Segunda chance
36 Capítulo 35
Um… dois…
Petruchio depositou dois beijos de leve em suas nádegas enquanto passava suas mãos em sua perna.
Três… quatro…
Mais dois beijos na curvatura de sua cintura, enquanto sua mão subia e roçava sua barriga que encolhia de desejo.
Cinco… seis…
Os dois beijos chegaram ao seu ombro e ele apertou o seio direito dela com sua mão fortemente. Catarina gemeu.
Sete… oito…
Os dois beijos seguintes foram em seu pescoço, suas mãos continuaram a trabalhar em seu seio.
Nove…
Um beijo mordiscando sua orelha.
Dez… outro enfim encontrando seus lábios.
Catarina não resistiu, pegou seus cabelos brava e o beijou com volúpia enquanto ele ainda apertava seu seio com as mãos e passava sua perna em sua vagina exposta fazendo ela se contorcer embaixo de si.
— Escute… — ela falou gemendo enquanto ele abaixava seu pescoço indo em direção ao seu seio, o sugando enquanto ainda apertava com a mão. — A gente acabou de fazer amor, não é possível que…
Ela não conseguiu completar sua frase, gemeu perto de seu ouvido, quando Petruchio abaixou a mão e começou a acariciar o clitóris dela.
— Está amanhecendo Petruchio, a gente precisa… — ela fechou os olhos e sufocou outro gemido deixando que ele fizesse seu corpo acender cada vez mais.
— Vou te contar um segredo: — ele ergueu seu tronco e se posicionou em cima dela se movimentando. — De manhã dá mais vontade.
Ela ia brigar com ele, tinham tantas obrigações, o sol já ia alto, ela tinha certeza que as paredes daquela fazenda tinham ouvidos, mas Catarina não tinha forças e nem vontade de o frear. Por isso, deixou que ele entrasse em si novamente mesmo que tivessem acabado de fazer amor, gemeu e o puxou para si, pedindo que ele fizesse com mais força, puxava seus cabelos, mordiscava seu peito e não queria que ele parasse. Queria que ele continuasse insaciável e sim! Ela concordava que de manhã dava mais vontade e era sim muito mais gostoso.
Ele abraçou pelas costas quando terminaram de fazer amor pela segunda vez naquela manhã, ficou cheirando seu cabelo molhado, o cheiro que mais amava no mundo misturado com o sexo que haviam feito.
— Praia, quero ir pra praia com ocê… — disse inebriado.
— Quer ir pra praia ou ficar num quarto de hotel numa segunda lua de mel? — ela não tirava o sorriso do rosto. As mãos dele insaciáveis brincavam com o bico de seu seio.
— A gente pode ficar uma duas horinhas na praia e o resto do dia no hotel. — ele sorriu.
Ela virou o rosto para o encarar. Lhe deu dois tapas no ombro dizendo que ele não tinha vergonha de ser o safado que era.
Era tão irreal, mas tão tocável o momento em que vivia que Catarina se perguntava se podia vivê-lo em toda sua plenitude sem se sentir culpada.
— Catarina… — ele a chamou assim que viu a mulher levantar da cama, para enfim tentar se arrumar.
— Petruchio… não dá… — ela automaticamente começou a recusar. — Não que eu não queira ficar o dia inteiro nessa cama com você, eu tenho certeza que você sabe o poder que tem sob mim, mas já está tarde, precisamos ir a cidade, as crianças têm escola e…
— Casa comigo?
Ela parou de falar quando ele fez a pergunta.
— Eu nunca amei ninguém quanto eu amo ocê, eu sei que a gente não pode nunca mais se casar de novo, eu sei que quando a gente assinou aquele papel a gente tava ciente que só podia casar fora do país, eu sei que ocê quer se reerguer sozinha, sem o sobrenome do marido, eu sei de tudo isso. Mas eu quero me casar com ocê.
— Petruchio… — ela sussurrou diante do pedido dele.
