Capítulo 4 : Adeus á grande dama

Scarlett chegou no cemitério de Atlanta com o queixo erguido, pronta para enfrentar a velha guarda. Ela sabia que rolariam mexericos entre as matronas, ao verem ela chegar sem a companhia do marido.

" Nunca mostrarei fraqueza para essas velhas mexeriqueiras..." pensou irritada. " Hei de mostrar que estou de pé.... e qualquer coisa : Rhett foi viajar urgentemente á negócios.... ou por problemas familiares em Charleston...". Ela inventaria algum motivo para justificar sua ausência.

O cemitério estava lotado. Famílias inteiras, vizinhos, parentes e até mesmo alguns soldados, cuidados por Melly durante a guerra, vieram prestar as últimas homenagens á grande dama. Scarlett passou pelo meio da multidão com petulância, mas por dentro se sentia completamente perdida, vazia e devastada.

" Se pelo menos, Rhett estivesse aqui, para que eu pudesse me aconchegar em seu peito forte e chorar..." ela pensou lamentando.

Como se sentia sozinha naquele momento. Mellanie foi uma pessoa tão boa para todos, inclusive para ela, que não era de estranhar a dor e a comoção causadas pela sua partida repentina. Scarlett sabia que não era querida pela vizinhança, mas , Mellanie que a amava incondicionalmente e era estimada e admirada pela velha guarda, exigiu enquanto estava viva, que a respeitassem. Se não fosse por Melly, nenhuma das senhoras decentes, dirigiriam a palavra á Scarlett. Agora, encontrava-se sozinha, entre aquelas pessoas que sentiam repugnância por ela.

" Oh, Melly... como você pôde me abandonar? Agora que preciso tanto de você!"

Lutava contra o desespero e a vontade de chorar sem parar, mas ao observar os olhares atravessados das velhas matronas em cima dela, se contorceu de raiva, conseguindo segurar as lágrimas e o grito agudo que ameaçava sair de sua garganta. A raiva era uma força extra, e naquele momento, ela preferia sentir raiva do que dor.

" Vou deixar para chorar em Tara... não vou chorar aqui... não posso chorar aqui... " tentou convencer á si mesma.

Respirou fundo, procurando o ar que desaparecera , apesar de estar em um ambiente aberto. Conforme caminhava pelo corredor de areia e cascalho, em meio á grama verde e aparada, as pessoas abriam o caminho, para ela passar. Algumas senhoras lhe viraram o rosto em reprovação, outras se afastaram com medo de que Scarlett pudesse tocá-las, com nojo, como protegendo-se de alguém que lhes pudesse passar uma doença contagiosa. Scarlett desprezava todas aquelas velhas fofoqueiras e invejosas. E apesar de sentir o ego ferido, por ser tratada como uma das prostitutas da casa de Belle Watling, ela não fazia questão da afeição de ninguém que estava por ali .

" Apenas mais algumas horas....e estarei longe daqui!!!!"

Procurava manter os ouvidos surdos para os cochichos, enquanto passava pelo corredor andando calmamente com seu vestido preto. A cabeça erguida, as costas eretas, mostrando superioridade á todas aquelas mulheres enfadonhas que comentavam sobre a vida dela. Mesmo assim, ela conseguiu escutar alguns comentários...

"Ela está sozinha....onde está o capitão Butler?"

" Ele deve estar na casa de Belle Watling.... bebendo e se divertindo..."

" Desde quando, ele perdeu a filha, ficou com a cabeça virada..."

" È....pobre homem....ainda mais estando casado com essa desalmada..."

" Não é estranho que procure conforto em outro lugar..."

Scarlett mordeu os lábios de raiva. Sentiu uma cólera tão grande, que tinha vontade de enforcar com suas próprias mãos, cada uma daquelas mulheres tão odiosas. Como podiam ser tão cruéis, em um momento em que ela estava morrendo de dor? Só esperaram a morte de Mellanie, para lhe mostrarem as garras. Mesmo assim, ela tinha que manter a calma e seguir em frente. Ainda que a raiva a cegasse, tinha que mostrar-se superior.

Chegando próxima da cova aberta, onde o caixão simples , já encontrava-se dentro, avistou Ashley Wilkes.

Agora, que sua fantasia de amor infantil, estava terminada, não conseguia enxergar o mínimo charme naquele homem, que tinha dominado sua mente e seu coração durante anos. Ele era um homem em frangalhos. Só conseguia sentir piedade e aversão, ao olhar para ele. Com as costas curvadas, a cabeça abaixada, os ombros caídos e os cabelos loiros despenteados e bagunçados, Ashley Wilkes tremia e chorava descontroladamente.

" Fraco !!! Por quê Deus não o levou, em vez de Melly !? Ele não faria a mínima falta !!!! " Scarlett pensou com desdém. " Melly era mais necessária para todos, do que esse tolo !!!! "

Agora, ela percebia claramente, que Mellanie sempre foi a força de Ashley e não o contrário...

