantes brigas, dos desentendimentos, sua raiva por ele a esconder que tinha pegado dinheiro emprestado de Marcela havia se dissipado no ar feito fumaça. Petruchio a desestabilizava virando um pai babão e ela não conseguia não se apaixonar por essa nova versão dele.

Petruchio sempre imaginou-se pai. Apesar de sua juventude intensa entre as mulheres, sabia que em algum momento ele teria seus filhos, queria ser um bom pai como o seu foi para si. Estava feliz de ser com Catarina, a única que o fazia sentir sensações antes nunca sentidas por ele, a única que o fazia sentir amor. Como agora, enquanto a beijava e sentia ela lhe retribuir o beijo, seu coração se explodia em felicidade e parecia que ele tinha engolido o sol.

— Mas eu avisei ocê que seria mãe de meus filhos não avisei? — ele a provocou quando a parou de a beijar e deitou ao lado dela na cama, permitindo que Catarina se aninhasse nele. — Pequenos jumentos como me disse.

Ela lhe deu um tapa no braço.

— Não chame meu filho de jumento.

— Mas foi ocê mesma que disse, lá atrás enquanto ainda te cortejava. Vamo ter um jumentinho tão bonitinho se ele se parecer com ocê.

Catarina revirou seus olhos sem ter como o contestar.

— Eu sinto que é uma menina.

— Pois eu sinto que é um menino.

— Aí Petruchio, você sempre precisa ir contra mim, não é? — reclamou saindo de seus braços e sentando-se na cama brava.

— Não! É ocê que implica comigo. Quer ver que vai implicar se te falar o nome que queria se fosse menina? — Petruchio sentou-se na cama ao lado dela.

— Diga, tenho certeza que vai sair uma besteira, mas diga. — Ela permitiu com a cabeça já imaginando um nome absurdo.

— Clara. — o nome saiu com uma sonoridade tão bonita de sua boca, pareceu uma melodia aos ouvidos dela.

— Clara? — Catarina perguntou a si mesma pensando na sugestão dele.

— Minha avózinha era muito devota de Santa Clara, por isso o nome de nossa fazenda, e Santa Clara sempre esteve presente em nossa vida, nos deu muita fartura e felicidade enquanto ela e meus pais eram vivos. É como se o nome Clara indicasse proteção e felicidade pra mim. E eu queria pensar que como estamo construindo uma família, eu e ocê, que podia ser esse o nome de nossa filha. Como se tivesse chegando uma nova vida feliz e farta pra gente.

Catarina estava atônita observando ele falar, tinha um brilho no olhar e a delicadeza de escolher as palavras certas para ela. Automaticamente já imaginou uma garotinha correndo pela fazenda, brincando com as galinhas e ele atrás sorrindo para ela a chamando de Clara, segurando ela no colo enquanto lhe ensinava a vida. Era uma visão encantadora.

— O que acha do nome? — ele perguntou quando viu que ela não falava nada.

Ela concordou com a cabeça, mas lhe entregou um olhar questionador.

— Clara pode entrar na minha lista de nomes. Porque EU irei escolher o nome dela. — apontou a si mesma presunçosa.

— Hum… — Petruchio ergueu as sobrancelhas quase rindo, chegou perto dela e começou a beijar seu pescoço. — Meu favo de mel, fique despreocupada porque será homem e terá meu nome.

Ela estava toda amolecida com seu gesto de carinho a ela com seus beijos em seu pescoço que faziam sua pele se arrepiar. Mas não deixaria barato o que ele havia falado.

— Nunca na minha vida permitirei ter um filho com o nome do pai, que costume machista. Sendo assim, a menina poderá chamar Catarina.

— Catarina? — ele perguntou rindo parando de a beijar. — Não tá batendo bem das ideias, onde já se viu o nome da própria mãe na filha?

Catarina e Petruchio voltaram a discutir em meio aos beijos, pois era assim que eram feitos.

*Fim do Flashback*

Quinze anos depois lá estava ela, observando a filha com o nome escolhido por ele. Desde que ouviu a sonoridade do nome Clara saindo dos lábios dele, sabia que esse seria o nome escolhido por ela. Era a forma de ter Petruchio intrincado em si camufladamente mesmo a distância.

Queria ela ter uma péssima memória, queria não lembrar de nada, mas seu cérebro lhe pregava sempre uma peça e fazia ela recordar de tudo nos mínimos detalhes. Parecia que tinha vivido com ele aquele momento minutos atrás, quase podia sentir o sabor de seu beijo e o calor de seus abraços.

