Segunda chance
15 Capítulo 14
Petruchio não conseguiu dormir naquela noite, ficou pensando em Catarina, preocupado com as meias palavras que ela havia soltado para ele: “como se minha partida para a Europa fosse algo supérfluo, como se fosse uma regalia. Sendo que não foi. Eu nunca quis abandonar meu filho. Eu juro!”
Ficou pensando qual poderia ser o real motivo dela ter partido, ter decidido ir para a Europa sem o filho. Conseguia em partes entender o porquê dela dizer que partir sem o filho fora um ato altruísta, mas não conseguia encontrar a razão. E ela havia garantido que não era supérfluo.
Se ela não tivesse ido para a Europa para viver com seu dinheiro, no mundo moderno e fabuloso, por que ela partiu? Para fugir dele? Por que viver no mesmo país que ele lhe doía? Ela não tinha o perdoado por tudo o que fez, por seus planos e suas atitudes com Marcela.
Foi cedo tirar o leite das vacas e continuou a pensar em tudo, se ela tinha voltado para ficar e se tinha sonhado com seu beijo como ele durante a noite.
— O senhor tá é estranho. – Calixto comentou observando o patrão avoado, tirava leite, mas sua mira não ia em direção ao balde e sim no chão.
— Beijei Catarina ontem. – confessou cansado.
— Arriégua! Por isso que tá com um machucado na testa? Conseguiu matar a saudade dos vasos que ela lançava?
— Mais ou menos. – Petruchio não queria brigar com Calixto, queria que ele lhe escutasse e lhe ajudasse. – Ela retribuiu Calixto.
— Ela beijo o senhor de volta?! – perguntou espantado.
— Beijo Calixto, ficou molinha em meus braços, quentinha, cheirosa. Como se quinze anos não tivessem separado a gente.
— Mas então o senhor se acertou com dona Catarina? – perguntou ansioso.
— Não, ainda não. – ele abanou a cabeça lembrando de tudo. – Ela tava triste, chorando.
— Mas eu não tô entendendo, ela mentiu pro senhor que tava casada, no final foi tirar satisfação com ela e acabou beijando? Por fim tava tão confusa que acabou chorando? E ainda não entendi quando foi que dona Catarina te acertou o vaso na testa.
Petruchio queria desabafar, mas era tão difícil de explicar tudo que já estava perdendo a paciência com o amigo e confidente.
— Eu cheguei na casa de Bianca decidido a brigar com ela e saber a verdade se ela tava casada ou não, fui acertado com o vaso logo na entrada, então ela cuidou de mim, preocupada e eu me senti de volta a quinze anos no tempo, com ela me acertando e cuidando de mim como acontecia quando a gente brigava. Era sempre assim Calixto, tudo muito intenso e de repente ela se amolecia e eu sabia que queria ela bem.
Calixto estreitou os olhos observando o patrão.
— Tá pra nascer homem que gosta de sofrer feito o senhor. – Petruchio revirou os olhos. – Como ela acabou chorando?
— Ah minha culpa. – Petruchio confessou contando sobre a discussão que teve com ela naquele mesmo dia. — ...Eu exigi que ela ficasse longe de Júnior, que ela não tinha direito nenhum no filho.
— Mas de novo essa história? Como o senhor quer que uma mãe fique longe de seu filho?
— Eu tava bravo Calixto, tava bravo porque ela tinha ido ver ele escondida num disfarce. – se explicou tentando explicar mais a si mesmo. – Na verdade eu me arrependi, assim que descobri que ela não tava casada e senti ela em meus braços de novo. Eu me arrependi quando vi ela chorando triste. Não quero ela longe do Júnior.
Calixto sorriu dando um aperto de em seu ombro.
— Faz ela volta pra cá seu Petruchio, imagina essa fazenda com dona Catarina de novo?
— Ia ter muita gritaria e vaso jogado. – ele riu com o nariz imaginando.
