"...Seu grande vilão está dentro de você…" eram essas as palavras da mãe que lhe doíam mais. Era ela que havia idealizado seu pai, era ela que havia alimentado uma fantasia em sua cabeça, era ela que havia criado suposições e mais suposições do porquê seus pais se separaram, era ela que não entendia nada da vida aos quinze anos. Clara vagava pelas ruas de São Paulo sem saber para onde estava indo, seus olhos inundados de lágrimas, seu estômago revirando de dor e sua cabeça zonza. Demorou horas até reconhecer um caminho familiar que a levou a loja de laticínios do pai, para onde mais iria? Ela não tinha ninguém.

— Clara, ocê não ia dormir com sua mãe hoje? — Petruchio observou a filha entrar na loja desorientada, seus cabelos todos desgrenhados, seu olhar triste e abatido.

Clara não conseguiu lhe responder e ele não insistiu no assunto. Estavam fechando a loja para irem para a fazenda. Júnior percebeu o olhar vago da irmã ao subir na carroça, percebeu suas mãos trêmulas e como ela estava impassível. Clara nunca ficava calada, naquele dia ela nem reclamou dos buracos da estrada, não reclamou da lonjura da onde moravam nem do sol quente em sua testa.

Chegaram na sala e Neca perguntou se podia colocar o jantar na mesa.

— Pode sim Neca… — Petruchio autorizou e apontou para a filha. — Clara vai comer conosco também.

— Comi na casa de minha mãe, estou sem fome obrigada. — Clara respondeu sem encarar todos na sala que a olhavam surpreendidos pelo obrigada que ela nunca falava.

Calixto cutucou o patrão e deu dê ombros.

— O que aconteceu com sua filha seu Petruchio?

Petruchio abanou a cabeça e andou atrás de Clara. Ia entrar no quarto dela, mas parou na porta entreaberta e escutou ela se confessar para a galinha.

— ...Minha mãe tem razão Carijó, eu sou minha própria vilã. Eu imaginei meu pai diferente do que ele é e quando o conheci criei uma casca impedindo dele se aproximar de mim de verdade, fui preconceituosa, egoísta, imatura... — Clara fungou e Petruchio sentiu seu peito doer ao ouvir a confissão dela. — Pra mim era impossível ela ter se apaixonado por ele na época que moravam juntos aqui, por serem de classes diferentes, de criações diferentes, ele tão rústico e tradicional, ela rica e tão moderna. Ela me garantiu que não se separou dele porque não o amava, mas não me contou o real motivo, nem comigo implorando chorando desesperada na frente dela… — Mesmo chateado com Catarina, Petruchio sentiu seu coração bater mais rápido diante das palavras que a filha confessava a galinha. — Sinto que agora é tarde demais pra conhecer meu pai de verdade. Estou sozinha, só me resta você Carijó.

Petruchio abanou a cabeça e voltou para a cozinha, pegou um copo de suco de limão que Neca havia preparado. Pegou uma broa, fez um ovo frito com queijo da fazenda e colocou no pão. Com o prato em mãos foi bater na porta do quarto da filha.

— Ocê dá licença? Vim trazer um lanchinho pr'ocê. — Clara sentou-se na cama e passou a palma da mão correndo em suas bochechas limpando as lágrimas incessantes.

Ele colocou a bandeja na cômoda e sentou-se do lado de Clara na cama.

— Eu acho que a gente começou errado, não é? — Clara observava o pai sem saber o que lhe responder. — Ocê chegou e mudou sua vida tudo muito de repente, eu exigi que ocê ajudasse nas tarefas da fazenda como se fosse algo natural pr'ocê. Me desculpe.

Clara o observou ainda sem saber o que falar.

— Eu quero que ocê saiba que eu e sua mãe, ficamos inundados de felicidade quando descobrimo que ela tava grávida. O seu nome tem grande significado pra mim. Santa Clara sempre está protegendo minha família há muitas gerações e também era o nome de minha avozinha e mesmo que Catarina tenha escondido ocê de mim, eu sei que ela lembrou do dia em que eu pedi pra ela, que se fosse menina eu queria que o nome fosse Clara.

Clara mordeu seus lábios sentindo as lágrimas voltarem a encher seus olhos, mas o motivo era diferente desta vez.

— Ela escolheu meu nome, pensando no senhor? — precisava perguntar.

— Eu não sei… mas que outro motivo Catarina teria pra escolher Clara?

