Segunda Chance
1 Capítulo Único
— Magie! Estamos atrasadas! – grita Isadora.
— Já estou indo, mana! – responde Magie
Magie desce as escadas correndo, recebendo uma bronca da mãe:
— Cuidado para não cair, menina! Daqui a pouco você quebra a cara no chão!
— Ok, ok, não faço mais. Beijo, temos que correr para pegar o ônibus.
— É! Vamos chegar atrasadas na escola de novo! – reclama Isadora.
— Beijos, se cuidem! – despede-se sua mãe.
Magie e Isadora saem de casa e veem o ônibus parado no ponto, a 50 metros de distância. Magie diz:
— Dá tempo se a gente correr!
Foi só ela falar que o ônibus dá partida, impossibilitando as irmãs de chegarem no horário na escola.
— Ótimo, Magie, ótimo! – reclama Isadora – Graças a você perdemos o ônibus! Você é tão desorganizada que demora 20 minutos pra achar um suéter no meio daquela bagunça que é seu quarto! Nem parece que somos irmãs!
— Ah, não se estressa, isso não faz bem pra pele! Olhe, é só irmos à avenida, lá tem táxi. – responde Magie.
— Quem vai pagar?
— Ah, guria, deixa de ser mão de vaca! Você tem grana sobrando aí!
— Mas estou economizando pra comprar aquele vestido verde que vi no Shopping!
— Depois descolo grana suficiente pra você comprá-lo.
— Como?
— Papai.
As duas andam três quadras antes de chegar à avenida. Faltam dois dias para as férias escolares de fim de ano, e metade das famílias da cidade já estão de partida para a praia, movimentando ao máximo o trânsito nas ruas.
— Eita! Esse povo parece que nunca viu praia! – diz Magie.
— Onde tem um táxi agora? – pergunta Isadora.
— Tem um vindo lá. – diz Magie, apontando um táxi a uns dois quilômetros.
Isadora remexe em sua bolsa, procurando o dinheiro do táxi quando se ouve um estrondo. Um carro desgovernado vem do nada e bate de lado nas duas irmãs, jogando-as pro lado e desacordando Magie.
A única coisa que Magie se lembra é de ter batido a cabeça no calçamento.
Ela acorda na cama do hospital, com a cabeça enfaixada e o braço cheio de curativos. Uma dor de cabeça tremenda. Ela tenta sentar-se, mas uma forte pontada em sua cabeça a faz desmaiar de novo.
Acordando novamente, ela vê que sua mãe está sentada numa cadeira ao lado de sua cama, cabisbaixa. Seus olhos estão vermelhos e com olheiras, mostrando que estava chorando recentemente e não dormiu muito bem.
— M-mãe? – diz Magie.
Sua mãe ergue a cabeça e arregala os olhos quando vê Magie acordada. Ela não sabe se chora ou ri.
— V-você está viva!
— É lógico que estou viva, mãe! – responde Magie, surpresa.
— Eles disseram que seu cérebro estava morto!
— Eu nunca fui muito inteligente, mas meu cérebro estar morto já é exagero, não?
Sua mãe começa a chorar e abraça Magie, provocando uma dor imensa nela.
— Mãe! Tá doendo!
— Desculpe. – diz sua mãe soltando-a – Mas depois da sua irmã eu não podia aceitar te perder! Eu não podia...
— Minha irmã? O que houve com a Isa?
A mãe de Magie para de falar e dor toma conta de seus olhos. Lágrimas começam a se formar.
— Mãe... o-onde está Isadora? – Magie sente o desespero formar-se dentro de si, e sua mãe abaixa a cabeça, chorando.
Magie pega as mãos de sua mãe e aperta com força.
— Mãe! Responda-me mãe! Cadê minha irmã, mãe?! – diz a garota, com lágrimas nos olhos.
Sua mãe começa a soluçar e a verdade atinge Magie.
— Mãe, não me diga que ela...
A mãe de Magie ergue a cabeça, com os olhos inchados.
— Ela morreu, Magie.
A temperatura da sala parece descer vinte graus quando sua mãe diz isso. Magie fica pasma, sem saber o que fazer. Então o desespero toma conta dela.