— Ia ter por demais isso tudo. Mas ia ter felicidade também. Felicidade por demais. E Juninho ia ficar feliz por demais.
Petruchio estreitou os olhos pensando no passado, em todos os erros que haviam cometido com o filho, todos os anos perdidos.
— Será que é certo Calixto? Passar uma borracha? – perguntou realmente pedindo um conselho.
— Se é certo eu não sei não. Só sei que tudo o que faz bem e une a família não deve de ser de todo ruim.
Petruchio concordou com a cabeça e sorriu, ao mesmo tempo em que Júnior aparecia para ajudar.
— Tão trabalhando devagar hoje? – perguntou observando os baldes vazios.
— O que tá fazendo aqui filho? – Petruchio perguntou calmamente.
— Arriégua, vim ajudar. Como sempre faço. – respondeu como se fosse óbvio puxando um banco e um balde para si, encaminhando-se para sua vaca de estimação. – E aí Estrela, vai me dá uma porção de baldes cheios hoje né?
Petruchio ficou observando o filho trabalhar, todo atencioso e dedicado, tentou imaginar o que Catarina pensaria de sua criação, como ela reagiria ao conhecer todo seu esforço de criar um menino de bem. Sentiu-se orgulhoso e quis que ela o conhecesse.
— Filho, lembra o que conversamo ontem?
Ele piscou o olho para Calixto que entendeu que devia sair e deixá-los a sós.
— Sobre? – perguntou encarando o pai.
— Sua volta à escola de sua tia Bianca.
Júnior suspirou e desviou o olhar do pai.
— Prefiro ajudar o senhor.
— Mas dá pra fazer as duas coisas e estudo nunca é perda de tempo. – Petruchio se aproximou dele apertando seu ombro com as mãos. – Sua mãe ia gostar de saber que estudou. Que se formou um homem de bem, de alguma forma.
— Minha mãe? – Júnior o olhou curioso. O assunto proibido saindo da boca de seu pai soava estranho, mas bem-vindo.
— Sim, ela sempre priorizou o estudo. – falou pensando além, começou a lembrar das palavras de Bianca para ele no dia anterior. Na luta que ela travava para seu emprego, nela começando aquele dia na escola, sua vontade de ser independente e sair da casa do pai.
— Vou pensar pai… talvez outro dia eu vá…
Deixou o filho com seus pensamentos e sentia que precisava estar em outro lugar naquele dia tão especial para Catarina. Afinal ela começaria a trabalhar dando aula na escola de Edmundo. Se ela recomeçaria sua vida, por que ele não poderia participar?
XX
Catarina estava nervosa. Nunca tinha trabalhado fora, nunca havia recebido um salário. Mas também estava orgulhosa. Orgulhosa de si por estar dando um passo gigantesco e escrevendo seu próprio destino.
Mas ela também tinha medos, e depois do dia anterior com várias pessoas sendo misóginas com ela por ser apenas uma mulher separada em busca de um trabalho digno, ela resolveu evitar falatórios.
Esperou a filha entrar no banheiro para se trocar para ir à escola e pegou sua caixa de joias. Encontrou seu anel de casamento.
Analisou a joia alguns segundos em seu dedo. O nome de Petruchio gravado lá dentro atrelado a data da união. Colocou em seu dedo anelar esquerdo. Uma onda de energia a invadiu e ela se sentiu revigorada e pronta para enfrentar qualquer um.
Clara saiu do banheiro trocada com um vestido de festa amarelo. Catarina a olhou com os olhos estreitos.
— Que roupa é essa minha filha?
— Não dê palpites, quero estar elegante para meu primeiro dia de aula.
Catarina riu, e a filha rugiu nervosa em resposta. Ela e Clara viviam de alfinetadas.
— Está parecendo que vai para um baile de carnaval isso sim.
Clara deu dê ombros decidindo não brigar e foi se sentar para se maquiar.
Catarina resolveu pentear os longos cabelos negros da filha enquanto ela passava carmim nas faces.
