Capítulo 72: Em Atlanta

Para Rhett foi mais difícil entrar na casa da Rua do Pessegueiro, do que ele imaginou. Para cada canto que ele olhava, podia ver a imagem de Bonnie. As lembranças de sua filha continuavam por ali. Aquele era um lugar que ele não queria voltar de jeito nenhum. Qualquer cômodo daquela casa trazia um sofrimento insuportável para ele. Rhett não sentia-se preparado para ir até o jardim e o quarto de brincar das crianças. Ele nunca iria estar verdadeiramente pronto para levar uma vida normal naquele ambiente. Aquele lugar trouxe-lhe muitas alegrias, enquanto Bonnie estava viva, agora era um verdadeiro inferno continuar lá. Ele respirou fundo quando entrou na sala e avistou a grande escada onde Scarlett caiu e sofreu o aborto. Dois filhos falecidos, duas crianças perdidas por culpa dele. Rhett deixou aquela casa por causa das lembranças de sua filha e agora estava retornando de onde saiu por causa de seu filho que iria nascer em breve. Mesmo quando achou que podia recomeçar o casamento com Scarlett, durante aqueles dias de paixão que os dois passaram em Charleston, Rhett tinha planos de com o tempo conseguir levar sua esposa para viver com ele definitivamente em Dunmore Landing. Nunca teve planos de voltar para Atlanta. Mas, Scarlett tinha a loja e não iria se desfazer dela e ele não podia deixá-la sozinha com um filho seu dentro da barriga, solta por aí. No fundo, Rhett sabia que não tinha voltado pra casa somente por causa do bebê. Por mais, que ele fugisse de Scarlett e negasse pra si mesmo que era louco por ela, após achar que ela só tinha brincado com seus sentimentos, Rhett sabia que nunca iria conseguir ficar longe por muito tempo. Suas almas estavam unidas, ou pelo menos Rhett acreditava que sua alma estava unida a de Scarlett mesmo contra sua vontade, mesmo achando que ela nunca iria amá-lo de verdade. Tinha que manter sua máscara de indiferença, tinha que mostrar que não se importava, mesmo sabendo que aquilo era completamente o contrário. Ele quase enlouqueceu quando sua esposa ficou doente. Seu plano inicial era pedir-lhe perdão tão logo Scarlett ficasse curada e lutar para tê-la de volta, mas após suas terríveis palavras no jardim e durante seus delírios febris, Rhett levantou a guarda novamente.

Scarlett não sentiu a mesma dor e a mesma angustia de Rhett, quando entrou em casa. Aquela mansão foi o lugar onde ela tinha decorado do jeito que queria, era um lugar cheio de lembranças tristes, mas também era um dos símbolos do seu sucesso financeiro. Ela planejava voltar para Atlanta feliz com seu marido ao lado, os dois juntos e apaixonados, prontos para uma vida nova, mas agora, Rhett estava com ela naquele lugar por obrigação. No início, quando Rhett saiu de casa e foi para Charleston, Scarlett sonhou em engravidar para prendê-lo, mas depois, ela mudou de ideia e decidiu lutar para reconquistá-lo sem truques ou imposições devido as circunstâncias. Ela queria o marido de volta, mas apaixonado por ela e não daquele jeito, praticamente forçado a estar do seu lado. Scarlett esperou ansiosamente para dar-lhe a noticia de sua gravidez por vários motivos. Ela acreditava que Rhett podia amá-la, após descobrir como ele sofreu quando ela estava doente. Eleanor e Rosemary deram certeza de que ele amava-a. Rhett adorava bebês e após ter perdido Bonnie, após ter sofrido tanto, um filho seria o retorno da felicidade para ele. Mas, isso não aconteceu. Rhett não amava-a e não estava importando-se muito com o bebê. Ele estava ali, apenas por obrigação e saber disso deixava Scarlett triste e desolada.

Wade e Ella subiram as escadas correndo para chegarem no quarto, enquanto Lou e Prissy seguiu-os carregando suas malas. Rhett e Scarlett ficaram sozinhos, mesmo assim evitaram trocar qualquer palavra ou até mesmo se olharem. Logo, Rhett saiu da sala sem se despedir e foi para a biblioteca. Scarlett permaneceu ali, sozinha com vontade de chorar.

Ela subiu as escadas e foi para o seu quarto. Entrando naquele santuário, percebeu que sua cama era grande demais pra ela. Scarlett sentia falta do marido e lamentava totalmente tê-lo expulsado de seu leito conjugal. Seu orgulho impedia que ela fosse atrás dele e pedisse para ele voltar a dormir com ela. Ela não queria dormir sozinha, mas perante todos os acontecimentos não tinha outra saída. Lou entrou no quarto carregando suas malas e Scarlett ordenou que ela ajudasse-a a se despir e colocar o roupão. Pediu para que Lou trouxesse o jantar para ela no quarto. Scarlett não queria descer e encontrar a indiferença e frieza de seu marido. Preferia ficar sozinha.