— Não faz sentido ela fugir daqui com uma filha sua e colocar o nome que lembrava o senhor. — Clara tentava racionar, mas Petruchio podia entender o motivo depois da noite de romance que tiveram semanas atrás, mesmo assim resolveu mudar o assunto.

— Ocê brigou com sua mãe hoje? — queria ouvir a filha.

— Como sempre, só que desta vez… — Clara suspirou sentindo seu coração se apertar. — Desta vez doeu muito.

— Ocê queria voltar a morar com ela? Não tá gostando daqui?

Clara encarou o pai e percebeu os olhos dele preocupados, não conseguiu responder, ela não conseguia mentir seus sentimentos.

— Ocê não tá sozinha, eu acho que a gente começou errado… Então prazer… Sou Julião Petruchio, dono de uma fazenda produtora de queijos, acima de tudo, sou um pai, um pai realizado por ter dois filhos sadios e espertos, que está com muita vontade de conhecer a filha que não sabia que tinha, mas que hoje já não se imagina viver sem, além de a conhecer, quer viver os momentos mais lindos ao lado dela, os momentos que até agora estão na imaginação. Eu sei que não sou um príncipe encantado, eu sei que ocê sonhou com um pai diferente, mas se ocê deixar, a gente pode começar a se conhecer agora, do jeito certo.

Ele esticou a mão para que ela apertasse em um acordo, mas Clara a ignorou emocionada e o abraçou forte, saiu dos braços dele e lhe deu um beijo na bochecha.

— Obrigada.

Petruchio sorriu limpando uma lágrima solitária que despencava de seus olhos e resgatou a bandeja.

— Fiz pr'ocê, não pode deixar de comer.

Clara aceitou o lanche e mordeu o sanduíche saboreando a iguaria que o pai havia feito. Era um novo passo no relacionamento de ambos e Clara se sentiu infinitamente bem no fim daquele dia. Petruchio percebeu naquela noite, que estavam ganhando uma intimidade nunca alcançada antes por causa da maneira errada que iniciaram o relacionamento deles. Era um passo gigantesco e ele não desperdiçaria aquilo.

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— Eu preciso conhecer vocês, então farão uma leitura a mim, não precisam ter vergonha. — Catarina estava com o coração pulando em sua garganta. Observava seus alunos em sua pequena sala de aula, eram somente três, mas o mais importante estava lá, no meio da sala, com a cabeça quase encostada na carteira de tão envergonhado que estava.

— Eu não aprendi a ler muito bem ainda. Me embaraço ao ler. — disse uma garota de aparentemente doze anos.

Catarina parou de olhar Júnior e se atentou a ela.

— Ler não é só decodificar códigos. Sei que todos aqui devem gostar de ler alguma coisa, nem que seja uma placa na rua, um nome gravado, uma marca famosa. Vamos fazer a leitura, cada um vai ler o que gosta.

Catarina começou com os outros dois antes do filho, o menino mais novo reconhecia algumas letras, mas não conseguia completar a leitura falando a palavra inteira. A garota caminhava melhor lendo silabando, ambos escolheram um poema. Júnior, porém, na sua vez de ler, optou por uma tipologia diferente do poema.

— Julião Júnior… — Catarina sentiu sua voz falhar quando se dirigiu ao filho. — Sua vez.

Ele olhou para ela, Catarina queria saber decifrar aquele olhar como conseguia quando olhava Clara, mas lhe faltava vivência com ele. Mesmo assim, sentiu que era um olhar permissivo.

— Eu gosto de cartas, dessa em específico… Posso ler pr'ocê? — ela concordou com a cabeça esperando. Júnior começou: — Meu filho, me perdoe. Eu te amo e te amei desde o primeiro dia em que descobri que estava grávida, você foi fruto do amor e desejado por mim e seu pai…— Catarina sentiu o mundo girar, precisou sentar em uma cadeira, respirava forte. Júnior a encarou, mas continuou a leitura. — Mas a vida nunca conta uma história da maneira certa, e nas nossas linhas tortas eu tive que partir para longe para me refazer. Seu pai será o melhor pai do mundo e nesse aspecto eu fico tranquila em saber que terá amor e uma educação de ouro, sei também que as pessoas que o cercam na fazenda te amarão como se eu estivesse ao seu lado.— Catarina sentia seus olhos se inundaram de lágrimas, mas tentava se manter firme diante dos outros alunos na sala a encarando. — Cuide de si, cuide de todos, cresça e seja feliz. Espero que um dia você entenda o que fiz, me perdoe e não guarde rancor em seu coração. Em minhas orações você sempre estará em primeiro lugar. Eu te amo no presente, nunca no passado. Catarina Batista, sua mãe"

Júnior terminou olhando para ela, Catarina não conseguiu controlar seu choro, mas falou.