Ao mesmo tempo, se perguntava mentalmente como Clara seria se tivesse convivido com o pai. Teria a mesma personalidade? Ou sua revolta toda se resumia em todas as vezes que teve que omitir a verdade a filha?

— Se não comer vai desmaiar. — Catarina disse a filha que fingia não ter visto a bandeja com o café da manhã que ela havia levado a ela.

— Pouco me importa se eu desmaiar. Você nem se importa comigo mesmo, me obriga a faltar no primeiro dia de aula na escola nova.

Clara estava sentada na antiga escrivaninha de Catarina, mexia num caderno, tinha uma caneta em mãos, evitava olhar para a mãe. Queria ficar sem falar com ela, como protesto por estar presa em um cômodo como castigo, mas para ela era praticamente impossível ficar sem falar, então decidiu protestar ficando sem comer.

— Tão emocionada como sua tia Bianca, até greves de fome fará para me persuadir? — perguntou cansada de brigar com a filha.

— Como se surtisse algum efeito em você greves de fome. — Clara deu dê ombros se concentrando no papel e escrevendo rapidamente.

— O que está escrevendo? — Catarina se encaminhou para perto da filha e parou atrás dela tentando ler o que ela escrevia.

Clara percebendo que a mãe faria isso mudou a página do caderno e começou a escrever palavras quaisquer.

— Só escrevendo o quanto está sendo injusta comigo, você mesma diz que as palavras ficam para sempre. Então quero um dia lembrar o quanto foi perversa comigo, me maltratando.

Catarina revirou os olhos sabendo que ela só dizia aquilo para provocá-la.

— Hum… te maltrato… todos esses anos que te alimentei, te eduquei, dei carinho e atenção, foram por água abaixo ontem?

— Saiba que queria te denunciar por todos os seus maus tratos comigo, sou uma vítima. — Clara a olhou com os olhos estreitos. — Isso é trágico!

— Denunciar pra quem? Posso saber? A polícia? Falarão que demorei muito para fazer o que estou fazendo com você. — Catarina não conseguia evitar de discutir com a filha.

— Eu devia era criar um órgão do governo que cuide de crianças inocentes como eu que são postas a situações como essa por mães como você!

— Pois bem! — Catarina concordou com a cabeça. — Cresça e crie esse órgão e lembre-se quando for adulta que tudo o que fiz foi para o seu bem. Talvez quando for adulta você me entenda.

Clara fungou cansada e voltou a atenção para o papel. Sua mãe estava demorando demais para sair do quarto e todo o plano que havia elaborado em sua mente poderia ser arruinado.

— Faz parte do castigo eu ficar olhando para sua cara o dia inteiro? Ficar brigando com você o dia inteiro? — perguntou a mãe. — Não posso sair daqui e ainda vou ter que te aturar!

Catarina suspirou cansada, não queria mais brigar com ela.

— Estou indo conversar com seu avô, só queria que comesse. Mas pelo visto me preocupar com a alimentação da minha filha é mais um motivo para brigas.

Ela resolveu deixá-la sozinha, saiu do quarto levando a chave e trancando-a por dentro do aposento.

— Clara… — lhe cortava o coração brigar com a filha, lhe cortava o coração, colocá-la de castigo e a proibir de ir para a escola. Seu nome saindo de seus lábios só fazia ela se lembrar mais ainda de Petruchio. — O que seu pai fará quando descobrir tudo?

Não estava pronta ainda para dizer toda a verdade, mas teria que ser forte e dizer ela mesma. O que Catarina não esperava era outra surpresa vinda de seu pai naquele dia.

Dentro do cômodo, porém, Clara arrancava uma folha do caderno e dobrava cuidadosamente.

— Preciso arranjar um jeito de entregar essa carta a Miguel. — disse a si mesma observando o papel que havia escrito enquanto ignorava a mãe.

Encaminhou-se para a sacada do quarto da mãe, a abriu observando a frente da casa lá de cima, poderia descer, havia um enfeite de vasos ao lado que poderia servir de escada. Mas ela morria de medo de altura e pioraria ainda mais a situação se sua mãe descobrisse que ela havia tentado fugir. Observou Cosme, o motorista, parado ao lado do carro de seu avô.

— Cosme! — gritou em um sussurro.

O motorista ergueu seu pescoço e viu ela sacudindo as mãos o chamando para chegar mais perto da sacada. A obedeceu.

— Preciso falar com Miguel! Chame ele!

Cosme piscou duas vezes diante da voz mandona da filha de Catarina.

— Não posso sair daqui, estou esperando seu avô…

— Pode sim! Estou te pedindo, custa me fazer um favor?! — Cosme não fez menção em obedecer ela. — Tenho alguns vasos aqui do lado e minha mira é certeira. — disse displicente apontando os arranjos na escada da sacada.