Scarlett sentou-se na cama e alisou sua barriga, após Lou sair do quarto. Ela ainda não conseguia sentir os movimentos do bebê, pois estava com quase dois meses de gravidez. Ainda era muito cedo para sentir alguma coisa. Mas, já amava com todas as forças aquele ser tão pequeno e indefeso que crescia dentro dela. Decidiu que não iria mais usar espartilho. Pela primeira vez, ela iria abandonar aquela roupa que apertava-a para dar toda a liberdade para o bebê crescer e se movimentar. Enquanto estava entretida demonstrando seu carinho materno para o seu filho, Scarlett escutou batidas na porta.

" Pode entrar, Lou. A porta está aberta."

A porta abriu aos poucos, e Scarlett viu primeiramente a bandeja com o jantar entrar no quarto , mas quase deu um pulo, quando viu que era Rhett quem estava trazendo o seu jantar.

" Rhett! " Scarlett exclamou ainda assustada.

" Boa noite, senhora Butler. Eu vim trazer o seu jantar." disse Rhett com um meio sorriso, colocando a bandeja sobre a mesinha de madeira.

" Você não precisava fazer isso. Lou podia ter me trazido a bandeja." Scarlett disse sem jeito e corando um pouco. Ver o seu marido dentro daquele quarto, atiçou suas lembranças mais profundas : a noite do aniversário de Ashley Wilkes, quando Rhett possuiu-a naquele cama da forma mais selvagem.

" Eu quis trazer mesmo assim, Scarlett. Quero me certificar de que você vai comer tudo e alimentar o bebê." Rhett disse olhando para ela com sua máscara de indiferença.

" Você vai ficar aqui e me ver comer?"

" Sim. Eu não quero que você fique doente de novo." Rhett disse calmamente.

" Então, isso quer dizer que você se importa comigo?" Scarlett perguntou com um brilho nos olhos.

" Mas, é claro, senhora Butler. Você está esperando o meu filho e precisa ficar saudável."

" Eu pensei que você se importasse comigo também... " Scarlett lamentou tristemente.

" Scarlett, eu não quero brigar. Na verdade, eu vim oferecer uma trégua. Nós vamos ter um filho e podemos nos relacionar melhor. Estamos há dias sem nos falar. No nosso casamento não existe amor, mas pode existir uma amizade. Nosso filho vai precisar de um ambiente de paz para viver. Podemos ser amigos, o que você acha?"

Scarlett permaneceu calada, pensativa. Não era daquela forma que ela queria seu marido, mas sentiu-se bem por ver que ele já mostrava alguma preocupação em relação ao bebê. Já era alguma coisa. Ela sentou-se na mesinha para jantar.

" Tudo bem, Rhett. Vamos fazer isso pelo nosso filho." disse procurando não gaguejar.

" Assim vai ser bem melhor, Scarlett. Já que temos um casamento de mentira, pelo menos poderemos levá-lo de forma amigável. O bebê vai crescer em um lugar tranquilo, sem assistir a brigas entre seus pais. Vejo que você finalmente está usando a cabeça." disse Rhett despreocupado em pé vendo-a comer. Scarlett decidiu ignorar suas últimas palavras, ela também não queria brigar. Estava cansada por causa da viagem.

" Mas, quando ele ou ela crescer e descobrir que dormimos em quartos separados..." Disse Scarlett corando e morrendo de vergonha.

Rhett olhou para sua esposa e ergueu a sobrancelha, intrigado.

" Esse é um convite para eu voltar a dormir aqui, senhora Butler?" ele perguntou sorrindo sarcástico.

Scarlett queria que ele voltasse a dormir com ela, sempre quis, mas lembrou-se que ele não amava-a.

" Não...não...eu não quis dizer isso, eu..." Scarlett gaguejou tentando disfarçar que essa era sua verdadeira vontade.

" Sim, eu sei, senhora Butler. Não se preocupe, eu vou continuar dormindo no meu quarto." Rhett disse usando sua máscara de indiferença de novo. " Quando o nosso filho crescer, conseguiremos inventar algum motivo para dormirmos em quartos separados."

Scarlett não disse nada e começou a comer, sendo observada atentamente por Rhett. No fundo, ela estava triste mas não deixou transparecer. Entre uma garfada e outra, ela falou para o marido.

