Segredos em Um Jardim Élfico
25 Pedido Aceito
Notas iniciais
Raj pediu que Paddy chamasse a irmã.
As portas laterais do salão se abriram com um rangido lento, grave.
E ali estava ela.
Zara Dulórien, não mais a jovem guerreira de antes, mas a Comandante lendária que os boatos temiam e reverenciavam.
O vestido agora era outro:
Longo, de tecido espesso, como lã nobre, branco quase prata, com bordas acinzentadas que lembravam neve tocada por fumaça.
Seu cabelo surgia entrançado em um arranjo volumoso, pesado, quase uma coroa de guerra. Os adornos prateados refletindo a luz como pequenas estrelas.
Ela caminhava como uma tempestade que aprendeu a andar em silêncio.
Gil-galad sentiu o peito apertar.
Não era mais apenas amor — era assombro.
Zara fez uma reverência mínima ao pai, outra a Gil-galad — formal, impessoal… e fria como um inverno sem fim.
Raj ergueu o queixo, permitindo a aproximação. E já sabia pelo olhar que Zara não estava completamente convencida do arrependimento de Gil-galad ou se estivesse… ainda o testaria mais um pouco.
E foi exatamente o que ela fez.
Em um tom nada receptivo, iniciou:
— Então…— então sorriu friamente — o Alto-Rei deseja falar comigo. — Sua voz saiu baixa, firme, polida — mas cada palavra uma flecha.
Gil-galad inspirou fundo.
Ele estava preparado para vergonha, para humilhação, para dor… mas nada poderia prepará-lo para o olhar dela.
— Zara… — ele começou — venho pedir seu perdão.
— Perdão? — ela ergueu uma sobrancelha, cortante. — E acha que isso desfaz cinco anos de mágoa?
O golpe veio seco.
Elrond, ao fundo, conteve a respiração.
Gil-galad, porém, encarou.
— Não desfaz. Mas reconhece. E me permite começar a reparar.
Zara sorriu — mas era um sorriso triste, irônico, corrosivo.
— Por quê quer isso, Alto-Rei?
Ela deu um passo à frente, os adornos tilintando como aço.
— Não fui eu o motivo da tua vergonha perante tua própria Corte?
— Zara, não foi —
— Que futuro eu teria em Lindon? — ela continuou, sem piedade. — Num lugar onde não respeitam meu nome, meu povo, minhas origens?
Essas palavras… atingiram onde ele menos tinha defesa.
Gil-galad sentiu sua alma despir-se diante dela.
— Teria um futuro ao meu lado — disse ele, com voz baixa, sincera. — Onde eu mesmo garantiria que sua inteligência fosse honrada como merece. Onde sua força seria celebrada. Onde você seria vista. Ouvida. Respeitada. Não somente você mas o seu povo e a sua terra.
Ele se aproximou apenas um passo.
— Mas principalmente porque você seria amada. Como sempre foi e como eu deveria ter mantido, mesmo que me custasse até minha própria vida.
O salão silenciou.
Zara piscou — rápido — quase imperceptível, como se o coração tivesse vacilado. Parecia finalmente estar convencida mas como uma boa Dulórien, seu orgulho também poderia ser equiparado ao dos elfos. Ela soltou um leve suspiro e baixou a cabeça se virando para o pai e soltou a pergunta:
— E por que razão eu aceitaria teu pedido?
Ela meneou a cabeça olhando Gil-galad por baixo e provocou.
— Enquanto há tantos outros apenas esperando meu “sim”?
Paddy sorriu. Sabia como a irmã poderia ser astuta em determinados momentos.
E essa pergunta feriu, e como feriu.
E para Gil-galad, que não era apenas um rei, mas também um noldor com orgulho ancestral correndo em cada veia, aquilo era pior que uma espada nas costelas. Mas ele sustentou o olhar dela, e a voz saiu mais profunda, quase um rugido contido:
— Porque nenhum deles é eu.
Zara prendeu o fôlego.
Aquilo.
Aquela frase.
Aquela verdade nua.
Era a flecha que ela temia — e desejava.
Porque era verdade.
Mesmo no ódio, mesmo na distância… ele ainda sabia ler sua alma como se fosse escrita em luz.
Ela respirou fundo, desviou o olhar por um segundo — e isso já foi vitória demais para ele.
Quando voltou a encará-lo, seus olhos estavam menos gelados.
Ainda firmes, ainda feridos… mas vivos.
— Muito bem, Alto-Rei.
Ela ergueu o queixo, imperiosa.
— Aceito teu pedido.
O coração de Gil-galad quase explodiu no peito.
— Mas…
Ah.
Sempre o “mas”.
— Você terá que se esforçar para reparar o que destruiu.
Ela o mediu de alto a baixo.
— O que não será algo fácil.
— Não desejo que seja — respondeu ele, num suspiro rouco.
Zara pousou o olhar nele por alguns segundos longos, profundos… e virou-se para Raj Dulórien.
— Pai… peço um instante a sós.
A tensão do salão se partiu como gelo rachando.
Raj assentiu lentamente — sério, porém orgulhoso.
Os guardas recuaram.
Elrond respirou, finalmente, como se tivesse segurado o ar por horas.
Gil-galad parecia uma estrela que finalmente voltou ao céu.
Zara caminhou até o pai, mas antes de chegar lá…
Ela se voltou por um único instante.
E o olhar que lançou para Gil-galad não era de ódio.
Não era de deboche.
Era… esperança teimosa. Confissão silenciosa. A chama antiga que, apesar de tudo, nunca morrerá.