— Vê se não exagere, está indo para a escola não para um baile sendo apresentada a sociedade paulistana. – a repreendeu.
— É impossível me fazer qualquer elogio não é mãe? “Está tão linda, minha filha”— Clara revirou os olhos enquanto escolhia um batom vermelho para passar nos lábios, ao mesmo tempo que Catarina tirava de suas mãos.
— Escola Clara! Escola!
A filha deu um sorriso amarelo à mãe e escolheu um batom mais claro.
— Precisamos definir algumas regras. – Clara levantou da onde estava sentada apontando o dedo para mãe.
— Claro, regras para você, minha filha!
— Não ande perto de mim, não fale comigo como filha, não quero que ninguém saiba que é minha mãe.
— Seria o que? Trágico? – Catarina arregalou os olhos como se temesse o que ela falava. – Não seja dramática como sua tia Bianca, Clara!
— Eu quero me sentir livre na escola e não vigiada por você! – cruzou os braços na frente do corpo.
— Pois eu tenho uma notícia para lhe dar caso não saiba nesses últimos quinze anos. Eu sou sua mãe, preciso te vigiar e podar algumas atitudes. – Clara bufou. – Além disso, te conheço, sei que está armando alguma coisa.
Clara colocou sua mão no peito indignada.
— Não disfarce! – Catarina a cortou antes que ela se defendesse. – Sei muito bem como é, foi criada por mim. Vou ficar a manhã toda de olho em você!
Catarina apontou o dedo indicador esquerdo e então ela reparou num detalhe.
— Está de aliança mamãe? Por que está de aliança? – Clara ergueu as sobrancelhas feliz sorrindo.
— Estou de aliança sim, e se quer saber estou me defendendo de possíveis problemas. – Catarina recolheu sua mão escondendo-as num braço cruzado.
— Voltou ontem toda corada, fugindo do assunto meu pai e agora coloca a aliança no dedo? – Clara não desistiria tão fácil.
— Vamos Clara! – Catarina começou a sair do quarto.
— Vou deixar você fugir, mas está diferente mãe!
Clara tentava não brigar com a mãe ao mesmo tempo que queria a despistar. É claro que precisaria da ajuda de Miguel.
— Preciso de você. – Sussurrou gritando para o melhor amigo quando chegaram nos arredores da escola de carro. Filomena estava junto, era o primeiro dia de trabalho de ambas.
Miguel engoliu em seco, estava evitando conversar com ela, seu coração ainda doía. E a mãe estava ao lado lhe vigiando.
— A-a-ainda e-e-está de casti-g-g-go… — Não era uma pergunta, mas sim uma constatação para que Clara respeitasse sua decisão de não falar com ela.
— Clara! Seu castigo inclui ficar longe de Miguel! – Catarina a repreendeu vendo ela andar rápido na frente e puxando Miguel pelo braço. – Não deixe ela te dobrar Miguel! — Catarina gritou desistindo de separar a filha do melhor amigo.
— Miguel está escutando dona Catarina?! – Filomena recomendou novamente. – Vou ir atrás deles Dona Catarina.
— Ah Filó, deixe eles, sei que ninguém consegue barrar minha filha. Nem eu mesma. Acredito que só Miguel conseguiria esse feito.
— Ele tinha que aprender a falar não para a Clara um pouco. Conversei bastante com ele esses dias. Mas conhece Miguel. – ela encolheu os ombros se desculpando.
— E você conhece Clara. – Catarina sorriu. – Não se preocupe.
— Mesmo assim vou ficar de olho neles nos arredores da escola. Qualquer movimentação diferente aviso a senhora.
— Obrigada. Você sempre me ajuda muito Filó.
— A senhora que é um anjo na minha vida Dona Catarina, sem a senhora eu não seria nada. Sem a senhora eu teria morrido de fome com meu filho em meus braços quando fui abandonada por meu pai.