— Não fala que não aceita… Eu quero um casamento com tudo… aqui na fazenda, com flores por todo lado, com o Júnior te levando pro juiz, não precisa ser nem o padre porque o padre nunca ia entender a gente memo, eu quero a Clara entregando a aliança e eu juro que vou tá de fraque e todo almofadinha como ocê merece. Aceita Catarina, aceita?
Ela chegou perto dele e acariciou o rosto dele, ainda sem nenhuma resposta.
— Só nois, a gente não convida ninguém, só nois quatro e um juiz que arranque aquele divorciados do nome e transforme a gente em casados de novo. Só nois.
Como ela poderia dizer não? Não conseguia com o rosto dele tão apaixonado a olhando e implorando um sim.
— Eu sei que ocê sabe um jeito da gente ter isso, a sua mente tão brilhante sabe uma solução. Casa comigo Catarina? Casa?
— Caso. — ela concordou finalmente o beijando. — Eu quero ter uma família com você com todas as letras que família me permitir.
Demoraram mais um pouco para enfim começarem o dia. Estavam precisando um do outro numa felicidade completa e sem empecilhos.
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— Eu quase o beijei Carijó… — Clara conversava com a galinha em seu quarto enquanto tentava se arrumar para ir a escola. — A gente tava tão perto que eu senti o nariz dele no meu, os cílios meus faziam cosquinhas no seu rosto e eu não resisti, fechei os olhos e esperei. Esperei ele me beijar… Eu nunca beijei ninguém em toda minha vida e eu sabia que meu primeiro beijo tinha que ser com ele. Meu melhor amigo... Era como viver um romance sem concretizar. Entende? De repente, tudo pareceu um erro. E ele saiu de perto de mim, evitou me olhar.
Ela olhou a galinha angustiada e pegou ela no colo.
— Acha que ele nunca mais vai voltar a falar comigo?
A galinha entortou o pescoço encarando ela como se respondesse sua dúvida.
— Eu sei… conheço ele desde que nasci, é estranho passar de amizade para… — Clara engoliu em seco sem conseguir concretizar o que falava. — Mas a gente se conectou tanto naquela tarde, rir com ele é tão fácil, parece que o peso do meu peito some, parece que o mundo sorri de novo pra mim. Aí Carijó, eu amo ele, mais que um amigo. Eu simplesmente amo ele. Como naquelas poesias bregas que a Laura gosta de recitar e a tia Bianca insiste em me dar de presente de aniversário. Camões têm razão.
Carijó cacarejou brava e Clara colocou ela na mesa ressentida.
— Eu sei que ele tem namorada, não precisa me jogar na cara que Elisa soube valorizar ele muito antes que eu, e a culpa é toda minha. Mas você acha que ele evitou me beijar por causa dela? Ou porque não queria estragar a amizade? Ou pelas duas coisas? Hum…?
Esperou a resposta da galinha que não veio, até que ouviu a porta bater.
— Quem é?
— Eu. — Júnior abriu a porta reparando que o quarto da irmã estava amontoado de telas de pintura. — Arriégua, como ocê consegue dormir nesse quarto com esse cheiro de tinta?
— Melhor que dormir no seu quarto com cheiro de chiqueiro.
— É o cheiro da tinta camufla o cheiro de titica de galinha. — ele não deixou de implicar com ela.
— O que você quer? — Clara revirou os olhos.
— Nossos pais não saem do quarto e o Calixto vai levar nois na escola hoje. Melhor a gente ir.
— Mas eu preciso levar os quadros na cidade hoje. Urgente! — Clara se pronunciou.
— O que cê vai fazê com essas pinturas na cidade?
— Coisa minha. Vou falar com a Mimosa. Ela pode deixar na casa da tia Bianca enquanto estou na escola, depois passo lá e pego.
Clara se levantou indo atrás de Mimosa. Júnior deu dê ombros deixando que ela fizesse o que quisesse.
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— Mas arriégua! As caveiras de seu avô e de sua avó não tão gostando nada dessa história de ficar deixando o cavalo cansado levando esse monte de pintura pra cidade.
