Segunda chance
5 Capítulo 4
Julião Júnior sempre imaginou o dia que reencontraria sua mãe. Em um dos cenários, imaginou ela chegando na fazenda, ela o abraçaria chorando e pediria perdão pelos dias ausentes, responderia que tinha fugido porque precisava se reencontrar, mas que estava de volta e precisava de seu amor. Em outro cenário imaginou ela chegando na casa de seu avô Batista muito doente, literalmente à beira da morte, a depressão sem o filho a fizera chegar naquele estado e mesmo muito chateado com ela, ele a veria em seu leito de morte e ela lhe pediria perdão e quando ele a perdoasse, partiria para sempre. Julião Júnior, sempre imaginou o dia que reencontraria sua mãe, mas nunca pensou que isso aconteceria em segredo.
Neca estava nos fundos organizando os mantimentos da geladeira, tinham poupado uma grande quantidade de dinheiro para comprar uma geladeira para manter frescos alguns queijos, requeijões e iogurtes, não tinham o refrigerador nem na fazenda, mas na loja sim, Júnior havia convencido seu pai que era importante para manter seus produtos com uma durabilidade maior. Desta forma, Neca não estava perto quando sua mãe chegou.
Catarina entrou com passos leves, observou ele passando um pedaço de flanela nos produtos expostos em prateleiras, estava de costas concentrado no que fazia, por isso ela pôde aproveitar para observá-lo. Era mais alto do que ela, mesmo ela estando de salto, usava roupas parecidas com as de Petruchio na época que morava na fazenda, camisas gastas de tanto lavar, calças largas e botas sujas de barro. Reparou em seu cabelo, que mesmo curto, tinha alguns cachos, estava observando sua pele queimada do sol quando ele se virou a encarando.
— Muito bom dia, a senhora quer alguma coisa de nossos produtos? — sorriu ao final da pergunta.
Catarina podia sentir as batidas de seu coração se juntarem numa sinfonia às vibrações de sua voz. A voz de seu filho era única e ao mesmo tempo lembrava demais a de Petruchio, era diferente conhecer o timbre de voz, mas ela pôde perceber, que uma vez que ouvira a voz dele, jamais esqueceria.
— Queria conhecer o que vocês têm para vender. — conseguiu responder, mas sua voz saiu trêmula, como se estivesse fazendo algo proibido, como se falar com ele fosse revelar quem era de verdade.
Julião Júnior começou a mostrar todos seus produtos a ela, passando do queijo que ela conhecia tão bem, para as variedades de laticínios.
Ele sorria com os olhos quando explicava. Tinha de fato um olhar muito parecido com o seu, seus olhos eram grandes bolas castanhas que brilhavam quando estava feliz. Ele lhe mostrava a verdade com seu olhar e Catarina percebeu que era um ótimo comerciante, lhe cortou um pedaço de queijo ela provou voltando automaticamente a fazenda, tinha o gosto do passado e de tempos que ela amou viver e que não esquecia jamais.
Não resistiu quando ele sorriu a ela e pôde perceber alguns fios de uma barba por crescer nascendo no queixo, precisou tocá-lo para sentir nos dedos seu filho. Já tinha o visto, já tinha escutado sua voz, precisava o sentir.
Julião Júnior que até então estava explicando como era fresca a manteiga deles parou de falar com o ato repentino de Catarina e a olhou confuso, mas não tirou as mãos dela de si.
— Você parece muito uma pessoa que amava e que deixei partir… — Catarina explicou uma meia verdade. Ela passou seus dedos por sua bochecha e deslizou delicadamente as pontas de seu indicador em sua sobrancelha. Tinha as sobrancelhas iguaizinhas às de Clara e consequentemente idênticas as de Petruchio. — Desculpe se te assustei.
Ela deu um passo para trás e olhou para o chão, relou suas mãos em seu rosto vendo se o lenço estava no lugar e se os óculos de sol ainda estavam em sua face.
— Tudo bem, sei que é difícil por demais ter alguém que se partiu e se sentir saudade. — Ele confessou. — Deve ser difícil pr'ocê. Era seu filho?
Catarina levantou seu rosto olhando-o nos olhos. Poderia se abrir com ele em segredo. Lhe contar sua versão da história? Ela não resistiria ao convite de Julião Júnior para conversarem.