— Não! Não! Não! Não! – grita, chorando desesperada. – Ela não morreu! Ela tá viva!
— Acalme-se, filha, senão os médicos...
Magie sente uma agulha entrando em seu braço, e depois tudo fica escuro. Ela sonha com um elefante violeta que fica pisoteando sua irmã, ela tenta ajudar, mas um cachorro vestido de palhaço a impede.
Quando acorda, um médico está com uma prancheta aos pés de sua cama.
— Como se sente? – diz o médico.
— Como se um elefante violeta tivesse pisado em minha cabeça. – responde Magie, o médico anota.
— Do que se lembra?
— Pouca coisa, apenas fragmentos. Eu descendo escadas, atravessando uma rua, vendo um ônibus e um carro batendo em mim. Mas, o que aconteceu?
— Um carro furou o sinal vermelho, fazendo com que outro carro batesse nele, assim, ele desgovernou e bateu de frente em sua irmã.
— Mas ele não bateu em mim?
— Sim, mas foi de lado. Te jogou no calçamento, ferindo seu braço e sua cabeça.
— Foi muito grave?
— Não, apenas três pontos na região acima da orelha.
— Minha irmã realmente morreu?
— Infelizmente. O carro acertou sua perna direita, ocasionando fratura exposta. Perdeu muito sangue, morreu no caminho para o hospital.
A notícia não a atinge tanto agora. O choque já passou.
— Quanto tempo fiquei desacordada?
— Uma semana. Havíamos perdido esperanças com você, acreditávamos que seu cérebro estava morto.
— Quando voltarei pra casa?
— Na véspera do natal.
Magie fica no hospital por mais uma semana, fazendo exames e consultas, quando finalmente cinco dias antes do natal liberam-na e ela volta pra casa. Ela deita no quarto que dividia com a irmã. Ele parece muito maior agora. E mais vazio. Mais solitário. Sombrio. Triste. Como se a cor tivesse sido tirada dele. Magie quer chorar, mas não consegue. Chorou muito no hospital. Culpou-se muito. Gritou muito.
Pelos dias seguintes ela come muito pouco, e não consegue dormir. Apenas fica deitada na cama, em posição fetal. Está mais magra, doente, e com olheiras, mas não queria comer, nem dormir. Pra que? Sua irmã morreu! Pra que continuar vivendo? Pra que continuar chorando? Pra que continuar se lamentando, se culpando, sofrendo pelo resto da vida? Pra que? Pra que? Pra que? Pra que? Morrer é melhor, não? Dar um fim a tudo isso. Ao sofrimento. Ao choro. A tudo. É melhor. Muito melhor.
Na festa de final de ano ela é obrigada a sair do quarto e comer, pois os amigos de sua mãe viriam comemorar. Por que tanta cor, tanta alegria? Sua irmã havia morrido.
— Mas você sobreviveu! – diz sua mãe.
— Sobrevivi pra viver em sofrimento. – responde Magie.
Quando os convidados chegam, ela o vê. Alto, moreno, olhos azuis. Lindo. Perfeito. Foi amor à primeira vista, algo que Magie não acredita e agora está vivenciando. Ela senta-se do lado dele e pergunta seu nome.
— Felipe, e o seu? – respondeu ele.
— Magie.
O resto da noite foi somente deles. Os outros convidados não importavam. Não existiam. Comeram, conversaram, riam. Então aconteceu. O beijo. Eles estavam na varanda, olhando as estrelas.
— Qual sua estrela preferida? – pergunta ele.
— Sirius, e a sua?
— Eu costumava não admirar estrelas, mas agora minha preferida está aqui do meu lado.
Ele pega em sua nuca e a beija. O primeiro beijo de Magie.
A noite acaba, e os convidados vão embora. Felipe diz que vem na casa dela no dia seguinte, mostrar seu hobby. Então ela dorme, e não sonha. Apenas dorme.
