Segredos em Um Jardim Élfico

31 Aflições - Sequestro - Parte I


Algum tempo depois…

O bosque a oeste de Lindon costumava ser um lugar de respiro.

Ali, o vento era mais gentil, as árvores não carregavam o peso das intrigas da Corte, e o mundo parecia, por breves instantes, lembrar-se de como fora antes das sombras se alongarem novamente sobre a Terra-média.

Zara cavalgava ao lado de Elrond em silêncio.

Não era o silêncio confortável das antigas marchas, nem o das vigílias antes da batalha. Era outro — pesado, cuidadoso, quase temeroso de ser rompido pelas palavras erradas.

Meses haviam se passado desde a fatídica conversa com Gil-galad sobre aquele assunto: filhos. E poucos dias em que Zara sentiu algo mudar não somente em seu corpo, devido a ausência de regras, mas principalmente em seu fëar.

Ela mantinha uma das mãos próxima ao ventre, gesto inconsciente que o arauto notara desde que haviam deixado os portões de Lindon.

— Zara… — Elrond finalmente disse, com a voz baixa, respeitosa. — Você não me chamaria até aqui por algo pequeno.

Ela respirou fundo, como se o ar custasse a entrar.

Com Elrond, Zara nunca precisava medir as palavras. Ele a escutava como quem já conhecia as entrelinhas antes que fossem pronunciadas. Não a tratava como estrangeira, nem como ameaça ao trono — mas como alguém cujo destino merecia cuidado.

Era um amigo leal e acima de tudo alguém que Zara poderia confiar algo tão especial quanto aquilo, mesmo que ainda estivesse incerta.

— Não chamaria — respondeu. — E se eu estiver errada, isso jamais sairá de mim para além deste bosque.

Elrond desacelerou o cavalo, atento.

— Diga.

Zara hesitou.

A comandante, a rainha, a mulher que enfrentara orcs, frio e fogo, agora lutava contra algo invisível.

— Há dias… — ela começou. — Meu corpo vem mudando. Não como após cansativas batalhas. Não como após longas campanhas. É diferente. — Engoliu em seco. — E se for o que penso, Elrond sei que será visto como um perigo, uma ameaça.

O rosto do arauto se fechou, não de julgamento, mas de preocupação profunda.

— Gil-galad precisa saber.

— Eu sei. — Sua voz falhou pela primeira vez. — Mas eu preciso… de certeza. Contei para você porque temo criar no coração de Gil-galad uma expectativa ou ainda pior: colocá-lo no meio de um conflito.

Elrond abriu a boca para responder — e então o mundo se partiu.

O primeiro grito veio das sombras.

O segundo, da égua de Zara, atingida e em pânico.

A emboscada foi rápida, brutal, calculada.

Uruks surgiram entre as árvores como se o bosque tivesse cuspido ódio. Redes, lâminas cegas, golpes que não visavam matar — visavam capturar.

— Zara! — Elrond gritou, já lutando.

Ela conseguiu derrubar dois antes de ser puxada do cavalo. Caiu com força, o ar escapando-lhe dos pulmões. Um joelho pressionou suas costas. Outro golpe veio — próximo demais do ventre.

Ela gritou.

— Então esta é a mulher do rei Noldor! — um deles gargalhou, a língua áspera, distorcida. — Olhem só… carne nobre… se bem que nem tão nobre assim… mas bem no meio da floresta.

Riram em clara zombaria.

Elrond lutou como um condenado, mas eram muitos.

Quando o golpe veio por trás, escuro e preciso, o mundo dele virou noite.


Já parecia ter anoitecido.

O cativeiro não era uma fortaleza.

Era pior.

Madeira podre, correntes sujas, o cheiro de sangue antigo impregnando o chão. Zara estava presa pelos pulsos, os pés mal tocando o solo. Cada movimento era dor.

Eles riam.

— Onde está seu rei agora? — zombava um, puxando-lhe o cabelo. — Cantando sob árvores douradas?

Outro cutucou seu ventre com a ponta da lâmina, devagar.

— Dizem que rainhas carregam futuros. Vamos ver quanto tempo o seu dura.

Zara cerrou os dentes.

Não gritou.

Não implorou.

Mas por dentro, o pânico era absoluto.

Ela sentia dor ali. Profunda. Errada.

E o medo era maior que qualquer tortura.


Horas — ou dias — passaram. O tempo se dissolveu em dor e escuridão.

Foi então que ouviu o som diferente.

Metal se partindo.

Elrond.

Ele surgiu como uma lâmina de luz num lugar que já havia esquecido o que era esperança. Libertou uma das correntes, o rosto marcado, os olhos ardendo de urgência.

— Zara, precisamos ir. Agora.

Ela tentou. Pelos Valar, tentou.

Mas ao colocar o peso no corpo, as pernas cederam. Uma dor lancinante a atravessou. Ela caiu de joelhos, arfando.

— Não… — sussurrou, desesperada. — Eu não consigo. Estou ferida demais..

— Então a carregarei…

Ela meneou a cabeçada em negativa.

