Seguindo em Frente
26 Interrogatório
Notas iniciais
Com a visão embaçada e sem conseguir mover o corpo por causa da dor — nos braços, nas pernas, o latejar em sua cabeça e até nos ossos -, Lisa sentiu mãos delicadas subirem sua cabeça pela nuca devagar. Após fechar os olhos para suportar as pontadas durante o movimento, um par de olhos negros surgiram de cima, e notou a boca da menina se mover freneticamente.
— Você consegui me ouvir? — a pergunta veio de longe. Tentou assentir, mas seu pescoço protestou contra. Um líquido molhou seus lábios e quando as pequenas gotas atingiram sua garganta, abriu mais a boca e deu goles e mais goles de água — que ela suspeitava ser de uma alucinação bem realista. Imaginação ou não, a menina piscou os olhos buscando deixá-los aberto. Até eles doíam.
— Ela não consegui nem abrir os olhos — escutou outra voz dizer melancólica.
— É claro que não, bobona — outro irritado debochou. — Aquela bruxa idiota fez aquilo com ela e você esperava o quê? Risos e piadas?
— Parem de brigar! — alertou uma menina, sussurrando uma repreenda aos outros dois dos quatro que estavam em torno de Lisa Stark.
— Becca... seu nome é Becca, certo? — um voz mais baixa e indagou trêmula, aproximando-se mais da garota focada em Lisa. — Olha o braço dela. Ainda está sangrando e tem pus ao redor.
— E isso é ruim?
— Meu pai falou sobre isso uma vez — a mesma voz informou, parando de falar ao lembrar do pai. — Ele é médico. Se aquela faca estava enferrujada então os cortes já infeccionaram.
Os quatro rostinhos olharam para Lisa, sem saber o que fazer. Becca tocou a testa dela ao vê-la tremer e as lágrimas de mais desespero caíram quando sentiu a temperatura da também refém. A febre estava alta. Pegou a vasilha de água que haviam juntado daquela manhã e deu mais alguns goles para Lisa.
— Espera, o que está fazendo? — Becca murmurou para Joan, o garoto irritado que sempre resmungava. Ele tirava o sapato e a meia, dando uma rápida perguntada se mais alguém entre eles ainda queriam água. Com as negativas, mergulhou a meia na vasilha e espremeu, colocando ela na testa da menina desacordada.
— É preciso água gelada para isso — esclareceu, torcendo as mãos no colo, os olhos vidrados em Lisa. — Mamãe sempre faz quando eu fico doente.
Falar dos pais era doloroso para eles e foram interrompidos quando as gargalhadas miseráveis soaram pelo rochedo.
— Conseguimos irmãs! — eles só viram os cabelos brancos e longos voando, rodando em torno do corpo esbelto da má bruxa. Ela falava para o céu e tinha uma junção e felicidade e irritabilidade do rosto — se é que possível misturar tais sentimentos. Ficaram de boca aberta observando a esfera de brilho azul oscilar a cima da mão dela, só que mesmo espremendo os olhos não conseguiam ver nada. A bruxa, o contrário, tinha um sorriso quase apaixonado para as imagens que só ela via e seus olhos nem piscavam de tanta adoração.
Ela ergueu a varinha e em um movimento de sincronia.
— Habemus potestatem! — gritaram, as vozes cortantes contra o bom tempo.
Viram assutadas as nuvens ficarem negras e se juntarem, formando um tipo de redemoinho e o rosto de um animal formar.
***
— Os alunos sabem que está acontecendo alguma coisa.
— Não, eles suspeitam — corrigiu Rony a diretora. — Os estampidos foram altos demais.
Ainda estavam no castelo e os três aurores encaravam a bruxa desacordada e amarrada a cadeira a exatos quinze minutos após a captura. Inúmeros passos do lado de fora do escritório eram ouvidos, assim como os murmúrios de curiosos especulando um duelo escondido.
Os cabelos cumpridos, altos e muito cacheados caíam pelas costas da mulher semelhantes a uma cascata. As vestes, compostas por um vestido de mangas que lhe desciam os braços negro e um grosso cinto circulando a cintura fina dela, estavam a mostra depois que a capa fora arrancada de seu corpo. Observando o rosto da bruxa, notaram que, desmaiada, ela era linda e de feições delicadas, escondendo uma provável — e real — personalidade horrenda.
— Ela me parece a...
— Bellatrix — completou Hermione, olhando fixamente para a, de acordo com ela, a cópia da comensal da morte que tanto odiava. A hesitação no rosto de Rony a irritou: como se dizer o nome dela fosse um tipo de tabu como era com Voldemort, ou que a ainda mexesse com seu emocional. Da segunda parte tentava se convencer do contrário, mas era só erguer a mão e tocar suas cicatrizes que revivia o passado.
