O tempo avançou como avança entre os elfos: quase sem alarde, mas deixando marcas profundas para quem sabe olhar.

Cinco meses.

Era esse o número que agora pesava no corpo de Zara.

A gravidez avançara de forma segura segundo as curandeiras — nenhuma intercorrência grave, nenhum sinal que justificasse alarme público. Ainda assim, havia algo que não se escrevia em relatórios: o cansaço que a tomava como maré persistente.

Zara já não caminhava longas distâncias.

Os treinos haviam se tornado lembrança distante.

As noites, antes breves, agora pareciam nunca ser suficientes.

Havia dias em que acordava exausta.

Outros em que mal conseguia adormecer.

O ventre, agora visível sem esforço, alterara seu centro de equilíbrio, seu ritmo, sua relação com o próprio corpo. E para alguém que sempre vivera em comando absoluto de si, aquilo era… desconcertante.

Gil-galad percebia cada detalhe — e silenciava suas preocupações para não transformá-las em peso adicional para ela.

Mas Elrond não.

O arauto observava com atenção antiga, a mesma que aprendera ainda jovem, quando cuidar significava perceber antes que a dor fosse dita.

Foi numa tarde clara, quando Gil-galad fora chamado ao Conselho, que Elrond encontrou Zara sentada nos jardins internos, à sombra de um freixo dourado. Ela repousava com os olhos fechados, a mão apoiada no ventre, respirando devagar demais para alguém que fingia estar bem.

— Majestade. — chamou ele com suavidade.

Zara abriu os olhos e sorriu, cansada.

— Elrond, sem títulos. Sei que não há mais nada ‘majestoso’ em mim e se veio me dizer para descansar, aviso logo: já estou sentada. — ironizou.

Elrond inclinou levemente a cabeça.

— Não vim como arauto. — disse. — Vim como alguém que se preocupa.

O sorriso dela vacilou por um segundo.

— Estou bem. — respondeu automaticamente. — Apenas… cansada.

— Cansada demais. — corrigiu ele, com delicadeza, sentando-se à sua frente. — E isso não é fraqueza, Zara. Mas precisa ser ouvido.

Ela desviou o olhar para os jardins.

— Meu corpo está fazendo algo que nunca fez antes. — murmurou. — E, às vezes, parece que esqueceu de me avisar como acompanhar. Não se esqueça a minha metade mortal.

Elrond sorriu de leve.

— Corpos também aprendem. Especialmente quando carregam algo tão raro.

Zara suspirou fundo. Olhou o horizonte com um certo pesar e confessou:

— Tenho medo de decepcioná-lo. — confessou. — Gil-galad tenta não demonstrar, mas eu vejo. Ele se segura o tempo todo.

— Ele se segura porque te ama. — respondeu Elrond sem hesitar. — E porque sabe que você não quer ser tratada como frágil.

Ela assentiu.

— Mas estou frágil. — disse, quase num sussurro. — Só não sei como ser isso sem me perder.

Elrond pousou a mão sobre a dela, gesto simples, respeitoso.

— Não estás te perdendo. — afirmou. — Estás mudando. E mudanças profundas como essa exigem pausa. Permita que seja cuidada com merece.

Zara respirou fundo.

— As curandeiras dizem que está tudo bem. — acrescentou, como se buscasse confirmação.

— E está. — concordou ele. — Mas “bem” não significa “fácil”.

Ela riu baixo, sem humor.

— Nunca foi.

Elrond levantou-se devagar.

— Prometa-me algo. — pediu. — Quando o cansaço for maior do que o orgulho, você vai pedir ajuda.

Zara pensou por um momento.

— Prometo tentar. — respondeu, sincera.

Ele sorriu.

— É o máximo que alguém como você pode oferecer.

Quando Gil-galad retornou dos compromissos, encontrou Zara deitada, dormindo profundamente — algo raro nas últimas semanas.

Elrond o aguardava à porta.

— Ela está segura. — disse baixo. — Mas precisa de menos expectativas… e mais repouso.

