Segredos em Um Jardim Élfico

20 Feridas Que Ainda Doem Demais


Miriel, com sua típica precisão política, organizou a sala de reuniões de modo estratégico: Gil-galad à direita e Zara à esquerda. E um único mapa imenso no centro, exigindo que ambos se aproximassem para analisá-lo.

Quando Zara entrou, a luz da manhã refletiu nas peças prateadas de suas tranças — agora reorganizadas, mais firmes, como um capacete simbólico.

Ela viu Gil-galad. O coração falhou por um segundo.

Ele também a viu. E sentiu que o chão desaparecia brevemente.

Elrond suspirou, murmurando algo como:

— Isto vai ser um desastre… ou um milagre.

Miriel sorriu de canto, satisfeita.

— Bom dia. — disse a Regente. — Hoje discutiremos as rotas marítimas. E para isso, Comandante Zarae Alto-Rei Gil-galad, precisaremos da colaboração de vocês dois. Juntos.

Zara fechou o punho.

Gil-galad engoliu seco.

Eles se aproximaram do mapa.

Tão perto que podiam sentir o calor um do outro.

Sem se tocar.

Sem olhar diretamente.

Mas cada respiração deles era um campo de batalha.


A manhã estava calma — o tipo de calma que só existe antes de uma tempestade.

Zara aproximou-se da mesa com passos firmes, a expressão agora neutra.

Gil-galad fez o mesmo, tentando manter o olhar frio, disciplinado, digno de um rei.

Elrond ficou na lateral, pronto para intervir.

Miriel observava cada gesto como uma estrategista estudando duas feras enjauladas.

No início, eles falavam como dois oficiais experientes.

Curtos. Técnicos. Impessoais.

Mas nunca neutros.

Gil-galad indicou uma rota marítima no mapa.

— Por aqui, as patrulhas élficas podem reforçar…

— Não preciso-se dos elfos para reforçar nada. — Zara cortou, seca.

Ele ignorou o golpe, respirou fundo.

— As forças sombrias vêm do leste. Unir nossas frentes…

— Unir? — ela riu, um riso afiado, quase cruel. — Você não sabe nada sobre união. Nem sobre manter alianças.

Elrond abriu a boca.

Miriel pousou uma mão no ombro dele.

— Deixe. — sussurrou. — Precisam disso.

Zara inclinou-se sobre o mapa e o encarou friamente de baixo para cima.

— “Estratégia”… “alianças”… “união”… Você fala como se soubesse o que é estar na lama, no frio, no fogo. Eu vivi cinco anos disso. Cinco anos sangrando e congelando enquanto você…

Ela virou-se para ele como uma flecha lançada.

— …mal saiu do seu trono dourado.

Gil-galad ergueu o rosto, o peito inflando.

— Cuidado, Zara.

— O que vai fazer? Eu não temo mais elfos.

— Antes de ser o Alto-Rei, fui soldado. — ele rebateu, a voz vibrando com um calor que fazia o ar tremer. — Lutei na linha de frente, perdi irmãos, mestres, vi meu povo cair como folhas queimadas! Lindon só existe como existe porque eu sangrei por ele.

— Deseja palmas? — ela rebateu, amarga. — Um discurso muito bonito para quem um dia me descartou como ferramenta.

O silêncio explodiu como um trovão.

Gil-galad cerrou os dentes.

— Nunca te descartei.

— Ah, não? — ela deu um passo à frente, tocando o próprio peito com força. — Então por que eu tive que juntar meus pedaços sozinha?

Gil-galad piscou lentamente. A dor ali era crua, real. Quase fez sua armadura interna ruir.

— Eu errei. — ele disse, rouco. — Errei de forma que não sei como desfazer.

— Não há como — ela interrompeu, quase quebrando. Mas a voz endureceu de novo:

— E não importa.

— Importa.

— Chega. — ela finalizou impaciente.

Os dois respiravam rápido.

O ar estava quente.

Quente demais.

Miriel levantou-se silenciosamente e fez um gesto para Elrond.