— Fique quieto, e pare de falar das caveiras do meu avô e da minha avó que nem estão aqui mais pra se defenderem.
— Mas eu falo, eu falo porque defendo o cavalo. O pobre vai machucar a pata e ficar sem casco de tanto peso hoje, já basta os queijo, agora pintura? Seu pai vai ficar brabo. — Calixto voltou a falar com Clara. Que ia na frente com Mimosa e o marido guiando, enquanto Júnior ia atrás segurando os quadros para não chacoalharem muito.
— Meu pai? Ficar bravo comigo? Justo comigo Calixto? — Clara abanou a mão sorrindo pra ele e Calixto entortou os lábios sabendo que era verdade. Petruchio jamais ficaria bravo com ela.
Chegaram enfim na escola. Clara virou para Mimosa séria e disse:
— Cuidado com meus quadros, é questão de vida ou morte, entendeu? Vida ou morte! Deixe na casa de minha madrinha que quando eu sair da escola já passo lá para pegar.
— Sua mãe está sabendo dessa história de quadros na cidade? Ela não vai gostar nada disso. — Mimosa disse prevendo Catarina brava.
— Minha mãe vai me agradecer depois, eu prometo a você.
Deu mais um milhão de recomendações para Mimosa não estragar suas telas e descer tudo com muito cuidado quando chegasse na casa de Bianca. Ficou assistindo Calixto e Mimosa se distanciarem da escola com as pinturas com medo de estragarem.
— Cê tá aprontando.
— Eu? — Clara apontou para si mesma diante da acusação do irmão. — Por que? Está com medo de deixar de ser o gêmeo preferido, querido irmão?
Clara sorriu para ele triunfante e começou a andar para dentro da escola.
Júnior achou que ela estava mais alegre, era a velha Clara de sempre, se perguntou se Miguel tinha alguma relação com aquela mudança repentina de humor.
— Oi. — Clara ouviu a voz de Miguel a sua frente fazendo suas pernas travarem e pararem de andar, sua garganta secou e seu coração acelerou.
— Oi. — o cumprimentou estranhamente.
Miguel coçou sua nuca sem saber mais o que falar. Clara o olhou nos olhos, sua respiração lutando para se regularizar. Por fim, repetiu:
— Oi.
Júnior arregalou os olhos diante da cena que via. Lembrou de si mesmo no dia anterior, viu a irmã abaixar a cabeça e sair andando rápido de perto dos dois. Miguel ainda olhava as costas da amiga, sem saber como agir.
— O que que é que foi isso? — Júnior perguntou a ele.
— Eu não faço ideia. — Miguel confessou ainda observando as costas da amiga se distanciando de ambos.
— Ocê têm namorada! — Júnior deu um soco de leve no ombro de Miguel. — Elisa não merece essa presepada toda não.
— E-eu s-se-ei que n-não. — ele gaguejou e começou a respirar forte. — A gente quase s-se bei-i-jou on-ntem. El-a-a n-não fa-a-lou nada?
Júnior arregalou os olhos, enfim entendendo tudo.
— Comigo? Só se falou com aquela galinha, tava conversando demais com aquela galinha hoje. Mas, ocê quis beijar ela?
— Eu? — perguntou a Júnior ainda sem refletir aquela pergunta antes. — E-eu sempre gostei da C-C-Clara.
— E o que ocê vai fazer?
— Eu n-não sei. — Miguel negou com a cabeça olhando desesperado para Júnior.
— É melhor pensar logo, Elisa tá vindo aí. — Júnior se despediu dele antes da namorada chegar.
— Oi. — ela o cumprimentou sorrindo, enquanto Miguel tentou disfarçar a feição confusa que consumia seu rosto. — Está tudo bem?
Ele automaticamente concordou com a cabeça. Elisa percebeu que ele estava diferente.
— Sumiu por um dia inteiro.
— Arranjei um emprego, lanterninha de cinema. Começo hoje. — ele respondeu sem fôlego, parecia que estava travando uma luta consigo mesmo.