— Você… leu… muito... bem… a carta… está… indo… bem… na… — Catarina tentando responder em meio aos engasgos de sua emoção.

— É uma carta que eu decorei, é de minha mãe… ela me abandonou, mas me deixou essa carta e um colar com a foto dela antes de partir. Leio ela todos os dias.

— As palavras ficam gravadas na eternidade de alguma maneira. — Catarina comentou um pouco mais calma. — Eu tenho certeza que as palavras de sua mãe são verdadeiras.

— Eu também. — Júnior confirmou abanando a cabeça evitando olhar para ela.

Catarina se levantou, enxugou seu rosto e tentou se manter firme para o resto das aulas. Era um começo e uma fagulha de esperança para ela, o filho se importava consigo e se agarraria nessa fé cega para enfim conseguir viver tudo o que não viveu com ele nesses anos todos.

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Júnior passou o resto do dia pensativo, não conseguiu nem interagir com Miguel e Elisa que conversavam animados no intervalo, quando o pai veio lhe buscar, ignorou o olhar da mãe sobre si, ela o acompanhava até chegar a carroça em que o pai esperava pelos filhos.

Catarina engoliu em seco vendo ambos subirem na carroça, Clara era ajudada por Petruchio já que as roupas justas, o salto e a falta de prática a impediam de realizar o ato sozinha. Tirou o medo de dentro de si e com a coragem que não sabia que tinha e chamou o ex-marido:

— Petruchio… precisamos conversar.

Petruchio ergueu seu olhar para Catarina e não conseguiu a responder. Diante do silêncio dele, Catarina insistiu.

— Você prometeu que ia me escutar, que ia conversar comigo.

— Prometi, prometi sim. — ele concordou com a cabeça encarando ela no alto da carroça, com as rédeas em sua mão. — Mas prometi que se eu falasse com ocê seria sem brigar. E não consigo agora.

Deixou que o cavalo partisse sem que desse tempo de Catarina o questionar mais. Clara olhou para o pai preocupada com o olhar triste que ele levava.

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Clara ficou preocupada com o pai, ele não conversou quase nada durante a tarde na loja e nem se importou quando ela e Júnior começaram a discutir por causa de qualquer motivo como sempre faziam. Já à noite, esperou que ele entrasse em seu quarto e foi o que ele fez. Era uma nova rotina para eles. Petruchio levava um leite quente, mostrando que se importava com ela e Clara aproveitava para ouvir o pai. Naquele dia ele parecia arrependido.

— Ocê desculpa eu ter feito ocê passar fome, foi muito errado, ainda bem que Neca me desobedeceu.

— Eu te desculpo se me perdoar por ter falado que minha mãe se separou do senhor por não serem nada parecidos, foi muito egoísmo de minha parte. — afinal ela entendia agora que eles haviam se amado, apesar de não fazer ideia do porquê se separaram.

Petruchio se lembrou de repente do porquê de ter mandado ela dormir no quarto sozinha, foi depois dessa fala dela, dessa constatação dela que ele expulsou-a no quarto.

— Pode dormir no meu quarto se ocê sentir medo.

Clara negou com a cabeça.

— Eu preciso crescer, como minha mãe disse, só tenho quinze anos e não sei nada da vida ainda. — ela deu dê ombros ainda saboreando o leite morno, Petruchio juntou as sobrancelhas tentando imaginar o que as duas haviam conversado no dia que ela havia chorado e ficado em silêncio tão abalada. — Mas agora começo a entender uma coisa, do porquê de minha mãe ter se apaixonado pelo senhor. — Petruchio estreitou os olhos curioso. — O senhor é íntegro, mamãe detesta gente que não seja íntegra e também carinhoso, acho que o único que conseguiu fazer ela parar de ser tão nervosa e na defensiva. Nunca nenhum outro homem conseguiu esse feito.

Ele suspirou um pouco aliviado.

