A chegada de Paddy foi anunciada com toda a formalidade que se esperava de uma dama.

Vestes impecáveis, postura elegante, voz controlada e um sorriso educado que jamais denunciaria o furacão que habitava seu interior.

Zara, por sua vez, a recebeu como Rainha — postura firme, expressão contida, autoridade intacta.

As duas se encararam por um breve segundo.

Então, quase imperceptível aos olhos da corte, Paddy ergueu uma sobrancelha.

— Então… — começou, avaliando a irmã de cima a baixo com exagerada atenção — você sempre foi assim… mais cheia?

Zara pigarreou.

— Cheia de… coragem?

— Ah, claro. — Paddy sorriu, falsa e doce. — Coragem. Que agora parece se acumular na cintura.

Zara fechou o semblante.

— Você atravessou meio reino, dias de viagem, e a primeira coisa que vem a sua cabeça é isso?

— Atravessei meio reino porque sinto saudade da minha irmã. — respondeu, caminhando ao redor dela. — Mas confesso que não esperava encontrá-la… radiante. Está diferente. Menos carrancuda. Um pouco… arredondada.

— Eu não estou arredondada. — rebateu Zara, seca.

— Claro que não. — Paddy assentiu. — Só… mais suave. Estranho. Você sempre teve a delicadeza de um aríete.

Zara reprimiu um sorriso.

Horas depois, longe de olhares curiosos, as duas se encontraram nos aposentos privativos. Paddy finalmente largara o protocolo, sentando-se de pernas cruzadas sobre almofadas, enquanto observava a irmã sentar-se com uma certa dificuldade.

— Muito bem. — disse Paddy. — Agora que estamos a sós, diga logo. O que está acontecendo com você?

Zara suspirou fundo.

— Nada.

Paddy estreitou os olhos.

— Essa palavra nunca significou nada vindo de você.

Zara parou. Hesitou. Levou a mão ao ventre num gesto quase automático… e então pareceu se decidir.

— Eu… — engoliu em seco — estou grávida.

Silêncio.

Paddy piscou.

Piscou de novo.

— … Você está o quê?

— Shhhhh…Grávida. — repetiu Zara, mais baixo.

Paddy levantou-se de um salto.

— OH MEU DEUS!

Zara levantou a mão em direção a ela como se pudesse conter a fala.

— Paddy, fale baixo!

— BAIXO?! — ela levou as mãos à cabeça. — Zara, VOCÊ está grávida!

— Sim, já entendemos essa parte.

— Não, não entendemos! — começou a andar de um lado para o outro, completamente fora de si. — Zara Dulórien, a comandante que partiu uma lança com os dentes uma vez, está… gerando uma criança?! Como isso aconteceu?

— Eu não parti uma lança com os dentes…E você realmente quer que eu te explique como aconteceu?!

— Tentou! — apontou. — E não, pelos Valar, poupe-me de explicar. Eca. — fez uma expressão de desgosto. E continuou: — Eu não acredito que agora, você vai parir o futuro príncipe de Lindon?!

Zara cobriu o rosto.

— Valar, eu me arrependi de contar…

— NÃO! — Paddy agarrou as mãos da irmã. — Isso é histórico! Escandaloso! Maravilhoso!

Ela parou abruptamente.

— Quando nosso pai souber…

Zara semicerrou os olhos.

— Ele vai desmaiar.

— Não, ele vai fingir compostura, depois vai desmaiar. — corrigiu. — Ai, Valar… EU VOU SER TITIA!

Ela começou a rir, depois quase chorou.

— Pelas barbas de Aulë, precisamos começar o enxoval imediatamente!

— Paddy, é cedo demais!

— CEDO? — arregalou os olhos. — Zara, você não sabe absolutamente nada sobre crianças!

— Eu sei sobre guerras e exércitos.

— Ótimo, vai precisar disso pra sobreviver a um bebê! — já gesticulava animada. — Precisamos de mantas, roupas, pequenos amuletos de proteção, tecidos macios…

Zara riu, finalmente cedendo.

— Você realmente está empolgada.

Paddy parou diante dela, se abaixando, agora com mais calma. Colocou a mão sobre o ventre da irmã com cuidado, quase reverência.

— Mais que empolgada. — disse, suave. — E sabe de uma coisa? Você vai ser uma mãe maravilhosa. Mesmo sendo… tão bruta.