— Que bom Miguel. Fico feliz. — ela sorriu sincera a ele. — Então a gente vai ter que parar com nossas aulas a tarde e a noite e nossos namoricos. Terrível para nosso relacionamento.
Ele arregalou os olhos diante da fala brincante dela, foi incapaz de responder qualquer coisa. Elisa não era boba, sabia que algo maior estava acontecendo. Iria o sondar aos poucos.
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— Serafim me disse que a leitura do testamento do seu Batista será amanhã. — Heitor anunciou a Marcela. Estava no bar do hotel com a antiga parceira de crimes. Fazia alguns anos que não se viam.
Marcela agora era conhecida como viúva negra, havia casado com três senhores muito ricos e idosos nos últimos anos, havia recebido heranças milionárias. Heitor, por outro lado, permaneceu no Brasil, pelos anos sem vê-la, a achou abatida e um pouco magra demais.
— Aquele banqueiro burro e amante de periquita, gastei meses da minha vida aturando aqueles roncos e no fim quase não levei dinheiro nenhum dele. — Ela comentou mexendo uma azeitona dentro de seu dry martini. — Imagine se tivesse ficado casada com aquele avarento todos esses anos para receber uma herança pequena agora?
— Achei que estivesse interessada. — Heitor comentou.
— Sabe muito bem que só vim ao Brasil para minha vingança. Mas se eu quisesse vascular alguma parte daquele documento, com certeza teria direito a algum dinheiro.
Heitor concordou com a cabeça, sabia que dinheiro nunca era demais para ela.
— Nenhum de seus patos vieram até você ainda?
— Não! — Marcela respondeu brava. — A garota é muito indecisa, achei que fosse mais tonta igual a Bianca. Mas parece que puxou a mãe…
— Ela é bem parecida com a mãe na verdade, Serafim me disse que a mira dela é de invejar.
— Criada por uma onça, é claro que seria uma onça. Catarina conseguiu me enganar nisso, eu não sabia que ela tinha uma filha camuflada com ela na Europa, só tinha conhecimento do menino.
Marcela tinha que admitir que separar os gêmeos tinha sido um golpe de sorte e esperteza por parte da ex-rival.
— Mas uma coisa eu tenho certeza, ela sempre teve medo de eu concretizar minhas promessas. Tanto que ficou quinze anos fora, bastou voltar para cair nas garras daquele grosseiro e rústico. Não resistiu. — Ela sentiu sua pele arrepiar se lembrando de Petruchio. Não sentia nada por ele, apenas raiva e vontade de se vingar, apesar de seu corpo jamais esquecê-lo.
— O que pretende fazer quando ela vir até você? Porque eu tenho certeza que fará ela vir até você. — Heitor estava curioso, até onde ela iria para se vingar?
— Só cumprirei minha promessa, ela não reatou com ele? Pois, muito bem. Vou sumir, primeiro com a garota, depois… depois vejo como colocar uma armadilha no garoto também. Não tenho nada a perder. E eu nunca deixo de cumprir nenhuma promessa minha. Aliás, preciso começar a agir para a armadilha do garoto logo. Não tenho muito tempo. Você não descobriu nada relevante sobre ele?
— Ah, até onde vi, é muito parecido com Petruchio. Gosta do campo. — Heitor narrou suas observações nos últimos dias. — No velório não saiu de perto da mãe, ele têm certas dificuldades na escola e estudava numa sala de recuperação que a Catarina dava aula antes de se demitir. Estava envolvido com a mãe no escândalo da escola.
— Qual escândalo?
— Catarina estava dando aula na escola de Edmundo, mas um grande empresário influente cuja filha frequenta o colégio, não queria uma mulher separada no mesmo ambiente que sua filha estuda. Resumindo, Serafim escreveu uma matéria sobre Catarina e sua vitória como mãe separada trabalhando na escola, o empresário descobriu, não gostou nada e foi exigir que Edmundo a demitisse. Catarina não gostou, jogou um vaso na cabeça dele e pediu demissão. O filho está envolvido, porque frequentava a mesma sala de aula que a filha desse empresário.
