Segredos em Um Jardim Élfico
1 Tudo Começa por Um Sonho
O anoitecer já alcançava sua plenitude, repousando suave sobre Lindon, o domínio do Alto-Rei dos elfos Noldor, Gil-galad. O luar prateado como lâmina recém forjada se estendia com um véu de mármore sobre as torres e jardins élficos. A lua cheia pairava alta, tão próxima que parecia querer confidenciar algo a quem prestasse atenção a ouvir. O vento sussurrava entre as folhas das melindar, trazendo um frio doce, quase profético. Dentro da câmara real, porém, Gil-galad não encontrava descanso. Seu sono, tão raro e disciplinado quanto ele próprio, fora tomado por um sentimento que ele não compreendia.
E então ela apareceu.
No sonho, os jardins reais se estendiam mais amplos, como se nunca houvessem sido tocados pelos feitos élficos, em pura harmonia. As flores luminosas pulsavam suavemente, derramando cor de ouro e azul sobre os mármores lisos. Gil-galad caminhava entre elas com uma estranha leveza — não vestido em armadura, nem com o peso da coroa, mas em uma túnica simples de algodão branca, como uma simbologia para um momento puro e único.
O ar mudou.
De entre as sombras longas de uma árvore de folhas prateadas, uma figura surgiu.
Ela caminhava como quem conhece cada pedra daquele lugar, cada pétala caída. Longos cabelos escuros, quase que se fundindo a escuridão daquela noite sem estrelas; olhos castanhos, profundos e mornos, como se houvesse testemunhado algo — visto mais do que vivido — e uma túnica leve, também branca, que acompanhava seus passos como bruma.
E Gil-galad sentiu — antes mesmo de compreendê-la — que a conhecia.
Não por nome.
Não por lembrança.
Mas por destino.
Ela sorriu. Um sorriso tão genuíno e tão facilmente dado como um gesto carregado de reconhecimento, como quem reencontra algo amado após incontáveis estações.
O Alto-Rei, que vira eras se levantarem e caírem, que enfrentara escuridão e cantara vitórias em batalhas cujo eco se perdera até mesmo nos Salões de Mandos, sentiu seu coração estremecer. Um sentimento que não lhe pertencia. Ou talvez que sempre lhe pertencera, mas adormecera por tanto tempo que parecia novo.
Ele tentou falar — mas não pôde.
No entanto, ouviu.
Uma voz suave, distante e íntima, como se soprada ao pé de seu espírito:
“Darling, I’m waiting to greet you
Come to me, baby.”
A música não vinha de seus lábios, mas de dentro dele — como uma memória de uma memória.
A moça avançou alguns passos, seus pés mal tocando o chão. Ela não desviava os olhos dos dele. As mãos se tocaram e ela subiu, ergueram-se até alcançar o rosto do rei. Gil-galad se sentia surpreso por não estranhar ou rejeitar aquilo, como se aquilo fosse algo inevitável de sentir. O toque dela era cálido; tinha o peso suave da verdade e a leveza do sonho.
“You’re divine
Didn’t anyone ever tell you
It’s ok to shine?”
Gil-galad sentiu seu peito abrir-se em vertigem. Por um instante, todo o seu poder, toda sua autoridade, toda sua responsabilidade… nada disso importava. Ele era apenas um elfo diante de alguém que parecia ver através dele, como se visse quem ele era, e também quem nunca permitira ser.
Os dedos dela traçaram sua mandíbula, subindo lentamente como se memorizasse cada detalhe, como se aquilo fosse necessário — urgente — antes que o sonho se dissolvesse.
Ela passou a mão para a nuca dele, o puxando de leve para si, e ele inclinou o rosto, incapaz de resistir à força branda que o atraía.
O beijo que trocaram não foi ardente; foi delicado e breve, um sussurro entre dois destinos alinhados. Mas em sua suavidade havia a promessa de algo vasto demais para ser nomeado.
Quando se afastou apenas um pouco, ela murmurou — não com a boca, mas com aquela voz que parecia vir do coração do mundo:
“Don’t be afraid of me
Don’t be ashamed.”
Os olhos dela brilhavam como se guardassem séculos — e um carinho insondável. Gil-galad ergueu a mão para segurá-la, para impedir que se afastasse. Mas o sonho começou a dissolver-se como névoa ao sol nascente.
— Espere… — tentou dizer, a voz falhando.
Ela sorriu pela última vez, um sorriso tranquilo, cheio de saudade de algo que ainda não acontecera.
E a luz, antes prata, tornou-se dourada.
Gil-galad acordou com um sobressalto.
As primeiras luzes da aurora já pintavam as paredes de seu quarto. O canto dos pássaros élficos anunciava o início de um novo dia. Ele estava deitado, sozinho, sem as vestes do sonho, sem música, sem a estranha visitante.
Mas seu coração ainda corria como se tivesse corrido milhas, e sua pele guardava a memória do toque dela.
O Alto-Rei, famoso por sua postura firme, por sua mente clara, por seu domínio absoluto de si — encontrou-se inquieto. Levantou-se. Abriu as janelas. Respirou o ar fresco, tentando dissipar a estranha sensação.
Em vez disso, ela se intensificou.
Cada passo que dava pelos corredores dourados de sua fortaleza o lembrava daquela presença.
Cada jardim que avistava pelas varandas evocava a cena do sonho.
Cada sombra parecia guardar o perfume da túnica leve que ela usava.
E por todo o dia, ele lutou para manter a compostura diante dos conselheiros, dos guardas, e até de Elrond, que notou a tensão sutil em seu semblante.
— Alto-Rei, está tudo bem? — perguntou o arauto, com a serenidade que lhe era típica.
Gil-galad respirou fundo antes de responder.
— Tive um sonho — disse, como se essas três palavras explicassem sua perturbação.
Não explicou mais. Não poderia. Não sabia como.
Porque aquela moça… aquela visão… aquela voz…
Nada se parecia com uma mera fantasia do sono.
Havia nela uma força antiga. Uma origem profunda.
E, em algum lugar além dos limites de Lindon, Zara Dulórien, meio-elfa, Comandante de um povo escondido, respirava — sem saber que já tocara o coração do Alto-Rei dos Noldor antes mesmo de encontrá-lo.
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