" Eu vou ver o Dr. Meade, amanhã. E depois vou na loja. Você quer vir comigo?"

Rhett ficou mais uma vez intrigado. Scarlett nunca convidou-o para ir a lugar algum com ela antes.

" Você está muito estranha, minha querida. Nunca me convidou para acompanhá-la em qualquer lugar. Eu sempre tive que impor a minha rude presença."

" Como você mesmo disse, precisamos ser amigos por causa do bebê, então eu achei que você gostaria de ir ao médico comigo."

" Não poderei ir com você, Scarlett. Amanhã tenho um compromisso. Preciso visitar alguns investidores de Atlanta. Irei com você na próxima consulta." Rhett disse fingindo indiferença.

" Eu achei que você gostaria de saber como está o seu filho!" Scarlett disse já ficando nervosa.

" Eu conversei com o Doutor Stuart em Charleston, querida. Ele me disse que apesar de tudo o que você passou, o bebê está bem. Acredito que o doutor Meade, aquele bode velho, não irá dizer nada de diferente."

" Pois, eu não vou te contar nada sobre a minha consulta amanhã, capitão Butler. Você sempre coloca os seus negócios acima de qualquer coisa, até mesmo do seu filho!"

" Minha querida, você está sendo hipócrita em me fazer tal acusação. Seus negócios sempre foram mais importantes do que qualquer um de seus filhos." Rhett disse com um sorriso cínico.

" Oh, como você ousa, vir aqui para me ver comer e me deixar nervosa!" Scarlett retrucou rosnando.

" Eu não quero brigar, Scarlett. Já combinamos que seremos amigos daqui pra frente, lembra?Em relação a sua consulta de amanhã, você pode não me contar nada sobre ela, mas lembre-se de que eu irei ficar sabendo tudo que aconteceu do mesmo jeito. Portanto, volte a comer antes que sua comida esfrie." Rhett disse despreocupado.

" Homem odioso! "

" Sou um pai protetor, Scarlett. Apenas isso! Agora, coma!" Rhett ordenou e continuou assistindo a sua esposa comer com a cara carrancuda e de mau humor.

Após comer tudo, Scarlett levantou-se da cadeira estofada e foi para a cama.

" Bom, senhora Butler. Eu vou enviar Lou para cá, para tirar a bandeja e vou para o meu quarto. " disse Rhett indo em direção da porta. " Boa noite."

" Rhett!" Scarlett chamou o marido que já estava abrindo a porta para sair.

Ele virou-se e olhou para ela, que já estava deitada na cama totalmente coberta, após tirar o roupão, usando somente sua camisola de dormir. Rhett sentiu calor, seus olhos negros brilharam por um breve instante ao ver sua esposa deitada , chamando por ele.

" Pois não, senhora Butler."

" Você vai conseguir dormir naquele quarto, sozinho? " ela perguntou gaguejando bastante e totalmente sem jeito.

" Por quê essa pergunta agora, Scarlett?" Rhett perguntou divertido.

" É que aquele quarto tem muitas lembranças de Bonnie e..." Scarlett disse com vontade de cobrir o rosto com as cobertas de tanta vergonha.

Rhett quase caiu na gargalhada.

" Minha querida, eu sempre dormi lá e você nunca preocupou-se com as minhas tristes lembranças, desde que eu não entrasse nesse santuário para te incomodar. Portanto, vou continuar dormindo no mesmo lugar. Boa noite!"

Rhett saiu do quarto, deixando Scarlett mais uma vez sozinha.

Quando ele entrou no seu quarto, trancou a porta e respirou fundo. Ele quase pediu para dormir junto com ela, para poder proteger Scarlett e o bebê com seus braços fortes, mas o orgulho e o medo da rejeição deteve-o mais uma vez. Scarlett tinha nojo dele e não iria aceitar dividir a mesma cama com ele.

Rhett começou a guardar suas roupas dentro da gaveta da cômoda. Ele abriu a mala e começou a tirar seus pertences de lá de dentro. Encontrou o colar de brilhantes de Scarlett, o colar que ela usava no baile de Santa Cecília. O símbolo de seu casamento, que Scarlett tirou do pescoço e jogou fora com tanto desprezo. Guardou o colar com carinho, dentro da gaveta. Talvez algum dia, iria devolvê-lo pra ela. Depois encontrou a caixa com outro colar que comprou para sua esposa durante sua viagem para Savannah. Devido a todos os tristes e infelizes acontecimentos, ele não conseguiu dar aquele presente pra ela. Decidiu guardar os dois colares dentro da mesma gaveta.