Marcela começou a pensar em tudo o que Heitor lhe dizia, as novas informações trabalhando num novo plano.
— Tem instinto de justiceiro o garoto? Qual o empresário?
— Senhor Assunção. Ele tem uma fábrica de cosméticos.
Marcela sorriu.
— É um começo, arranje o telefone desse homem, preciso entrar em contato com ele urgentemente.
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— Acha que… se eu me candidatasse pra qualquer emprego na fábrica do pai d'ocê, eu conseguiria? — Júnior não falou oi a Ana naquele dia. Sentia seu peito doer e várias ideias passavam pela sua cabeça de como poderia chegar a uma solução para o que a garota vivia. Por isso, simplesmente chegou perto dela e começou a falar seus planos.
— Ainda não desistiu de mim? — ela perguntou tentando mordiscar o seu sanduíche como fazia em todo intervalo.
— Eu não sei te explicar, mas eu gosto de cuidar dos outros. Eu desde pequeno curo asa quebrada de passarinho, conserto pata quebrada de bezerro que acabô de nascer, fiquei esse tempo atrás com meu vô até ele partir em paz e… eu não sei te explicar, eu preciso te ajudar.
— Mas eu não sou um passarinho, um bezerro ou seu avô. — ela negou com a cabeça, suas palavras eram secas e duras com ele.
— Não, a sua dor não é visível, a sua dor é dentro, apesar das marcas de fora. A sua dor não é tocável. Então eu não sei como te consertar, mas eu não consigo aceitar e te ver assim.
Ana negou com a cabeça preocupada.
— Não se meta com meu pai, esqueça essa história. Me esqueça.
Júnior negou com a cabeça e voltou a falar sobre a única ideia que havia passado por sua cabeça.
— Foge lá pra casa, mora lá um tempo, ocê falou ontem que queria crescer pra se vê livre do teu pai, é só ir lá agora na fazenda.
— Simples. — ela negou com a cabeça. — E minha mãe?
— Ela junto d'ocê, é claro que sua mãe deve de tá junto. — ele prontamente respondeu.
— E quem disse que ela sai de casa? Minha mãe é escrava do meu pai e desse casamento que ela jura fidelidade. Ela jamais fugiria. Achou que nunca pensei nessa solução? — Ana estava cansada, mas por mais irritada com esse assunto que estivesse, não conseguia não explicar as coisas ao garoto. — Era por isso que me inspirava na sua mãe. Ela era separada e vivia uma vida até então normal, eu queria que minha mãe se inspirasse nela, mas aí… aí aconteceu meu pai.
Júnior negou com a cabeça imaginando todo o impasse que a garota vivia.
— Me ensine, me ensine um modo de te ajudar. Me mostre um caminho. — ele implorou.
— Há dor em todos os lugares. — ela negou com a cabeça cansada. — Eu não quero ser um objeto de análise. Procure outra dor para "consertar".
Ela enfim se levantou e saiu de perto dele. Júnior suspirou frustrado sem saber os passos que faria a seguir.
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— …Então, eu na verdade estava fazendo o processo inverso… é claro que estava indo péssima em matemática. Mas o que fazer se prefiro os livros, não é? — Elisa disse para Miguel. Estavam sentados numa mesa na biblioteca enquanto ele tentava lhe explicar a matéria de matemática.
Miguel estava aéreo. Sentia que fazia algo errado o tempo inteiro. Como se mentisse para Elisa.
— É… A-a-cha que en-n-tende-e-eu? A-agora, por causa do me-e-eu empre-e-ego não vou po-o-oder te aju-u-udar.
Elisa franziu a testa quando percebeu o quanto ele estava gaguejando naquele dia.
— O que aconteceu com você? Não estava mais gaguejando assim.
— Com-i-igo? Na-a-ada. — ele negou automaticamente.
Elisa suspirou, sabia exatamente quem mexia tanto com Miguel ao ponto de fazê-lo gaguejar.