— Ela nunca… nunca… — Petruchio não sabia como perguntar o que queria perguntar. — Nunca se interessou por nenhum homem na Europa?

— Minha mãe? — Clara deu uma risada de lado. — Espantava qualquer um que tentasse a cortejar, jogava vasos e mais vasos. — Petruchio deu um sorriso de lado ao ouvir sobre os vasos quebrados, Clara reparou feliz e continuou. — Ela dizia que era viúva de seu único amor verdadeiro. De certa forma agora entendo sua fala e a insistência dela dizer ser viúva. O único homem que ela amou na vida foi o senhor.

Clara observava ele tentando decifrar a expressão e os olhos brilhantes do pai.

— Não vai perdoar ela por ter me escondido do senhor esse tempo todo? — Petruchio pensou no que lhe responder, mas não conseguiu proferir nada. — Eu já te disse isso e posso afirmar agora depois de toda discussão que tive com ela nos últimos dias. Tem algo que ela precisa lhe dizer que só o senhor pode saber.

— Não é a primeira vez que escuto isso. — ele confessou, afinal Calixto vivia enchendo sua cabeça com esse assunto.

— E por que não conversa com ela? — Clara perguntou esticando o olho analisando a expressão do pai.

— Porque ainda dói. — ele confessou sincero a filha. Clara não podia julgá-lo, ainda doía todas as palavras da mãe a ela por isso a estava evitando na escola e não conversando com ela. — Bom, eu vou me recolher, boa noite.

Clara ergueu seu tronco e antes que o pai levantasse da cama dela lhe abraçou forte e lhe deu um beijo na bochecha.

— Boa noite pai.

Petruchio ainda não havia se acostumado a palavra pai saindo da boca dela e nem do carinho que recebia da filha, mas era seu acalento diário, como um vício, todas as noites precisava conversar com ela, ver se estava tudo bem e receber um abraço e um beijo de boa noite. Quinze anos de atraso estavam se esvaindo no ar diante da intimidade que estavam alcançando.

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— Catarina Batista, enfim te achei! — Jornalista Serafim viu a mulher saindo do apartamento no outro dia cedo, ficou sabendo pelos vizinhos que ela havia voltado a morar lá e era a chance perfeita para lhe confrontar.

Catarina o olhou com um olhar de poucos amigos e nem um pouco paciente. Resolveu andar em direção às escadas.

— Minha conversa com você é rápida. — avisou indo atrás da mulher.

— Pois irá falar sozinho, não quero ter nenhum tipo de diálogo com um covarde feito o senhor! — foi enfática.

Serafim andou mais rápido que ela e se postou na frente com um papel enfiado na frente de seus olhos.

— O valor do prejuízo que me causou!

Catarina ia voltar a o ignorar, mas ficou curiosa com o papel. Observou as promissórias de várias máquinas de escrever novas que ele havia comprado, alguns livros, armários para arquivos e até cadeiras novas. O valor escrito embaixo em letras garrafais.

"UM MIL CRUZEIROS a serem pagos no próximo mês".

— O que significa isso?! — olhou o jornalista com ódio.

— Sabe muito bem o que é isso… quando abri a porta da revista naquela segunda-feira percebi logo quem teria motivos para me prejudicar, quando olhei sua frase no vidro não restou dúvidas.

Catarina cerrou seus dentes e amassou o papel com o valor e as notas que levava em mãos.

— Ainda não sei do que está me acusando.

— Uma mulher à frente de seu tempo, só pode ser você considerando que escrevi um artigo sobre esse seu empoderamento.

— Uma matéria? Não leio matérias de pseudo jornalistas como o senhor. — Catarina largou o papel amassado no chão e começou a andar.

— Oras Catarina, não se faça de boba, sabe muito bem do que estou falando. E saiba que não vou sair de cima de você até me pagar o prejuízo que me causou.

Catarina parou de andar e respirou fundo tentando manter a calma.

— Sabe quanto é o salário de uma pobre professora como eu? Nem se eu juntasse o salário do meu ano inteiro conseguiria pagar. — afirmou.

— Até onde sei, seu pai continua rico e é banqueiro.

Catarina virou o rosto o encarando nervosa.

— Já não basta o golpe que deu em dona Dalva? O que quer de mim?! Não precisa do meu dinheiro!

— Eu quero justiça, por todo prejuízo que me causou. — Serafim tentou se manter firme.