—Anjo também é exagero. – ela segurou a mão da antiga babá de sua filha agradecida. – Aliás está proibida de sair de minha vida tão facilmente. Mais tarde lhe explico tudo.
— Está com planos dona Catarina?
— Sim, muitos bons planos. E estou feliz também com as oportunidades se abrindo em minha vida.
Filomena agradeceu toda a ajuda novamente e entrou na escola deixando-a sozinha por um momento admirando a entrada.
Catarina estava parada na calçada reparando na fachada da escola de Edmundo. A fachada dizia: Escola Luís Vaz de Camões. Sorriu lembrando-se dos dias em que seu cunhado vivia declamando poemas a sua irmã fazendo ela ficar bestificada e cada vez mais apaixonada. Por fim, depois de tantos empecilhos, estava feliz por Bianca ser feliz e completa em seu casamento.
Estava orgulhosa, pensando no passado, feliz e não se deu conta de uma carroça parando ao lado dela.
— Catarina. – Petruchio a chamou timidamente. Ela não fez menção em o escutar, ele ficou admirando ela parada olhando a fachada da escola de Edmundo, estava linda com um vestido social azul marinho e com seu habitual lenço com desenhos na mesma tonalidade na cabeça.
— Catarina… — sussurrou para si mesmo descendo da carroça escondendo um botão de rosa vermelha no bolso detrás da calça. – Catarina. – sorriu parado abanando a mão na frente de seus olhos.
A mulher levou um susto por ele estar lá na escola e arregalou os olhos.
— Petruchio o que faz aqui? – ao mesmo tempo que falou o nome do ex-marido lembrou-se de Clara e tapou a própria boca com a mão e começou a procurar com os olhos a filha pela escola, torceu para que ela não estivesse nos arredores, por sorte Clara era tão teimosa que uma hora daquelas já estava tramando algo para que Miguel fizesse por ela.
— Eu só vim desejar boa sorte pr’ocê em seu primeiro dia de trabalho.
— Tá já desejou! Agora pode ir embora! – ela começou a o empurrar em direção a carroça.
— Espera. – Petruchio retirou a rosa de seu bolso de trás da calça e entregou a Catarina. – Eu trouxe essa flor, pr’ocê.
Ele sorriu para ela e Catarina sentiu seu coração bater tão rápido e forte que momentaneamente ficou sem fala.
— Eu não sei se ocê lembra da última vez que lhe entreguei um botão de flor igual esse, foi o dia mais feliz da minha vida. E eu queria que esse dia se tornasse feliz e especial de alguma forma pr’ocê.
Catarina sentiu seus olhos começarem a se encherem de lágrimas. Esticou sua mão segurando a flor. Seus dedos tocaram levemente os dele, uma sensação nunca mais sentida que ela desejou sentir por mais tempo, prolongou seu segurar a rosa.
— Eu sei que é só uma flor, não é um maço. Mas é de coração.
Ela seguia com a boca entreaberta e sem fala. Piscou voltando a órbita e resgatou a flor para si, parando de tocar nos dedos dele.
— Obrigada.
Por um momento se imaginou indo de encontro aos lábios dele. Lhe agradecendo com atos e não palavras. Como da última vez que recebeu um botão de rosa de Petruchio.
— Agora já pode ir embora. Não quero ficar mal falada em meu primeiro dia de aula. – Ela voltou a o empurrar, lembrou-se da filha, que mesmo falando que não queria ser vista perto dela na escola, tinha medo de Clara a qualquer momento retornar. Tudo se tornaria um escândalo.
Petruchio queria mais que um obrigada dela, talvez um abraço de agradecimento, um beijo seria sonhar demais, mas ao mesmo tempo que era empurrado por ela com suas duas mãos ele reparou na aliança brilhando na mão esquerda dela.
— Ocê tá de aliança Catarina?
Ela parou de o empurrar e escondeu sua mão em suas costas.
— Não vá pensando besteira, eu só preciso me defender.
— Essa aliança é do nosso casamento?