— Sim, meu filho. — As palavras meu filho quando saíram de sua boca tinham dois significados. Sim ela sofria pelo filho e sim, falar "meu filho" a seu filho era diferente.
Julião Júnior pegou sua mão a guiando para sentarem em uma mesa no canto. Catarina reparou em seus dedos grandes e em sua mão áspera e gasta de tanto trabalhar.
— Vou pegar uma broa de fubá pra gente comer com manteiga e a senhora se quiser pode conversar comigo.
Catarina concordou com a cabeça querendo permanecer mais tempo com ele e também conversar.
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Clara esperou que a mãe saísse para entrar no escritório de seu avô, na certa ele teria uma certidão de casamento, de divórcio, qualquer coisa que fosse que trouxesse o nome de seu pai.
Batista havia saído para resolver algumas coisas no banco, seu tio Jorginho era seu fiel escudeiro nos negócios da família e sempre estava ao lado do pai, Fátima tinha ido dar aula, Filomena acompanhava Joana na cozinha, estavam decidindo o que fariam de almoço, restou Miguel a seu lado, completamente chateado e triste.
— Vamos Miguel! Você precisa me ajudar! Não vejo a hora de descobrir quem é meu pai! Preciso ser filha de fazendeiro rico.
O melhor amigo estava preocupado e também cansado de ouvir as mesmas coisas de sempre que Clara dizia, sobre ela querer sempre ser rica, ir atrás de um pai rico, de não se contentar com o que tinha. Sendo que na verdade ela já era de fato rica.
— Vamos Miguel! — Gritou com ele enquanto mexia nas gavetas de seu avô e percebia que o amigo não se levantava do banco do piano no qual estava sentado.
— S-sabe que m-me mac-chuc-ca vo-vo-cê dizer es-s-sas coisas. — confessou.
— Que coisas Miguel?! — perguntou brava não encontrando nada perto do que procurava.
— S-seu desp-p-prezo pelos p-p-pobres. E-eu sou p-p-pobre.
— Ah Miguel! Você não pode estar de fato chateado com isso! Isso é no mínimo trágico! — Ela disse ainda sem paciência, passava os olhos por inúmeros papéis e os jogava no chão nervosa não achando nada de seu interesse. — Eu sou sua melhor amiga não sou? Como posso ter desprezo por pobres?
Miguel queria lhe dizer que essa fala que dirigia a ele lhe fazia se sentir triste e mal, como se nunca fosse chegar a altura dela ou ser digno de simplesmente ser amigo dela. Mas não disse nada e esperou que Clara cansasse de procurar por papéis que nada tinham a acrescentar em sua busca pelo pai.
Clara parou de olhar os diversos pergaminhos e observou ele apertando a mesma tecla do teclado do piano inúmeras vezes com o olhar triste e abatido.
— Eu não desprezo a pobreza, muito menos você… é só que… — ela se encaminhou para ficar na frente do melhor amigo.
— Q-que?
— É difícil para mim Miguel, é difícil ter uma mãe teimosa e inconstante, ela não pensa em mim e…
— C-Clara vo-vo-cê nunca fo-o-i p-p-pobre, só es-t-tá as-sus-s-t-ta-d-da com a pos-si-i-bili-d-da-d-de de ser p-p-pobre. E eu sou p-p-pobre.
Ela revirou os olhos sem argumentos. Sabia que precisava dele, não sabia sequer o que fazer sem o melhor amigo.
— C-con-v-versei com m-minha mãe e es-t-ta-m-mos com m-medo de não t-termos m-ma-i-is p-pa-r-ra on-d-de ir.
— Por que? — perguntou preocupada.
— S-sua mãe n-n-não p-preci-s-sa m-ma-i-is dos ser-v-viços da m-minha.
— Quem disse? É claro que ela precisa! Além disso, logo mais estaremos mudando daqui para a casa de meu pai, eu tenho certeza que ele terá lugar para vocês lá. É uma fazenda, deve ter sempre trabalho sobrando. Eu te proíbo de sair da minha vida Miguel! — apontou seu dedo indicador na frente do rosto do amigo.
— S-sempre a-a-acha que a so-l-lução es-t-tá no seu pa-i. E s-se não es-t-tiver? E s-se ele não f-for c-co-m-mo ima-g-gina?
— Está dizendo o que? — perguntou preocupada.