— Bens materiais? E o prejuízo que você me causou? Me deixou longe de meus filhos! Fez Petruchio me odiar! — ela tinha uma voz fina e irônica.

— Eu? — ele apontou a si mesmo teatralmente. — Um grande admirador de como moderna você é, só quis que São Paulo soubesse e a maioria da população parasse com essas idéias todas retrógradas.

— Sabe muito bem que acabou com minha vida! Agora suma da minha frente! Antes que eu arrebente a sua cabeça como fiz com sua redação!

— Eu só quero que pague meu prejuízo. — Serafim não arredava o pé.

— Então prove que fui eu, prove! — Catarina o empurrou fazendo ele desequilibrar nos últimos degraus da escada. — Sorte sua eu não ter nenhum vaso!

Serafim sorriu, pelo menos tinha confirmado que havia sido ela que destruiu sua redação e também que sua pequena reportagem tinha causado o efeito esperado por ele. Afinal, Petruchio havia se separado dela definitivamente.

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— ...Hoje iremos escrever uma carta pessoal, ou para quem achar que é muito difícil, um bilhete… primeira coisa que devem saber é que uma carta pessoal não precisa ficar presa a padrões de linguagem, nem a estrutura correta, é mais os sentimentos dentro de vocês que é posto em jogo e essencial para o conteúdo… — Catarina explicava pra sua pequena sala de aula, olhava o filho por rabo de olho observando seus movimentos, ele apertava os dedos um no outro, parecia ansioso, foi quando ouviu a porta bater.

— Com licença… — um homem mostrou uma jovem ao seu lado. — Seu Edmundo pediu para trazê-la, mais uma aluna.

— Obrigada. — Catarina limitou-se a dizer reparando na jovem. — Como chama?

— Ana. Soube que a senhora está dando aula de reforço, estou mesmo precisando. — A jovem de cabelos negros e longos, respondeu sorrindo, tinha o rosto fino e os olhos esperançosos.

— Sente-se Ana, estávamos falando de cartas, vamos aprender a escrever uma carta pessoal e na próxima aula trarão ela para mim. Você tem quantos anos, sabe escrever?

— Tenho dezesseis anos, sei ler e escrever sim. Só preciso de um empurrão. De uma chance de me libertar.

— Libertar? — Catarina perguntou sem entender.

— Me expressei mal… me perdoe... de me encontrar na escrita. — Ana sentou-se numa cadeira vaga ao lado de Júnior que olhava para ela.

— Eu te conheço? — perguntou a ela.

— Você não me conhece, mas eu te conheço. — ela respondeu sorrindo para ele, logo virando o rosto para Catarina prestando atenção nela.

— Certo, então prestem atenção ao quadro negro. Vou ensinar vocês um exemplo de carta…

Catarina estava adorando seu emprego, parecia livre e dona de si mesma, não dependia mais do pai e nem de um marido, estava maravilhosamente bem, pelo menos profissionalmente. Mas não esquecia da filha que evitava olhá-la nos corredores e no filho, que apesar de estar conhecendo, ainda era uma incógnita, uma camada a ser descoberta. Ela ainda acreditava no tempo, que poderia curar as feridas e trazer ambos de volta para si.

Mas ainda existia Petruchio, que via todas as manhãs entregando os filhos e todo começo de tarde indo buscá-los.

— Eu queria marcar um jantar com você. — disse um dia quando viu ele descer da carroça a fim de ajudar Clara a subir o que não tinha conseguido mesmo depois de vários minutos tentando.

— Jantar? Pra quê? — ele perguntou evitando encará-la, ainda segurava a cintura de Clara e ela finalmente sentava no banco da carroça.

— Temos assuntos a tratar Petruchio, sabe muito bem disso. — ela estava perdendo a paciência com ele, todos os dias ele inventava uma desculpa para não conversar consigo e não encarar o passado.

— Pelo o que sei, ocê tem assuntos a tratar comigo, eu não tenho nada pra tratar com ocê.

— O que? Vai fingir que não temos nada para conversar?! — ela já estava gritando, observava ele dando a volta no cavalo e subindo pelo seu lado na carroça.

— Ocê deve de ter inventado desculpas e mais desculpas pelos quinze anos de mentiras e não tô com vontade de ouvir os seus rugidos.

Catarina fechou os dentes da frente nervosa, quase rugiu literalmente pela fala dele.

— Então por que prometeu uma conversa se nunca ia cumprir seu acordo?

