Segunda Chance
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Os dias se passaram lentamente no Egito, que vivia o pior luto de sua história. O tempo passava e tudo continuava triste. Não havia muito movimento nas ruas, quase nenhum egípcio se atreveu a sair de casa. A nação mais poderosa do mundo nunca se viu tão pequena, em milênios.
Todos os cuidados para o embalsamamento e mumificação dos primogênitos falecidos já estavam sendo feitos. O cortejo fúnebre do príncipe viria em poucos dias. Amenhotep receberia todas as honras possíveis. A sua morte me tocou de uma certa forma.
Eu e ele nutrimos uma ótima relação nos últimos anos. Adorava todos os treinos que eu tinha com o garoto. Eu me afastei muito de Ramsés com o passar do tempo, e Ikeni treinava o seu filho. Era a única companhia que eu tinha. Ele tinha um gênio muito forte, assim como eu. O jeito dele desagradava algumas pessoas do palácio, já que ele era muito mimado, mas eu não me importava com isso. Ele sempre respeitou minha autoridade e gostava da minha companhia. Era uma amizade recíproca porque também, Amenhotep não tinha companhia Seus pais sempre estavam cuidando dos seus afazeres.
Eu sabia que ele era um garoto difícil de trabalhar. Ficava em dúvida se ele seria um bom Rei para o Egito. Mesmo assim foi triste a sua morte. Sentia falta dos nossos bons momentos durante os treinos.
Os últimos dias do Egito foram tranquilos. Mas não era uma tranquilidade boa. Veio a calma, mas trouxe junto a incerteza. Ninguém sabia o que seria das nossas vidas depois de tantos acontecimentos. Se as terras que povoavam às margens do Nilo se recuperariam e se tornariam novamente a nação forte que sempre foi.
Foi quando todos preferiram se recolher, que mais uma coisa surpreendente aconteceu. Os hebreus tomaram as ruas, em centenas, milhares. Todos eles vagando, a grande maioria sorridente e feliz. Já sabiam que ganharam a liberdade que tanto sonhavam. Nunca achei que veria algo semelhante. A quantidade de escravos parecia incontável. Sabia que eles costumavam ter muitos filhos, mas não esperava que fossem tantos. Até arriscaria em dizer que haviam muito mais hebreus do que egípcios, talvez até o dobro. Principalmente depois de muitos morrerem por conta das pragas.
Comuniquei ao Soberano, como minha obrigação, tudo o que estava ocorrendo. Ele continuava com o olhar distante e o semblante de perplexidade. Peguntei à ele o que deveria fazer, ele simplesmente disse para não fazer nada. Ramsés não se importava com mais nada, ainda sofria pela perda do filho. Mas sofria mais ainda por ter sido derrotado da pior forma possível.
Ele sempre foi confiante quando à sua vitória contra Moisés. Acreditava que tudo aquilo acabaria e ele sairia triunfante como em todas as guerras em que ele esteve. Só que aquela não foi uma guerra que se lutava com espadas e cavalos. Ele preferiu se deixar levar pelo ódio e pelo ego e não quis evitar que o pior acontecesse. Apelou para os deuses, mas eles não deram resposta, como se eles tivessem desaparecido de uma hora para outra. E isso também me deixava mal porque eu também acreditava nele e achava nossos deuses pudessem nos proteger.
Eu observava todo o movimento da frente do palácio com os outros soldados. Centenas de hebreus continuavam andando pelas ruas, carregando seus pertences em sacolas enormes e por jumentos. Nas mãos, portavam vários objetos de ouro, como joias e vasos. Eles batiam de porta em porta pedindo objetos em ouro para levarem antes de partir, aparentemente uma exigência de Moisés. Os egípcios, sem muita opção, davam todo o ouro que tinham à eles sem reclamar. Faziam isso apenas para que eles fossem embora o quanto antes e que mais nada de ruim acontecesse.
Naquele momento me lembrei de algo que Ikeni tinha me dito dias atrás. Ele me contou que os hebreus tinham uma terra que havia sido prometida à eles por seu Deus. Seria a terra de seus antepassados, e que eles atravessariam o deserto para ser ocupado. Depois de tantos séculos passando pelas piores coisas, eles conseguiram a liberdade que tanto sonhavam, mesmo que dá pior forma possível.
Liberdade. Era uma palavra curiosa. Foi pela liberdade que os hebreus foram motivados a suportar tudo. Eles poderiam muito bem ter se rebelado contra nós há tempos, e poderiam sair vencedores com tantos, mas não fizeram isso. Sempre alimentaram uma esperança de que tudo iria melhorar para eles. Como se eles soubessem que seriam livres no momento certo.
Eu não sei como foi que eles se tornaram escravos do reino, mas eu sei como funcionava a escravidão. Os povos mais fortes dominam os povos mais fracos. Eu como parte do exército sempre tive a noção disso, pois sabia que a possibilidade de me tornar um era real, mesmo minúscula. A derrota apenas me dava duas possibilidades: de ser morto ou de me tornar um escravo de guerra.
Nunca achei que estivesse vivo para presenciar esse momento. Ver pela primeira vez os hebreus confiantes, com a cabeça erguida sob o sol carregando seus trapos. Observar todo aquele movimento me fez pensar um pouco sobre algumas coisas.
