Zara caminhava pelo corredor com passos rápidos, quase duros, como quem foge de um campo de batalha prestes a explodir. A respiração ainda estava presa na garganta, e o toque das mãos deles ardia como um feitiço queimando devagar.

“Idiota… por que deixou isso te afetar?”, ela se repreendia.

Mas cada fibra de seu corpo gritava outra resposta: porque é ele.

As luzes suaves da torre não ajudavam. Era como se o palácio todo conspirasse para lembrá-la de noites esquecidas, de promessas silenciosas, de um passado que deveria ter sido enterrado no campo de guerra.

Antes de chegar à porta do próprio quarto, Zara já alcançava a mão na maçaneta, apertando os olhos como se somente aquela ação pudesse fazer mágica e puxá-la diretamente para dentro do quarto.

“Entre. Feche. Acabe com isso.”

Mas o corpo… não obedecia.

O bom senso vacilou, rachado.

E algo feroz tomou seu lugar.

Antes que pudesse pensar, ela se virou — e o mundo pareceu se mover sozinho.

Gil-galad que ainda tinha tentado chama-lá, antes dela seguir pelo corredor, seguia a ela como sombra como se temesse que devido aquele toque ela resolvesse sumir de vez. Ela a olhava e havia em seu rosto um misto de culpa, reverência e um amor tão claro que quase feria.

Zara sentiu o chão sumir.

— Gil… — ela começou, mas a voz que saiu não era de raiva nem de controle. Era de fome.

O nome dele mal terminou de escapar antes que Zara avançasse.

Não caminhou — atacou, tomada por algo profundo, primitivo, dolorido e apaixonado.

Ela agarrou o rosto dele com ambas as mãos e o puxou para um beijo que parecia roubar o ar dos dois. Um beijo que carregava anos de silêncio, de saudade sufocada, de noites vazias. Gil-galad soltou um som baixo, surpreso, quase um gemido.

As costas dele bateram suavemente na parede do corredor, mas ele não se defendeu — não se afastou — não respirou.

Zara o beijava como quem renasce e morre no mesmo instante.

— Zara… — ele tentou dizer entre beijos, mas ela silenciou sua boca com outra investida ainda mais intensa, mordendo-lhe o lábio inferior, puxando-o para si como se quisesse incorporá-lo.

Gil-galad ficou transtornado.

O rei altivo desapareceu.

O comandante perfeito desapareceu.

O elfo imortal desapareceu.

Sobrou apenas o homem — e seu amor absoluto por ela.

Ele segurou a cintura de Zara, puxando-a contra si com uma urgência que quase doía. As mãos subiram para suas costas, para sua nuca, entre seus cabelos. Ele a ergueu só um pouco, como fazia anos atrás — aquele gesto íntimo que dizia “você é minha luz”.

Ela soltou um leve gemido contra a boca dele que incendiou a mente de Gil-galad. Por falta de fôlego, eles foram encerrando o beijo, muito mais por necessidade física do que vontade emocional.

Zara encostou a testa na dele, respirando rápido, o peito subindo e descendo descontrolado.

— Eu tentei… eu juro que tentei — confessou, como quem sangra. — Mas quando você me olha assim…

Ele segurou seu rosto com as duas mãos — com uma delicadeza quase divina.

— Zara… — disse, firme, sem desviar. — Eu te perdi uma vez. Não vou perder outra.

Ela piscou, como atingida por uma flecha.

Gil-galad continuou, com uma convicção que fazia o ar tremer:

— Você é o meu amor. A única. A verdade da minha vida. E será minha rainha — mesmo que o mundo inteiro se levante contra nós.

Zara soltou um pequeno riso desesperado, misto de dor e desejo.

— Você é louco, Gil-galad.

Ele sorriu, encostando os lábios nos dela num toque reverente.

— Só por você.

Ela o puxou de novo, beijando-o com uma força que parecia querer devorar anos de distância. As mãos dela deslizaram pelo pescoço dele trazendo para ainda mais perto — se é que isso era possível — talvez apenas para assegurar de que ele era real, que estava ali, que não era uma lembrança traidora.

E Gil-galad a beijava com tudo o que nunca disse.

Como se ela fosse o ar.

O lar.

A eternidade.

O corredor tornou-se pequeno demais para o que sentiam.

E quando Zara abriu a porta de seu quarto com a mão livre, sem romper o beijo, Gil-galad entendeu que não havia mais volta — nem para ele, nem para o destino dos dois.


A porta se fechou com um clique suave, abafando o mundo lá fora.

Durante alguns instantes, nenhum dos dois se moveu — como se receassem que qualquer movimento brusco quebrasse o feitiço frágil daquele instante.

Zara manteve as mãos no rosto dele, respirando contra seus lábios, sua testa ainda encostada à dele. O peito dela subia e descia devagar, lutando para encontrar um ritmo que fizesse sentido.

