Segredos e Descobertas
1 Segredos e Descobertas
O som de passos no corredor denunciava que alguns alunos estavam fora da cama, mas nada se via, porque os quatro estavam cobertos pela Capa da Invisibilidade. Entraram em uma sala de aula vazia e retiraram a capa ao se certificar de que não havia ninguém ali. Sirius se encarregou de imperturbar a sala.
- Onde aprendeu esse feitiço? – Peter perguntou, assombrado.
- Conheço alguns truques – o moreno se gabou, sorrindo.
- E então – Remus se sentou em cima uma das mesas, curioso –, vai dizer por que nos arrastou até aqui, James?
- Na verdade, Remus, nós queremos falar com você – Sirius se acomodou na mesa logo a frente do amigo.
- Falar comigo? Falar sobre o que?
- Basicamente, sobre suas escapadas mensais – James falou simplesmente.
- Eu já expliquei, certo? – Lupin pareceu apreensivo. – Minha mãe está doente.
- Bastante doente, não é mesmo? Afinal você se ausenta todo mês.
- Durante a lua cheia – Sirius completou.
Remus se levantou de onde estava, nervoso. Estivera esperando, durante todo o primeiro ano e parte do segundo, que seus amigos não percebessem que havia um padrão em suas ausências. Mas é claro que eles perceberiam, pensou. Devia ter arrumado amigos menos inteligentes.
- Bom, não sei exatamente o que vocês estão insinuando...
- Nós só estávamos pensando sobre o quanto é estranho você sumir em um período específico do mês e depois voltar parecendo meio doente. Então Sirius achou algo interessante em um livro. Sobre lobisomens.
- Lobisomens? – Lupin forçou uma risada. – Vocês realmente acham que eu sou um lobisomem?
- E você é, não é? – Sirius perguntou em um tom sério, chegando perto do amigo.
Os dois se encararam gravemente. Remus percebeu que não tinha mais como negar, fora descoberto. Ficou em um silêncio anormal, fazendo esforço para não chorar. Pensou no que faria sem a presença de Sirius para alegrá-lo nos dias depois da lua cheia, quando estava tão cansado e deprimido e o amigo fazia de tudo para que ele se sentisse melhor, mesmo achando que ele estava daquele jeito por causa da mãe doente.
Era óbvio que os amigos não falariam mais com ele, quem iria querer ficar tão próximo de alguém como ele? Ele sentiria falta de James, engraçado e inteligente, sempre pegando detenções e fazendo piadas. Sentiria falta de Peter, tímido e medroso, sempre pedindo ajuda aos amigos nos deveres e acompanhando eles em tudo.
Mas sentiria mais falta de Sirius, o que mais o entendia entre os três, seu melhor amigo. Era ele quem sempre o ajudava com os feitiços complicados e quem o animava. Com quem Remus mais conversava. Imaginar que não o teria mais por perto foi o que mais o machucou e Lupin sentiu seus olhos embaçando por causa das lágrimas que segurava. Se amaldiçoou por chorar como uma garotinha, afinal ele era um garoto de doze anos, não devia ficar chorando.
Sirius percebeu as lágrimas que o amigo tentava represar e se aproximou dele rapidamente, abraçando-o com força. Ele sempre sentia que precisava fazer com que Lupin se sentisse bem, sempre se sentira protetor em relação a ele. Mesmo antes de começar a pensar que o garoto era um lobisomem, fazia de tudo para alegrá-lo quando ele voltava abatido do tempo que passava fora.
No começo, acreditou que Remus visitava a mãe doente e atribuía sua infelicidade ao fato da mãe dele estar com problemas. Mas começou a perceber um padrão nas ausências de Lupin e não demorou muito para fazer algumas deduções lógicas. Contou para James sua descoberta e eles passaram algum tempo pensando em como dizer a Remus que haviam desvendado seu segredo. Nenhum deles, nem mesmo Peter, em nenhum momento, pensou em se afastar de Lupin pela sua condição.
Remus retribuiu ao abraço com a mesma força, sentindo que precisava de apoio. Escondeu o rosto nas vestes de Sirius e chorou livremente, assustado e apreensivo com o que os amigos haviam descoberto.
- Ei, calma – Sirius falou suavemente, apenas para Lupin ouvir. – Está tudo bem.
- É verdade – Remus falou baixinho. – Vocês estão certos sobre mim.
- Eu sei – o moreno tentava tranquilizar Lupin, ainda falando só para ele ouvir. – Não tem importância.
- Tem sim...