— Nunca mais me casei de novo Julião Petruchio, não pretendo passar por essa experiência espantosa duas vezes. – Ela cruzou os braços na frente do corpo. – É claro que é do nosso casamento.
Petruchio sorriu sentindo-se feliz, era como se ela tivesse confirmando que jamais o esqueceu.
— Eu sempre ando com a minha também.
Ele mostrou seus dedos a ela e a aliança que ela havia escolhido e medido para o dedo dele ainda estava lá, toda gasta e sem brilho, mas ainda estava lá. O resultado de mais de quinze anos de casamento, o que teria acontecido consigo se por um acaso tivesse continuado a usar a aliança durante todo aquele tempo.
— Mentir sobre ainda estar casado com ocê ajuda. – ele prosseguiu. – Ajuda a mim e nosso filho.
— Nosso filho? Nosso. – sua boca se encheu ao falar nosso.
— Ocê disse que só usa para se defender? – ele perguntou torcendo para que ela se abrisse com ele, de alguma maneira.
— As pessoas são más Petruchio com uma mulher separada. Percebi isso ontem. Até então, na Europa eu não precisava dizer que era separada. Mas aqui, eles sabem. Mulher separada é sinônimo de mulher da vida.
Não sabia ao certo porque estava se abrindo com Petruchio. Mas lá estava ela, com seu coração aberto, conversando com ele, pedindo seu apoio e socorro, como se não tivesse passado nenhum dia, como se não tivesse mentido e escondido tantas verdades a ele.
— Fizeram algum mal pr’ocê? Me diga se fizeram algum mal, que arrebento a cara do sujeito. – Ele ergueu os punhos no ar.
— Não aconteceu nada, eu posso me defender sozinha, eu posso viver sozinha.
— Nunca disse que ocê não podia viver sozinha, eu só quero que saiba que me preocupo com ocê meu favo de mel.
O coração de Catarina parou de bater por um instante diante do apelido carinhoso que Petruchio mantinha para si depois de tantos anos. Sentiu-se uma fraude, toda sua compostura dura se esvaiu no ar diante do apelido.
— Não me chame de... – ela engoliu sua própria saliva, não conseguiu completar a frase.
— Saiu sem querer, mas se ocê não quiser eu não chamo ocê de favo de mel, nunca mais. Meu favo de mel.
— Pois eu não quero. – ela negou automaticamente com a cabeça.
Sentia-se uma jovem na flor da idade tendo seu coração acelerado, o frio na barriga, a garganta seca e sem fala. Todos os dilemas dos adolescentes e as reações corporais em si. A Catarina dura e sem sentimentos era uma fraude.
— Então eu me vou... Mas a tarde a gente se vê. – ele tirou seu chapéu da cabeça em despedida.
— A tarde? – perguntou a ele tentando entender sua fala.
— Ocê vai saber meu favo de mel. Ocê vai saber. – ele lhe lançou uma piscadela que a fez dar um passo para trás. – Têm a ver com a aliança. Não quero deixar ocê desamparada.
Podia e queria gritar que não estava desamparada, mas não teve forças, deixou que fosse embora e deu graças aos céus por Clara não estar ao redor e não ter aparecido de repente.
xx
— Qual o seu problema Miguel?! – Clara chegou perto do melhor amigo e lhe deu um beliscão, quando percebeu que ele não a atenderia.
— Ca-a-a-ramba C-C-lara! Do-o-o-eu. – ele começou a massagear o lugar que ela havia o beliscado, finalmente dando a atenção a garota.
— Só assim para você falar comigo não é?! O que aconteceu afinal?! – Ela berrou indignada com tantos nãos e viradas de rosto que vinha recebendo dele.
— N-n-n-não acon-n-te-e-eceu nada, es-s-s-tou apenas o-o-obede-e-ecendo mi-i-i-nha mã-e-e.
