Após o cumprimento político, Miriel pediu que os líderes conversassem entre si antes do conselho formal iniciar. Gil-galad, como que atraído por algo inevitável, aproximou-se de Zara, devagar, indo pela lateral da sala, onde ela examinava um mapa naval na mesa central.

— Zara… — disse, com a voz baixa, temendo que se pronunciasse o nome dela, ela sumisse instantaneamente.

Ela não ergueu os olhos imediatamente.

E quando ergueu — foi pior.

Era como olhar para gelo rachado.

Zara apenas revirou os olhos e se preparava para simplesmente ignorá-lo.

— Zara… por favor…

Ela voltou a encara-lo e deu uma risada curta, seca, absolutamente descrente.

— Oh! O Rei Dourado quer falar...

Gil-galad fechou os olhos um instante.

— Gostaria de conversar… esclarecer…

— Esclarecer? — ela cortou, com um sorrisinho debochado. — Não se preocupe em… “esclarecer” nada — o tom saiu em desprezo. — Não guardo mágoa alguma.

O que era mentira. E ele sabia.

Mas antes que ele pudesse responder, ela completou com aquela frase que o atingiu mais fundo do que qualquer espada:

— Graças a tudo o que se passou, agora sou mais sábia. Hoje, se eu ver elfos precisando de ajuda… deixarei que pereçam sozinhos.

Elrond, ao longe, levou a mão lentamente ao rosto numa mistura de tristeza e vergonha alheia.

Gil-galad sentiu a garganta fechar, como se tivesse engolido uma pedra.

— Zara… você não faria isso. — murmurou ele, sabendo, no fundo, que era verdade.

— Faria, sim. — respondeu ela, firme como aço temperado. — Porque agora sei exatamente o que esperar dos elfos. Luz por fora. Trevas por dentro.

Ela se virou como se encerrasse o assunto.

Gil-galad deu um passo involuntário em direção a ela.

A voz dele saiu baixa, rouca, quase falhando:

— Ú-ven aníron beria le.

(Eu nunca desejei te ferir.)

Ela não olhou para trás.

— Não desejou mas feriu mesmo assim.

E então ela seguiu para o lado oposto, aproximando-se de alguns capitães numenorianos, firme, impecável, sem permitir que o coração traísse um único sinal de dor.

Mas por dentro, por trás do aço, Zara sentia algo que tentava negar há anos:

A presença dele ainda era capaz de estremecer suas muralhas.

E isso a enfurecia.


Miriel, observadora como sempre, após alguns minutos, aproximou-se de Elrond.

— Eles se conhecem. — afirmou a Regente, sem rodeios.

— Mais profundamente do que gostariam. — Elrond respondeu, suspirando.

Miriel sorriu de canto.

— Isso explica por que o salão ficou mais frio quando ela entrou.

Enquanto isso, Zara permanecia rígida, olhando para qualquer lugar exceto para o Rei dos Noldor.

E Gil-galad…

Gil-galad parecia um homem vendo o fantasma da única pessoa que amou e perdeu por culpa própria.

Seu coração batia tão forte que quase doía.

Os anos não a apagaram.

Não o curaram.

Não o libertaram.

E agora ela estava ali. Mais bela, mais perigosa, mais distante do que jamais estivera.

E o pior…

Ele ainda a amava. E ela era a única que o desprezava.


A mesa oval estava cercada por comandantes númenorianos, conselheiros, Elrond, Gil-galad e a própria Regente.

Mapas abertos, marcadores de madeira, rotas estratégicas no estreito.

Mas a tensão maior não vinha das possíveis invasões sombrias.

Vinha de Zara e Gil-galad opostos um para o outro.

Ambos pareciam duas forças naturais prestes a colidir.

Zara se mantinha ereta, o olhar frio como se desejasse eliminar — ou agarrar?! — o elfo a sua frente mas sempre mantendo a expressão neutra para os outros na mesa.

Gil-galad, apesar da postura impecável, tinha o maxilar trincado — uma linha tensa que só quem o conhecia há séculos percebia.


Miriel abriu a reunião:

— Precisamos considerar como conter os ataques vindos do leste. Lord Elrond, qual sua análise?

Elrond explicou brevemente as movimentações recentes, e então Gil-galad acrescentou:

— Uma divisão deve ser enviada ao estreito, mas não pela rota norte. Os riscos —

— Regente, com o devido respeito… imaginei que estivéssemos reunidos para ouvir estrategistas. Não creio que o Alto-Rei dos Noldor seja, no presente momento, a autoridade mais… adequada em relação aos problemas atuais na Terra-média…

Gil-galad ergueu os olhos para ela, lentamente.

— Conheço a Terra-média o suficiente para não enviar tropas para um cerco inevitável. Se forem pelo norte, serão encurralados pelo terreno elevado.