Cosme automaticamente saiu em busca do garoto.

xx

— ...Neca então ocê termina essa leva de doce de leite, deixe os iogurtes pra amanhã quando as vaca produzirem mais leite… — Júnior falava com Neca na cozinha enquanto seu pai tomava seu café da manhã pensativo. Mimosa estava ao lado organizando partes da louça esperando Calixto terminar de embalar os queijos para ir à cidade com ele.

Petruchio observou que o filho estava tenso e preocupado, parecia que não havia dormido a noite toda só fazendo as contas. Soube por cima sobre o que aconteceu na loja, Júnior havia acordado e foi ajudar Vicenzo e Calixto a tirar o leite das vacas e voltou para a casa reclamando que não tinham leite o suficiente para suprir de imediato as mercadorias.

— Pai precisamos de mais vaca. — virou seu rosto para o pai dando um ultimato. — Só com mais vaca a gente tem mais leite e por consequência mais produto para vender.

Petruchio concordou com a cabeça, comendo calmamente sua broa de fubá com manteiga.

— Não vai falar nada pra eu? — Júnior perguntou bravo pela calmaria do pai.

— Sei disso desde os meus quatro aninho. — ele deu de ombros ao filho. — Ter mais vaca sempre é a solução. Mas acontece que não temo muitas mão pra trabalhar.

— Pai… — Júnior disse preocupado percebendo que ele não se importava, chegou mais perto dele e sussurrou para que Neca e nem Mimosa escutassem. — Ontem perdemos muito dinheiro, pode ser que no fim do mês a gente…

Petruchio colocou as mãos no ombro dele tentando o acalmar.

— Ninguém vai passar fome nessa fazenda, já passamos por coisas piores antes. Não vai ser um estoque vazio que vai acabar com a gente.

Júnior tentou ficar mais calmo depois do que ele disse, mas não conseguia não pensar em todo prejuízo. Foram dias de trabalho jogados fora.

— Escute filho, quem foi memo que acabo com o estoque da loja?

— Uma garota… — ele respondeu cansado sentando-se ao lado do pai. — Foi só ver como a loja era e procurar por Julião Petruchio.

— Julião Petruchio?

— Sim, e quando eu disse que era o próprio Julião Petruchio ela começou a berrar e gritar e jogar comida em mim.

Impaciência, gritos e coisas jogadas lhe lembrava uma outra pessoa.

— Será que não era eu o Julião Petruchio que ela procurava?

— Acho que sim, mas não fui com a cara daquela menina mandona. Omiti essa informação. Ela tinha o nariz empinado e o jeito que falava dava a entender que eu era como um empregado pra ela. Gente rica sem educação.

— …Qual o nome dessa garota? — Mimosa perguntou se dando conta da coincidência e tentando raciocinar.

— Não tive nem tempo de descobrir. O furacão que ela se transformo acabou com o estoque da loja…

— ...Furacão? — Mimosa disse a si mesma pensando com o olhar perdido, Neca estava de olho nela, sentia que algo estava acontecendo.

— De qualquer modo, fique tranquilo, damos um jeito de recuperá o estoque, venda o que está lá hoje e vemos o que fazer depois. — Petruchio resolveu encerrar o assunto anterior. Queria na verdade conversar com seu filho sobre outra coisa. — Ocê ficou conversando com uma mulher ontem não foi?

Neca aprumou seus ouvidos interessada no assunto.

— Ah sim… — ele sorriu para o pai se lembrando. — Me identifiquei muito com ela, não sei te explicar pai, quando vi estava conversando como se sempre tivesse a conhecido.

— E… ela não falou o nome pr'ocê? — Petruchio tentava escolher as palavras certas, mas estava ansioso.

— Não. — ele negou com a cabeça. — Sabe quando a prosa tá tão boa que ocê nem se atenta a esses detalhe?

— Não tive tempo para reparar muito nela, lembra de seus cabelos? Os olho dela?

Júnior enrugou sua testa tentando lembrar.

— Não, ela usava um lenço que cobria tudo e também óculos de sol. — Não havia achado estranho esse fato no momento da conversa com a mulher, mas pensando agora…

Petruchio deu um murro na mesa. Ele sabia, tinha quase cem por cento de certeza que era Catarina. Neca sentia que ele estava desconfiado, mas não falaria nada.

— Mas se ela pensa que eu vou deixar ela… — começou a falar nervoso levantando o dedo indicador no ar, parou quando viu a feição confusa do filho o encarar.

— Eu vou com ocê na loja e te ajudo a organizar as contas hoje.

