Notas iniciais
Antes de mais nada, gostaria de avisar que dessa parte em diante não seguirei com fidelidade a linha do tempo da novela. Coloquei um pouco da minha versão dos momentos, e claro, o que eu gostaria que tivesse acontecido. Boa Leitura!

Andava pelos corredores, completamente escuros, enquanto escutava o choro coletivo se intensificar. Tive que me segurar como nunca antes para não cometer nenhuma loucura, o que naquela noite estava sendo bem difícil.

No caminho eu me lembrei que o quarto de Uri ficava perto. Fui até lá para vê-lo e encontrei o quarto escuro. Ao chegar mais perto, vi ele deitado de olhos abertos, mas não se mexia. Senti seu pulso e vi que ele estava morto. Engoli um seco ao lembrar o desespero de sua família que eu vi minutos atrás. Difícil de admitir, mas era triste ver que mesmo depois de ter sido poupado das outras pragas, Uri não resistiu a essa.

Uri foi o servo mais fiel do palácio, mesmo sendo hebreu. Ele fez questão de abrir mão de suas origens para ficar ao lado do faraó. Ao contrário dos outros hebreus e até alguns egípcios, ele não deserdou e decidiu ficar. Mas acabou pagando um preço alto por isso. Não pude deixar de ficar triste, porque de um jeito ou de outro, era um dos únicos que falava comigo. Nunca vou esquecer de quando ele me ajudou quando eu estava caído de fome na porta do quarto do rei durante a praga das trevas.

Fechei seus olhos e cobri seu corpo com a coberta. Não poderia carregá-lo naquele momento. O caos já se instalara no palácio. Passando no corredor, encontrei com alguns soldados. Seus semblantes eram de apreensão. Eles estavam me esperando há tempos, dei uma desculpa qualquer quando fui perguntado sobre o que estava fazendo.

— O senhor não vai acreditar, no que está acontecendo. É surreal. — Disse um dos soldados em um tom de voz aflito.

— Eu acredito. Eu vi com meus próprios olhos. Aconteceu alguma coisa com o soberano?

— Não sabemos. — Respondeu outro.

— Um dos soldados disse que escutou gritos do quarto dele. Provavelmente era a rainha. Mas ele ficou tão amedrontado que acabou fugindo.

— Pelos deuses… — Abaixei a cabeça, pois nunca antes tinha mencionado os deuses com tanta descrença. — E esses gritos?

— Só podem ser do harém. — Respondeu outro soldado.

— Então vamos pra lá. — Convoquei.

Passamos pelo longo corredor até chegar lá. A imagem era pior que eu esperava. As mulheres do harém chorando descontroladas. Segurando seus bebês e crianças. Elas chacoalhavam seus filhos na esperança de que eles tivessem alguma chance de sobrevivência, mas era inútil. Radina estava de pé em um canto, segurando o choro por se sentir impotente.

Fiquei na porta com os homens, apenas olhando. Não podia fazer nada. A mesma imagem que eu vi pelas ruas se repetia na minha frente e para quem mais quisesse ver. Era uma cena inacreditável, parecia um pesadelo que não teria fim nunca. Saí correndo para encontrar o faraó e relatar o ocorrido, mesmo esperando que ele já soubesse de tudo. E foi exatamente o que aconteceu.

Assim que o encontrei, cumpri com minha obrigação e relatei à ele sobre a morte de Uri e dos primogênitos do Harém. Ele sequer escutou, pra falar a verdade, ele não escutou ninguém. Estava vagando pelo corredor, com o olhar mais distante que nunca. Não prestava atenção em nada, apenas olhava para frente.

Em toda a minha vida no palácio, eu jamais vi Ramsés daquele jeito. Queria poder fazer alguma coisa, mas de uma certa forma, eu já entendia que tudo aquilo só aconteceu porque ele voltou atrás em libertar os hebreus. E ele fez isso tantas vezes.

Mesmo sabendo que a libertação dos escravos era o preço à se pagar para poupar o Egito, eu fiquei do lado do faraó e confiei nele. Poderia não ter sido a escolha certa, mas era minha obrigação. Eu tentei acreditar que toda essa bagunça era unicamente por culpa de Moisés. Eu relutava contra mim mesmo para continuar acreditando nisso. Mas depois daquela noite, essa minha crença caiu por terra. E o meu orgulho foi o mais afetado.

