Segunda Rodada

1 O Assassino da Rua XXIII


Notas iniciais
A historia já foi postada no Wattpad, com isso, sem mais delongas, seguimos com o capítulo! Espero que gostem!

EPÍGRAFE

"E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados por aqueles que não podiam escutar a música."

— Friedrich Nietzsch -

CAPÍTULO I

O ASSASSINO DA RUA XXII

Will me passou um par de luvas cirúrgicas, um sorriso desagradável brincava em seus lábios, seus olhos eram desafiantes, como se dissessem "Vamos lá, desista e ponha seu café da manhã para fora", mas felizmente eu era teimosa o suficiente para não o dar aquela pequena vitoria. Por outro lado, o retribui com um sorriso desgostoso, voltei meus olhos para o cadáver semi escondido por sob o lençol branco, ele estava branco como papel, a pele parecia cera ao toque, constatei ao me ajoelhar ao lado do morto.

Toquei o rosto do morto e virei a cabeça do mesmo, não havia rigor mortis, não havia marcas de mordida no pescoço, clavícula, peito ou braços e ainda sim o cadáver aparentava ter perdido praticamente todo o sangue. Fitei o lençol branco que ainda lhe cobria as partes inferiores, se havia mordidas certamente deviam estar mais para baixo. Sinalizei para que Will retirasse o lençol de uma ver, aquilo pareceu ser o que esperava, seu sorriso se alargou e o lençol descobriu o corpo, ou melhor, a falta deste.

O cadáver terminar na cintura, para baixo havia apenas o estômago sobre a cerâmica antes branca e tripas, nada de membros inferiores, ali havia sangue, mas nem de longe o suficiente para explicar a falta deste na parte superior intocada do homem. De fato meu café da manhã de revirou no meu estômago, minha garganta secou, não importava que já tivesse visto cenas piores, aquilo não era o suficiente para me deixar a vontade. Tive que resistir à tentação de respirar fundo, pois de certo seria bem pior, o cheiro já começava a se tornar desagradável, provavelmente pela falta de janelas no pequeno quarto de hotel. Estava abafado demais e fazia um calor desgraçado.

— Pela aparência e falta de sangue, cheguei a pensar que tivesse sido algum vampiro, mas não há mordidas, pelo menos não na parte superior.- Virei-me observando o quarto pequeno, a cama estava uma bagunça, havia ainda um pequeno freezer e nada mais. Frazi as sobrancelhas ao me voltar para Will que parecia mais pálido que o de costume, aparentemente não era apenas eu que se sentia tentada em devolver o café da manhã.- Cadê o resto do corpo?

— Não achamos nada nos outros quartos, nem nos arredores. Sem rastros de sangue e nada estranho nas filmagens das câmeras de segurança.- Revelou.

— Isso é estranho, como levar a parte inferior de um corpo e não deixar rastros? Isso é sujo demais para isso, eu apostaria em zumbis ou demônios, mas está muito limpo para os dois tipos.- Sopensei, por fim, me levantei, ainda com os olhos sobre o corpo.

Não fosse a falta da parte inferior, seria um cadáver limpo, os cabelos loiros ainda estavam arrumados com gel e os olhos azuis fitavam eternamente o teto a cima, suas feições estavam congeladas em espanto, terror ou surpresa? Pela morte trágica, provavelmente era terror. Me forcei a encarar com mais atenção o estômago e tripas espalhadas abaixo, o fim da pele parecia ter sido puxada até romper, como em um cabo de guerra.

— Seja lá o que for ter uma força absurda, veja a carne, não possui corte de qualquer faca ou semelhante, nada de garras ou dentes, apenas força, como em um cabo de guerra.- Fui expondo meus pensamentos.- Estamos em um beco sem saída, o mais espantoso é que tenha deixado o ambiente tão limpo, mortes brutais como essas tendem a fazer uma sujeira danada.

— Além disso ninguém ouviu nada, nenhum grito ou sons de luta.- Will falou.

— Pela força usada para partir alguém ao meio assim, eu apostaria em algum gigante, mas seria um show e tanto, ainda mais com todo aquele tamanho. Realmente não sei para quem aprontar.- Suspirei, meu dia havia começado muito bem.- Pode cobrir e chamar os outros, diga para pegar digitais e comparar com aquelas no nosso banco de dados.

— Acha mesmo que vai achar, seja lá o que for, no banco de dados?- Will perguntou, cínico.

— Claro que não.- Admiti, quando Will se curvou para por o lençol novamente sobre o corpo.

Já bastante enjoado pelo cheiro desagradável e aquele calor sufocante, deixei Will para trás e segui para fora do quarto, o resto da equipe estava à espera no corredor, assenei para que eles entrassem e logo começaram a se moverem, passei por eles e segui para o fim do corredor, rumo as escadas. Tínhamos isolado todo o andar, uma fita amarela estava posta no acesso as escadas, tive que me curvar para passar por ela, tinha outros assuntos a tratar, Will teria que se virar com o resto dos procedimentos.