— E s-se s-sua mãe men-t-tiu, e s-se s-seu pai f-for p-p-pobre?
Ela piscou algumas vezes pensando, logo cruzou os braços na frente do corpo como se estivesse ofendida.
— Está me chamando de interesseira? Pois saiba que não me importo se ele for pobre.
Miguel levantou as sobrancelhas cansado não acreditando muito na fala dela.
— Eu só quero conhecer meu pai, não é possível que até você Miguel esteja contra meu sonho.
— Não s-sou c-con-t-tra vo-vo-cê conhe-c-cer seu pai. — disse a verdade.
Miguel só tinha medo de ver uma reação dela adversa se descobrisse o contrário.
— Então me ajude! Me ajude a encontrar pistas. Preciso descobrir o nome dele.
— N-no-m-me? — ele encolheu suas sobrancelhas pensando no que ela havia falado.
— Sim, só o nome dele já me ajuda. Preciso descobrir como ele chama, porque nem isso minha mãe me fala.
— E a a-a-a-liança? O n-no-m-me pode es-t-tar lá.
— Na aliança de casamento! Na aliança que minha mãe insiste em guardar com ela. — Clara deu um gritinho empolgada. — Está vendo? Por isso que sempre preciso de você do meu lado. Está proibido de ficar chateado e com medo de não morar mais perto de mim. Porque de jeito nenhum vou conseguir ser eu sem você por perto.
Ele sentiu seu coração bater muito rápido ao ouvir ela dizer todas aquelas coisas dele sem vergonha nenhuma.
— Vamos pro quarto da minha mãe procurar antes que ela resolva voltar.
Ele arregalou os olhos de medo da possibilidade da mãe de Clara os encontrar fuçando em seus pertences, mas foi puxado por ela e não conseguia dizer não a amiga, não depois do que Clara havia falado a ele.
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Catarina conversava com o filho como se fossem amigos e confidentes de anos, nunca pensou que iria se dar tão bem com ele diretamente em um primeiro encontro. Sentia que conhecia-o desde sempre como se nunca tivesse se separado dele.
— … Eu tive que deixar meu filho e isso fez meu coração se dividir pela metade, é como se eu nunca conseguisse viver minha vida por completo depois que fiz isso. — ela conseguia se abrir com ele sem receio.
— A senhora teve que deixá ele por que?
Ela engoliu em seco e falou a mentira que conhecia ser a história de muitas mulheres sem escolha.
— ...Eu era muito pobre, meu pai não aceitava mulher solteira e grávida de um homem que não se importava com o filho. Para não ficar mal falada na cidade, eu fiquei escondida em casa durante os meses que minha barriga crescia e meu filho veio ao mundo ao mesmo tempo em que era tirado do meu mundo. Jamais olhei para ele, não conseguiria dizer adeus sabendo as suas feições, a cor de seus olhos, o jeito de seus cabelos, não o deixaria se segurasse ele uma vez em meus braços.
Ele confirmou com a cabeça entendendo sua história, deixou que ela chorasse um pouco para então perguntar.
— Não tem vontade de achá ele no meio desse mundo?
— Todos os dias, ficaria muito feliz se ele fosse um garoto como você, responsável e trabalhador, um menino de bem. — ela sorriu limpando suas lágrimas insistentes que ficavam inundando seus olhos por debaixo dos óculos de sol. Esperou alguns minutos antes de se sentir confiante para continuar a conversar com ele. — E a sua mãe mora com você? Ela te abandonou? — Esperava que depois de se abrir para ele, com algumas informações ocultas, que ele confiasse em si e se abrisse para ela também.
— É… — Ele começou a apertar seus dedos um no outro em sinal de tensão. — Sim… ela mora com a gente, mas não aparece muito porque é doente.
Então era verdade o que Bianca dizia, Petruchio mentiu sobre seu real estado.
— Doente como? — ele suspirou cansado olhando para o lado. Catarina acrescentou. — Não precisa responder se isso não te fizer bem.
Julião Júnior olhou a mulher à sua frente, não sabia dizer o porquê, mas confiava nela e sentia que a conhecia de anos, como se fosse alguém que sempre esteve consigo, por isso conversar com ela era fácil, por isso resolveu ser sincero.
— Na verdade, ela partiu pras europa e me deixo com meu pai quando eu nasci, não tenho mãe.
