Um dia antes do bombardeio da Rua Himmel, Liesel e Rudy decidiram roubar algumas frutas de uma grande fazenda. Estavam lá, os dois, sentados à margem do rio Amper, com o sumo da maçã sujando-lhes os dedos e escorrendo pelos cantos da boca.

A conversa era calma, banal. Coisas sobre as que amigos conversam normalmente. Comentavam sobre a guerra, sobre a volta de Hans e com suposições esperançosas sobre Alex Steiner. Naquele momento, eles eram apenas... eles. Dois jovens alemães na flor da idade conversando na margem de um rio sobre coisas da vida. Sem pensar no futuro. Sem se preocupar.

• Eles não sabiam de nada. •

Então, a conversa passou a mudar lentamente de rumo. Um desvio pequeno em algumas palavras, e o assunto da guerra havia sumido, e Rudy silenciara-se, como quase nunca fazia.

– Você está mortalmente calado, arschloch. – Liesel notou, um sorriso no canto dos lábios.

– Só estou pensando, sausmensch. – Rudy Steiner desconversou, puxando os cabelos cor de limão para trás como se quisesse arrancá-los.

– Pode dividir os seus pensamentos comigo, saukerl? – insistiu Liesel.

– Você iria dizer não. – ele murmurou.

Liesel já entendera tudo. – O que te dá tanta certeza sobre isso?

– Toda vez é isso, Memimger. Sempre.

Liesel não saberia o que iria responder caso ele perguntasse dessa vez. Por algum tempo, ela começara a sentir-se diferente sobre ele. Seu coração acelerava às vezes quando ficava perto dele. Ela sentia falta dos Que tal um beijo, sausmensch? que ele à perguntava antes. Ela chorou sem que ninguém visse somente quando pensou que ele pudesse ir para a guerra.

Ele não poderia ser o seu Johnny. Ele era Rudy, seu Rudy.

– Eu também estive pensando, Rudy. – Liesel começou. – Eu... eu tenho pensado. Se você tivesse dito há mais tempo aquela clássica frase de me pedir um beijo, eu talvez tivesse dito sim. Eu diria sim agora.

Os olhos azuis de Rudy estavam estreitados com um pouco de desconfiança, mas ela também reconheceu lá uma pequena esperança. – Que tal um beijo, sausmensch? – ele finalmente perguntou.

– Hoje é o seu dia de sorte, Steiner.

E então, ela o beijou. Um leve toque de lábios, um calor dos pés à cabeça.

– Parece um sonho. Eu morri?

Ela riu. – Você está bem vivo, Steiner. – E o beijou novamente. E novamente. Até que teve que retornar para sua casa.

Mais tarde, depois do bombardeio, Rudy viu como Liesel havia ficado. Ela viu o exato momento em que ela beijava os seu lábios, agora poeirentos, mesmo que a morte estivesse impaciente atrás de si, dizendo suavemente que tinha mais trabalho.

Ele quis abraçá-la, quis muito. Seguiu andando em sua direção, as mãos estendidas em busca de tocar a sua pele alva e suave, mas não conseguiu tocá-la.

– Você está triste, sausmensch. Não fique assim por mim, você tem uma lembrança para se agarrar. – ele murmurou, mesmo sabendo que o seu primeiro amor, o seu grande amor, não o ouviria. – Alles wird gut. Glücklich sein. – Tudo vai ficar bem. Seja feliz. – Porquê você está bem viva, Memimger.

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