Segredos em Um Jardim Élfico
35 Revelações & Conflitos
A noite havia se instalado sobre Lindon com suavidade.
Não havia lua cheia, apenas um céu profundo pontilhado de estrelas, como se o mundo respirasse mais devagar. Nos aposentos oficiais, a luz era baixa, cálida, feita para acalmar — não para esconder.
Zara estava sentada junto à janela quando Gil-galad entrou, sem anunciar-se. Ele aprendera, nos últimos dias, a caminhar com cuidado ao redor dela — não por medo, mas por respeito.
— Pensei que já estivesse dormindo. — disse ele, fechando a porta com delicadeza.
— O corpo descansa. — respondeu ela. — A mente… ainda corre demais.
Ele se aproximou, parando a poucos passos. Não a tocou de imediato.
— Posso sentar ao seu lado? — perguntou, como quem pede permissão ao próprio destino.
Ela assentiu.
Gil-galad sentou-se ao lado dela, próximo o suficiente para que os braços quase se tocassem. O silêncio que se seguiu não era constrangedor — era cheio de significado.
— Eu sei que algo mudou. — disse ele, por fim. — E sei que você não quer falar ainda. Tudo bem.
Zara respirou fundo.
— Não é medo de você. — disse, baixa. — É medo de… errar. De sentir demais.
Ele virou o rosto na direção dela.
— Então sinta comigo. — respondeu. — Não precisa carregar nada sozinha.
O olhar dela encontrou o dele.
Havia ali um cansaço antigo… e um desejo contido, quase doloroso.
Zara foi a primeira a se mover.
A mão dela tocou o rosto de Gil-galad com cuidado, como se confirmasse que ele era real. O polegar deslizou pela linha da mandíbula, e o toque foi suficiente para quebrar o último fio de distância entre eles.
O beijo veio profundo.
Não apressado.
Não voraz.
Mas intenso — daqueles que roubam o fôlego porque carregam tudo o que foi contido por tempo demais. Gil-galad segurou o rosto dela com ambas as mãos, como se temesse que aquele instante se dissolvesse.
Zara correspondeu com a mesma entrega, o corpo inclinando-se para o dele, o coração batendo rápido demais.
Quando ele a puxou mais para perto, o braço envolvendo sua cintura com força involuntária, ela estremeceu.
Não de rejeição — mas de alerta.
— Gil… — murmurou, afastando-se um pouco, o rosto ainda próximo demais. — Espera.
Ele imediatamente relaxou o aperto.
— Me perdoe. — disse, atento. — Eu não quis—
— Eu sei. — ela interrompeu, respirando fundo. — Não é isso.
Ela levou a mão ao próprio abdômen, num gesto rápido, quase automático, e então desviou o olhar, como se tivesse revelado demais.
— Ainda estou cansada e um pouco…. traumatizada depois de tudo aquilo que aconteceu . — acrescentou, compondo a voz. — Mais do que deveria estar.
Gil-galad a observou por um segundo a mais do que o necessário.
Entendeu.
— Então venha. — disse, estendendo a mão. — Apenas descansar.
Ela aceitou.
Deitaram-se lado a lado, sem pressa, sem exigência. Gil-galad a envolveu com cuidado, como quem protege algo precioso demais para apertar. Zara encaixou-se contra o peito dele, ouvindo o coração que tantas vezes fora abrigo e tormenta.
Ela fechou os olhos.
E, pela primeira vez desde que despertara, permitiu-se dormir sem vigiar o próprio corpo — porque ali, nos braços dele, o mundo podia esperar.
E Gil-galad permaneceu acordado por um tempo ainda, atento à respiração dela, sentindo aquela presença silenciosa entre eles — frágil, sagrada, real.
Sem tocar.
Sem pressionar.
Amando.
Algumas semanas se passaram…
Os rumores começaram como sempre começavam na Corte élfica: baixos, educados… e venenosos.
Zara os sentia antes mesmo de ouvi-los.
Olhares que demoravam um segundo a mais.