Gil-galad apenas a observava, como quem contempla algo sagrado.

Então, Zara o beijou outra vez — não com a fúria do corredor, mas com um carinho lento, hesitante, profundo. Ele respondeu na mesma intensidade, segurando sua cintura com cuidado, como se ela fosse feita de luz e pudesse se desfazer entre seus dedos.

Ela o guiou até a beira da cama e, num gesto quase impaciente, pressionou-o suavemente para que se sentasse. Ele cedeu sem romper o beijo; moveram-se em harmonia, como se qualquer afastamento pudesse quebrar algo frágil demais para suportar interrupções.

Gil-galad percebeu então a mudança.

As mãos de Zara, antes hesitantes, tornaram-se mais seguras — ousadas. Percorriam-lhe as costas com urgência silenciosa, subiam pela nuca, entrelaçavam-se em seus cabelos, puxando-o para mais perto. O corpo dela se inclinava contra o dele como se quisesse diminuir até o último espaço entre ambos.

E ele desejava aquilo. Valar, como desejava.

Mas conhecia Zara. Sabia que sua intensidade vinha do mesmo lugar onde ainda havia feridas abertas.

Tentou interromper, a boca ainda próxima da dela.

— Zara…

Ela mal lhe deu ouvidos, aprofundando o beijo, e ele amaldiçoou em pensamento a própria consciência. Porque a queria com a mesma urgência. Talvez mais.

Mesmo assim, reuniu forças e a afastou apenas o suficiente para que pudesse vê-la.

— Meu amor…

Zara abriu os olhos devagar. A frustração que atravessou seu rosto arrancou dele um meio sorriso involuntário.

— Sei que a distância tornou tudo entre nós mais… intenso — disse ele, a voz baixa. — Mas não quero que nada aconteça por impulso. Não quero que amanhã você sinta que foi levada por algo que ainda dói.

Ele segurou uma das mãos dela e levou-a aos lábios, beijando-a com reverência, não com fome.

— Ainda há cicatrizes em seu coração. E eu prefiro curá-las a correr o risco de abri-las outra vez.

Ela suspirou, balançando a cabeça, um riso suave escapando-lhe.

— Acho que é você quem está com medo, Gil-galad.

Ele estreitou os olhos, mas o brilho neles era quase rendido.

— Se fosse apenas medo… bastaria um toque seu para que eu me esquecesse de todo o resto.

Os dedos dela apertaram os dele, sentindo o peso contido naquela confissão.

— O que deixamos de fazer é detalhe — murmurou ela. — Nossas almas já caminham juntas há muito mais tempo que qualquer gesto. Mas não se preocupe… não vou atacá-lo outra vez.

Um sorriso lento surgiu entre eles.

Ele se recostou na cabeceira e abriu espaço para que ela se aninhasse contra seu peito. Entrelaçaram as mãos como quem sela um pacto silencioso — não de desejo apressado, mas de algo mais profundo.

E ali permaneceram, respirando no mesmo ritmo, como se o simples fato de estarem juntos já fosse, por ora, suficiente.

— Eu pensei em você todos os dias — confessou ele, num sussurro baixo, quase quebrado. — Até mesmo quando achei que deveria te esquecer para o bem dos dois.

Zara sorriu triste.

— Eu tentei — respondeu ela, a voz falhando. — Tentei te apagar. Tentei odiar você. Tentei fingir que nunca houve nada. Mas você estava em cada sonho.

Gil-galad levantou sua mão e levou aos lábios, beijando seus dedos devagar, como se pedisse perdão com cada toque.

— Eu senti sua falta — disse ele, e o peso daquelas palavras fez o ar tremer. — A falta que dói. Que adoece. Que silenciosamente destrói.

Zara soltou um sopro curto, quase um riso, quase um soluço.

— Gil… eu ainda tenho medo — admitiu ela. — Medo de você me quebrar outra vez.

Ele se aproximou beijando o topo da cabeça dela e sussurrou:

— Então permita que eu reconstrua o que destruí.

Zara respirou fundo, estremecendo.

— Você sempre foi a minha fraqueza — ela admitiu, num sussurro.

— E você a minha força — respondeu ele.

E no decorrer das horas ficaram ali, apenas trocando conversas sobre o passado, o presente e o futuro. Sobre os anos afastados. Suas dores e alegrias. Suas percas. Suas esperanças. Ela falou baixinho, quase sem querer:

— Talvez… talvez seja hora de parar de fugir.

Ele sorriu ainda contra os cabelos dela.

— Então deixe que esse amor guie o que vier. Sem pressa. Sem medo. Só… nós.

Zara fechou os olhos, sentindo o coração acalmar pela primeira vez desde o dia em que o perdeu.

Ali, naquele quarto silencioso, houve paz.

E pela primeira vez, a trégua não era política — era do coração.