Harry e Minerva olharam para ela e o moreno entendia o sentimento, mas era tarde demais para vingá-lo depois que Molly terminara o serviço a três anos.
— Parece até demais — Minerva mudou o assunto para o mais importante. Ela circulou a prisioneira, olhando atentamente com as sobrancelhas juntas. — A semelhança me assustaria se não fosse os anos de conhecimento em magia para me fazer suspeitar em uma maldição.
As batidas na porta os fizeram sobressaltar e lembrarem do trabalho que tinham que continuar. A pessoa estava impaciente para entrar e Harry, Rony e Hermione sussurraram para a diretora que já iam enquanto a morena levantava a varinha, desatando os nós das cordas que prendiam a bruxa na cadeira. Rony ficou encarregado de levá-la no colo e isso não agradou nem um pouco Hermione.
O ruivo foi na frente com Harry e quando Hermione entrou logo em seguida na lareira de volta para o ministério viu McGonagall acenar formal com a cabeça para ela.
Sacudiu as extremidades da blusa de flanela xadrez que usava por cima da regata branca para tirar as poucas cinzas e caminhou apressada até a sala de reuniões. O elevador não estava muito cheio e chegou ao seu destino no momento que Peter dobrava o corredor até ela. Em um susto, Hermione notou que ele tirara a barba que era sua fiel companheira e que tanto a incomodava quando ele a beijava.
A expressão neutra do moreno a fez sentir um arrepio pela espinha e o silêncio dele ao entrar, como se ela não estivesse ali, só a deu a certeza que tinham que conversar no final do expediente. Soltou um suspiro de tédio e entrou, fechando a porta.
A visão que tinha era da sala bem maior — talvez um feitiço de extensão para caber todos da Ordem da Fênix — e uma única fonte de luz no teto: um pendente iluminando a bruxa agora acordada e novamente amarrada com as mãos para trás. Os cantos do local continuavam escuros e o momento não poderia ser mais assustador a olhos estranhos, mas Hermione acostumara-se com isso a muitos interrogatórios.
— Qual o seu nome? — escutou o ministro dirigir a pergunta a bruxa. Ela não se moveu, os olhos fixos em algum ponto desconhecido. — Qual o seu nome?
A aura negra ao redor dela deixou a sala fria; nenhum ali se importou com isso.
— Trabalha sozinha ou ajudou mais alguém? — Kingsley tentou de novo, cruzando os braços de frente ao corpo.
Ela mantém-se em silêncio.
— Por que ela não fala? — sussurrou Hermione para Harry mais atrás. — Deveria pelo menos dizer se tem culpa ou não já que a pegamos, não acha?
— Talvez não entenda. Ou está ignorando as perguntas.
— Fico com a segunda opção — Rony decretou, do outro lado de Harry. — Ela me parece bem tagarela e deve está se segurando.
E ele tinha razão. O pescoço da bruxa estava vermelho por querer falar algo e ao mesmo tempo sem querer estragar o que escondia.
A morena deu um passo a frente ao notar que uma parte do cabelo dela lhe caía sobre um dos olhos, notando que uma rápida luminosidade brilhou.
A prisioneira focou-se nela ao vê-la sobre um ponto com luz. Um sorriso debochado surgiu, mas foi em um segundo que morreu, quando seu olhos caírem no braço de Hermione... precisamente o esquerdo. A auror notou isso.
— Furem — murmurou a bruxa sacudindo-se sobre a cadeira, tentando se soltar das cordas. — Furem!
Todos encresparam as sobrancelhas, sem entender. Mas Hermione cavou em sua memória, algum idioma, um chamado, um tipo de frase que expressasse qualquer coisa.
A bruxa continuava a encarar, dividindo a atenção entre o rosto da morena e as cicatrizes.
— Gostou delas? — indagou, pedindo passagem e erguendo mais a manga cumprida de sua blusa de flanela. — Quer ver de perto?
O xingamento gravado e cicatrizado em elevações na pele alva da garota brilhou. Hermione fez questão de acariciar o local que tentava não olhar.
— Sangue ruim — a bruxa murmurou e a indignação foi geral. As pontas de varinhas surgiram, circulando as duas que seguravam o olhar mortalmente, travando uma disputa para descobrir o que escondiam.
— Então você me entende? — foi retórica, mas deu tempo para Hermione respirar e ficar ereta. — Tudo bem, gente, abaixem as varinhas. Sei me cuidar muito bem.