As últimas palavras que proferiu feriram Catarina, mas mesmo machucada, não podia ficar calada.
— Nunca soube o porquê dela partir? — arriscou segurar sua mão que estava depositada em cima da mesa, queria o confortar de alguma forma, dizer que estava ali por ele e somente por ele.
— Não… — ele negou com a cabeça ainda chateado, mas aceitando a mão dela o apoiando. — Meu pai não gosta de fala muito sobre esse assunto e também não faz bem pra ele.
Diante da resposta mais calma dele, ela continuou suas perguntas.
— Não faz bem pro seu pai? — Não sabia porque insistia em tentar encontrar informações sobre Petruchio, mas lá estava ela quase implorando mais informações sobre ele.
— Esse assunto machuca ele, meu pai nunca assume seus sentimento, mas sei que ele ama minha mãe até hoje, nunca fiquei sabendo dele com mulher nenhuma. Talvez por respeito a mim e querer me poupar das pessoas maldosas que comentam nossa vida.
— Seu pai soube cuidar de você muito bem. — ela falou seus pensamentos em voz alta e não era mentira, acreditava mesmo que Petruchio havia o educado bem. Ela sabia que ele sempre seria capaz de fazer isso, sabia que ele seria o melhor pai que poderia ser.
— Eu acho que ele queria protege minha mãe também, das injustiças que esse povo mexeriqueiro falaria de minha mãe, memo distante ele queria que ela ficasse bem.
Catarina suspirou sentindo seu coração se completar. Ouvir de Bianca que Petruchio tinha de certa forma a protegido lhe fazia ficar com raiva, mas ouvir de seu filho sobre a atitude dele, fazia seu coração se reconstruir. Tentou parar de pensar em Petruchio e decidiu perguntar algo que estava dentro de seu coração.
— Se soubesse as verdadeiras razões de sua mãe partir, você conseguiria perdoá-la?
Ele negou com a cabeça drasticamente, ergueu sua cabeça e a encarou respondendo.
— Eu não tenho que perdoa ela. Sei que ela me ama… ela me deixo uma carta e lá dizia que sempre pensava em mim e que rezava por mim e eu acredito nisso. Acredito que ela teve suas razão de partir e… — ele sacudiu a cabeça desviando seu olhar do dela novamente. — ...eu só queria conversa com ela um dia, como tô fazendo com a senhora agora. Queria abraça ela e dize que tá tudo bem. Que a gente pode se conhece e que não há de ser tarde demais.
Catarina sentiu seu coração se preencher de felicidade e não pode evitar seus olhos se encherem de lágrimas e sentir algumas delas descerem por seu rosto.
— A senhora tá bem? — Júnior se preocupou com o estado dela, afinal era ele que confessava suas angústias, não entendia os motivos dela estar daquele jeito.
— Não é nada. — disse com a voz embargada. — Saiba que se fosse sua mãe sentiria muito orgulho de você e amaria ter você como filho.
Ele sorriu diante das palavras dela, mesmo ainda de óculos escuros ele quase podia enxergar a verdade em seus olhos disfarçados.
— Me dê um abraço? — ela pediu. — Me abrace como se eu fosse sua mãe?
Ele confirmou com a cabeça. Levantou da onde estava sentado ao mesmo tempo que ela e sem receio algum envolveu seus braços envolta de Catarina que retribuiu com a maior força que conseguiu reunir. Seu coração batia no mesmo ritmo que o do filho e não poderia estar mais feliz de seu reencontro com ele.
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— Fique com o guarda-roupa, procurarei na cômoda. — Clara corria pelo quarto que dormia com a mãe.
Miguel obedeceu a melhor amiga abrindo as portas do guarda-roupa com receio, não gostava da ideia de mexer com roupas de mulher, mas para seu alívio as roupas ainda não tinham saído das malas.
— Es-t-tá vaz-z-zio.
Clara virou seu pescoço drasticamente para ele.
— Nas malas. Procure nas malas!
— A-a-acho que n-n-não dev-vo.
A jovem parou o que estava fazendo e colocou as mãos em sua cintura encarando seu amigo.
— Qual o problema Miguel? Não está querendo me ajudar desde cedo!
— S-sou h-homem C-Clara, não f-fic-ca b-bem m-m-mexer em r-r-roupas de m-m-mulher.
— Que pensamento mais retrógrado Miguel! — ela reclamou. — São roupas da minha mãe!