Zara arqueou a sobrancelha.

— Repita.

— Bruta. — sorriu. — Mas bruta que ama. E isso basta.

As duas se abraçaram, rindo, emocionadas, cúmplices como sempre foram.

Do lado de fora, se alguém passasse, ouviria apenas gargalhadas.

Dentro daquele quarto, pela primeira vez, Zara não era Rainha, nem Comandante.

Era apenas uma irmã… prestes a se tornar mãe.

E Paddy?

Já estava mentalmente organizando o futuro do herdeiro de Lindon.


Zara segurou as mãos de Paddy com força incomum.

— Jure. — disse em tom baixo, sério. — Por tudo o que é sagrado para os Dulóriens.

Paddy engoliu em seco, ainda com os olhos brilhando demais para alguém que deveria guardar segredo.

— Eu juro. Pelos Valar, pelo nosso pai, pela nossa família… eu juro. — fez um gesto solene exagerado. — Minha boca será uma tumba.

— Não é brincadeira. — Zara reforçou. — Só Gil-galad sabe. Nem Elrond… totalmente. Não posso permitir que isso chegue ao Conselho agora. Não quero que meu marido seja forçado a um conflito antes da hora.

Paddy assentiu, mais séria do que jamais estivera desde que chegara a Lindon.

— Entendi. Silêncio absoluto.

Zara respirou aliviada.

O jantar daquela noite, no entanto, parecia decidido a testar todos os juramentos feitos.

O salão estava cheio, ainda que restrito. Conversas baixas, música suave, o brilho das lâmpadas refletindo nos tecidos claros dos elfos. Zara ocupava seu lugar ao lado de Gil-galad, postura impecável, expressão tranquila — ao menos à primeira vista.

Paddy, sentada um pouco mais abaixo, a observava como um falcão.

Quando os pratos chegaram, Zara mal tocou na comida.

Cortou um pedaço pequeno. Mastigou devagar. Empurrou o restante com discrição.

Paddy empalideceu.

— Você não vai comer mais? — perguntou, alto demais.

Zara quase engasgou.

— Estou satisfeita. — respondeu rapidamente.

Paddy franziu o cenho.

— Satisfeita? Mas você mal—

Zara chutou levemente o pé da irmã por baixo da mesa.

Paddy deu um pequeno grunhido, confundido com uma tosse.

— Quer dizer… — corrigiu-se, nervosa — é… claro… satisfeita… é… normal…

Gil-galad inclinou levemente a cabeça em direção à esposa.

— Está tudo bem, meleth? — sua voz era suave, mas os olhos atentos.

— Apenas cansaço. — respondeu Zara, sorrindo com esforço. — O dia foi longo.

Ele aceitou a resposta… mas não desviou o olhar imediatamente.

E então havia Elrond.

Sentado não muito longe, o arauto observava tudo com aquela calma inquietante que sempre o denunciava quando algo não se encaixava.

Ele notara: o modo como Zara evitava certos alimentos, a mão que, por vezes, repousava inconscientemente sobre o ventre, o nervosismo incomum de Paddy, e, sobretudo, a atenção silenciosa de Gil-galad, quase protetora demais.

Quando Paddy voltou a olhar para o prato da irmã — agora praticamente intocado — Elrond arqueou levemente a sobrancelha.

Não disse nada.

Mas soube.

Ao fim do jantar, enquanto alguns se levantavam, Paddy inclinou-se rápido demais na direção de Zara.

— Você precisa comer melhor. — sussurrou, esquecendo-se por um segundo do juramento. — Isso não é —

Zara apertou o pulso da irmã.

— Paddy. — disse apenas.

Paddy empalideceu de novo.

Elrond levantou-se nesse exato momento, aproximando-se com naturalidade calculada.

— Está tudo em ordem, minhas senhoras? — perguntou, cordial.

— Perfeitamente. — respondeu Zara antes que Paddy abrisse a boca. — Apenas conversas familiares.

Elrond sorriu.

Mas seus olhos demoraram-se um pouco mais do que o necessário no rosto da Rainha.

Depois, no breve silêncio que se seguiu, ele pensou:

Ainda não anunciado. Ainda não dito em voz alta.

Mas o destino… já se moveu.