— Vamos. Eles precisam resolver isso sem testemunhas.

Elrond saiu só depois de olhar para ambos com um suspiro de derrota e mentalmente pensar:

“Que os Valar tenham piedade desse salão.”

A porta se fechou.

E naquele exato instante, as últimas réstias de razão também.


Zara suspirou fundo, tentando se concentrar no mapa. Gil-galad deu um passo de aproximando dela. Ela o olhou com estranheza e recuou. Ele avançou.

— Não se aproxime de mim. — ela avisou.

— Então pare de me chamar. — ele murmurou.

— Eu não estou te chamando! — suspirou irritada.

— Zara… desde que entrou naquela porta… o seu corpo não me deixou respirar.

Aquilo atingiu ela como uma lança.

— Você não tem direito de…

Ele encostou o dedo indicador sob o queixo dela, erguendo seu rosto devagar.

Zara travou.

— Não me toque…

— Diga para eu parar. — Gil-galad sussurrou, a boca perto demais.

Ela tentou. Tentou mesmo. Mas a respiração falhou.

E em vez de afastar, Zara agarrou o colarinho do sobretudo dele e puxou o Alto-Rei com uma força desesperada.

O choque de corpos foi brutal — como tempestade encontrando mar.

O beijo veio como uma explosão inevitável, faminta, irrestrita. Não havia doçura ali.

Era guerra. Era rendição.

Era saudade sufocada por anos.

Gil-galad acabou por tombar a mesa quando a puxou para si, espalhando mapas, pergaminhos, moedas e marcadores pelo chão.

Zara envolveu a nuca dele, os dedos enterrados nos cabelos escuros, como se quisesse prendê-lo a si mesma.

Ele a ergueu pela cintura, colando-a ao peito, como se tivesse esperado cinco anos para finalmente respirar de novo.

A boca deles se encontrou e se perdeu, sem pausa.

Sem culpa. Sem defesa. Sem coroa. Sem guerra.

Apenas dois corações que nunca conseguiram esquecer.

Zara murmurou contra os lábios dele:

— Odeio você.

— Minta de novo. — ele arfou, puxando-a ainda mais perto.

E ela o beijou como se quisesse matá-lo e salvá-lo ao mesmo tempo.

O beijo cessou como se tivesse sido arrancado à força pela própria realidade.

Os dois continuavam colados, respirando como quem tenta voltar de um abismo.

Zara abriu os olhos primeiro, petrificada no chão como se estivesse sido pega em flagrante.

Gil-galad estava ainda mais imóvel. Completamente imóvel.

Como uma estátua dourada feita para veneração, mas cujos olhos denunciavam um caos tão violento quanto o dela.

Zara sentiu o sangue correr quente sob a pele.

Um sorriso — impossível de conter — começou a se formar em sua boca, um sorriso que misturava alegria, raiva e incredulidade.

O sorriso de alguém que finalmente tocou o que mais desejava… mas que não deveria desejar.

E então, o golpe interno veio.

“— Estúpida. — ela pensou, o sorriso murchando. — Como pode beijá-lo como se nada tivesse acontecido? Como se ele não tivesse destruído você? Onde está sua autoridade, sua honra, sua razão?”

Ela deu um passo para trás e se virou tão rápido que quase tropeçou nos pergaminhos caídos pelo chão.

Gil-galad continuava parado, a olhando como se o mundo inteiro tivesse congelado naquele instante.

Zara ergueu o rosto para o céu, esfregando os braços junto ao corpo, em uma tentativa de acalmar a mente e recuperar o ar.

Seu peito ardia. Sua alma tremia como se tivesse sido rasgada ao meio. O beijo ainda queimava nela — doce, feroz, proibido.

— Zara… — Gil-galad conseguiu murmurar, quase sem voz.

Seu tom era tão vulnerável que o ar pareceu tremer. Mas antes que qualquer um dos dois pudesse dizer algo…

A porta se abriu.

E Elrond entrou.