Gil-galad assentiu, o rosto sério.

— O mundo pode esperar. — respondeu. — Ela, não.

E naquela noite, enquanto Lindon dormia sob estrelas imóveis, o tempo continuou avançando — não em batalhas ou conselhos, mas no corpo cansado de uma rainha que carregava o futuro.


A noite que antecedeu o parto não trouxe descanso a Lindon.

O ar estava pesado, imóvel, como se o próprio tempo aguardasse algo que ainda não ousava acontecer. As estrelas brilhavam com uma intensidade estranha, e a Árvore Dourada mantinha seu fulgor aceso mesmo após o cair completo da noite — um brilho vivo, pulsante, quase inquieto.

Gil-galad adormeceu ao lado de Zara com o coração em vigília.

E sonhou.

Não foi um sonho suave.

Ele se via nos jardins élficos, mas não como os conhecia. As alamedas eram mais longas, as sombras mais profundas, e o céu estava tingido por um entardecer dourado impossível — uma luz que não vinha do sol nem da lua, mas de algo antigo, primordial.

A Grande Árvore Dourada erguia-se à frente dele.

Não imóvel.

Pulsante.

Sua luz subia e descia como um coração vivo, e cada batida ecoava no chão sob seus pés.

— Zara… — chamou, a voz engolida pelo ar espesso.

Ela estava ali.

De pé diante da árvore.

Iluminada pela luz dourada, mas não gloriosa.

Quebrada.

O vestido claro estava marcado de suor e lágrimas. Seus cabelos colavam-se ao rosto. As mãos tremiam enquanto ela se apoiava no tronco luminoso da Árvore, como se buscasse nela a força que o próprio corpo já não tinha.

Então veio o primeiro grito.

Cru. Rasgado. Desumano.

Gil-galad correu, mas o chão parecia alongar-se sob seus passos.

— Zara! — chamou novamente.

Ela se virou para ele.

E seus olhos — aqueles olhos ferozes, orgulhosos, indomáveis — estavam cheios de dor.

Não apenas física.

Havia ali medo.

Havia ali exaustão.

E havia algo mais terrível: a sensação de que ela estava sendo levada para um lugar onde ele talvez não pudesse segui-la.

Outro grito.

O som reverberou pela Árvore, fazendo sua luz oscilar.

— Eu estou tentando… — ela sussurrou entre gemidos, como se falasse com o mundo inteiro. — Pelos Valar… eu estou tentando…

Gil-galad finalmente a alcançou e caiu de joelhos ao lado dela, tentando segurá-la, mas seus braços atravessavam o ar como se ela estivesse presa entre planos.

— Não me deixe! — ele implorou, a voz quebrando. — Não assim… não agora…

As lágrimas desciam sem controle.

A Árvore Dourada começou a emitir um som baixo, antigo — um lamento que parecia misturar raízes, folhas e tempo.

E então, do próprio ar, surgiu a voz.

Não masculina.

Não feminina.

Não distante nem próxima.

Antiga.

“Não deixes o início ser o fim,

Filho das Estrelas.”

A luz dourada intensificou-se.

Zara arqueou o corpo em dor, um grito final rasgando o sonho como lâmina.

— Ereinion… — ela chamou, com uma ternura devastadora. — Fique…

O mundo estremeceu.

A Árvore brilhou forte demais.

E tudo se partiu.

Gil-galad acordou com um sobressalto violento, o peito arfando como se tivesse corrido eras inteiras.

O quarto estava escuro. Silencioso.

Zara dormia ao seu lado — inquieta, respirando com dificuldade, o rosto contraído mesmo no sono. Uma mão instintivamente pousada sobre o ventre imenso.

Ele tocou-lhe o rosto com cuidado extremo, como quem teme que o sonho ainda tenha poder sobre a realidade.

— Não deixarei. — sussurrou, a voz embargada. — Nem o começo… nem você.

Do lado de fora, a Árvore Dourada lançou um brilho mais intenso por um breve instante.