— Mas você sempre a desobedeceu quando era por minha causa! Sempre! Se esqueceu que me cobria quando eu fazia alguma coisa na escola e não queria que minha mãe soubesse?!
— É di-i-i-feren-n-te.
— Como pode ser diferente?! Só ia pedir para me cobrir aqui na escola. Preciso ir atrás do meu irmão, para chegar até meu pai. Como isso pode ser diferente?!
— É di-i-i-feren-n-te porq-q-que sua mãe tra-a-ba-a-alha aqui a-a-agora. E nã-o-o que-e-ro que a mi-i-i-nha se-e-e-ja de-e-e-mitida. A-a-aliás eu te-e-e-nho certe-e-eza que a mi-i-i-nha i-i-rá fi-i-i-icar de o-o-olho em nós tra-a-ba-a-alhando na es-s-s-scola.
Miguel parecia outra pessoa. Estava seguro de si enquanto falava, apesar da gagueira. Clara estranhou.
— Quem é você e o que fez com meu melhor amigo?!
— Vo-o-ocê nem re-e-e-parou na es-s-s-scola, fi-i-i-ica o tempo to-o-odo pensa-a-ando em a-a-a-char seu pai.
— Quer coisa mais importante que isso na minha vida?! Eu tenho um drama para resolver! – ela se justificava, ao mesmo tempo em que implorava por ajuda. Nunca tinha feito nada sozinha antes. Era sempre Miguel que a ajudava, em todos os momentos. Ela era o cérebro e ele a ação. Às vezes ele era a ação e o cérebro.
— V-v-ou pra bi-i-ibliote-e-eca.
Miguel começou a andar para longe dela deixando-a chamando por ele. Precisava respirar um pouco antes de ir para as aulas e sabia quem o ajudaria. E ela estava especialmente bonita naquela manhã. Com um vestido simples, seus cabelos marrons em trança e um sorriso que iluminava seus olhos pretos.
Elisa era filha da bibliotecária, trabalhava com a mãe e lhe ajudava em casa, no período da manhã ganhava uma bolsa nas aulas e no período da tarde limpava todos os livros e ajudava a catalogar e organizar tudo nas prateleiras.
Foi ela a primeira pessoa que se aproximou dele sem medo ou rindo de si lhe caçoando porque gaguejava, foi ela que sentou-se do lado na hora do recreio e lhe falou que tinha um livro na biblioteca que poderia o ajudar a aliviar o estresse e a ansiedade e que poderia ser essencial para amenizar sua gagueira.
— Este livro te ensina técnicas de respiração para momentos de crise de ansiedade e também tem alguns exercícios que pode te ajudar na sua gagueira. – ela lhe entregou numa manhã naquela primeira semana de aula. Mostrou que dava atenção para si. Mostrou que prestou atenção no que ele era por ser simplesmente ele, não por interesse. – Meu nome é Elisa. Prazer.
Desde então ele não conseguia mais sair da biblioteca.
— Bom dia Elisa. – chegou perto dela lhe cumprimentando.
— Miguel você falou sem gaguejar! – ela chegou perto do amigo feliz. – Está evoluindo tanto.
Miguel não sabia porque, mas se sentia mais forte e seguro de si do lado dela, ela acrescentava e não o menosprezava. Era como ser um novo Miguel. A melhor versão de si.
XX
Catarina estava encantada com a escola, por todos os lugares que passava observava alunos trabalhando. Nenhum professor havia faltado naquele dia, então Edmundo pôde mostrar o prédio, tinham construído salas, quadras para praticarem esportes e um pátio aberto para os alunos poderem declamar poesias ao ar livre, pintarem quadros ou só descansarem na sombra de algumas árvores.
— É tudo tão encantador Edmundo, vocês estão de parabéns. E eu quero agradecer muito a oportunidade que está me dando com esse trabalho. A mim e a Filomena.
— Aposto que você têm muito a acrescentar aos alunos Catarina. – ele sorriu para a cunhada. Tentou arranjar uma maneira adequada de lhe dizer o que precisava lhe dizer, mas não sabia como. Então soltou tudo de uma vez. – Você sabe que meus alunos pagam a mensalidade.