E ele viu. E entendeu: o coração dela estava voltando — centímetro por centímetro.
Raj Dulórien fechou a porta com firmeza.
Não havia guardas. Nem conselheiros. Apenas pedra, silêncio… e uma filha que ele conhecia melhor do que qualquer reino.
Zara permaneceu de costas por um instante, os dedos crispados no tecido do vestido.
Raj foi o primeiro a falar:
— Você o ama.
Não foi pergunta. Foi constatação. Zara respirou fundo, como quem aceita um golpe inevitável.
— Eu o odiei — respondeu. — Com todas as forças que tinha.
Virou-se lentamente.
— E ainda assim… nada apagou o que senti.
Raj cruzou os braços, observando-a com olhos severos, mas não cruéis.
— Ele te feriu.
— Sim.
— Te diminuiu.
— Sim.
— E você ainda assim o escolheu.
Zara ergueu o queixo, feroz.
— Eu não o escolhi por fraqueza. Escolhi porque ele veio até aqui. Porque se ajoelhou. Porque assumiu o erro sem se esconder atrás de coroa alguma.
A voz dela baixou.
— E porque… eu ainda quero acreditar. E ainda que eu não o escolhesse, meu coração o faria por si só. Porque eu o amo tanto que nem sei como sobrevivi tanto tempo longe dele. E talvez, se eu não o perdoasse, não viveria muito mais afastada dele. Eu e ele…somos um só. Tal como é o mesmo céu mesmo que haja a separação entre dia e noite.
Raj caminhou até ela e, pela primeira vez em muito em, pousou as mãos nos ombros da filha.
— Então escute bem, Zara Dulórien.
O tom era grave.
— Se ele te ferir outra vez… não haverá reino, exército ou estrela que o proteja de mim.
Ela sorriu de leve, baixando a cabeça.
— Eu sei, pai.
Raj assentiu, resignado.
— Então siga seu coração e seja feliz, minha filha. — Ele suspirou. — E que os Valar tenham piedade daquele elfo dourado.
As portas se abriram novamente.
Gil-galad aguardava… tenso demais para um ser imortal.
Zara retornou ao seu lugar, postura impecável, expressão indecifrável.
Raj ergueu a voz:
— Dulórien ouviu o pedido do Alto-Rei dos Noldor.
O salão silenciou.
— E Dulórien… consente.
Um murmúrio atravessou o espaço como vento forte.
Gil-galad sentiu o coração quase sair pela boca.
Ele deu um passo à frente, solene, emocionado.
Zara se aproximou dele e estendeu a mão, como se esperasse algo.
Gil-galad congelou. Piscou.
Olhou para as próprias mãos.
Nada. Nenhum anel.
Nenhuma joia. Nenhum símbolo.
Elrond arregalou os olhos e se deu conta do erro.
— … — Gil-galad permaneceu em silêncio por meio segundo longo demais.
Zara percebeu.
E, claro… não perdoou.
— Alto-Rei? — ela balançou a cabeça em expectativa. — Não pretende selar o nosso compromisso?
O salão inteiro prendeu a respiração.
Gil-galad sentiu algo raríssimo:
pânico absoluto.
— Eu… — tossiu. — Evidentemente…
Paddy que estava ao lado de Elrond, sussurou:
— Por Eru, vocês não trouxeram um anel?!
— Eu vim pedir perdão! — murmurou Gil-galad, desesperado. — Não planejava…
— Como pretendia ter algum compromisso sem me dar um anel? — Zara retrucou com um ar quase ofendido? E suspirou debochada. — Para um elfo milenar às vezes você peca em muito conhecimento e pouca prática.
Alguns guerreiros contiveram risos.
Raj arqueou uma sobrancelha.
— Elfo… — advertiu. — Dulórien não costuma esperar.
Gil-galad respirou fundo, vermelho até as orelhas.
— Um instante. Apenas… um instante.
Minutos depois, a cidadela entrou em estado de emergência não militar.
— PRECISAMOS DE UM ANEL! — Elrond anunciava como se fosse o fim do mundo.
— De noivado! — corrigiu Gil-galad.
— Isso NÃO é o momento para especificações!
Ferreiros foram arrancados de oficinas.
Ourives quase desmaiaram ao saber para quem trabalhavam.
— Ouro? —
— Prata? —
— Algo simples! — Gil-galad implorou. — Ela vai me matar se for chamativo!
— Chamativo? — Elrond bufou. — Você É chamativo!
Por fim, um anel emergiu:
Prata antiga de Dulórien, linha firme, discreta… mas com um pequeno detalhe gravado por dentro:
Uma estrela e uma lança cruzadas.
Elrond sorriu.
— Perfeito. Ela vai fingir que não se importa… mas vai guardar como se fosse o coração.
Gil-galad fechou os olhos, agradecendo a Eru.
De volta ao salão, Zara virou-se, aproximando-se..
— Sobreviveu? — provocou.
Gil-galad ajoelhou-se — dessa vez preparado.
— Zara Dulórien… aceita este anel como promessa de tudo que fui, tudo que errei… e tudo que ainda lutarei para ser por você?
Ela demorou.
Claro que demorou.
Então estendeu a mão.
— Aceito. — disse. — Mas saiba: este anel não me pertence.
— A quem então? — ele murmurou.
Ela sorriu.
— À mulher que você ainda vai precisar reconquistar todos os dias.
Ele colocou o anel.
O salão explodiu em aclamação.
Elrond suspirou, aliviado.
E Zara, apesar de tudo…
Sorriu de volta.
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