Quando acorda, ela vê uma cesta de café da manhã em cima da cama e um bilhete. Ela pega o bilhete e lê: “Oi, dormiu bem? Eu não consegui dormir. Fiquei me lembrando do seu sorriso. Da cor de mel dos seus lindos olhos. Dos seus cabelos castanhos que parecem cachoeiras de chocolate. Resolvi te mandar um presente. E um pedido: Quer namorar comigo?
PS.: Abra o pão e venha na sua sala”
Magie abre o macio e dourado pãozinho e encontra uma aliança prateada incrustada de pequenas pedrinhas brancas. Ela levanta-se com os olhos cheios de lágrimas e vai à sua sala. Seus pais estão num sofá com um largo sorriso no rosto e Felipe no outro, com um enorme buquê de tulipas.
— Sim, eu quero! – diz Magie, pulando nos braços de Felipe.
Pelo resto do dia Filipe ensinou a Magie pintar. Ele pintou um retrato de Magie e ela tentou fazer um cachorro, mas o que saiu foi uns palitinhos que mais pareciam um espaguete.
Anoiteceu e começou a chover. Felipe despediu-se e foi para o ponto, pegar o ônibus. Ela pendurou o quadro na parede do quarto, que não perecia mais muito grande. Sombrio. Solitário. Triste. Mas sim alegre. Colorido. Iluminado. Felipe havia preenchido o vazio que havia dentro de Magie desde a morte da irmã.
Magie resolve ligar a televisão e aparece o canal de notícias com uma reportagem ao vivo de um ônibus que havia caído no despenhadeiro ao lado da avenida e não havia sobreviventes. “Que horror” pensou Magie. Ela vai desligar a televisão quando ouve o nome do ônibus. O mesmo que Felipe havia pego. Felipe estava naquele ônibus. “Não há sobreviventes” a voz da repórter ecoa nos ouvidos de Magie.
— Felipe!
Magie corre pra porta da sala e sai descalça na chuva, corre pelas ruas até chegar na avenida. Vê o movimento e o local onde o ônibus havia caído. Ela correu pela avenida e atravessou o bloqueio na polícia. Tentaram impedi-la, mas ela correu e correu. Ela chegou na ponta do despenhadeiro. Não havia mais motivos pra viver. Perder dois amores é muito. Pode-se viver só com um rim, mas sem dois é impossível. Ela iria acabar com sua vida e encontrar sua irmã e Felipe no pós-vida. Então ela se jogou.
Magie abre os olhos, sobressaltada.
Ela olha em volta sem entender nada, então ela vê sua mãe sentada com a cabeça encostada na sua cama, dormindo. Ela quis acordá-la, mas viu outra cama do lado da sua, separada por uma cortina branca. Magie arranca os aparelhos presos nela e levanta. A dor é terrível, mas ela consegue se sentar. Ela coloca um pé no chão, depois outro.
Magie anda até a cortina e a afasta, revelando uma figura que Magie reconheceria de longe. Sua irmã. Ela mesma. Cabelos castanhos. Olhos negros. Igual aos do seu pai.
Os olhos de Magie começam a se encher de lágrimas. Sua irmã estava viva. Ela não queria saber como, ela só queria chorar de alegria e abraçá-la, beijá-la. Então ela ouve um grito e vê um médico e uma enfermeira correndo ao seu encontro.
— Sente-se! Você não pode fazer esforço! – grita o médico.
Então sua mãe acorda e vê Magie de pé. Ela dá um grito e deita a menina na cama, depois começa a chorar.
— Você está viva! –diz ela.
— O que houve?? – pergunta Magie, sem entender nada.
O médico injeta algo em sua veia, então ela dorme. Ela acorda dois dias depois, em casa. Ela percebe que está tendo uma festa, então se levanta e vai pra sala.
Lá está sua irmã, com a perna engessada na frente de um cartaz dixendo: “Parabéns, Magie, por vencer o coma!!!”.
Então era isso, um coma. Magie corre e abraça sua irmã, chorando. Várias coisas estão passando pela sua cabeça. Era tudo um sonho. A irmã estava viva, e... e ela nunca tinha visto Felipe.
Alguém toca o ombro de Magie, ela se vira e o vê: Felipe.
Fale com o autor