Segunda Chance
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Durante a tarde, terminei meu infeliz trabalho de verificar tudo o que tinha acontecido. Nunca pedi tanto para que aquele dia terminasse. Parecia que aquilo nunca teria fim.
Percorri pelo Egito junto com meus soldados para fazer os relatórios das perdas. As ruas estavam desertas, e não tinha como ser diferente. E diante do que aconteceu, ficaria assim por algumas luas. Nas tradições egípcias, o luto é muito longo. Dura dias e ninguém sai de casa, e nem trabalha. E também, ninguém teria condições de fazer qualquer coisa a não ser lamentar pelas mortes.
De manhã, eu achava que estava exausto. Horas depois, eu descobri que estava enganado. Minha cabeça latejava e a dor no ombro não havia passado. Minhas pernas pareciam mais pesadas. Não era mais jovem para aguentar tudo isso e ainda mostrar poder.
Mas mesmo terminado com aquela tarefa, eu ainda tinha mais uma pela frente. Um trabalho mais árduo, pelo menos para mim. Desde que Ikeni foi preso eu sequer olhei para a cara dele. Eu estava com muita raiva por tudo. Mesmo não tirando a minha razão, eu senti que havia pegado pesado com ele.
Nós sempre fomos muito parceiros, desde que entramos para o exército. Sobrevivemos a tantas batalhas, sempre um ajudando o outro. Mesmo não entendendo muito seu jeito sempre certinho, ele sempre foi uma boa companhia nas noitadas, quando iamos à Casa de Senet para beber e sair de lá trocando as pernas.
Ele nunca escondeu que se sentia insatisfeito por eu ter me tornado General e ele não. Ter esse cargo nunca foi minha prioridade de fato, mas eu sabia que tinha o pulso firme para liderar que ele nunca teve. Não adiantava nada ter um bom coração, era preciso ser livre de qualquer sentimentalismo bobo.
Mas nada disso impediu que ele tomasse as rédeas e pisasse na minha autoridade. No fundo, ele estava sendo o que sempre quis ser, o líder. O que me doía mais era ele ter mentido pra mim e escondido tudo. Eu sempre contei tudo para ele, pois confiava em Ikeni e eramos melhores amigos. Era péssimo saber que ele não contava comigo, mesmo eu contando com ele.
Fui direto para a prisão, que era aonde ele estava. Ficava em um canto escondido do Palácio, não era um lugar muito grande, mas os corredores eram bem estreitos, além de ser seco e empoerado. Não era um dos melhores lugares para se passar a noite, principalmente se for para fazer a guarda. Não havia nenhum soldado em frente à cela dele, então pude entrar facilmente.
Destravei a trinca enferrujada e abri a porta de madeira velha sem nenhuma dificuldade. Encontrei Ikeni sentado com as mãos sobre a cabeça. Suas olheiras estavam piores que as minhas. Não sabia o que falar para ele, diante daquela situação.
— Eu precisava saber como você está.
— Como você acha que eu estou. — Respondeu ríspido.
— Acho que lhe devo alguma satisfação. — Suspirei.
— Eu não estou entendendo, General.
— Acho que fui muito duro com você ontem. Eu não deveria ter dito aquelas palavras. Estava muito nervoso.
— Eu também estava nervoso. Se eu fiz tudo isso foi por medo de acontecer alguma coisa com o meu filho. E não me arrependo disso.
— Eu sei disso. Mas não muda o fato de eu estar decepcionado com você, Ikeni. Você escondeu tudo aquilo de mim, e isso me deixou decepcionado.
— Eu precisava ter feito tudo aquilo. — Ele se levantou. — Ajudar com os cordeiros era o único jeito de salvar os primogênitos.
— Não me importo que você tenha feito. Talvez esteja certo em estar ajudando Moisés e os hebreus. Eu só fiquei muito aborrecido foi por ter mentido para mim.
— Eu não podia contar pra ninguém. Era perigoso.
— Nós sempre fomos parceiros. Você é a única pessoa que eu confio nesse palácio porque eu te conheço há muitos anos. Eu entendo você ter mentido para soberano, mas ter me enganado doeu.
— Você é o comandante do reino. Se você soubesse do que eu fiz, Ramsés poderia retaliar e acabar com qualquer chance de sobrevivência.