Tirou a roupa rapidamente e deitou-se na cama, dentro daquele quarto que trazia tantas lembranças infelizes. Bonnie costumava dormir ali. Aquele lugar também estava repleto de lembranças dela. Começou a lembrar-se da menina de olhos azuis que corria por cada canto daquela casa, que escutava-o contar histórias bonitas antes de dormir, que tinha medo do escuro. Rhett enfiou o rosto no travesseiro e chorou. Seus soluços baixos duraram alguns minutos, até que cessaram quando ele finalmente conseguiu dormir.

O dia iniciou em Atlanta, cheio de fofocas e comentários entre as velhas matronas. Todas as mulheres da velha guarda comentavam o retorno de Rhett e Scarlett para a cidade. Alguém viu a família Butler descer do trem na noite anterior, outro viu Rhett Butler caminhando sozinho pela rua naquela manhã e assim por diante. Alguns achavam que Scarlett e seu marido não iriam mais voltar para Atlanta, outros lamentaram o fato deles terem voltado. Os mexericos rolaram durante toda a manhã e aumentaram quando algumas senhoras viram Scarlett andando pela rua em direção ao consultório do Doutor Meade. Algumas pessoas cumprimentaram-na com falsidade e outras fingiram que ela não existia. Scarlett pouco se importava com aquela gente. Ela queria mais que todos fossem para o inferno carregando suas línguas compridas. Era importante para ela saber como estava o seu bebê e mais nada. Pela primeira vez, Scarlett saiu de casa sem colocar o espartilho e sentia-se estranha por andar pela rua sem ele, mas decidiu fazer qualquer sacrifício pelo seu filho. E mesmo sem o espartilho, ela continuava com sua cintura fina intacta.

Quando entrou no consultório do Doutor Meade, ele levou um susto ao vê-la. Apesar de já ter escutado rumores sobre o retorno da família Butler em Atlanta, o doutor Meade achava que tudo não passava de fofoca das velhas senhoras. A família Butler estava fora da cidade há meses, e ele chegou a achar que não iriam mais voltar. Agora, Scarlett estava ali, parada na frente dele e ele não entendia o que ela queria em seu consultório.

" Bom dia, senhora Butler! " o médico cumprimentou com educação e frieza, sem demonstrar que estava surpreso com a sua presença.

" Bom dia, doutor Meade! " Scarlett cumprimentou entrando em sua sala com o nariz empinado.

" Então, é realmente verdade, os rumores e comentários pela cidade. Vocês estão de volta."

" Sim, doutor. Nós passamos alguns meses na casa da minha sogra após a morte de Melly, mas resolvemos voltar. Eu tenho a minha loja e os meus negócios por aqui." Scarlett disse procurando mostrar tranquilidade.

" Como estão as crianças e o capitão Butler?" doutor Meade perguntou por educação.

" Estão todos muito bem. Meu marido foi resolver alguns negócios com os investidores da cidade e as crianças estão em casa. Amanhã, elas já vão voltar para a escola. Mas, eu vim até aqui, porque gostaria de passar por uma consulta com o senhor."

" Sim, claro, Scarlett! Em que posso ajudá-la?" perguntou o doutor fechando a porta da sala e ficando a sós com Scarlett.

" Eu estou grávida, doutor Meade. Acabou acontecendo quando estávamos em Charleston. E vim até aqui para ver se o meu bebê está bem."

O doutor Meade ficou ainda mais surpreso. Após tantos rumores de que Rhett e Scarlett não tinham um casamento de verdade, ele não imaginou que ela pudesse engravidar novamente. Logo, que Bonnie morreu, ele chegou a falar para Scarlett dar um filho o mais rápido possível para o marido. Mas, não imaginou que aquela mulher tão cruel, iria fazer aquilo que ele tinha aconselhado. E o que mais o intrigou era a preocupação que ela estava mostrando em relação ao bebê.

O doutor Meade examinou Scarlett e ela contou-lhe que teve anemia e pneumonia, ficando muito doente. Ele também afirmou o mesmo que o doutor Stuart : que o fato do bebê estar vivo era um milagre.

" Scarlett, você sofreu um aborto e ficou muito doente há pouco tempo. Deve saber que sua gravidez não será tranquila como foram as anteriores." disse o doutor Meade após terminar de examiná-la.

" Mas, o bebê está bem?" Scarlett perguntou preocupada colocando a mão em sua barriga.

" Sim, ele está bem. Mas, sua gravidez é de risco e você deverá tomar muito cuidado." ele disse bastante sério. "Não deverá se esforçar muito, procurar repousar bastante."

"Eu vou ter que ficar na cama?" Scarlett perguntou apavorada.