Zara riu — não com humor, mas com desprezo.

— O terreno só é um problema para quem não sabe lutar nele, habilidade esta que considero que seus elfos, lamentavelmente, não detenham.

Os númenorianos se entreolharam.

Elrond respirou fundo.

Miriel ergueu uma sobrancelha.

Gil-galad, tentando se manter calmo:

— Não se trata de coragem ou habilidade. Trata-se de cálculo. Sua proposta levaria centenas à morte.

Zara inclinou-se, olhos como lâminas:

— Não é uma proposta, porventura nem eu considerei tal arranjo. Porém, também acredito que talvez o senhor não esteja acostumado a decisões difíceis. Reis acostumados a muita polidez raramente estão.

Elrond quase se engasgou.

Um dos comandantes númenorianos murmurou: “Por Eru…”

Gil-galad sentiu o golpe — e mesmo assim manteve a voz calma.

— Zara… — alguns presentes sentiram o leve tremor na voz dele. — Você está deixando a emoção ditar —

— Comandante Dulórien. E emoção? — ela retrucou, o olhar queimando. — Creio que o senhor não tem o direito de falar sobre as minhas emoções.

Um silêncio mortal caiu.

Miriel desviou o olhar, respeitosamente.

Era óbvio que aquilo não era só sobre estratégia militar.


Gil-galad continuou, mais firme:

— O estreito leste é instável. Se enviarmos tropas —

— Seus elfos talvez não consigam — ela cortou de novo — mas Númenor, Erendhîre até homens de Arnor conseguem. Alguns povos não pararam de lutar só porque uma ferida doeu mais do que o orgulho.

A frase atravessou Gil-galad como um dardo.

E ela sabia.

Zara sabia exatamente onde mirar — e mesmo assim a voz tremia levemente, traindo sua própria guerra interna.

Gil-galad recuou apenas um passo de controle emocional e disse, numa tentativa desesperada de alcançá-la:

— Você não era assim.

— Não era, não. — ela concordou, fria. — Agradeça aos elfos por isso. Aprendi rápido.

Miriel interveio:

— Comandante Zara, permita que o Alto-Rei conclua —

— Não preciso ouvir as conclusões dele. Já aprendi e sei o suficiente do que esperar dos elfos. Inclusive a omissão deles.

A palavra saiu quase como um veneno preso há anos.

Gil-galad inclinou o rosto para ela, e então algo escapou — algo cru, humano, impossível de esconder:

— Você não confia mais em ninguém por culpa minha.

Ela congelou.

Só por um segundo.

Um micro instante que apenas Elrond e Miriel perceberam.

Zara respondeu:

— Não preciso confiar em ninguém além de mim mesma.

O olhar dela era puro aço.

O dele era pura dor.


Ninguém conseguia mais prestar atenção nos mapas.

A mesa inteira estava dividida entre:

“Eles vão se matar.”

e

“Eles vão se beijar em cima do mapa da Terra-média.”

Miriel, embora séria, parecia divertir-se internamente com a situação.

Até Elrond estava suando — e não era pelo calor de Númenor.

Zara concluiu sua análise de modo impecável, embora a voz estivesse carregada de dureza.

Gil-galad contestou ponto a ponto, mais calmo por fora do que estava por dentro — mas a cada olhar furtivo, o coração dele gritava.

Ela devia odiá-lo.

Mas cada frase dela saía como se fosse uma forma de proteger uma ferida que ainda sangrava.

E Zara tentava repetir para si:

“É só arrogância élfica.”

“Ele é só luz oca.”

“Ele é só memória de um erro.”

Mas sua alma sabia a verdade:

Se ela cedesse um único segundo daquele orgulho, beijaria Gil-galad ali mesmo.


A Regente levantou a mão de forma elegante, porém firme:

— Creio que por hoje é suficiente.

Zara fechou a expressão mais ainda, em seguida um suspiro irritado.

Gil-galad respirou fundo, como se tivesse sido arrancado de uma batalha interna.

Elrond agradeceu silenciosamente a Eru.

Miriel continuou:

— As discussões serão retomadas ao amanhecer. Sugiro que todos descansem… e esfriem a cabeça.

O olhar dela foi direto para Zara e Gil-galad — sem disfarce algum.

Zara deu uma leve reverência e saiu primeiro.

Gil-galad a seguiu com os olhos até ela desaparecer pela porta.

E sentiu, com a força de um golpe:

Aquela era mesmo Zara Dulórien.

E ao mesmo tempo… não era.

A mulher que ele feriu.

A mulher que ele amou.

A mulher que a guerra e a rejeição transformaram em aço.

E ainda assim…

Ele a desejava mais do que qualquer luz já vista.