Segunda Chance
1 Prólogo
Minha vida nunca foi agradável.
Eu moro com minha mãe e com meu pai no interior de Portland.
Minha mãe trabalha em um supermercado perto de casa, ela não ganha muito, mas o que ganha da pra botar comida na mesa. Pelo menos, o que ela consegue esconder do meu pai.
Meu pai não trabalha. Ele só faz beber e jogar, então quando minha mãe recebe o salário, ela guarda uma pequena quantia e o resto da pra ele.
Eu não tenho irmãos, o que é um saco.
Eu acordo todas as manhãs, tomo café e vou pra escola. É uma escola pequena, mas da pra aprender algumas coisas. Quando chego, vou encontrar minha mãe. Eu ajudo ela, e isso me rende uns trocados, que junto em uma meia de baixo do colchão.
Nico, meu pai, acha que só fico lá olhando ou lendo alguma coisa, mas eu também trabalho. Mamãe conseguiu fazer com que o dono me deixasse ajudar.
Quando o turno da minha mãe acaba, nós vamos embora, e, normalmente, nós sempre voltamos com alguns legumes que o seu Zé, dono do supermercado, nos dá.
E todas as noites nós voltamos conversando sobre o dia uma da outra. A primeira coisa que a mamãe pergunta é se estou bem, porque quase todos os dias o meu pai me maltrata. As vezes derrama água quente em mim, ou apaga o cigarro na minha pele, ou puxa meus cabelos, são muitas coisas. Eu sempre falo que sim, ela sabe que estou mentindo e não pergunta nada. Eu sei que ela perguntou, mas já sabia a resposta, porém, mesmo assim, ela sempre pergunta.
Eu e ela somos unidas, mas de um tempo pra cá, ela vem sendo muito fria comigo, não tem me perguntado mais nada, só fala comigo o essêncial, e me pedindo pra fazer a maior parte do seu trabalho.
Eu não pergunto nada, sei que deve ser o papai.
Era fim de tarde, eu e mamãe estávamos voltando do serviço, como nos últimos dias, ela não disse nada, mas de repente, ela diminuiu os passos e começou a andar devagar, até que ela disse :
— Quanto dinheiro você tem?
A voz dela estava falha. Eu não precisava pensar pra saber que ela estava tentando dizer algo.
— Não sei.
— Acha que é suficiente pra ir a algum lugar?
— Talvez. — eu sabia que, dependendo lugar, era suficiente. — Porque?
Ela não falou de imediato.
— E qual lugar você gostaria de conhecer?
Eu deveria ter notado antes, mas dois dias depois eu acordei e ela não estava fazendo café. De início, achei que ela estava do lado de fora de casa. Mas não estava. Eu procurei por todos os lugares que eu poderia ir, mas não a achei.
Só quando voltei pra casa, e fui pegar uma blusa de frio, que vim perceber uma carta escondida.
Não pensei em mais ninguém, senão ela.
Na carta dizia tudo que eu nunca quis ouvir na vida.
" Emma
Se você está lendo isso é porque eu deixei você, e não pretendo voltar.
Por favor, não me julge, você mais que ninguém sabe o quão difícil foi aguentar tanta humilhação esses anos todos.
Também não vou julgar você, sei que deve estar com raiva ou magoada pelo que fiz.
Não foi fácil fazer isso, na verdade foi a coisa mais difícil que já fiz em toda minha vida. Você foi a melhor coisa que me aconteceu.
Mas vai chegar o dia que você vai entender tudo isso. Não quero que me procure, será melhor e mais fácil pra nós duas. Por favor!
Vá atrás dos seus sonhos, meu amor. Vá viver sua vida! E eu espero que você consiga, por mim e por você.
Eu te amo. Me desculpe!
Amelia (mamãe)"
Só depois de ler e reler varias vezes, que caiu a ficha que ela foi mesmo embora. E que eu estava sozinha agora.
Sem o meu consentimento, lágrimas brotaram nos meus olhos e depois escorreram pelo meu rosto.
Eu senti uma dor que ninguém nunca deveria sentir.
A dor do abandono.
Minha própria mãe me abandonou.
Voltei à carta e observei com mais atenção, até que percebi siglas mais escuras escritas atrás do papel.
(T./B.A./...---...)
E mesmo assim não dei atenção. Provavelmente já estava na folha quando ela escreveu.
No entanto, a letra "T" me lembrou algo.
Quando minha mãe perguntou qual lugar eu queria ir, eu respondi que queria conhecer Toronto. Mas as outras letras não me lembram nada.
Quando pensei nesse lugar, pensei em ir com ela, mas agora eu não tenho mais ela e ter o pai que eu tenho, é o mesmo que não ter.
Então, acho que agora é só eu e eu.
Eu vou fazer o que ela pediu, vou construir minha vida, e já sei onde vai ser.
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