Segunda chance

4 4. Tic, tac. Tic, tac. O tempo voa


Notas iniciais
A saudade é a morte aos poucos, que te faz ressuscitar no último suspiro de um reencontro. Stéfano Avelino

~

Mais um longo mês havia se passado. E a vida de Pepper, assim com seu apartamento, estava em constante mudança.

A primeira mudança que ela sentiu foi às faltas dos enjoos e tonturas, fato que ela comemorou com muito entusiasmo.

A segunda mudança foi o fato de que a partir daquele terceiro mês ela estava muito mais saudável, comendo bastante verduras e cereais e comendo até seis refeições ao dia.

E a terceira e brusca mudança é que ela se sentia linda. Não que Pepper não fosse bonita antes, mas agora, ela se sentia especial. Carregava vida dentro de si, sentia aquela áurea encantada, e conseguia ver pelo espelho que seus cabelos estavam mais sedosos e lisos. Ela se sentia bem consigo mesma.

— Você está bem? – Era a terceira vez que Vega fazia aquela pergunta e mesmo Pepper amando a amiga, ela sentia vontade de lhe dar um enorme soco no nariz.

Mas, a única coisa que ela fez foi revirar os olhos.

— Estou te incomodando? – Ela perguntou rindo e enganchando seu braço no de Pepper, enquanto ambas passeavam pelo shopping.

— Um pouco, eu juro. Se eu sentir alguma coisa paramos e descansamos um pouco, tudo bem? – Ela disse já indo em direção ao uma loja de sapatos.

— Tudo bem Ginny, mas é que você é muito teimosa. – Vega parou durante alguns poucos segundos e quando Pepper voltou-se para o rosto da amiga, ela estava com os olhos fixos para uma loja de bebês. – Nó precisamos entrar. Por favor, vem Gin. – Pepper olhou novamente para a loja de sapatos e depois para a loja infantil. Ainda era muito cedo para se comprar algo para o bebê.

— O que vamos fazer? Eu nem ao menos sei o sexo do bebê. – Ela disse carrancuda apontando para a barriga ainda lisa. – Ainda estou de três meses.

— Não me interessa, eu só quero comprar algo simbólico para o bebê, afinal, menina ou menino, eu serei a madrinha, não é? – Ela disse alcançando Pepper e a levando pela mão até a loja colorida e infantil do outro lado do grande salão.

— Quem disse? – Pepper perguntou assim que adentrou a loja e se voltou para Vega.

— Você me prometeu, quando tínhamos 13 anos – Ela segurou em frente ao rosto um body amarelo e sorriu afetada para Pepper. – Combinamos que seriamos madrinhas dos filhos uma da outra.

— Então, porque você não tem um bebê também? – Pepper perguntou enquanto depositava toda a sua atenção para o macacão mais lindo do mundo, todo em vermelho, com detalhes em amarelo.

— Porque eu já vou te ajudar a cuidar do seu bebê. – Ela disse sorrindo e trazendo consigo, o body amarelo e um casaquinho de lã rosa. – O que você está fazendo, ein?

Pepper se assustou.

— Nada.

— Nada? Eu sabia! Pepper, por um acaso você já sabe o sexo do bebê?

— Você sabe que não, minha consulta está marcada apenas para a semana que vem.

— Caramba, mulher. – Ela disse apontando para as mãos de Pepper e a sua própria – Nós só pensamos em coisinhas de meninas.

— Não é verdade. Estou aberta as duas opções.

Mais uma vez, Vega apontou para o macacãozinho vermelho nas mãos da ruiva.

— O que você quer dizer com isso?

— Eu? Absolutamente nada. Mas não vou esconder a minha preferência por uma menina, se nem a mãe está.

— Vega, você está louca. – Vega Salgara riu da expressão de culpa de Pepper. Aos 33 anos, era uma mulher aberta as opções que a vida lhe dava. Conhecera Pep quando ambas ainda eram duas crianças, e tiveram que se afastar quando os pais de Pepper faleceram e ela teve que morar com os tios na Califórnia, sem nunca perderem o contato, se reencontraram novamente na faculdade e desde lá, nunca mais de desgrudaram.

— Eu não vou cair naquele papo do “O que vier é lucro”. – A morena rebateu voltando a sua atenção a pequenas peças de roupas.

— E se for um menino?

— O que não vai ser o caso...

Pepper revirou os olhos de novo.