— T-tem s-suas tam-b-b-bém.
— E daí? Você me conhece desde que nasci. É como se fossemos irmãos.
— I-ir-m-mãos? — perguntou chateado.
— Quer saber eu procuro sozinha. Vigie a porta para que ninguém entre aqui.
Ele por fim concordou com a cabeça espiando pela fresta da porta entreaberta. Clara começou a procurar a caixa de jóias que a mãe tinha.
Encontrou enfim uma caixa, mas era uma caixa só de cartas, diversos envelopes lacrados.
— Cartas! Minha mãe têm obsessão em escrever cartas! — ela gritou querendo abrir e ler imediatamente, quem sabe seriam endereçadas a seu pai. — Talvez o nome de meu pai esteja aqui!
Abriu um envelope sem se atentar a seu destinatário e começou a ler em voz alta:
— … Lisboa, 1930. Tenho diversas dúvidas em meu coração, mas a principal é saber como se vive quando seu coração está partido ao meio? Como posso viver longe com minha filha pequena se metade de mim permanece no Brasil? É como andar incompleta por aí, como entrar numa banheira e não se molhar, sentir o cheiro da comida e não sentir o seu sabor, observar uma obra de arte e enxergar tudo preto e branco. Estou incompleta para sempre, eu só espero que você meu filho cresça saudável longe de mim e que um dia você me perdoe...
Ela parou sua leitura horrorizada com a última informação que havia lido.
— O que significa isso Miguel? — perguntou ao melhor amigo confusa sentindo sua cabeça girar.
Miguel negou com a cabeça sem entender nada.
Ela pegou os diversos envelopes de cartas e começou a ler o destinatário.
— Para meu filho, para meu filho, para meu filho… — sua voz estava fina e perplexa. Não acreditava no que lia, era claramente a letra de sua mãe. Não havia como contestar a letra de sua mãe.
— C-Clara! Procu-r-re a alian-ç-ça! — Miguel tentou chamar a atenção da amiga preocupado com o horário passando e com a possível volta de dona Catarina para a casa.
Clara sentia-se confusa, mas pegou uma das cartas e guardou consigo. Voltou a procurar a aliança.
Miguel decidiu procurar com ela, pois sabia que a amiga tinha ficado um pouco abalada pelo que havia lido há pouco.
— Emb-b-baixo d-da c-cama! — seu melhor amigo anunciou.
Clara agachou-se e pegou a caixa de jóias de sua mãe, abriu rapidamente e começou a procurar com os olhos, até que achou o anel dourado. Seus olhos passaram rapidamente pelas letras gravadas dentro do anel e mesmo um pouco gasto pelo tempo pode ler perfeitamente.
— Julião Petruchio! — ela falou olhando seu amigo nos olhos. — Meu pai chama Julião Petruchio!
— Que bagunça é essa? — Filomena disse abalada da porta do quarto observando as roupas jogadas no chão e seu filho com Clara parados no meio do cômodo com cara de estarem fazendo alguma coisa proibida. — O que está fazendo com a caixa de jóias de sua mãe na mão?
Clara olhou apavorada para Miguel sem saber ao certo o que responder.
— Estava procurando um brinco específico porque Miguel disse que eu ficava linda com a cor vermelha. Não foi Miguel?
Ela piscou para ele o que fez o amigo sentir seu rosto quente.
— Que história é essa Miguel? — a mãe do jovem perguntou diretamente para ele que tinha o rosto banhado da cor vermelha. — Anda elogiando a Clara? Vou ter que começar a proibir vocês dois de andarem juntos, não são mais crianças.
Filomena estava de fato preocupada e diversos medos e questionamentos passavam por sua cabeça, sabia bem o que eram hormônios adolescentes.
— A senhora não pode proibir o Miguel de andar comigo! Somos melhores amigos. — Clara se defendeu segurando a mão dele o trazendo para junto de si. — Aliás preciso que ele vá comigo para um lugar, vou roubar ele um pouco da senhora agora.
Ela começou a puxar o garoto para fora do quarto com a carta que havia pegado na mão. Filomena estava atenta ao envelope.
— Que papel é esse Clara?
— Uma carta. — respondeu automaticamente parando de andar.
— Isso eu sei.
— Eu escrevi.
— Hum… — Filomena concordou com a cabeça permitindo que ela continuasse a falar.