Na verdade, Petruchio sabia em sem coração que Catarina havia encontrado seu filho ontem, não tinha certeza, mas sentia que sim, jamais esqueceu daquele perfume. Tinha que ser ela! Queria ver se ela teria a coragem de voltar a vê-lo. E se ela tivesse ele estaria lá para vê-la sem as máscaras.

Ele não permitiria facilmente uma aproximação dela com o filho, afinal ela o havia abandonado, não era justo depois de todo aquele tempo o criando sozinho que ela aparecesse e o conquistasse com uma simples conversa. Ficaria de olho.

Depois de terminarem o café se levantaram para irem à loja de carroça, Neca estava perdida em pensamentos e Mimosa havia notado.

— Você está com cara de que sabe alguma coisa. — comentou reparando no olhar dela.

— É ocê que sabe alguma coisa e não quer falar.

— Pois eu não posso. — Mimosa respondeu nervosa por ela desviar do assunto.

— Mas eu também não posso dizer. — Neca retrucou.

— Pois muito bem, fique aí com seu segredo. — Mimosa jogou o pano que estava nas mãos em cima da mesa e começou a sair da cozinha.

— E a senhora que fique com o seu!

Eram ótimas guardando segredos uma da outra e deixando-as curiosas ao mesmo tempo.

xx

Os quatro filhos de Batista estavam reunidos naquela manhã em seu escritório. O pai parecia cansado e Catarina reparava em seu rosto velho. Seus cabelos antes impecavelmente arrumados estavam com mais fios brancos que pretos, seu bigode permanecia em seu rosto, estavam com a mesma coloração de seus cabelos. Várias linhas de expressão acentuadas ao redor de seus olhos e a testa sempre franzida. Quinze anos passados se refletiam em sua feição.

— Os reuni aqui hoje porque quero ter uma conversa séria com os quatro. — ele anunciou.

Bianca estreitou seus olhos com medo do que poderia vir. Ela supunha que o pai falaria de sua doença, já que era sempre ela que o acompanhava nas consultas quando Joana não podia ir.

— É sobre sua doença papai? — Fátima perguntou aflita se aproximando dele que estava sentado na cadeira.

Jorginho, o que sempre estava ao lado do pai o acompanhando pelo banco, se postou atrás de Batista, depositando sua mão em seu ombro o apertando em sinal de que estava ali por ele.

Quando Fátima mencionou a doença, Catarina reparou no quanto ele estava inchado. Primeiro acreditou que seu casamento com Joana o tinha feito engordar, sabia que ela era uma cozinheira de mão cheia e que seu pai amava sua comida. Mas pensando agora quando descreveu a ela sua doença, sentiu que esse inchaço tinha ligação com seus rins.

— É… já fui em vários médicos, os melhores de São Paulo e apesar dos tratamentos, nada surte efeito. Eu partirei em breve.

— Não fale isso papai. — Bianca se aproximou deles ficando ao lado de Fátima. — Nós ainda podemos buscar médicos em outros estados.

Catarina continuava parada no canto do escritório com os braços cruzados vendo a cena. Ela nunca foi amorosa com o pai como seus irmãos demonstravam agora, mas seu coração se apertava em seu peito em sinal de preocupação, como eles.

— Mas deve haver uma solução. Talvez outro país. — Jorginho tentou argumentar.

— Sim, os Estados Unidos sempre fazem estudos diversos e sua medicina é muito avançada. Devíamos tentar papai. — Catarina prontamente concordou. — Soube que eles estudam a possibilidade de fazer transplantes, nada comprovado ou tentado ainda, mas consiste em órgãos de uma pessoa colocados em outra.

— Que visão assustadora. — exclamou Bianca.

— Não irei aos Estados Unidos, seria como jogar dinheiro no lixo. Não quero mais tentar nada. — negou com a cabeça, mas acrescentou. — Só quero passar esses restos de meus dias com meus filhos e netos.

— Vai ser avarento até o último dia de sua vida? — Catarina ficou brava com ele.

— Catarina não brigue com nosso pai, eu já o acompanhei nas consultas e realmente… — Bianca negou com a cabeça inconsolável.

— Bianca, ele não quer gastar dinheiro com um tratamento para si próprio. Vou brigar com ele sim!

— Catarina além de me ver nessa situação quer me causar uma gastrite? Não tenho gastrites há quinze anos.

Catarina revirou os olhos diante da fala do pai.

— Só estou dizendo que podemos tentar, saiba que se morrer esse dinheiro vai permanecer na Terra, não irá com você. — ela respondeu.

— Eu sei, por isso os reuni aqui. Quero falar da minha herança.