Ele deu alguns passos — e parou.

O calor na sala era palpável. Vivo. Feroz. Como se um incêndio tivesse tomado o ar.

O arauto olhou para o mapa caído, para a mesa revirada, para os dedos trêmulos de Gil-galad… e para os lábios de Zara, ainda ruborizados, marcados de um beijo que nenhum dos dois conseguirá esconder.

Elrond fechou os olhos por um instante.

Quando os abriu, havia resignação neles. Uma serenidade exausta.

— Eu… — ele começou com calma forçada. — Vim apenas avisar que a Regente Miriel convidou todos para o jantar desta noite.

Zara fechou os punhos.

O nome “jantar” soou como uma sentença.

Gil-galad inspirou profundamente, tentando colocar a máscara real no rosto outra vez — mas a mão dele ainda tremia.

Elrond, sempre perspicaz, notou.

Notou tudo.

E não comentou nada.

Com um leve aceno, ele se retirou, fechando a porta atrás de si.

O silêncio que restou foi tão espesso quanto as chamas que ainda pairavam no ar.

Zara forçou a postura. E enquanto se preparava pra sair, em passos que pareciam mecânicos demais, disse:

— Eu estarei presente. — ela disse num tom frio, formal… apenas para esconder que todo o seu corpo queria correr para ele novamente.

Gil-galad assentiu, mas sua voz falhou ao responder:

— Eu… também.

Antes de cruzar a porta, a alma dela vacilou por um único segundo.

Ela olhou por cima do ombro.

E lá estava ele.

Gil-galad.

O rei que ela tentou odiar.

O homem que ainda incendiava tudo dentro dela.

Zara desviou rápido, como se olhar demais fosse perigoso demais.

E deixou a sala.

Sozinha no corredor, finalmente deixou o sorriso morrer — substituído por uma onda de vergonha, dor e desejo.

— O que você fez? — sussurrou para si mesma. — O que você está fazendo de novo?

Mas era tarde.

O jantar viria.

E algo muito maior os aguardava.


O grande salão refeições de Númenor estava iluminado por centenas de tochas e lâmpadas suspensas, refletindo nas bandeiras azul-prata e nos pilares marinhos que guardavam a mesa da Regente Miriel.

Havia música suave.

Havia nobres, guerreiros, conselheiros.

Havia conversa.

Mas no instante em que Zara Dulórien entrou…a sala pareceu prender o fôlego.

Ela não usava seus trajes cinzentos fechados dessa vez.

A Regente, sutil e politicamente astuta como poucas, havia enviado um conjunto cerimonial:

Um vestido azul com detalhe branco, sem mangas, elegante, forte e imponente com detalhes prateados que brilhavam como lâminas recém-lavadas.

As tranças adornadas pelos anéis de batalha cintilavam em um coque que a deixava ainda mais esbelta.

Mas a expressão ainda assim era fria, controlada, superior.

Porém quem a conhecia profundamente — e apenas um conhecia — sabia que aquilo era armadura.

Gil-galad, sentado à esquerda de Miriel, virou-se quando ela entrou.

Foi rápido. Instintivo. Incontrolável.

O olhar dele a encontrou como se tivesse esperado por séculos.

E o impacto foi tão grande que Elrond, sentado ao lado dele, discretamente empurrou o cálice de vinho para longe das mãos do rei — temendo que ele o deixasse cair.

Zara fingiu que não o viu. Fingiu tão bem que quase convenceu todos. Menos Gil-galad. Menos Elrond e menos ainda Miriel, cujo olhar experiente percebia tudo.

Zara sentou-se no extremo oposto da mesa.

Longe o bastante para não tocá-lo.

Perto o bastante para ser tortura.


Miriel ergueu o cálice:

— Honramos esta noite com a presença dos líderes que protegem a Terra-Média. Que a mesa seja de paz, mesmo que a guerra se aproxime.

Todos assentiram.

Exceto Gil-galad, que ainda olhava Zara.

E Zara, que se recusava a olhar de volta.