— Acordo? Ocê não tá falando de acordo comigo não! E saiba que só fui te ver doente porque sua irmã… sim sua irmã… — ele apontou o dedo indicador em direção a ex-mulher. — Ficou me falando que eu devia isso pr'ocê já que quando fiquei doente na fazenda ocê cuidou de mim!

— Pois eu não precisava de sua misericórdia! Estou ótima sozinha! — ela gritou fazendo Clara estreitar os olhos, nunca tinha ouvido a voz da mãe tão fina e perplexa. Talvez fosse o efeito do pai que nunca havia presenciado.

— Pois eu tô melhor que ocê sozinho! Bem melhor! — Júnior sacudiu a cabeça descrente pelas palavras do pai.

— Estou amando ser divorciada! Amando minha liberdade financeira! Amando! — Catarina ergueu os braços no ar gritando, várias pessoas os observavam.

— Sempre foi o que sempre quis ter. Liberdade não é? Pois muito bem! Eu não te devo satisfação nenhuma de minha vida…

— ...E muito menos eu da minha já que somos divorciados. — Ela o cortou voltando a falar que eram separados, o que irritava Petruchio.

— Sim, divorciados, e mesmo assim ocê parece disposta a falar isso várias vezes, é para ocê acreditar nessas palavras ou eu?

— É para entender que não vou ficar indo atrás de você e lhe implorar para conversar se não quiser. Eu não tenho nada a perder! É você que devia estar vindo atrás de mim para ouvir uma explicação!

Petruchio começou a rir, sua risada sarcástica o que causou em Clara o efeito de arregalar os olhos já que parecia a sua própria risada.

— Mas ocê não tá batendo bem das ideia não Catarina, acha mesmo que vou atrás d'ocê depois de quinze anos de mentiras? Estou ótimo com meus filhos e com minha vida.

— Pois eu estou ótima também e completamente realizada! — ela berrou o confrontando.

— Ótimo! — ele ergueu as rédeas fazendo o cavalo andar.

— ÓTIMO! — Catarina berrou para que ele escutasse sua última palavra e querendo ainda se sobressair.

Ignorou as pessoas da rua que a observavam e voltou para dentro da escola indo procurar Filomena para irem embora juntas.

Clara e Júnior nunca haviam presenciado uma briga dos pais.

— Vocês sempre brigaram assim? — Clara não conseguiu controlar sua curiosidade.

— Bem pior, ela vivia me arremessando vasos. — confessou meio encabulado.

Clara abriu a boca surpresa com algumas ideias borbulhando em seu cérebro, seu irmão estava em silêncio no fundo da carroça pensando em tudo o que havia presenciado e da forma que conhecia a mãe, bem diferente da maneira explosiva que a viu a pouco.

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Serafim mexia com suas máquinas novas de escrever, eram bonitas e modernas, mais rápidas para digitação e estava contente em ter tido um motivo para trocar toda velharia que mantinha em sua redação. Foi quando um homem alto e atlético parou em sua frente.

— Quanto tempo jornalista Serafim. — Heitor disse o encarando. Serafim ergueu seus olhos, ficou surpreso com a pessoa parada à sua frente.

— Oras, quem é vivo sempre aparece. Anos que não o vejo…

— Quinze anos para ser mais exato. — Heitor ergueu o dedo no ar.

— Mas o que o traz aqui? Certamente não foi a saudade de ver a minha incrível pessoa. — Serafim apontou a si mesmo.

— A sua reportagem no jornal de dias atrás. É verdadeira? Catarina Batista está de volta ao Brasil? — foi direto ao ponto com ele.

— Não acredita? Pois confirme com seus próprios olhos, ela está morando nesse mesmo prédio. Posso lhe dar o número do apertamento. Tem algum assunto importante a tratar com ela? — Serafim ajeitou seus bigodes curioso tentando imaginar o que Heitor pretendia com ela.

— Não é de sua conta. Mas agradeço a informação. Passar bem! — Heitor saiu da redação da revista sem mais delongas.

Ele acreditava parcialmente nas palavras do jornalista, mas precisava ver com seus próprios olhos. Arranjaria um jeito de esbarrar acidentalmente com Catarina na porta de sua casa, tentaria parecer nada proposital e confirmaria tudo. Precisava daquela informação e precisava mais ainda confirmar com seus próprios olhos tudo o que havia lido para não repassar nenhuma informação errada.