— Se me levar, somente o atrasarei. Vá rápido, se ficar aqui morremos os dois…

Elrond segurou seu rosto, firme.

— Escute-me. Eu voltarei. Eu juro. Mas precisaremos de ajuda…

Uma lágrima escorreu pelo rosto do arauto.

— Não ouse morrer — ele disse, com raiva contida. — Não depois de tudo.

Ela sorriu, fraco, dolorido.

— Diga a ele… — engoliu o choro. — Diga que eu estarei o esperando.

Elrond partiu como o vento em desespero.

E quando Zara ficou sozinha novamente, o riso dos uruks voltou.

— Parece que o arauto fugiu. — Um deles se aproximou. — E você ficou.

Ela fechou os olhos em extremo cansaço.


Dias antes, a notícia não chegou em desespero ou gritos. Chegou em passos apressados pelo mármore de Lindon.

Quando um dos escudeiros se curvou diante do trono, ainda coberto de poeira da estrada, o salão já pressentia que algo estava errado. Havia no ar uma tensão quase imperceptível — como quando o mar recua antes da onda.

Elrond não retornara. Zara tampouco.

As palavras “rapto” e “emboscada” foram pronunciadas com cautela, como se pudessem ferir o próprio espaço sagrado do salão.

Lindon mudou naquele instante.

Os corredores tornaram-se inquietos. As tochas pareciam arder com mais força. Guardas foram convocados em urgência, mensageiros enviados a todos os pontos de Lindon e mais adiante.

Gil-galad se levantou de imediato.

O rosto em fúria, ainda que controlada junto a rigidez de seus ombros denunciava que aquilo seria questão de guerra, se necessário. As mão que antes estavam relaxadas, agora jaziam perto do corpo, os nós dos dedos tornando-se pálidos.

— Onde? — perguntou, a voz baixa.

Não houve grito. Não houve desespero.

Apenas decisão.

Quando se levantou, o salão inteiro sentiu o peso disso.

Não era o homem que se movia.

Era o Alto-Rei.

E Lindon compreendeu, naquele silêncio tenso, que quem ousara tocar o que era seu — seu arauto, sua confiança… e sua rainha, sua alma gêmea — não compreenderá a natureza do fogo que agora despertava.

Mas naquele dia de fuga, ao mesmo tempo em que Zara adormecia ferida e solitária, Gil-galad sentia o mundo quebrar dentro do peito.

Não sabia ainda como.

Mas sabia quem estava sofrendo.

E pela primeira vez desde que vestira a coroa, o Alto-Rei dos Noldor desejou apenas uma coisa:

Queimar o mundo inteiro até encontrá-la.


Elrond atravessou os portões de Lindon como alguém que havia deixado parte da própria alma para trás.

Os guardas o reconheceram de imediato — mas algo em seu rosto fez com que nenhuma pergunta fosse feita. Mesmo ferido, recusou auxílio e seguiu pelos corredores atrás de Gil-galad.

— Chamem o Alto-Rei. Agora.

A urgência não era dita.

Era sentida.

Gil-galad estava em reunião com capitães quando a porta se abriu. O som seco ecoou pelo salão e fez cessar qualquer murmúrio. Elrond sequer tentou ser polido.

— Zara ficou…estava muito ferida. Precisa ir atrás dela, agora!

O mundo parou.

Por um instante, ninguém ousou respirar. Gil-galad permaneceu imóvel — não como rei, mas como homem ferido antes mesmo de sangrar.

— Onde? — a voz dele saiu baixa, contida, perigosa.

— Nos bosques a oeste. Uruks. — Elrond engoliu em seco.

O Alto-Rei levantou-se com tal força que a cadeira caiu atrás dele. A luz dourada que sempre o acompanhara parecia agora dura, afiada.

— Preparem a guarda. — Ele já caminhava. — Todos. Não haverá espera.

Um dos conselheiros tentou intervir:

— Majestade, isso pode ser uma arm… —

Gil-galad voltou-se lentamente.

Seus olhos não eram de um rei. Eram de alguém que já havia decidido que nada mais importava.

— Minha esposa foi tomada. — disse, com voz de aço. — Isso é a guerra.

O conselho silenciou.

Elrond o acompanhou pelos corredores, o coração pesado.

— Há algo mais — disse, antes que chegassem ao pátio.

Gil-galad parou.

— Diga.

— Durante o caminho… antes da emboscada… — Elrond hesitou. — Ela me chamou para falar de algo que ainda não compreendia por completo. Algo… físico. Mudanças.

O Alto-Rei fechou os olhos por um instante.

Uma imagem o atravessou como lâmina: Zara protegendo o ventre sem perceber. A palidez. A exaustão que não vinha de treinos ou reuniões.

— Você acha…? — ele não concluiu.

Elrond balançou a cabeça.

— Não sei. E não posso afirmar nada. Nem ela podia.

Gil-galad respirou fundo, como se o ar queimasse.

— Então não diremos nada. — Sua voz tremeu pela primeira vez. — Até trazê-la de volta.