Curvaturas de cabeça acompanhadas de murmúrios interrompidos.
Conversas que cessavam quando ela se aproximava.
E, pela primeira vez desde que retornara ao palácio, aquilo a abalava.
Naquela manhã, envolta em um manto claro, Zara atravessou os corredores internos em direção à ala dos curandeiros. Não levava escolta. Não queria testemunhas. Cada passo parecia pesar mais do que o anterior, como se o próprio corpo soubesse o que a mente ainda se recusava a aceitar.
A curandeira mais antiga de Lindon a recebeu com reverência silenciosa.
— Alteza… — disse ela, com suavidade. — Veio por si mesma.
Zara assentiu.
— Preciso de respostas. — respondeu. — Ainda que não goste delas.
Os exames foram longos, delicados, quase ritualísticos. As mãos élficas tocaram-lhe o pulso, a fronte, o ventre — sempre com extremo respeito. Houve troca de olhares entre as curandeiras, murmúrios em quenya antigo, e longas pausas.
— Ainda é cedo. — disse, por fim, a mais velha. — O corpo muda… mas não ousamos afirmar antes do tempo.
Zara respirou fundo.
Não era um não.
Mas também não era um sim.
E isso, de algum modo, a deixava ainda mais inquieta.
O jantar daquela noite foi um exercício de contenção.
Zara estava sentada à mesa ao lado de Gil-galad, belíssima como sempre — mas distante. Tocava a comida sem realmente comer. O vinho permanecia quase intacto. Seu olhar se perdia além das colunas do salão, como se buscasse algo que não estava ali.
Gil-galad percebeu.
Ele sempre percebia.
— Está tudo bem? — murmurou ele, inclinando-se levemente.
— Apenas cansada. — respondeu ela, rápido demais.
Ele não insistiu ali. A Corte observava.
Mas o silêncio entre eles, embora discreto, era pesado como um presságio.
Mais tarde, nos aposentos, a atmosfera mudou.
A porta fechou-se atrás deles, e o mundo pareceu se afastar. Gil-galad deixou a coroa sobre a mesa e aproximou-se com cuidado, como fizera tantas vezes nos últimos dias.
— Você está diferente. — disse, sem acusação. — E não apenas hoje.
Zara estava sentada diante do espelho, soltando os o penteado do dia. Suas mãos tremiam quase imperceptivelmente.
— Diferente… como? — perguntou, sem encará-lo.
— Mais silenciosa. — respondeu ele. — Mais distante do próprio corpo… e ao mesmo tempo mais presa a ele.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Gil… — começou, mas a voz falhou. — Eu não sei como —
Ele se aproximou um pouco mais, parando atrás dela, sem tocá-la.
— Não estou pedindo respostas agora. — disse com calma. — Só não quero que você enfrente isso sozinha.
Zara virou-se devagar.
Havia medo em seus olhos.
E algo mais… algo que ele reconhecia.
— E se eu estiver errada? — murmurou ela. — E se for apenas… o trauma, o cansaço, as feridas que ainda não sararam?
— Então eu estarei aqui. — respondeu ele. — Da mesma forma.
Ele finalmente tocou sua mão, entrelaçando os dedos aos dela.
— Mas se não for… — acrescentou, com a voz baixa. — Eu também estarei aqui.
Zara desviou o olhar.
— Ainda não. — pediu. — Por favor… ainda não.
Gil-galad assentiu.
— Então não falaremos mais esta noite. — disse. — Apenas… fique comigo.
Ela cedeu.
Deitaram-se juntos, como nas noites anteriores. O braço dele ao redor dela era abrigo, não prisão. Zara repousou a mão sobre o próprio ventre sem perceber — e só então a retirou, como se temesse ser descoberta.
Gil-galad notou.
E, em silêncio, compreendeu mais do que qualquer palavra poderia dizer.
Mas não pressionou.
Porque algumas verdades…
precisam nascer no tempo certo.
A Corte deixou de sussurrar.
Agora, perguntava.