E naquela noite, Gil-galad compreendeu algo que nenhum Conselho jamais ousara ensinar:há batalhas que não se vencem com espada, apenas com permanência.

E ele estava pronto para ficar.


O amanhecer chegou a Lindon com uma serenidade quase ofensiva.

A brisa leve percorreu os jardins, e a luz matinal filtrou-se pelas janelas altas dos aposentos reais como se nada, absolutamente nada, estivesse fora do lugar. Os pássaros cantavam, os sinos élficos marcaram a hora com suavidade, e a Árvore Dourada permanecia em seu brilho habitual — firme, constante, tranquilizador.

Gil-galad observava Zara despertar.

Ela parecia cansada, sim, mas havia paz em seus traços. Um cansaço sereno, quase resignado, como o de quem aprende a conviver com o peso de um novo tempo no próprio corpo.

Ele contou-lhe do sonho.

Ou melhor, uma versão dele.

Falou dos jardins, da luz dourada, da Árvore pulsando — mas deixou de fora os gritos, o medo, a palavra fim. Preferiu moldar o sonho como algo simbólico, um eco dos temores que todo pai carregaria à beira de um nascimento.

Zara ouviu, mas sem muita atenção, de tanto cansaço, a barriga pesava demais, a mão repousando sobre o ventre mais para segurança do que carinho.

E sorriu.

— Você anda vendo presságios em tudo ultimamente — disse com suavidade, tocando-lhe o rosto. — Está tudo bem, meu amor. Eu sinto isso.

Ele quis insistir.

Havia algo no fundo do peito que ainda ardia, um aviso não totalmente silenciado.

Mas antes que pudesse falar, as batidas ecoaram na porta.

Rápidas. Urgentes. Deslocadas daquele clima de quietude.

Um mensageiro trazia notícias de um domínio próximo. Nada alarmante — ao menos não à primeira vista — mas algo que exigia a presença do Alto-Rei para mediação imediata.

O semblante de Gil-galad fechou-se.

— Não irei. — disse de pronto.

Zara, porém, segurou-lhe a mão.

— Vá — pediu, com firmeza serena. — As curandeiras disseram que ainda há semanas. E eu estarei cercada por ajuda… Não se prenda por medo.

Ele hesitou.

O sonho voltou-lhe à mente como uma sombra incômoda.

Mas ela sustentou-lhe o olhar, segura, confiante, quase plena.

— Prometo voltar antes do anoitecer — ele pediu, por fim.

— Eu prometo esperar — respondeu ela.

E assim, contra cada instinto, Gil-galad partiu.

A tarde avançou sem pressa.

Zara caminhou lentamente pelos jardins, acompanhada à distância por amas e uma curandeira discreta. O calor era suave, o céu se tingia aos poucos de dourado, e a Árvore Dourada parecia absorver a luz do entardecer, devolvendo-a em pulsações tranquilas.

Ela parou diante dela.

Apoiou-se no tronco luminoso, fechou os olhos e respirou fundo.

Foi então que a dor veio.

Não como um aviso gentil.

Mas como um rompimento.

Uma pressão profunda, súbita, arrancou-lhe o ar dos pulmões. Zara levou a mão ao ventre num gesto instintivo, o corpo enrijecendo enquanto um calor inesperado descia por suas pernas.

— Não… — murmurou, mais surpresa do que medo.

Outro espasmo atravessou-lhe o corpo.

E então ela sentiu.

O inconfundível.

O irreversível.

A bolsa havia se rompido.

O mundo pareceu desacelerar.

A luz dourada da Árvore oscilou por um instante — quase imperceptível, mas real. Zara abriu os olhos, agora arregalados, o coração disparado.

— Chamem… — tentou dizer, a voz falhando. — Chamem… as curandeiras.

As amas correram, o alvoroço rompendo a falsa paz do jardim.

Zara permaneceu ali por um instante a mais, apoiada à Árvore, sentindo o peso da verdade finalmente cair sobre si.

Não havia semanas.

Havia agora.

E, em algum lugar além daqueles jardins, Gil-galad ainda acreditava que tudo estava sob controle.