— Eu sou comandante do faraó, mas eu sou seu amigo há muito mais tempo. Eu sei que tenho inúmeros defeitos, mas eu sou fiel àqueles por quem eu tenho consideração. E você sabe disso mais do que ninguém.
— Eu sei disso. Sinto muito por ter te enganado, Bakenmut. Quando eu estava com os guardas e tudo aquilo aconteceu, eu não pensei duas vezes e fiz o que era preciso. Mas eu reconheço que errei em não ter confiado em você.
— Está tudo bem agora. Aliás, eu achei sua atitude muito corajosa. Não sei se conseguiria fazer a mesma coisa em seu lugar.
— Obrigado. E como estão as coisas no palácio?
— Da pior maneira possível. Todos os primogênitos morreram, inclusive o príncipe Amenhotep. E Uri também morreu.
— Eu escutei os gritos daqui. Foi agonizante.
— E isso foi só uma pequena parte de tudo. Não dormi até agora e estou exausto por tudo.
— Tem alguma notícia de Karoma e Pepy?
— Eu vi a Karoma no palácio, mas não vi Pepy.
— Karoma deve ter feito o que eu pedi.
— Vpcê pediu o que?
— Pedi para ela levar Pepy até Moisés. Sabia que lá ele estaria salvo.
— Seu filho estava na vila?
— Eu não sei. Estou muito aflito só por não saber se ele está bem.
— Bom… talvez você nem acredite… mas eu estive na vila ontem.
— Você esteve na vila? Como assim? — Ele falou em voz alta.
— Fale baixo. — Me afastei verificando se tinha alguém por perto e depois voltei. — Sim, eu acabei indo para a vila. Mas é uma longa história.
— Mas o que aconteceu? O Soberano mandou você ir lá?
— Não. Não foi ele. Você lembra da Chione, aquela dançarina de Senet que não aparecia mais por lá?
— Mais ou menos. Por que?
— Eu acabei encontrando ela à noite quando eu havia saído do palácio. Ela estava grávida, Ahmós a expulsou.
— Entendi. Mas o que tem a ver?
— É que ela me pediu ajuda para encontrar um lugar seguro para ficar. O único lugar que eu pensei naquela hora foi a vila dos hebreus, sabia que não teria como levá-la ao palácio. Então eu tentei levá-la até lá. Eu não previ o que aconteceria…
— Sobre a praga?
— É. A praga deu início justo quando eu estava chegando na vila. Era inacreditável. Vários rastros de luz cortando o céu violentamente. Foi assustador, eu vi a morte de perto.
— Se você está falando isso, é porque deve ser verdade. Mas o que aconteceu depois?
— A Chione estava muito assustada em ver tudo aquilo e eu tenter protege-la. Quando eu segurei ela acabei caindo e bati a cabeça. Quando acordei, estava dentro da casa de hebreu. E você não vai acreditar de quem.
— Quem?
— Do marido da irmã da Leila. Eu não sei o nome dele.
— Zelofeade.
— É esse mesmo. A Leila estava com o filho e com Hur. Gahiji e Chibale também estavam lá. Eles me resgataram quando estava desacordaram e cuidaram de Chione.
— Você na vila dos hebreus? É difícil de acreditar.
— Nem eu estou acreditando. O mais incrível é que eles não se importaram de me receber na casa dele, mesmo com o pior acontecendo lá fora. Parece que eu estou entendendo por que você ajudou tanto eles.
— Alguns hebreus nunca guardaram rancor dos egípcios. Mesmo sendo odiados e hostilizados, eles sempre nos ajudaram.
— Acho que eu nunca quis prestar atenção nisso. — Fiquei alguns segundos em silêncio, até retornar de meus pensamentos. — Bom, mas depois que eu saí de lá, a imagem que eu vi foi muito pior. O Egito tinha virado um pesadelo.
— Eu imagino como deve ter sido. Escutei os gritos daqui e foi horrível.
— Te garanto que ver pessoalmente foi uma experiência bem pior. O Egito inteiro chorava pelos seus primogênitos. Eles agarravam seus filhos mortos e eu só vi dor e sofrimento o caminho inteiro. E depois ainda tinha o palácio. O terror parecia não ter fim.