Não em tom de afronta — ainda não — mas com aquela cortesia afiada que só os elfos mais antigos sabiam empunhar. Palavras medidas, olhares longos demais, pausas estrategicamente colocadas.
Gil-galad sentiu isso desde o momento em que atravessou o salão do Conselho.
— O inverno aproxima-se com incertezas — dizia um dos senhores de Lindon. — E a estabilidade do reino… exige previsões claras.
— Previsões? — repetiu o rei, erguendo o olhar.
— Continuidade. — corrigiu outro, com um leve inclinar de cabeça. — O futuro da Casa de Fingon sempre foi assunto de… interesse coletivo.
O nome não fora usado por acaso.
Gil-galad manteve a postura firme, mas algo dentro dele se enrijeceu.
— Minha união é recente. — respondeu. — E não será tema de debate político.
Houve um breve silêncio.
— Com todo o respeito, Alteza — disse uma senhora da Corte, antiga como as árvores de Lindon —, não questionamos o amor. Questionamos o amanhã.
— O amanhã pertence aos Valar. — respondeu Gil-galad, com voz baixa. — Não à Corte.
Elrond, sentado alguns lugares adiante, observava em silêncio. Seus olhos cinzentos captavam cada inflexão, cada hesitação disfarçada. Ele sabia: aquela não era apenas uma cobrança institucional.
Era um teste.
— Não pretendemos invadir a intimidade de Vossa Majestade — continuou outro conselheiro —, mas rumores percorrem os corredores. E rumores, quando ignorados, tornam-se armas.
Gil-galad ergueu-se.
— Então aprendam a silenciá-los. — disse. — Esta reunião está encerrada.
O salão curvou-se, mas o dano estava feito.
Mais tarde, nos corredores mais tranquilos do palácio, Elrond caminhava ao lado do rei. Não havia formalidade entre eles ali — apenas dois elfos carregando fardos antigos demais.
— Eles foram longe demais. — disse Elrond, por fim.
— Foram. — respondeu Gil-galad. — E irão ainda mais.
Pararam diante de uma varanda aberta para o mar. O vento frio trazia o cheiro salgado que sempre acalmara o rei — mas naquela noite, nem mesmo ele surtia efeito.
— Eles não veem Zara. — continuou Gil-galad, com a voz contida. — Veem um ventre. Um símbolo. Um risco ou uma promessa.
Elrond permaneceu em silêncio, permitindo que o amigo falasse.
— E eu… — o rei respirou fundo. — Eu não sei se protejo mais a Rainha… ou a mulher que amo.
— Você protege ambas. — respondeu Elrond com firmeza. — Mas não pode fazê-lo sozinho.
Gil-galad passou a mão pelos cabelos, num gesto raro de cansaço.
— Ela está assustada, Elrond. Eu sinto. — confessou. — E a Corte fareja isso como lobos.
— Então é aqui que você deve estar. — disse o arauto. — Não no trono. Não no Conselho. Mas ao lado dela.
O rei assentiu lentamente.
— E se estiverem certos? — perguntou em voz baixa. — E se houver mesmo… uma nova vida começando?
Elrond sorriu, quase imperceptivelmente.
— Então o reino precisará aprender algo que nunca gostou:
que nem todo futuro nasce sob controle.
Gil-galad fechou os olhos por um instante.
— Eu sou rei. — disse. — Mas antes disso… sou marido.
Elrond pousou a mão em seu ombro.
— E essa é a parte que mais assusta a Corte.
Dias depois…
O Conselho reunia-se para algo que, em outros tempos, seria trivial.
Guirlandas, datas, cantos antigos. A celebração que marcaria a virada do ciclo e renovaria os votos de prosperidade de Lindon. Vozes antigas debatiam cores, ritos, símbolos.
Zara estava presente — postura ereta, semblante contido, mãos pousadas com elegância no colo. Ainda assim, algo nela já estava tenso demais para passar despercebido por quem a conhecia de verdade.
Gil-galad sentia.
Elrond também.