India Wilkes mostrava equilíbrio e postura, enganchada no braço direito do irmão, procurava acalmá-lo, murmurando baixinho, palavras que não podiam ser ouvidas. Ashley parecia que iria cair no chão, á qualquer momento. Suas pernas bambeavam, como se ele estivesse bêbado. Mas, Scarlett sabia que Ashley não tinha bebido. Por mais que, o momento fosse desesperador, ele nunca ficaria embriagado como Rhett, quando perdeu sua filha. A educação cavalheiresca dos Wilkes e a honradez com que fora criado, não permitiria que ele virasse, um bêbado perdido, por pior que fossem as circunstâncias. Ashley apoiava-se á irmã, como uma criança que se apoia á sua mãe. Ele parecia tão magro e pequeno... que Scarlett se perguntou , onde fora parar o cavalheiro de cabelos dourados que ela achou que amou durante tantos anos...

" Melly... Melly... não me deixe...." Ashley murmurava entre soluços, olhando para o caixão simples de madeira, já pronto para os rituais finais do sepultamento.

India deu-lhe um beijo carinhoso, em seus cabelos loiros e o apertou ainda mais, procurando dar-lhe algum conforto. Mas, Ashley Wilkes estava alheio ao mundo á sua volta, e não conseguia recobrar a razão. Chorava e soluçava como uma criança que perdera a mãe.

Scarlett aproximou-se, ficando á poucos passos de India e Ashley, mas recusou-se á falar com eles. Ela não tinha vontade de confortá-lo.... lembrou-se que em partes, por culpa dele , pelas palavras que ele usara na serraria, expulsou Rhett de seu quarto. Ashley nem percebeu que ela estava por perto, observando-o, mas India percebeu sua presença e fechou a cara em uma carranca, agarrando ainda mais o irmão, como se temesse que Scarlett pudesse vir á tocá-lo. Scarlett sentiu vontade de gargalhar observando o instinto protetor de India. Ela não gostaria de tocar em Ashley, nem por todo o dinheiro do mundo.

Olhando atrás deles, percebeu a presença da senhora Meade e da senhora Merriweather. Ambas olhavam para ela, dos pés a cabeça e cochichavam entre si. Um pouco distante delas, estava a tia Pittypat, abanando-se com um leque preto, com os olhos girando, ameaçando desmaiar á qualquer momento. Tio Peter á amparava, segurando-a e Scarlett chegou á conclusão de que tia Pitty devia de ter desmaiado diversas vezes, só naquela manhã. A família Elsing estava próxima á tia Pitty e Fanny consolava Beau, que não conseguia parar de chorar também. Os soluços tristes do menino, podiam ser escutados de longe. Tio Henry e o dr. Meade conversavam baixinho, em baixo de uma árvore, um pouco mais afastados dos outros.

Scarlett ficou ali, parada, olhando para o buraco, onde o caixão já encontrava-se colocado. Ninguém foi até ela para abraçá-la ou dizer uma palavra de conforto. Não lembraram de como ela e Melly foram grudadas. Agora, que Mellanie estava morta, Scarlett também estava morta para todos eles...

Ela nunca sentiu tanta falta de Rhett, como naquele momento em que se sentia acuada. Ainda podia escutar os cochichos, que vinham de todos os lados; alguns imperceptíveis, outros podiam ser entendidos com clareza.
" Mulher cruel.... incapaz de soltar uma lágrima..."
" Ela é ruim de verdade.... tem um coração gelado.... Deus me livre!!!! Credo!!!! "

O mexerico continuava á todo o vapor e Scarlett esforçava-se para continuar firme e forte. Estava além de suas forças. Sentia-se jogada na cova dos leões. Aquelas gatas velhas eram piores do que qualquer fera e tinham a língua venenosa e afiada. Durante, praticamente toda a sua vida, Scarlett foi rejeitada pelas mulheres. Quando era menina, era rejeitada pelas meninas da mesma idade. Ela era considerada um perigo para as meninas que sonhavam em ser cortejadas por um rapaz da região. Ela era tão encantadora e bonita, que podia roubar o namorado de qualquer menina do Clayton County. A bela do sul, como ficara conhecida. Agora, próxima da meia idade, era rejeitada pelas gatas velhas de Atlanta. Mellanie foi a única que aceitou ser sua amiga, a única que abraçou com um coração puro, a mulher desprezível e desprezada. Scarlett lembrou-se com uma ternura tardia, da mulher de rosto em forma de coração, dos olhos meigos, da voz reconfortante. Mellanie fora um anjo enviado dos céus, para habitar a terra durante um breve período. Ela poderia ser comparada á uma santa, igual aquelas, que sua mãe Ellen citava durante as orações em família, após as ceias. Scarlett descobriu tarde demais que a amava e precisava dela. Agora, o corpo sem vida de Mellanie, estava ali, dentro daquele caixão fechado, prestes á desfazer-se junto com a terra, e sua alma bondosa voltara para o céu...

Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada do padre. As fofocas e palavras maldosas foram interrompidas e pararam temporariamente. O único som, eram os soluços daqueles que choravam. O vento gelado daquela manhã de outono, lhe castigava os ossos, e ela se esforçava para não chorar, não gritar e não se jogar em cima do caixão, até o final do sepultamento.

" Logo tudo estará terminado..." pensou " Vou deixar para chorar em Tara... aqui não posso chorar..."