— Nossa. Eu tô sem palavras. E como você está se sentindo?
— Péssimo. Eu nem sem mais no que pensar, ou no que acreditar. É como se eu sentisse um vazio, como se eu não fosse mais nada.
— Sei como você se sente. Eu também passei pela mesma coisa. Parece que tudo o que a gente passou não valeu nada.
— Exatamente. A vontade que eu tenho é de berrar bem alto igual ao povo que chorou ontem. Sei que não passei por tanta coisa mas… estou muito mal, por tudo.
— Eu entendo perfeitamente o que está passando. Tenho vontade de surtar só por não ter notícias de Pepy. Mas, aquela moça, a Chione? Como ela está?
— Ela está bem e o feto está a salvo. Não a vi mais depois que saí da vila. Mas ela me disse uma coisa que me fez pensar muito.
— E o que seria?
— Ela me disse que nunca era tarde para fazer as escolhas certas.
— Entendi. Eu sei perfeitamente o que ela quis dizer. Passamos tanto tempo acreditando em ideias erradas que descobrimos que tudo o que vivemos foi uma mentira. Eu mudei um pouco quando vieram as pragas, passei a acreditar no Deus de Moisés. Sei que pode não fazer muita diferença, mas eu me sinto melhor em saber que talvez eu esteja fazendo a coisa certa. E acho que você pode se sentir melhor também.
— Pensei justamente nisso, por incrível que pareça. Tô muito confuso, vai levar muito tempo pra eu pensar em tudo o que passei.
— Tenho certeza que vai refletir sobre tudo. Você é inteligente. Não é a toa que se tornou o Comandante.
Ficamos alguns segundos em silêncio. As conversas com Ikeni surpreendentemente me deixavam melhor, mas tranquilo. Pelo menos na maioria das vezes.
— Só não entendo uma coisa, Ikeni. Mesmo tendo aceitado esse Deus dos hebreus, estar do lado de Moisés, você não deserdou. Preferiu ficar no palácio, servir o soberano, mesmo ele te acusando de traição. Por que?
— Não me arrependo do que fiz. Eu sempre tive uma boa relação com Moisés e com os hebreus do palácio. Mas a minha obrigação é servir o reino. Minha família e minha vida está no palácio. Nós juramos defender o Egito até a morte e é assim que deveria ser.
— Eu concordo. — Assenti. — Bom, eu gostaria de poder te soltar, mas não tenho esse poder. E também não posso pedir nada ao faraó nesse momento, pois ele está em prantos com a morte do príncipe. Eu posso ver o que dá para fazer, mas tenha paciência. Só esperar a poeira abaixar.
— Vai ser difícil, mas eu espero. — Deu um meio sorriso. — Já fico satisfeito por você ter vindo falar comigo. Eu não esperava.
— Você me decepcionou mas nós somos parceiros. Eu sentia que precisava falar com você. E antes que me esqueça, admiro sua coragem e sua fidelidade. É difícil ter que admitir isso assim., mas sabe como gosto de ser sincero.
— Eu sei. Obrigado, Bakenmut.
Nos despedimos e eu saí de sua cela. Mesmo completamente exausto, me senti um pouco mais leve por ter falado tudo aquilo com ele. Quantas vezes agi por impulso sem medir as consequências, pelo menos desse vez agir como um homem maduro que eu sou.
Eu poderia ser o homem mais errado daquelas terras todas, mas ninguém podia negar como eu era sincero em meus atos, tanto nos bons como nos ruins. Nunca fingi ser outra pessoa. Quem me conhecia reconhecia isso.
Tanto que realmente falava a verdade quando disse que não sabia no que acreditar. Passei minha vida toda sendo instruído a cultuar e satisfazer deuses materializados em estátuas, tendo a certeza de que eles iriam me proteger. E depois perceber que nenhum deles nos protegeu em nenhum momento. Milhares foram mortos acreditando neles, e nenhum sinal deles foi dado.
Nenhum desses deuses aplacou a fúria do Deus invisível que os hebreus tanto acreditavam. Um Deus que não tinha nome, nem aparência, que ninguém sabia como era de verdade, e que era tão desdenhado pelos egípcios. Que mostrou um poder tão inacreditável, que nenhum dos deuses que eu conhecia foi capaz de fazer.
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