Horas depois, o sol nasceu de novo. Como sempre, o deus Rá voltava de sua luta no submundo. Pelo menos era essa a minha crença convicta antigamente. Foi o pior amanhecer que eu já presenciei na vida. O céu sempre claro, parecia mais cinzento. O vento da manhã reforçava o ar triste que invadia o Egito.

Eu sequer dormi. Na verdade passei a noite inteira às claras e de pé. Tive o ingrato trabalho de carregar os corpos e levá-los para que os cuidados necessários fossem feitos. E meu trabalho ainda não tinha terminado. Ainda teria que fazer o levantamento das mortes e cuidar de todo o resto mais tarde. Nunca foi tão ruim ter que cumprir minha obrigação.

As olheiras estavam nítidas em meus olhos. Quase não conseguia movimentar minhas pernas. A dor no meu ombro não tinha se amenizado, mas eu tentava fingir estar tudo bem para não suspeitassem de nada. Era muito comum eu virar as noites quando eu era soldado e tinha que ficar de guarda. Mas aquele tempo passou, já não era mais jovem. Não tinha mais a mesma disposição.

Naquela manhã, o clima do palácio estava o pior possível. As mulheres do harém continuavam chorando pelos seus filhos. O soberano carregou o corpo de seu filho até o santuário, os sacerdotes tentaram algumas coisas mas nada funcionou. Ele estava morto. Enquanto isso, a Rainha ficou em seus aposentos, e não saiu de lá.

Nunca tinha visto o faraó daquela forma. A confiança exacerbada, o orgulho, a prepotência, tudo aquilo desapareceu. Não aparentava em nada ser o homem mais poderoso de todo o Egito. Era como se o Hórus Vivo morresse. O deus na Terra não existia mais, ou nunca existiu. Parecia realmente morto por dentro. Não olhava para os lados, não falava.

Conhecia Ramsés desde que entrei para o exército. Era um garoto quando isso aconteceu, e ele também era. Era um príncipe muito confiante e mimado ao extremo. Sempre tinha tudo o que queria e ninguém lhe negava nada.

Tínhamos uma boa relação naquela época, mas não interagíamos muito. Preferia treinar com Moisés ou Disebek. As vezes nós conversávamos e brincávamos , principalmente quando o assunto era mulher. Eu até gostava dos nossos poucos momentos juntos, porque assim como eu, ele era sincero. Não tinha medo de falar o que pensava ou agir da maneira que achava conveniente. Mas não eramos de fato, amigos.

Os anos passaram e nos afastamos. Nesse período que Ramsés ficava disputando com Moisés o amor de Nefertari, eu fiquei mais amigo de Ikeni. Quando eu fui nomeado General pelo faraó, eu sentia que minha vida mudaria de verdade. Eu havia me tornado o segundo homem mais poderoso do Egito. Conselheiro de guerra do rei, e com um exército de milhares de soldados que me deviam obediência. Os anos de esforço estavam sendo recompensados.

Porém minha relação com o soberano nunca foi muito boa. Ele não costumava aceitar meus conselhos e minhas táticas de guerra, achava que poderia planejar tudo sozinho. Os anos passaram e ele só mandava, e em meio a berros. Não sei até agora como minha audição não foi afetada. Conforme Ramsés ficava preso à sua megalomania, ele tratava a mim e à todos como meros servos. Nunca tive a confiança que Disebek teve no passado.

Literalmente fiz de um tudo para ganhar a sua confiança e provar minha lealdade. Mas ele pouco deu valor. Achava que estava sendo valorizado mas era pura ilusão, que eu mesmo alimentei. Mas depois de tudo, cansei de me enganar.

Antes mesmo do sol chegar à pino, fui até à entrada do palácio. Andava lentamente, muito cansado. Respirava fundo para tentar tomar um ar mas parecia impossível. Meu corpo pedia por um momento de sono, mas minha mente estava agitada demais. Foi quando eu estava lá que apareceu a pessoa que eu menos esperava. Mas naquelas circunstâncias, era o único que apareceria por lá.

— Como as coisas estão no palácio, General? — Moisés perguntava com o seu cajado em mãos e voz mansa de sempre.

— Você já deve saber que as coisas estão péssimas. — Respondi ríspido.

— Como eu queria que não chegássemos à esse ponto.

— Acho que ninguém queria isso.

— À propósito, eu posso falar com Ramsés?

— Acredito que ele não vá querer falar com ninguém. Muito menos com você.

— Eu entendo. Mas eu preciso mesmo falar com ele.

— Tudo bem… — Dei espaço para ele, desanimado.