— Claro que sei... Mas ainda não tenho condições de pagar a da Clara, Edmundo. Assim que eu...
— Não precisa, eu reservo algumas vagas para bolsas de estudo. Seus filhos sempre terão essas vagas garantidas Catarina. Mas é que minha clientela é elitizada e você entende que eles reparam em tudo.
Catarina estreitou os olhos não entendendo nada do que ele dizia.
— Você entende, que como mulher separada, as pessoas reparam... E...
— Reparam? – Edmundo deu um passo para trás com real medo da cunhada. Catarina suspirou cansada, entendeu tudo, entendia tudo. – Eu sei Edmundo. Por mais que eu queira que as pessoas me respeitem, que elas entendam que eu sou uma pessoa como qualquer outra mesmo separada, sei que os preconceitos existem. Coloquei minha aliança hoje para vir trabalhar. Evitar falatório e para me proteger, e proteger meus filhos.
Ela esticou seu dedo anelar na altura dos olhos dele. Edmundo se sentiu culpado.
— Deve ser difícil para você toda essa situação.
— Ontem levei um balde d’água no rosto e acordei. Por mais que queria lutar, sozinha eu não consigo. Estou fazendo meu sacrifício em nome de meus filhos e só deles.
Catarina sabia que tinha muitas lutas para desbravar até ganhar aquela guerra que travava todos os dias. Inclusive uma certa casa que queria alugar.
Deixou Clara na casa de seu pai emburrada naquele dia. Ela não estava falando com Miguel e nem lhe contradizendo, decidiu investigar o que estava acontecendo mais tarde. Porém pediu para Cosme a levar para a casa de chá, onde havia combinado de se encontrar com Dalva depois da manhã de trabalho para ver algumas casas.
— Boa tarde Catarina, agora você trabalha, só pode vir a tarde. – Jornalista Serafim a recebeu com um sorriso falso nos lábios.
— Ao contrário de você que não trabalha não é?
Catarina não estava com a menor paciência para lidar com os comentários ácidos e interesseiros de Serafim. Mal o cumprimentou e foi logo o alfinetando.
— Pois vim prestar minha ajuda. Uma mulher sozinha andando de casa em casa, com corretores homens, certamente lhe passarão a perna.
— Está me ofendendo meu marido. Catarina irá alugar uma casa minha. – Dalva reclamou para Serafim.
— Sim, mas diante de tantas casas que temos, não conseguimos lidar com vários problemas. Por isso um homem como eu é de estrema importância para essas andanças.
Catarina queria pegar o açucareiro em cima da mesa e jogar nos cabelos castanhos dele. Foi quando sua surpresa da tarde chegou. Petruchio se postou ao seu lado e segurou sua mão fazendo-a pousar em cima de seu braço.
— Pois muito bem. Eu vim ajudar meu favo de mel a escolher sua casa. E sou homem, o que elimina a utilidade d’ocê nesse passeio.
— O que está fazendo aqui?! – Catarina o olhou brava, porém achou bem conveniente ele aparecer, pois assim Serafim largava de seu pé.
— Conversei com sua irmã, ela me disse onde ocê ia tá. Achei que tava tudo bem eu tentar te ajudar. – Petruchio sussurrou olhando-a nos olhos. Estava com o rosto tão perto do dela, tão perto, que Catarina perdia o fôlego só de olhá-lo.
Só por essa razão e as várias circunstâncias estranhas a fizeram concordar rápido demais e deixar claro para Serafim:
— Sim, Petruchio veio me ajudar.
Não fez menção de tirar sua mão do braço dele e nem de impedir ele de lhe chamar de favo de mel. Estava feliz sendo cuidada pelo único homem que amou em toda sua vida novamente. Aquela tarde seria longa, mas menos penosa se tivesse Petruchio ao seu lado.
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