Foi então que a lâmina veio.
— Considerando o momento que atravessamos… — começou um dos conselheiros, com a voz suave demais para ser inocente — talvez fosse prudente alinhar a festividade com símbolos de continuidade. Esperança. Descendência.
O ar mudou.
Zara sentiu primeiro no estômago — um aperto súbito, profundo, como se o corpo tivesse sido puxado para dentro de si mesmo.
— Descendência? — repetiu Gil-galad, com frieza controlada.
— Apenas rumores, Alteza. — respondeu o conselheiro, erguendo as mãos em falsa deferência. — Mas rumores costumam refletir expectativas do povo.
O olhar de Zara perdeu o foco.
O salão começou a girar, lento e cruel.
— A Rainha parece…não estar bem. — murmurou alguém.
Zara levantou-se abruptamente. A cadeira arranhou o piso, quebrando o murmúrio geral.
— Com licença. — disse, a voz firme apenas por fora. — Preciso de ar.
Elrond já estava de pé.
— Zara, eu a acompa —
— Não. — ela cortou, dando um sorriso simplório. — Fique.
E saiu.
Gil-galad fez menção de segui-la, mas o protocolo — aquela prisão invisível — o conteve por segundos que pareceram eternos.
Segundos demais.
O quarto estava silencioso demais.
Zara fechou a porta com cuidado, apoiando-se nela como se o mundo tivesse perdido peso. Respirou fundo. Uma vez. Duas
Sentiu algo quente escorrendo por baixo do vestido.
Quando levou a mão às vestes, sentiu a umidade.
Olhou.
O sangue era pouco mas suficiente para fazer seu coração despencar.
— Não, não, não… — murmurou, a voz quebrando pela primeira vez.
As pernas cederam. Ela sentou-se à beira do leito, as mãos tremendo enquanto tentava compreender o que o corpo lhe dizia — ou o que ele estava prestes a tirar.
A porta se abriu.
Gil-galad entrou já chamando seu nome, a voz carregada de urgência — e então a viu.
Viu o rosto dela já em lágrimas silenciosas.
Viu o pânico contido.
Viu o vermelho manchando as mãos.
O mundo parou.
— Zara… — ele atravessou o quarto em dois passos.
Ela ergueu os olhos e tudo desabou.
Ela apenas ergueu os braços, o pedindo como âncora, antes de desabar completamente em soluços dolorosos.
Ele a envolveu nos braços antes que ela terminasse. Forte. Protetor. Como se pudesse, com isso, impedir o destino de tocar nela.
— Estou aqui. — disse, com a voz baixa, firme, apesar do terror que lhe dilacerava o peito. — Você não está sozinha.
Ela chorava contra seu peito como não chorara nem nos dias mais sombrios da guerra.
— Eles falaram… — sussurrou. — Eles sabiam… mesmo sem saber… Eles me odeiam e odeiam qualquer coisa que possa ser nossa…
Gil-galad fechou os olhos, a raiva queimando silenciosa.
— Não pense neles agora. — murmurou, segurando-lhe o rosto com cuidado. — Pense em você. Em nós.
Ele virou-se bruscamente para a porta.
— Curandeiras! — chamou, a voz ecoando pelo corredor. — Agora!
Voltou-se para ela de novo, ajoelhando-se à sua frente, tocando-lhe as mãos frias.
— Seja o que for… — disse, encostando a testa na dela — nós enfrentaremos juntos. Eu te prometo. Como rei… e como marido.
Zara assentiu, mas o medo ainda tremia em seus olhos.
Não pelo que a Corte diria.
Mas pelo que ela podia estar perdendo.
E enquanto os passos apressados das curandeiras se aproximavam, Lindon parecia conter a respiração — como se todo o reino soubesse que, naquela noite, o futuro pendia por um fio invisível e frágil demais para ser tocado pela política.
O quarto estava envolto em penumbra.
As curandeiras falavam baixo, como se o som pudesse ferir aquilo que ainda não ousavam nomear. O ar trazia o perfume de ervas amargas e água aquecida por encantamentos antigos.