" Não, Scarlett. Eu apenas disse que você precisará repousar mais do que o habitual. Pode andar, sair, mas sem fazer muito esforço. Precisará se alimentar muito bem e não passar nervoso, se quiser que esse bebê venha á nascer."

Quando Scarlett deixou o consultório o doutor Meade ainda estava surpreso. Ela em nenhum momento de sua consulta perguntou como estava Ashley Wilkes. Logo que Scarlett saiu, a senhora Meade entrou no consultório do marido, cheia de curiosidade para saber o que levou Scarlett á ir atrás dele.

" Querido, eu vim aqui para saber o quê Scarlett veio fazer no seu consultório." a velha senhora disse enquanto fechava a porta.

" Senhora Meade, acha que eu irei ficar entregando pra você o diagnóstico de meus pacientes?" doutor Meade perguntou irritado.

" Mas, eu estou curiosa..."

" Senhora Meade, deixe de ser bisbilhoteira e volte pra casa! Eu preciso trabalhar !" disse o médico dando como encerrada aquela conversa.

Scarlett andava pelas ruas de Atlanta, preocupada. Agora, que queria tanto ter um bebê, não iria ter uma gravidez tranquila. A vida só podia estar castigando-a por ter desprezado suas gestações anteriores. Ela iria dar um jeito de fazer aquele bebê vir ao mundo. Pela primeira vez, conseguiu entender o porquê Melly arriscara e sacrificara a sua própria vida querendo mais um filho. Nunca iria aceitar perder outro filho. Aquele bebê ia nascer, ainda que ela tivesse que arriscar a própria vida como Mellanie fez.

Resolveu ir até a loja e deixou todos os seus empregados assustados quando apareceu por lá. Nenhum deles foram notificados de que ela iria voltar e levaram um susto ao vê-la. Scarlett sabia que não podia fazer muito esforço, mas ela podia trabalhar sentada e isso não iria atrapalhar em sua gravidez. Ficar trancada em casa sem poder sair e cuidar de seus negócios, iria deixá-la louca. O trabalho sempre foi uma distração para ela e podia cuidar de seu bebê da mesma forma que cuidaria dele se estivesse trancada em casa. Apenas, Rhett não podia saber que sua gravidez era arriscada, pois senão ele não iria deixá-la trabalhar. " Eu tenho tudo sob controle. Vou conseguir trabalhar e levarei essa gravidez adiante sem Rhett saber de nada." pensou consigo mesma.

Ficou algumas horas na loja, se inteirando de seus negócios. Na hora do almoço, Scarlett resolveu voltar pra casa e descansar o restante da tarde. Ela não planejava trabalhar o dia inteiro, como fez durante a gravidez de Bonnie, mas podia trabalhar meio período e ficaria feliz por isso. Sabia que seu bebê precisava de cuidados especiais e ela decidiu não abusar em nada. Tinha que protegê-lo, ainda que tivesse vontade de levar a vida como sempre levou.

Almoçou sozinha em seu quarto e dormiu o restante da tarde. Seu corpo ainda não estava forte o suficiente, mesmo após o término da doença. Até aquele momento, nem sinal de Rhett dentro daquela casa. Durante a noite, Scarlett jantou com as crianças. Wade olhava para a mãe durante a refeição e percebia que ela estava angustiada e com raiva por seu padrasto não ter aparecido ainda. Ele procurou não dizer nada, mas isso não impedia-o de sentir-se ainda mais decepcionado. Wade confiou que Rhett podia cuidar dela e agora, a cada dia que passava, ele percebia que sua mãe estava sozinha e praticamente desamparada.

Quando Rhett entrou em casa, já passava das 10 horas da noite. A casa estava toda escura e ele acreditou que todos estivessem dormindo. Trancou a porta principal, procurando não fazer muito barulho e subiu as escadas praticamente na ponta dos pés, cansado e pronto para dormir também. Quando chegou no corredor, levou um susto ao encontrar Scarlett parada, com um lampião na mão esperando por ele. Ela estava morrendo de raiva e parecia ainda mais sedutora com seu peito ofegante, sua camisola praticamente transparente e seus olhos verdes que chispavam fogo. Rhett permaneceu alguns segundos olhando pra ela, seus olhos negros seguiram a silhueta de sua esposa dos pés a cabeça e ele sorriu como um lobo faminto. Ver aquela deusa no meio do escuro sendo levemente iluminada por um lampião deixou-o louco. Mas, Scarlett não deu tempo para ele ficar distraído olhando para seu corpo durante muito tempo, e perguntou irritada e rosnando com raiva e ciúmes:

" Onde você estava até agora, capitão Butler?