— Escute… Eu não sou boba. Preciso que seja sincero com você mesmo, para então ser sincero comigo. — ela levantou da mesa chateada. — Hora que descobrir o que está acontecendo com você. Volte a falar comigo.
Miguel ficou olhando ela se distanciar de si, passou a mão por seus cabelos sem saber o que fazer, a única certeza que tinha era que precisava tirar a história a limpo com Clara.
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Clara mais uma vez estava com seu bloco de desenho, mas dessa vez não tentava desenhar telhados e sim uma sensação que não saia de seus pensamentos. A sensação do "quase". O quase beijo não saia de sua cabeça. Como desenhar o quase? O que antecede o momento principal do beijo? Pensava em como colocar no papel o mesmo ar que respirou que Miguel naqueles microssegundos. Era o que ela queria saber fazer. Limitou-se a desenhar dois narizes se roçando. Suas pálpebras fechadas enquanto Miguel tinha os olhos cobertos por óculos.
— O que está fazendo? — Laura perguntou olhando o desenho dela por cima do ombro.
Clara levou um susto, o que a fez borrar parte do desenho.
— Está treinando pra ser fantasma?
— Isso é uma cena de romance! É sim! Reconheço uma de longe. Tá lendo alguma poesia?
Clara normalmente não tinha paciência para a prima toda romântica, mas naquele dia…
— Você acha que alguma poesia encaixaria nessa cena Laura?
— Fora "amor é fogo que arde sem se ver"?
— Essa é Camões, não é? Essa eu conheço.
— E a das estrelas de Olavo Bilac?
Laura começou a declamar a poesia e Clara achou que o verso final encaixava perfeitamente com tudo o que ela sentia. Escreveu embaixo do seu desenho: "...Pois só quem ama pode ter ouvido. Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Clara sorriu pensando que sim! As estrelas falavam e elas tinham uma personalidade que ela amava. Começou a desenhar estrelas no rosto de Miguel no desenho, quando ouviu uma voz atrás de si que não esperava ouvir.
— C-C-Clara.
Seu coração saltou na garganta e ela fechou automaticamente seu caderninho. Laura abriu a boca e começou a falar.
— É ele! — Clara chegou perto da prima e tampou a boca dela com suas mãos.
— E-eu pre-e-eciso fa-a-alar com vo-o-cê.
Clara olhou para a prima brava e disse:
— Pode ir para outro lugar um momento querida prima?
— Agora? — Laura perguntou pra ela ressentida. — Mas eu nunca assisti uma cena de romance assim tão de perto.
Clara bufou nervosa e Miguel voltou a falar.
— Po-o-ode ser a tar-rde. Só nós dois.
Clara concordou com a cabeça ao mesmo tempo em que percebia que o intervalo das aulas havia acabado. Seu coração não parava de saltar do peito, suas mãos tremiam e ela só tinha certeza do incerto, querendo muito entrar naquele mundo incerto para ver se o amigo era capaz de ouvir estrelas como ela.
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Passaram a manhã toda trancados no quarto, tomaram banho juntos na banheira, se acarinharam mais um pouco, trocaram palavras de amor como dois adolescentes e Petruchio recuperou a aliança de noivado que Lindinha havia roubado do doce anos atrás e pediu para que ela usasse.
Estava ajudando ela a se trocar, foi colocar o colar das alianças de casamento que ela não usava fazia tempo, o que o círculo representava infinito. Ele abotoou o colar em seu pescoço e não resistiu em beijar ali ela mais uma vez.
— Por Deus! Está insaciável! — ela o repreendeu pelo beijo, mesmo que estivesse de olhos fechados e completamente rendida se ele tentasse qualquer coisa.
— Só pensa coisa errada de minha pessoa, é só um carinho. — Catarina virou de frente a ele, o olhou nos olhos a encarando preocupado. — Ocê tava triste demais esses dias atrás, sofreu tanto sozinha que eu… eu só queria que ocê fosse feliz. Um tiquinho que seje.
Catarina sorriu para ele concordando com a cabeça. É claro que seus problemas não haviam sumido, mas era perfeito ter uma manhã inteira livre e poder jogar todos os problemas para debaixo do tapete.