Jorginho previa o caos, sabia bem a cláusula que seu pai havia posto na sua herança.

— Nos trouxe aqui para falar de dinheiro? Mas o senhor ainda não morreu. — Fátima disse abalada.

— Concordo com Fátima. — falou Bianca.

— Herança só se fala com os filhos depois que se morre papai. — Catarina completou.

— Pois sobre minha herança não. Preciso avisar enquanto estou vivo. Para ver se todos vocês dão um rumo em suas vidas. Não estarei mais aqui e me preocupo com vocês.

Catarina estava impaciente diante de tantos rodeios. Falou ríspida:

— Que preocupação você teria com a gente? Já somos adultos.

— Mas não independentes. Três de meus filhos ainda dependem de mim. Por isso fiz uma cláusula em minha herança que só entregarei diante de uma condição.

— Que condição afinal? — Foi a vez de Fátima dizer impaciente.

— Que só receberão meu dinheiro quando estiverem casados. Todos os meus filhos casados.

Fátima e Bianca ficaram atônitas, Jorginho já sabia então não demonstrou nenhuma surpresa. Catarina estava com a boca aberta chocada com a audácia que tinha ouvido.

— O que? Está dizendo que quer mandar em mim e me casar mesmo depois de morrer? — perguntou estarrecida.

xx

— Suba agora! — Clara tentava não gritar para não chamar a atenção da mãe, mas era impossível para ela diante do melhor amigo medroso.

Miguel havia relutado em acompanhar Cosme, não queria desobedecer sua mãe, mas diante da insistência do motorista da casa, ele não teve muita escolha. Agora Clara estava o ameaçando que se não subisse para conversar com ela na sacada, iria lhe arremessar um vaso na cabeça.

— Miguel não tenha sangue de barata!

Ele suspirou cansado e resolveu subir. Ajeitou seus óculos nos olhos e começou a escalar o enfeite que levava até a janela do quarto que a amiga estava.

Clara o recebeu com um sorriso quando ele chegou perto dela, finalmente ela não precisava mais gritar para conversar com ele.

— C-Clara e-eu não po-po-s-sso fi-fi-ficar aqui c-con-v-versando com vo-vo-cê. — ele falou baixo tentando não olhar para baixo.

— Um dia vou ser uma inventora revolucionária, você verá! Poderemos nos comunicar a distância.

— M-mas já exis-te-te o te-telefo-n-ne.

— Estou falando de outro tipo de comunicação! — ela emendou sua fala revirando os olhos. — Você me abandonou!

— E-eu? — ele piscou ao falar se justificando a ela. — E-eu só obede-de-deci minha m-mãe.

— Pois então você me fará um favor agora. — ela tentou não brigar mais com ele, era o único amigo que lhe restava, não poderia o perder.

— F-favor?

Ele queria que ela dissesse de uma vez o que queria com ele, estava com medo de cair e achava que aquele enfeite não iria aguentar por muito tempo o seu peso.

— Escrevi uma carta a meu pai e você vai entregar a ele.

Miguel arregalou os olhos a constante obsessão de Clara pelo pai.

— N-não a-a-acha me-me-lhor esp-p-perar…?

— Esperar Miguel? Já imaginou se os franceses tivessem esperando para se rebelarem em busca de liberdade, igualdade e fraternidade? Estariam ainda vivendo presos nos tempos monarquicos!

— E-está se comp-p-parando aos fran-ce-ce-ses?

— Não, é uma metáfora! Eles se rebelaram e foram à luta, e eu também irei, não posso mais esperar, nem uma semana sequer. Leve a carta até a loja e peça pra meu irmão entregar a meu pai.

— S-seu i-ir-m-mão? — Miguel engoliu em seco lembrando do irmão de Clara nada amistoso.

— Leve depois da escola! Leve e está acabado!

Terminou seu "pedido" a ele lhe entregando finalmente o papel. Miguel o segurou nos lábios enquanto descia a escada. Pensava que na verdade era ele que estava indo a luta por ela, fazendo sua revolução contra a mãe e se assim fosse não queria ser o primeiro a ser atingido pelos fogos daquela batalha entre mãe e filha. Mas o que ele poderia fazer? Seria arriscado demais desobedecer a sua mãe? Seria arriscado receber a fúria de Clara se não fizesse isso por ela?

— Miguel! — ouviu ela gritar, esticou seu pescoço para cima olhando a amiga. — Faça esse favor por mim, sim? Eu juro que te dou uma recompensa. — ela piscou o olho e ele sentiu suas bochechas ficarem vermelhas escarlate.

Já sabia a resposta a seu dilema mental. Iria ajudar Clara.