Segredos do passado

5 Segredos do passado


Victor caminhou em silêncio guiando Yuri ate as cadeiras das arquibancadas. Sentaram-se, respirou fundo meio que escolhendo as palavras, Yuri aguardou pacientemente até que ele resolvesse falar:

—Bem... eu... sempre fui sozinho. Não conheci meus pais. Minha primeira lembrança é de um dia de bastante neve e uma pessoa me levando para um orfanato dizendo que me buscaria em breve mas nunca mais voltou. Sei meio vagamente que era algum parente que havia ficado com a minha tutela, mas depois não me quis mais por causa de problemas econômicos... Perto de la tinha lago congelado que eu sempre ia olhar as pessoas patinarem... Passada o dia sentado olhando. Foi num dia desses que eu conheci o Yakov.

Yuri ouvia o relato completamente em silêncio, de mãos dadas com Victor e olhos baixos tentando processar as informações que recebia. Victor continuou:

— Ele percebeu que eu estava sempre olhando as pessoas patinarem e me perguntou porque nunca tentei. Mas eu não podia porque não tinha patins... e passamos a conversar quase todos os dias. E num dia de natal ele me apareceu com uma caixinha com alguns patins velhos e me deu. Eu disse uma vez que não se comemorava natal ou aniversário, mas... Essa foi a primeira vez que eu ganhei alguma coisa na vida. Depois desse dia eu pirei. Se me deixassem eu passava o dia no lago patinando pra cá e para lá. E tentava fazer algumas piruetas, mas vivia recebendo esporro do Yakov porque eu não tinha estudo e poderia me lesionar... Até o dia que ele resolveu que iria me treinar e fomos morar juntos. Sou muito grato a ele, ele é o pai que eu não tive. Depois disso eu entrei nas competições sob a condição que eu me esforçasse nos estudos também. E não sei se foi sorte de principiante, mas logo na minha primeira vez eu ganhei uma medalha de 1º lugar.

—Acho que você tinha uns 12 anos né. – Yuri cortou o silêncio.

—Por aí. Eu peguei gosto pela competição. Antes, as pessoas não se aproximavam de mim, não falavam comigo. Só que desde que comecei a ganhar medalhas, começaram a me chamar de gênio, queriam ser meus amigos, falar comigo... Pude viajar para novos lugares, conhecer outras pessoas e culturas. Quer dizer né... Foram amigos da minha fama, não de mim. Mas antes assim, do que eu não falar com ninguém.

Yuri ouvia tudo e parecia que sentia dar um nó em seu peito e por mais que quisesse formular alguma frase, simplesmente não saia. Limitou-se a continuar segurando as mãos de Victor, cada vez mais apertando-a.

— Foi numa dessas viagens que eu conheci a Anya. Ela era 2 anos mais velha que eu e tinha vindo para o Canadá competir em duplas. Na época, o parceiro dela era namorado também. Eles brigaram após o final da competição que perderam e terminaram e ele foi embora do Canadá, largando-a sozinha lá sem dar a menor satisfação. E passamos a conversar. Voltamos juntos para a Rússia e ela passou a frequentar a pista de patinação eu treinava. Até o dia que ela me beijou num parque e começamos a namorar. Ela foi a minha primeira namorada.

Nessa hora Yuri não pode evitar levantar os olhos e olhar diretamente para Victor que o encarou de volta.

— Então foi por isso que... ela veio¿

—Bem... talvez. Yuri, não pensa besteira tá?! Isso é passado! – Victor levanta-se abruptamente assustando Yuri. Depois senta-se e retoma:

— Desculpe.

—Você... gostava dela?

— bem... um pouco. Eu me sentia feliz porque ela me dava atenção. Mas aquilo não era amor, nunca foi. Ela gostava de ir nos lugares mais badalados comigo, me ostentando como se eu fosse um troféu. Eu era ingênuo e demorei um pouco a perceber... até o dia que ela recebeu um convite para estudar dança nos EUA e me largou e largou de vez a patinação. Tempos depois, descobri que ela havia inclusive dormido com o empresário que a bancou nessa tal escola... a partir daí eu passei a focar mais nas competições e tive outros relacionamentos rápidos. Mas nenhum prestou.

—Você disse que a encontrou no Canadá um tempo antes de parar¿

—Foi. Numa das competições que participei, ela estava assistindo junto de algum figurão... não foi um encontro muito amigável.

—Entendi.

—Yuri olha pra mim. Eu sou muito feliz como você, nunca fui tão feliz em toda a minha vida! Em nenhum momento eu me arrependi de ter largado tudo pra ficar com você, você é a primeira e única pessoa que eu amei de verdade.

Victor diz e abraça Yuri fortemente que o retribui. Ambos deixam as lágrimas correrem livremente pela face.

—Eu... preferia que você não soubesse de nada porque não queria que se lamentasse ou sofresse por algo que não dava pra voltar atrás.

— Eu também me sentia solitário e você sempre me apoiou... Mas como pode se sua vida era tão mais complicada?! Eu não deveria nem ter direito de reclamar! –Yuri exclamou e o encarou

—Não senhor. Por isso mesmo não contei, eu sabia que tomaria minhas dores e seria só amis um fardo pra carregar.

—Victor... eu queria poder te ajudar a superar isso e só te afundei mais.

—Você já me ajuda Yuri! Todos os dias, o tempo todo. Nunca senti tanta paz em toda a minha vida desde que vim para Hasetsu, pouco a pouco, todo o peso que eu sentia no coração ia se dissipando. O dia em que você me deu o seu “amuleto”, você não faz ideia o qual surpreso e feliz eu fiquei! Eu amo você Yuri! Você e mais ninguém!

Dito isso, Victor o beijou. Um beijo urgente num misto de agonia e saudade o qual prontamente Yuri correspondeu ainda chorando. E ficaram assim até que a falta de folêgo os separou a contragosto.

— Obrigado. Eu também te amo muito Victor. Prometo que vou sempre te apoiar. Eu juro! Será... Que a gente vai conseguir se entender como antes?

—Não. Vai ser muito melhor que antes!!

Victor sorri e o beija novamente. E depois de se acalmarem, resolvem retomar os treinos, mas antes começando com uma dança em duplas.