Pela primeira vez em muitos anos Miguel percebeu que sua melhor amiga estava apavorada sem saber o que dizer. Então ele foi a seu socorro.
— É p-pra algun-n-ns amig-g-gos de Por-t-tu-g-gal, vamos envia-a-ar por cor-r-reio.
Clara automaticamente concordou com a cabeça achando brilhante a ideia.
— Estamos com saudades deles e precisamos avisar que tudo deu certo, durante toda viagem, nossa volta e etc... Então escrevemos a carta e vamos até a cidade enviar. Então Miguel irá comigo. Adeus Filomena!
Miguel sentiu sua mão ser puxada pela amiga e o olhar de desaprovação da mãe o encarar pelas costas.
Filomena sabia que o que diziam era uma inverdade, falaria com Catarina mais tarde. Resolveu organizar o quarto antes da patroa voltar para não deixar as coisas piores entre mãe e filha.
Clara correu até o jardim segurando a mão de Miguel para que a acompanhasse. Tinha tantas dúvidas em seu coração.
— Por que minha mãe escreveu meu filho na carta Miguel? Ela tem um filho e nunca me contou? Eu tenho um irmão? O que significa isso?
Ela olhava angustiada para o amigo que não sabia o que fazer, ele deu dê ombros incapacitado de falar.
— Minha mãe mentiu para mim a minha vida inteira! — disse frustrada com raiva ao mesmo tempo com lágrimas nos olhos.
— N-n-não sab-be ain-d-da, talv-v-vez não seja is-s-so o q-que…
— Não Miguel, minha mãe mente, não só sobre meu pai, mas a respeito de mais coisas. E agora de repente eu tenho um irmão? Ela não tinha esse direito! — tinha ódio em seus olhos.
— C-calma C-Clara… as-s-sim vo-vo-cê v-vai… — Miguel não conseguiu terminar de falar, amiga o interrompeu.
— Me diga um lugar em que posso achar o endereço de meu pai só por seu nome! — pediu brava e decidida.
— Pref-f-feitura? — ele arriscou.
— Vamos para prefeitura achar o endereço de meu pai!
xx
Neca observou Júnior conversar com a mulher de óculos escuros durante a manhã toda, comeram broa com manteiga enquanto tomavam um café, mesmo não conseguindo ouvir a conversa que tinham ao longe, ela parecia reconhecer alguns jeitos da mulher, o jeito que ela sentava reta, seu segurar na xícara, o jeito dela andar, lembrava tanto dona Catarina. Bom… só podia estar maluca, mas se fosse dona Catarina, justificaria ela usar os óculos escuros dentro do estabelecimento fechado e escuro. Sentia que era sua patroa de anos atrás e que estava com saudades, mas não se aproximou deles e deixou que conversassem.
Catarina sentia-se mais feliz que nunca, estava completa de novo e sorria sem medo, a última vez que tinha se sentido assim foi mais de quinze anos atrás quando se descobriu grávida.
Estava tão envolvida na conversa com seu filho, nas histórias que ele contava, na maneira que lhe explicava como fazia o queijo, o requeijão e o doce de leite que não reparou no tempo, não percebeu a hora passar e não viu Petruchio entrar na loja.
— Boa tarde, atendendo os cliente filho?
Catarina ouviu sua voz e sentiu seu coração parar de bater, ficou estática no lugar em que estava sentada sem saber o que fazer.
— Estava conversando com essa senhora… — Julião Júnior parou para pensar um minuto e virou seu rosto para ela. — Não sei ainda o nome da senhora.
Catarina se levantou da cadeira. Não podia falar e nem olhar Petruchio nos olhos. Abaixou seu pescoço e encarou o chão. Pigarreou alto e fingiu estar rouca.
— Preciso ir.
Tentou caminhar, mas acabou tropeçando e quase foi ao chão, não caindo só por causa dos braços de Petruchio envolta de sua cintura. Ele havia segurado ela e a impedido de se esborrachar no chão.
Catarina sentia seus braços envolta de si depois de mais de quinze anos sem o sentir, seu coração estava descompassado e suas pernas bambas, um frio na barriga a dominou e ela sabia que por mais que negasse a Bianca, negasse a Filomena, negasse a seu pai e a Clara, não poderia negar a si mesma. Petruchio ainda mexia com ela.
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