Por ser um cidadão egípcio sempre fui considerado um cidadão livre. Teoricamente tinha o direito de ir e vir a qualquer lugar sem problemas. Sempre fiz questão de gozar desse direito. Fui ensinado a aceitar que era superior aos hebreus por causa disso. Também fui ensinado, desde muito novo, sobre o que eu deveria fazer, como deveria agir, em quem deveria acreditar.
Minha vida no exército foi muito dura. Como soldado, tinha que treinar exaustivamente diariamente. Aprendi a lutar espada e desviar. Sem falar nos tantos anos em que passei às noites em claro fazendo vigília no palácio, protegendo os Soberanos. Nas batalhas, eu dava o melhor de mim para não acabar morrendo. Recebia as ordens dos meus superiores e acatava sem reclamar.
Quando me tornei General, ganhei mais tempo livre, mas meu trabalho se tornou mais puxado. Eu tive que aperfeiçoar minha leitura e escrita, e aprender a fazer cálculos matemáticos. Não era bom nessas coisas, mas era obrigado à ser. O exército todo estava sob minha responsabilidade. Uma falha poderia valer meu pescoço.
Mesmo em um nível mais alto, continuava recebendo ordens. Se o faraó me mandasse fazer algo que me desagradasse, eu tinha que fazer. Se me mandasse matar, eu matava. Poderia aconselhá-lo, mas nunca desobedecê-lo. Tudo o que eu fazia era por ser minha obrigação.
Não poderia mentir se não dissesse que muitas das coisas que tive que fazer me deu satisfação. Mas tudo o que eu fiz foi por estar seguindo ordens. Eu não gostei de fazer muitas coisas, mas se eu não fizesse, certamente pagaria com a vida.
Foi o medo da morte que me fez cometer muitos erros. Yunet sabia disso e aproveitou para me usar. Ela ficou sabendo do meu envolvimento com a Rainha Tuya e usou isso contra mim. Me fez participar de seus planos. Cada vez que me envolvia com ela, mais estava preso à cobra. Deveria ter dado um basta nisso o quanto antes, mas fui fraco. Era jovem e não tinha a noção de quanto eu era irresponsável.
O tempo passou e a ameaça de que ela pudesse me prejudicar continuava. Para o meu alívio, ela havia sido expulsa do Palácio e havia perdido todo o respeito do reino. Viveu como mendiga durante vinte anos até enlouquecer e ninguém mais levava ela a sério. Falava coisas sem sentido, gritava para todos que era a mãe da rainha.
Yunet podia ser louca, mas não era burra. Ela alimentou por todos esses anos o desejo de voltar ao palácio. E conseguiu. Esperou o momento certo para voltar e infernizar todos. Comigo não seria diferente, já que ela sabia demais de mim. Me usaria novamente para seus planos, e só não conseguiu por não ter tido tempo. Ela morreu na praga da chuva de fogo e pedras, e morreu o nosso segredo junto. Parecia que tinha sempre algo me safando do pior.
Eu me lembrava de todas essas coisas, além de outras que eu fiz. Quando eu não agia por obrigação, eu agia por medo, ou por acreditar que eu estava fazendo o certo. Talvez no fundo eu não fosse tão livre quanto pensava. Os egípcios eram tão “escravos” quanto os hebreus, e talvez eu fosse mais que eles.
Depois que eu pude refletir sobre tudo, eu até pude ousar, desejando mentalmente a liberdade. Talvez não fosse a mesma que eles ganharam. Mas uma liberdade que me pudesse ter a chance de fazer as escolhas certas. Porém, de uma certa forma, eu não podia.
O Egito perdia os seus escravos. O comércio, a agricultura, o modo de viver das pessoas, tudo sofreria um grande baque e demoraria muitos anos para se reerguer. Talvez séculos. O palácio precisava mais de mim do que nunca. Além dos hebreus, muitos egípcios deserdaram. Além de Gahiji, Chibale e Simut, muitos servos, mulheres e soldados escolheram abandonar seus costumes antigos para seguir Moisés no deserto. O Soberano estava abatido e não se recuperaria tão rápido. Minha presença lá era mais necessária.
Fora que o Egito estava mais vulnerável. Essa notícia chegaria rápido à outros povos e as Guerras viriam. Além das outras guerras que teríamos para conquistar mais escravos. Tudo poderia deixar o exército mais enfraquecido. Só tinha duas escolhas: fugir ou morrer.
Não seria tão covarde à ponto de fugir de minhas responsabilidades, mesmo pensando nessa escolha. Mas não teria para onde ir. Ir com Moisés estava completamente fora de questão, jamais me aceitariam, e eu não sei se conseguiria me adaptar à uma nova vida.
O jeito era arcar com minha missão. Pelo menos aproveitaria esse resto de vida que me restava para tentar fazer as coisas certas, o certo de verdade. Sabia que não podia apagar o passado, mas seguiria o conselho de Chione e tentar mudar o futuro. Mesmo não tendo mais notícias dela desde então, agradeço-a por tudo.
Não sabia o que seria da minha vida ou o que viria depois daquilo. Os hebreus estavam livres, mas não sabia se era definitivamente. Ficava preocupado em pensar que o faraó poderia voltar atrás, ele já fez isso tantas vezes. E se isso acontecesse, seria muito ruim. Mais problemas, mais mortes, e dessa vez eu não teria tanta chance de sobreviver.
O importante foi que eu pude amadurecer, o que eu nunca consegui em anos de vida.
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