— Mas e se for...

— Podemos trocar todas essas roupinhas que escolhemos por cores azuis, verdes e brancas e nunca falaremos disso com mais ninguém.

— Você promete?

— Eu prometo.

— Moça? – Pepper chamou a vendedora. – Você pode pegar aquele macacãozinho na cor violeta para mim?

O quarto mês chegou trazendo realmente muitas mudanças para Pepper. O trabalho na empresa havia aumentado consideravelmente e Obadiah era o representando legal das Industrias Stark.

Seu trabalho era tão frustrante que quando Pepper chegava em casa, tudo o que ela era capaz de fazer era tomar um banho e deitar, mania que foi rapidamente descartada e motivo de muitos “puxões de orelha” da obstreta, Drª Margareth.

Pepper estava exatamente igual a antes de engravidar, ainda muito magra, a pequena bolinha que se formava em sua barriga só era perceptível em Pepper se ela estivesse nua, em casa.

Vega não a deixava em paz. Ambas morando agora no mesmo prédio, facilitava 99% a vida de Vega para que a morena atormentasse Pepper referente aos seus remédios e vitaminas, e aos poucos o quarto no fim do corredor ganhava a atenção de Pepper.

— Você tem certeza que Alex ainda não chutou? – Pepper se afastou do notebook e meneou a cabeça negativamente para Vega que tinha um grosso livro em uma de suas mãos e na outra um enorme pedaço de pizza.

— Da onde você tirou esse nome?

— Você ainda não pensou com carinho no nome Alex?

— Pensei. Pensei muito e já tinha te falado que meu bebê não se chamaria Alex por mil motivos.

— Certo. Me de um. – Ela disse tomando um longo gole de sua cerveja.

— Hmm. Deixe-me pensar. Que tal pelo motivo de eu não gostar?

— Você é muito chata, Gin. – Ela terminou de comer a pizza e tomar sua cerveja, levou os pratos e os copos até a cozinha e voltou para a sala. – Estou indo embora, daqui a pouco minha série começa.

— Ei. Você pode assistir “America’s Next Top Model” aqui em casa também.

— Posso, mais não quero. Você fica toda a hora me perguntando sobre alguma das competidoras e sendo assim, eu não consigo prestar atenção ao capítulo. Fazemos assim, você precisa descansar, amanhã eu volto. Tive algumas ideias interessantes para o quarto do bebê. Amanhã te trago um esboço. – Ela disse se aproximando de Pepper e abraçando a amiga.

— Já te disse o quanto eu amo você?

— Você está apenas se aproveitando da minha posição de design para arrumar o quarto de Alex.- Ante a expressão enfurecida de Pepper, Vega riu. – Te amo.

A sala da exigente e organizada Virgínia Potts estava um caos. Havia dezenas de livros e minúsculas peças de roupas espalhadas por todo o sofá. Embalagens de chupetas e mamadeiras, pequenos sapatinhos e toalhas para se bordar no outro e uma odiosa necessidade de tomar sorvete que Pepper não conseguia mais ignorar.

Vestiu rapidamente sua calça jeans que ficou um pouco apertada na barriga e uma blusa e saiu porta afora a procura do mercado mais próximo.

Quando voltou 2 horas depois, repleta de sacolas do supermercado e com um pequeno vira latas nos braços, Pepper viu que a secretária eletrônica apitava.

Estava cansada demais para ouvir Vega, e ainda precisava cuidar do pequeno cachorro que havia encontrado na rua.

Foi até a cozinha ainda com o cachorro no colo e deixou as sacolas lá.

Depois de meia hora, tempo o suficiente em que o cachorro já estava alimentado, limpo e seco. Pepper decidiu que era hora de tomar banho também. Colocou o pequeno na área de serviço e correu até seu quarto para tirar suas peças de roupas.

Quando Pepper ainda estava no banho, seu telefone tocou novamente. Ela continuou não se preocupando. Desceu para a sala cerca de 40 minutos depois, usando uma calça fina de pijamas contendo nuvens brancas e uma blusa de alcinha rosa, seus cabelos vermelhos estavam secos e limpos e Pepper trazia um livro consigo.