- Não tem, não, Remus. Nós continuamos gostando de você do mesmo jeito.
James observava a cena sem saber o que fazer e se devia de fato fazer alguma coisa. Estava inquieto com a reação de Remus, imaginando se eles teriam sido muito diretos no jeito de dizer a ele o que haviam descoberto. Peter parecia muito assustado.
Alguns minutos depois, Lupin limpou o rosto com a manga de sua camisa, parecendo um pouco mais calmo. Sirius ainda olhava para ele preocupado, os braços ao redor do corpo magro do castanho. Os olhos de Remus estavam vermelhos quando ele olhou para o moreno e deu um sorriso fraco.
- Está melhor?
- Sim. Obrigado, Sirius.
O moreno sorriu também, enquanto soltava o amigo e o via se sentar em uma das cadeiras. Sentou perto dele, ainda sentindo que devia apoiá-lo.
- E então? É verdade? – James perguntou calmamente, quando achou ser seguro.
- Sim – Lupin respondeu de modo cauteloso.
- Bom, você devia ter nos contado.
- Achei que ficariam assustados. E que... hum... Parariam de falar comigo.
- Claro que não! – James parecia indignado com essa ideia. – De onde tirou isso?
- Eu sou um lobisomem – Remus ficou surpreso com o quanto era fácil falar sobre isso abertamente agora que os amigos sabiam. – Vocês fazem ideia do que isso significa?
- É claro que fazemos! Eu lhe disse, Sirius pesquisou.
- E o que a gente queria te dizer, na verdade – Sirius começou a falar, com um sorriso orgulhoso –, é que durante a minha pesquisa, encontrei algo bem interessante. Lobisomens não atacam animais. E existe um jeito de virarmos animais.
- E então podemos acompanhar você durante as transformações! – James completou, animado.
- Vocês não estão falando sério, estão?
- Claro que estamos! Bom, não é exatamente fácil se tornar um animago e talvez demore para conseguirmos, porque ainda estamos no segundo ano, mas tenho certeza de que vamos conseguir. Seria legal, não é mesmo?
- Acho que sim – Remus ainda parecia atordoado com a notícia. – Mas tenho certeza de que isso é perigoso. Não deixaria vocês se arriscarem desse jeito por mim.
- Mas não é você quem decide isso, é? – James rolou os olhos. – Nós já decidimos que vamos fazer isso, só estamos te informando. Vamos perguntar discretamente para a professora McGonagall e pesquisar na seção restrita. Pode ajudar a gente, se quiser.
Lupin sorriu, mal ousando acreditar em sua sorte e em como seus amigos eram incríveis. Pensava que eles deixariam de falar com ele se soubessem sobre sua licantropia e, ao contrário, eles lhe aparecem dizendo que vão quebrar umas cem regras da escola e do Ministério da Magia para poder passar as transformações com ele.
- Vocês são insanos – ele comentou simplesmente, com um grande sorriso.
- Nós sabemos – James riu. – Vamos voltar para o dormitório? Já está bem tarde.
Os quatro garotos voltaram para a torre da Grifinória, novamente cobertos pela capa. Quando entraram no salão comunal – a mulher gorda ficou realmente possessa por ter sido acordada tão tarde –, James saiu correndo para as escadas, desafiando os outros três a ganharem dele. Peter foi atrás dele, gostando da brincadeira.
- Eles vão acordar o castelo inteiro – Sirius rolou os olhos, pegando a capa que James largou no chão ao sair correndo.
- Sirius? – Lupin chamou o amigo, parecendo constrangido.
- Sim.
- Desculpe por ter... você sabe, chorado. Foi bem idiota.
- Não foi idiota, Remus – o moreno sorriu, chegando perto do amigo.
- E desculpe por ter molhado sua roupa.
- Não tem problema. Pode chorar no meu ombro quando quiser – ele riu, acompanhado por Lupin. Mas logo parou de rir e olhou sério para o castanho. – Você sabe que ser um lobisomem não muda nada, certo? Você ainda é a pessoa mais incrível que conheço, Remus.
Lupin corou com essas palavras, sorrindo encabulado em resposta. O moreno sorriu também e chegou bem perto de Remus, abraçando-o pela segunda vez naquela noite. Beijou-o rapidamente, um selinho quase inocente, e então sorriu para ele, indo em direção ao dormitório. Nenhum deles falou naquele beijo por muito tempo, mas ele ficou na mente dos dois até quando descobriram, alguns anos mais tarde, os verdadeiros sentimentos que tinham um pelo outro.
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