— Aliás… — Ele parou de caminhar e se virou para mim. — Fiquei sabendo que esteve na vila ontem e de tudo o que fez. Foi muito corajoso de sua parte.

— Então você ficou sabendo.— Passei a mão na nuca. — Não sei o que deu em mim naquele momento.

— Você enfrentou a praga para salvar uma mulher. Foi algo arriscado, mas heroico.

— Eu vi tudo aquilo com meus olhos, eu só queria saber o porquê daquela tragédia toda.

— É apenas a vontade de Deus que precisa ser cumprida, Bakenmut. Você agora percebeu que ele está acima de todos nós, inclusive o faraó. Não tem a ver comigo e nem com o Egito. A vontade do Senhor é que o nosso povo seja livre.

— Como um deus que não tem nome e nem rosto pode fazer tudo isso?

— Não precisamos vê-lo, e sim senti-lo. E ele não precisa disso pra mostrar o seu poder. Como pode ter visto.

— Acho que não tem mais como não ver. — Falei virando o rosto.

— Fico satisfeito que tenha se convencido disso, de uma forma ou de outra.

— À propósito. — Falei sem muito jeito. — Diga a Leila e sua família que eu agradeço muito pela ajuda. Sei que não tem importância eu falar isso. Mas eu sinto que eu devo isso.

— Tudo bem. Eu vou dizer. Com sua licença. — Após isso, ele se afastou.

Respirei fundo assim que vi que estava sozinho na entrada do palácio. Aquele jeito sereno e tranquilo me irritava tando. Era por isso que nunca nos damos bem. Não gostava daquele jeito bobo e romântico dele, de sempre querer ser certinho e querer dar lição de moral. Era por isso que ele sempre foi mais amigo com Ikeni. Ficava me perguntando se tudo isso teria acontecido se tivesse matado ele no deserto quando ele havia fugido. Ou talvez tudo tivesse sido pior ainda.

Mas o que mais me estranhava era que Moisés nunca guardou rancor. diferente de mim. Toda vez que eu era obrigado a me dirigir a ele, desde que voltou para o Egito, ele sempre me tratou com educação e tranquilidade. Isso me deixava com uma certa raiva porque ele parecia fazer isso para me irritar, por cinismo.

Pensava isso até perceber que ele agia da mesma maneira que a maioria dos hebreus. Era inacreditável, eles tinham todos os motivos do mundo para me odiarem, mas muitos deles não tinham esse sentimento. Pareciam tranquilos, receptivos. Mesmo sendo escravizados e hostilizados a vida inteira, alguns deles se dispuseram a ajudar durante as pragas, oferecendo água e pão.

Até mesmo na noite anterior, quando aquela família hebreia me resgatou daquela praga, e ainda estava difícil de acreditar nisso. Eles poderiam ter me deixado alí, ou até me matado já que estava vulnerável. Mas eles me socorreram, tanto eu como Chione.

Eles sempre se mostraram com uma certa esperança. Como se soubessem que as coisas melhorariam pra eles um dia. Como se previssem que tudo aquilo iria acontecer. Eu sempre odiei eles, mas chegou um momento que eu não sabia porque os odiava. Fui edicado a sentir ódio e repulsa pelos escravos, que acabou se tornando algo natural isso.

Eu ficava pensando sobre tudo isso naquele péssimo dia. Até porque, eu não conseguiria pensar em qualquer outra coisa. Aquilo me deixava com um grande mal estar. Poderia não ser tão ruim quanto aqueles que perderam seus filhos. Mas me fazia querer desabar.

Só não desabei porque o dia ainda nem tinha começado direito. E eu tinha muito o que fazer. Precisava sair para ver como estava o Egito e fazer relatórios sobre as mortes e perdas. Como General, tinha que cumprir com minhas obrigações, inclusive nos piores momentos. Principalmente nesses momentos.

Notas finais
E aí pessoal, o que acharam? Se puder, deixe um comentário. No próximo capítulo o Bakenmut vai ter uma conversa muito sincera com alguém, que de certa forma faz parte da vida dele. Alguém tem um palpite. E lógico, deixando a música que inspirou esse capítulo: 30 Seconds To Mars - A Beautiful Lie https://www.youtube.com/watch?v=4Kvd-uquuhI Só lembrando que o próximo será o penúltimo capítulo e será postado na próxima segunda (o último também). Qualquer coisa, me sigam no Twitter: @eumarkgarcia Até a Próxima!