Na recepção havia alguns curiosos e jornalistas, fazer uma careta foi inevitável, não estava nem um pouco animada para um interrogatório da imprensa. Retirei o crachá com minha identificação e o coloquei rapidamente dentro do bolso da calça, foi pura sorte eles não terem me notado até então. Sem o crachá consegui passar por entre os curiosos e jornalistas, até que o ar quente da rua atingiu-me, havia umas três viaturas policiais e outros inúmeros veículos inundando a Rua XXIII, teria que andar quase dois quarteirões até meu carro.

Meus pensamentos continuavam a se desviar ao corpo pela metade, era intrigante pensar que aquele havia sido um atentado sobrenatural e que não houvesse qualquer pista do que era o assassino. Normalmente eles deixavam escapar algo, fosse uma mordida, marcas de garras, símbolos ritualísticos, enfim, fosse o que fosse que nos ajudava a chegar a alguma conclusão, aquela cena de crime, entretanto, era limpa demais para um zumbi ou lobisomem, um vampiro deixaria mordidas ou pelo menos não teria sumido com apenas metade do corpo, um gigante parecia mais plausível, porém havia muitos furos para algo concreto. Talvez eu desse uma olhada no banco de dados da Polícia, por sorte, ver as criaturas catalogadas me ajudasse a lembrar de uma que pudesse se encaixar melhor a cena do crime em questão, decidi ao abrir a porta do carro e adentrá-lo.

Jack me esperava no nosso café preferido no centro, pela mensagem de voz que ouvi hoje mais cedo, parecia empolgado com algo sobre o que lhe pedi, e devia ser isso o motivo de ainda me sentir tão agitada, mesmo tendo deixado aquele quarto pequeno para trás. Faria quase um ano que ele seguia pesquisando, viajando de um canto ao outro, entrevistando qualquer um que pudesse lhe dar alguma resposta ou pista para aquilo que o pedi e ainda sim, nunca pareceu achar algo de real importância, por isso pisei com mais força no acelerador, a esperança de que hoje eu receberia uma resposta diferente.

O café era o mesmo de sempre, letras curvas e vermelhas se destacavam a frente, onde se lia "Cafeteria Quente", não era um lugar requintado, por outro lado era acolhedor. Aquela hora ele estava praticamente vazio e uma música calma tocava ao fundo, encontrei Jack sentado em uma mesinha ao fundo, escondida entre o balcão e as pequenas plantas artificiais que enfeitavam o ambiente. O cheiro ali era um alento, e não resisti em pedir para James no balcão um café recém passado.

Jack parecia cansado, mas um sorriso realmente animado se abriu assim que ele me notou se aproximando, uma pasta jazia sobre a mesa juntamente a duas xícaras vazias.

— Você está horrível.- Foi meu cumprimento ao sentar-me na cadeira a sua frente, com a mesa entre nós.

— Passei as últimas noites em claro, tive que cobrar alguns favores, mas valeu a pena.- Confidenciou, arrastando a pasta sobre a mesa, para mais perto de mim.

Antes que pudesse lhe agradecer, James nos interrompeu ao trazer meu pedido de antes, o agradeci e saiu. Tentada pelo cheiro do café recém passado, peguei a xícara e a trouxe para mais perto, desviei meu olhar para Jack, eu não mentira quanto ao seu estado. A pele normalmente corada tava pálida e abatida, os olhos um pouco vermelhos e grandes olheiras os acompanhavam, a roupa estava amassada e o cabelo castanho uma bagunça, de certo ele nunca foi o cara mais organizado, porém aquilo era demais até pra ele.

— Tome, você está precisando mais do que eu.- Lhe ofereci o café e ele não negou.

— Você vai encontrar fotos, um endereço e mais algumas informações na pasta. Se não entender algo, sabe como me encontrar.- Disse ao bebericar o café.

— Sim... Obrigada Jack, estou em dívida com você.

— Não se preocupe, veja isso como um pagamento por tantos favores que já me prestou. Eora... apenas tenha cuidado, tudo bem?

— Vou ter.

— Sei que não adiantaria lhe pedir que não fizesse nada estúpido, mas você é cabeça dura demais pra isso.

Pesquei me fingindo de ofendida, mas não discordei, eu era uma estúpida mesmo, com toda certeza acabaria fazendo besteira depois que visse o que tinha naquela pasta, iria me arrepender e se eu sobrevivesse, passaria uma temporada remoendo as dores no apartamento de Lucy juntamente a um monte de porcarias para comer e assistir. O telefone tocou antes que eu pudesse lhe dizer algo mais, peguei o aparelho celular de um dos bolsos e li o identificador de chamadas, era Will.

— Preciso atender, obrigada novamente, agora é melhor ir para casa e dormir por uns dois dias.- Disse ao me levantar.

— Não discordo, boa sorte Eora e novamente, cuidado.- Falou e sorriu um pouco preocupado e encorajador.

— Terei.

Uma meia verdade, as chances das coisas acabarem bem eram uma em bilhões.

Notas finais
Em breve, estarei postando o capítulo seguinte... bem, espero ansiosa para saber o que acharam.