— Você sempre foi o único que soube me fazer feliz em todos os aspectos. E me irritar em todos os aspectos também. Obrigada. — ela o agradeceu e o abraçou.
Ela bom ser cuidada por ele, era perfeito se sentir protegida e não mais sozinha. Ela poderia se considerar uma fraca em dizer que falhou em sua tentativa de vencer sem um homem em suas costas?
— Acha que eu falhei? — ela perguntou preocupada.
— Como assim? — acariciou as costas dela. Percebeu que ela não estava mais relaxada. Parecia tensa, como antes.
— Eu tentei lutar sozinha sem um homem por trás, mas falhei. Eu sempre precisei de você. Eu não consigo vencer sem você. — ela deixou que uma lágrima caísse de seus olhos e o apertou no abraço chateada.
— Oh meu favo de mel. — ele sentiu seu coração se apertar novamente em vê-la tão vulnerável em suas mãos. — Como eu queria que todo mal do mundo dos homens nunca mais atingisse ocê.
De repente ele lembrou do que havia pedido a Edmundo, se ele tivesse feito o que ele havia pedido, talvez pudesse logo colocar seu plano em prática e tentar deixá-la mais alegre.
— Eu preciso ir pra cidade trabalhá. — ele anunciou.
— Eu irei com você para a loja.
Logo estavam na cidade, Catarina não questionou quando ele foi buscar os filhos na escola, mesmo saindo meia hora mais cedo, precisava falar com Edmundo.
— …Olhe Petruchio, eu só mudei a estrutura para ser aceito num jornal, mantive as palavras dela, mas não vai ser fácil. — Edmundo entregou alguns papéis para o cunhado, além do caderninho de desabafo de Catarina.
— Por que?
— Eu duvido que algum jornal aceitaria um artigo de opinião de uma mulher como esse tão facilmente, você teria que ter contatos.
— Como assim contatos? — Petruchio passava os olhos rapidamente sobre o que Edmundo havia feito nos relatos de Catarina. Havia "transformado" todos em artigos para serem publicados em jornais. A parte mais difícil ele já havia arrumado, o resto seria fácil na imaginação de Petruchio.
— Precisa da ajuda de alguém influente, para publicá-los.
— Influente?
Petruchio voltou a questionar pensando em alguém influente no jornalismo, mesmo sua mente só mostrando um caminho. Precisava falar novamente com Serafim.
— Eu já sei o que vou fazê.
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Clara avisou ao pai que iria para a casa de sua madrinha aquela tarde, ele não questionou e deixou ela lá naquela tarde. Clara observou seus quadros organizados num cômodo vazio da casa de Bianca. Achou que tivesse mesmo algum futuro com eles, talvez conseguisse algum dinheiro.
Pegou o telefone de sua madrinha emprestado e discou o número do hotel que estava no seu casaco.
— Desejo falar com Muriel Durand. Sou Clara Batista Petruchio.
Marcela estava no bar do hotel, conversava ainda com Heitor quando recebeu a ligação da jovem.
— Oi, minha querida, achei que não iria me encontrar, estou quase partindo do Brasil.
— Peço desculpas, senhora Durand. Estive ocupada esses dias dando uns retoques nas pinturas. Não queria que ficassem com nenhum tipo de defeito.
— E então? Decidiu mostrá-las a mim? — Marcela fez uma voz curiosa do outro lado da linha.
— Posso levar uns dois quadros para a senhora nesta tarde no hotel? Se gostar, separo as outras pinturas.
Marcela sorriu do outro lado da linha.
— Estou ansiosa para recebê-la. Não irei sair do hotel hoje, só lhe aguardando.
Clara concordou com a cabeça.
— Então logo nos veremos. Até mais tarde senhora Durand.
— Até mais tarde, querida.
Marcela desligou o telefone, o sorriso de triunfo não saia de seu rosto, finalmente sua vingança estava se encaminhando. Mal podia esperar para colocar em prática quinze anos de ressentimentos à tona naquela tarde.
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