Um ataque orc.

Numeroso.

E ousado demais para aquele território.

Gil-galad, Elrond e parte da Guarda Real estavam no centro do confronto.

O terreno era um caos de poeira, sangue e faíscas que voavam quando metal encontrava metal.

E ali, no coração do tumulto, o olhar de Zara encontrava fascínio e curiosidade.

Ela nunca tinha visto o Alto-Rei pessoalmente. Conhecia histórias: o elfo de postura imbatível, de elegância quase sagrada, de sabedoria milenar. Mas nenhuma história a preparou para a cena diante dela.

Gil-galad manuseava Aeglos, sua lança lendária, com uma precisão tão devastadora que parecia uma dança entre luz e morte. Cada movimento era um arco perfeito, cada golpe, uma sentença. Seu cabelo escuro fluía com o movimento, e o sol do amanhecer parecia refletir nele como se o reconhecesse, como se iluminasse uma preciosidade que jamais deveria ser contemplado por olhos mortais.

Zara prendeu a respiração.

“Ele brilha”, pensou.

Não como fogo.

Não como ouro.

Mas como uma estrela antiga… prestes a cair sobre seus inimigos.

Ela quase perdeu o foco — quase — porque o próximo som a trouxe de volta:

— SENHOR ELROND!

Um orc maior que os demais avançava pelas costas do meio-elfo, espada em punho, prestes a desferir um golpe fatal.

Zara não pensou.

Ela agiu.


Melfa avançou em velocidade assustadora. Zara se ergueu sobre a sela com equilíbrio impecável, o vento chicoteando seus cabelos soltos. Com um giro firme, levantou sua própria lança — Gaden, a arma que era extensão de seu próprio corpo.

Ela cortou o campo num arco, desviando de três flechas que zumbiram perto demais. Uma passou a um fio de sua face; outra raspou seu ombro. Zara inclinou o corpo quase deitando-se sobre o pescoço da égua, desviando de espadas enquanto avançava.

E então, no momento exato…

CRACK!

A lança Gaden interceptou o ataque ao arauto do Alto-Rei, desviando a lâmina orc e abrindo espaço para Elrond concluir o golpe com precisão.

Elrond virou-se, surpreso.

Zara passará ao seu lado como um relâmpago.

— Quem…?

Mas Zara já não estava lá.

Ela tinha visto outra coisa.

Algo maior.

Muito maior.


Um rugido ecoou pelo campo, profundo como pedra quebrando.

Uma criatura enorme emergiu da linha orc — um troll deformado, com armadura improvisada e uma marreta capaz de partir muralhas.

Ele avançou diretamente para Gil-galad.

E o coração de Zara deu um salto tão instintivo quanto inexplicável.

Sem hesitar, ela puxou novamente as rédeas.

O cavalo relinchou alto, sentindo o impulso dela.

Zara se colocou de pé na sela — era loucura.

Era suicídio.

Mas era necessário.

Ela inspirou fundo, sentiu a terra, sentiu o vento, sentiu a pulsação do perigo…

E saltou.

Por um breve instante, ela pareceu flutuar no ar, a luz pálida do céu que ainda se despedia da noite refletindo na lâmina da lança Gaden.

O troll ergueu a arma.

Gil-galad girou Aeglos para se defender.

Ambos olharam para cima no mesmo instante.

E Zara caiu como um raio.

A ponta de Gaden cravou-se direto no pescoço da besta, rompendo músculo, osso e escuridão. O impacto fez o chão tremer quando o troll desabou, levando Zara junto em sua queda.

Poeira subiu.

Silêncio.

Respirações presas.

Olhos arregalados.

Zara rolou no chão, levantando-se com rapidez mas arfando pela ousada manobra. Puxou a lança de volta com força em um único movimento — não tinha tempo para exibir nada. Não era esse seu modo.

Ela apenas ficou de pé, suja, respirando fundo, fios de seu cabelo colados à testa, a ponta da lança pingando sangue negro.

Quando ergueu o olhar…

Ele estava diante dela.

Gil-galad.

Aeglos ainda em mãos, o brilho do aço contrastando com o caos ao redor. O rosto firme, mas os olhos — os olhos estavam presos nela.

Não havia palavras.

Não havia tempo para perguntas.

O campo ainda não estava totalmente seguro.

Mas ali, naquele instante congelado…

A Estrela dos Noldor e a Lança dos Dulórien se encontraram.

E Gil-galad, o Alto-Rei que tantas vezes vira guerreiros de renome, não pôde negar:

A mulher diante dele não era comum.

Ela era aço.

Ela era fogo.

E era exatamente o que o sonho prometera — embora ele ainda não compreendesse como.

Ele apenas respirou, profundamente tocado, apenas murmurando:

— Você…

Zara deu um meio sorriso cansado, como quem não liga para títulos.

— Depois conversamos, estrela. Tem mais orcs vindo.

E virou-se, encarando de volta a batalha.

Gil-galad ficou paralisado por um segundo.

Não pela audácia.

Mas porque a voz dela…

Ecoou dentro dele.

Como a voz do sonho.