Pegou o vira-latas e começou a fazer carinho nele. Amanhã levaria o “Senhor botinhas” para o veterinário, mas pelo o que Pepper podia ver, o cachorrinho era filhote e machinho, de pelos pretos lisos e com as patinhas de branco, Pepper havia rido ao pensar no apelido carinhoso para o pequeno animal. Ele era bem pequeno, e não devia ter mais de 2 meses. Os olhinhos eram da cor de mel e as orelhinhas nem ao menos ficavam levantadas. Ele era perfeito. Perfeito para ser o companheiro do bebê.

Pensar no bebê fazia Pepper pensar em Harry. Pensar que ele poderia estar ali ao seu lado agora, a ajudando a preparar o quarto do filho deles, a pintar as paredes do quarto, a comprar e montar o pequeno berço. Pensar em Harry fazia Pepper querer chorar.

Porque a felicidade era uma tão difícil para ela? Primeiro os pais faleceram quando Pepper ainda tinha 11 anos, indo morar em outro lugar com os tios, que a deixaram com os avós quando, Luise, sua tia, engravidara, alegando que seria demais cuidar de duas crianças. Depois os avós, Adriane e Paul eram os melhores avós que uma menina poderia ter, e entretanto, faleceram quando ela mais precisava deles. Aos 17 anos, Pepper se via entrando para o programa de adoções. Claro que ninguém quis uma moça já adulta para se adotar e Pepper viveu durante um ano todo num orfanato. Quando completou 18 anos, ingressava para a faculdade e tudo começou a finalmente dar certo para a ruiva.

No primeiro ano da faculdade de administração, durante uma festa no campus, Pepper conheceu Harry. E se apaixonou. E durante os últimos 9 anos tudo foram mágico.

Porque não seria agora? Com a última centelha da vida do homem que Pepper amou tão desesperadamente dentro de si?

Deslizando uma mão suavemente sob a barriga e a outra acariciando os pelos do “Senhor botinhas”, Pepper sentiu seus pensamentos fugirem para uma outra dimensão. Sua criança, como seria? Teria os cabelos castanhos e cacheados de Harry ou os seus lisos e avermelhados? E seus olhos? Seriam azuis como os seus ou verdes como do pai? Teria covinhas quando sorrisse? Como seria a personalidade do bebê? Seria calmo e organizado como Pepper ou seria extrovertido e risonho como o pai? Eram tantas as possibilidades.

Suas mãos continuavam calmamente espalmadas sob sua barriga ainda muito pouco proeminente quando atendeu o telefone despreocupada.

— Alô?

Pep?

— Rhodey? Al-Alguma notícia?

Pep, estamos com ele aqui. Pepper, encontramos Tony!— o grito animado de Rhodey aqueceu o coração desesperado de Pepper.

— Ele esta bem?

Houve alguns segundos de silêncio e excitação e então a voz de Tony soou alta através do telefone.

Pep, carinho?

Antes que Pep pudesse dizer alguma coisa, muitas coisas aconteceram num curto espaço de tempo.

Pepper sentiu uma lágrima deslizar pela sua bochecha até chegar na sua boca.

Tony continuava a falar de forma exasperada e alegre do outro lado da linha.

E seu filho se manifestara dentro de si.

— Tony?

Está tudo bem?— Ela continuava a chorar, sua mão pressionada ainda mais fortemente sob seu ventre estendido. Ela sentia, dentro de si, seu bebê, o fruto do seu grande amor me mexer. Algo como se um peixe estivesse dentro de si, se movimentando em seu limitado aquário. Ela queria poder compartilhar aquilo com alguém.

— Eu é que deveria estar fazendo essa pergunta para você.

Ele riu.

Estou bem, carinho. Sinto saudades. Pronta para voltar ao trabalho?

— Pode apostar que eu não estava descansando enquanto você estava desaparecido.

Posso acreditar que não.

Ela riu.

— Senti saudades.

Eu sei que sim, carinho.— Antes que pudesse falar sobre mais alguma coisa. Pepper ouviu a voz de Rhodey. – Ah sim, tudo bem. Pep? Preciso desligar agora, amanhã, às 11h eu chego ao aeroporto. Espero encontrar minha assistente pessoal lá.

— Isto é tudo Sr Stark.

Sim. Sim, isto é tudo Srta Potts.

Aquele sem dúvidas era um dos dias mais felizes da vida de Pepper.

Notas finais
Na minha cabeça Vega é a Sofia Vergara: http://media1.popsugar-assets.com/files/2013/01/01/5/192/1922398/4c9bd02f8224ddf3_Sofia_Vergara.xxxlarge_2.jpg