Seus companheiros hesitaram, mais recuaram.
Se virou para a prisioneira.
— Você sabe onde as crianças estão. Acho melhor encurtar seu showzinho e dizer logo onde podemos encontrá-las.
— Mais — a outra sussurrou, semelhante a uma cobra, o som rasgando a garganta. A morena não entendeu de primeira e ergueu as sobrancelhas, surpresa com a audácia. Falaria se tivesse algo em troca e ela bem sabia o que tinha que dar.
Puxou a varinha do cós da calça, mantendo-a abaixada. Escutou arfadas e passos a frente, mas ninguém ousou interferir: a bruxa estava falando.
— Não me sinto mais ofendida quando me xingam de sangue-ruim — falou. — Sei que não roubei mágica nenhuma e costumo pensar que se vim para esse mundo foi para um propósito... assim como aquelas crianças sem culpa que estão presas em algum lugar, que você sabe onde é. Me diz onde.
Esperou, sem ter respostas.
Hermione pensou que a área que a outra mais olhava eram suas cicatrizes no braço. Com um feitiço fraco, tocou aponta de sua varinha nelas.
— Onde?
— Nove, nove, só mais uma... dez, dez, e mais um... — os murmúrios eram desconexos.
— O que isso significa? — disse com a voz mais alta o ministro.
— Elagritou tanto... cortes fundos nos lugares certos...
Hermione parou, o choque pesou em seu corpo e sua mão com a varinha fez um corte maior no interior do braço.
Ele caiu ao lado de seu corpo, a linha grosa de sangue pingando para o chão e o ardor não a impediu de sentir raiva.
— Ela implorava para que eu parasse — a cacheada gargalhou, jogando a cabeça para trás. — Mas foi tão bom marcá-la... e a tortura foi completa...
Sentiu seu corpo ser puxado para frente e encarou de expressão neutra a auror que tinha as mãos apertando seus ombros.
— COM QUEM FEZ ISSO? — ela gritou.
O sangue que escorria para as suas pernas a enojou — o sangue-ruim daquela ladra. Ele pulsava quando mais perto de seu corpo e a vibração forte a fez gargalhar, mas no fundo sabia o poder que ele tinha e o que poderia provocar se usado bem. Ou mal, no caso dela e de suas irmãs.
Fitou o outro grupo que a ameaçava de varinhas erguidas.
Mas já era tarde demais. Suas irmãs já deviam está agindo.
***
Hermione empurrou Peter com violência. Não queria ser antipática, mas ter ele lhe circulando, perguntando se estava tudo bem a toda hora era sufocante. Por que Peter não podia ficar calado um minuto?
Ele viu que não adiantava conversar e saiu da sala separa que a levou, deixando-a sozinha.
A morena respirava ofegante, seu coração acelerado e dolorido. Saber que mais uma pessoa passou por o que ela tinha passado — ainda mais uma criança — a deixou indignada. Se fechasse os olhos poderia sentir o poder da maldição cruciatos que Bellatrix usou... era dor demais para uma criança. Uma sombra cobriu seu rosto.
Rony estava a sua frente, o cenho franzido e olhar baixo. Tê-lo perto acalmou seu coração.
O ruivo não disse nada e puxou-a para mais perto, rasgando a barra da blusa de flanela. Pegou no braço esquerdo de Hermione — o líquido vermelho escorria por seus dedos agora — e amarrou o pedaço de pano, estancando o sangue que derramava.
Ele poderia usar um feitiço para curar, só que ela não conseguia falar nada. Começou a ficar curiosa do fato dele falar mais que todos. Soltar um comentário em um momento inapropriado para descontrair era a cara dele. Rony era o ponto de sanidade que faltava para não enlouquecer de vez.
— Tem que se controlar.
Levantou a cabeça o viu de cenho mais franzido ainda.
— Falou o mais calmo da vida — retrucou. — Você perdia a cabeça por qualquer coisa.
— E quase perdi quando ela te chamou daquele nome.
Hermione buscou os olhos dele.
— Como se fosse a primeira vez que alguém me chama assim.
— E seria a última para ela.
A ameaça escondida dele a fez tremer com o jeito raivoso de falar.
Mas foi tão bom marcá-la... e a tortura foi completa...
Arfou.
Assim como ela
A lembrança não iria embora tão cedo. O soluço veio antes que controlasse e o modo protetor que sentia com o ruivo deixou-a ser erguida nas pontas dos pés, enterrando o rosto na curva do pescoço de Rony enquanto os braços dele a seguravam pela cintura.
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