E, embora todos naquela mesa tentassem disfarçar,

algo estava ali.

Vivo.

Crescente.

Impossível de permanecer oculto por muito mais tempo.


A noite já havia avançado quando Gil-galad deixou seus aposentos e seguiu pelos corredores silenciosos de Lindon. As lâmpadas élficas lançavam luz suave sobre as paredes claras, mas nada ali parecia aliviar o peso que se acumulava em seu peito.

Elrond estava nos jardins internos, como se soubesse que o rei o procuraria.

— Caminha como quem carrega uma tempestade. — disse o arauto, sem virar-se de imediato.

Gil-galad soltou um suspiro lento.

— Porque ela já se formou… e ainda não sei onde cairá.

Elrond voltou-se para ele, atento.

— Então é verdade.

Não era uma pergunta.

Gil-galad hesitou apenas um instante antes de assentir.

— Ainda não anunciado. Ainda não confirmado perante a Corte. — sua voz baixou. — Mas sim… é verdade.

Elrond fechou os olhos por um breve momento, como quem organiza pensamentos antigos demais.

— Eu suspeitava. — disse com honestidade. — Não apenas hoje. Desde o retorno dela do cativeiro… algo a mudava profundamente.

Gil-galad passou a mão pelos cabelos escuros, gesto raro de desalinho.

— Tenho medo, Elrond. Não do filho. — corrigiu-se de imediato. — Dos outros.

O arauto aproximou-se alguns passos.

— Eles verão antes que você diga. — afirmou com calma. — Elfos veem padrões onde outros veem acaso. Se não anunciares, perceberão. E se anunciares… julgarão.

Gil-galad riu sem humor.

— Sempre julgaram.

— Sim. — Elrond concordou. — Mas agora não será apenas você.

O silêncio entre eles tornou-se denso.

— Eles questionarão a linhagem. — continuou Elrond, medindo cada palavra. — Alguns ousarão lembrar antigas disputas sobre tua ascendência. Outros usarão o nascimento como argumento político. Haverá quem tema o que um filho teu representa… e quem deseje moldá-lo antes mesmo de nascer.

Gil-galad fechou os punhos.

— Ela já sente esse peso. — murmurou. — Zara tenta esconder, mas eu a vejo lutar contra algo que não deveria ser luta alguma. — ergueu o olhar, firme. — Não permitirei que a façam sentir vergonha.

Elrond pousou a mão em seu ombro.

— Então precisas decidir como e quando.

— Se anuncio agora… — Gil-galad começou — direi ao mundo que não temo. Mas darei ao Conselho tempo para se organizar contra nós.

— Se não anunciar… — Elrond completou — permitirá que rumores cresçam, distorcidos, cruéis. E rumores são mais difíceis de controlar do que verdades.

Gil-galad fechou os olhos.

— Passei eras pensando que jamais teria isso. Uma família. Um futuro que não fosse apenas dever. — abriu-os novamente, úmidos. — E agora que tenho… tudo parece ameaçar ruir.

Elrond sorriu com suavidade.

— Não ruíu quando a amou. Não ruíu quando a tomou como esposa. — fez uma pausa. — E não ruirá agora.

— Diz isso como amigo. — respondeu Gil-galad.

— Digo como alguém que acredita que os Valar não concedem dons para depois zombar deles. — replicou Elrond com firmeza rara. — Esse filho, Erenion, não é fraqueza. É sinal de que tua história ainda não terminou.

O nome antigo fez Gil-galad estremecer.

— Prometa-me algo. — pediu o rei, em voz baixa.

— O que desejar.

— Se a Corte tentar feri-la… ou a criança… — sua voz endureceu — estarei pronto para tudo. Mas preciso que sejas minha voz quando eu não puder ser apenas rei.

Elrond inclinou a cabeça, solene.

— Não apenas tua voz. — disse. — Teu escudo.

O vento percorreu os jardins, balançando levemente as folhas da Árvore Dourada.

Gil-galad olhou para ela.

— Amanhã não direi nada. — decidiu. — Ainda não. Mas também não fugirei.

Elrond assentiu.

— Então estaremos atentos. Todos nós.

E enquanto a noite avançava sobre Lindon, dois elfos sabiam que o futuro já havia escolhido seu caminho — restava apenas ao mundo aceitar..