Zara dormia.
As amas lhe ofereceram chá de ervas para acalmar e relaxar junto a poções de recuperação.
— Ela precisa de repouso absoluto. — disse a mais velha das curandeiras, com a voz grave. — Nenhum esforço. Nenhuma tensão. Nem do corpo… nem do coração.
Gil-galad assentiu em silêncio.
— E quanto a… — Ele não conseguiu concluir.
A curandeira sustentou o olhar do rei por um instante longo demais.
— Há sinais. Mas também há fragilidade. — respondeu, com honestidade cruel. — O que existe ali… ainda está se decidindo se permanece.
Aquelas palavras atravessaram Gil-galad como lâmina.
Quando as curandeiras se retiraram, o quarto ficou só deles.
Ele sentou-se ao lado da cama, segurando a mão de Zara com cuidado reverente — como se qualquer pressão pudesse quebrar algo invisível.
— Descanse… — murmurou, embora soubesse que ela não o ouvia. — Eu ficarei aqui. Eu sempre fico.
Mas o corpo, exausto de vigília, acabou cedendo.
E o sonho voltou.
Não como antes.
Ele estava novamente nos jardins de Lindon.
Mas agora não havia luz suave.
As árvores estavam nuas, os galhos retorcidos como mãos em súplica. O chão, coberto por folhas secas que rangiam sob seus passos como ossos antigos.
— Zara? — chamou.
Nenhuma resposta.
Ao longe, ouviu o riso infantil.
O mesmo riso do sonho anterior.
Seu coração se apertou — esperança e medo misturados.
Seguiu o som.
E então a viu.
Zara estava ali, mas não como antes.
Estava pálida, envolta em véus cinzentos que se dissolviam ao vento. Nos braços, o menino de cabelos escuros — o mesmo — mas agora ele não ria.
Chorava.
Um choro fraco, entrecortado, como quem luta para permanecer.
— Não… — Gil-galad tentou se aproximar, mas o chão começou a ceder sob seus pés.
Raízes negras emergiram da terra, prendendo-lhe as pernas.
— Abraça teu futuro… — repetiu a voz antiga, agora distorcida, ecoando como vinda das profundezas.
— Eu estou tentando! — gritou, lutando contra as raízes. — Eu estou aqui!
Zara ergueu os olhos para ele.
Havia amor ali.
Mas também despedida.
— Nem todo futuro permanece, Erenion… — disse ela, com uma tristeza que não era acusação. — Às vezes… ele apenas passa por nós.
O menino começou a se desfazer em luz.
Não uma luz quente.
Mas fria. Distante. Como estrelas morrendo.
— NÃO! — Gil-galad gritou, sentindo algo rasgar dentro do peito.
As raízes subiram, envolvendo-lhe o torso, apertando, sufocando.
— Rei das Estrelas… — sussurrou a voz. — Há escolhas que nem mesmo coroas podem impedir.
Tudo escureceu.
Gil-galad acordou sobressaltado.
O quarto estava silencioso, exceto pela respiração suave — frágil — de Zara.
O suor frio escorria por sua têmpora. O coração batia forte demais para um elfo.
Ele olhou para ela imediatamente.
Zara permanecia imóvel, mas viva.
Com cuidado extremo, levou a mão ao ventre dela — sem tocar, apenas sentindo o calor tênue que ainda existia ali.
— Proteja-os… — sussurrou, sem saber se falava aos Valar, a Eru… ou a si mesmo. — Proteja aquilo que ainda luta para ficar.
Levantou-se e foi até a janela.
Lindon dormia.
Ignorante do medo que agora habitava o coração de seu rei.
Pela primeira vez em toda sua longa vida, Gil-galad sentiu algo pior que a perda.
Sentiu a impotência.
E soube — com uma certeza que nenhum sonho ousaria negar — que se algo acontecesse a Zara… ou ao que ela carregava…
Não haveria trono, Conselho ou reino capaz de contê-lo.
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