Ela mantinha os olhos no prato. Nas taças. No teto. Em qualquer coisa que não fosse aquele elfo dourado.

Mas cada fibra do corpo dela sabia onde ele estava como se a gravidade emanasse dele.

Quando o primeiro prato foi servido, Elrond tentou puxar uma conversa segura:

— Comandante Zara, ouvi dizer que sua tática das “Linhas de Serpente” vem sendo estudada em Rhovanion…

— Ah. — ela respondeu curtamente, com um sorriso gélido. — Surpreende-me que ainda estudem minhas estratégias, já que muitos supunham que meu valor era apenas… pontual.

Gil-galad fechou os olhos por um instante.

O golpe não era político.

Era pessoal.

Era para ele.

Elrond tentou salvar:

— Zara, ninguém no Oeste duvida de —

— Não precisa ser gentil. — ela cortou, sem levantar a voz. — O que foi quebrado, foi quebrado. Não precisa de consertos vazios.

Miriel ergueu as sobrancelhas, mas não interveio.

Gil-galad ajeitou a postura, tentando manter a compostura real:

— Comandante Dulórien… — disse com a voz mais calma que encontrou. — É evidente que há um peso entre nós. E não desejo —

— Não deseja? — Zara riu, mas sem humor. — Como não desejou tantas outras coisas… Alto-Rei?

O “Alto-Rei” saiu como veneno.

Mas por trás da frieza havia dor. E ele sentiu cada centímetro dela.

Zara notou.

Gil-galad tentou pegar o cálice…

…e os dedos dele tremeram.

Só um pouco. Quase nada.

Mas para ela, era como um grito.

Porque era o mesmo tremor da noite em que ela o tocou pela primeira vez.

Da madrugada em que ela ajoelhou-se diante dele e derramou sua alma.

Do beijo nos jardins que o deixou sem chão.

Zara engoliu em seco.

Virou o rosto.

— Vinho? — perguntou um dos servos a ela.

— Só água. — respondeu, ríspida. — Não vou perder a sobriedade cercada por elfos. Já perdi muito para eles.

O golpe foi direto.

Miriel soltou um pequeno ruído, quase um “ai”.

Elrond suspirou profundamente.

Gil-galad, porém, não desviou.

Nem por um segundo.

A cada palavra dela, ele parecia mais… ferido.

Mas também mais decidido.

Ao final do jantar, Miriel se levantou para encerrar a cerimônia.

Todos se preparavam para sair quando Gil-galad tomou coragem e aproveitou o momento em que Zara se levantava:

— Comandante Dulórien — chamou, num tom firme, porém suave. — Permita-me uma palavra.

Zara parou.

Seu corpo inteiro ficou rígido.

Ela se virou apenas o suficiente para olhá-lo de soslaio.

— Alto-Rei, o que existiu entre nós — se é que ainda resta algum vestígio disso — não precisa ser lembrado à custa de arrependimentos tardios.

E antes que ele pudesse responder, ela se virou para a saída do salão, sem antes dar uma curta reverência a Regente. Com passos firmes. Controlados.

Mas quando passou pela porta, as lágrimas caíram silenciosas, cheias de dor mais também amor.

Qualquer alma atenta pode escutar a tentativa frustrada de Zara ao abafar um soluço.

Miriel, com pena, fez uma expressão de dor empática.

Elrond baixou os olhos.

Gil-galad estava imóvel novamente.

Olhos fixos na porta por onde ela saíra.

Coração despedaçado outra vez.

— Ela ainda… — ele tentou dizer, mas a voz falhou.

Elrond apenas assentiu.

— Sim. Ela ainda sente. E é por isso que dói.

Gil-galad fechou os olhos.

Como se tentasse segurar dentro de si o fogo que queria consumir o mundo inteiro só para alcançá-la.

O jantar não terminou em reconciliação.

Terminou em ferida aberta.

E amanhã…Eles teriam que trabalhar lado a lado novamente.

E isso seria o verdadeiro início do caos.