Inês viu a mãe sair e olhou a filha em seus braços, aquela menininha representava tantas coisas boas... Eram três anos de amor, três anos de um recomeço, três anos de felicidade.

Ela segurou melhor Clara e pegou a bolsa, subiu as escadas como pode e entrou no quarto, deixou a bolsa na poltrona e sentou na cama, tirou a pequena do seio com cuidado, conhecia o sono leve dela e deitou na cama entre alguns travesseiros, fechou a blusa e cobriu a garotinha antes de sair do quarto.

Inês andou pelo largo e comprido corredor, e parou em frente a porta do quarto do filho, abriu aos poucos e sorriu ao ver ele deitado entre alguns livros. Victor sem dúvida era o orgulho da casa, um garoto estudioso que mesmo com o temperamento algumas vezes rebeldes, seguia enchendo os pais de orgulho.

Victor tirou o olhar dos livros e sorriu ao ver a mãe, bateu no colchão e juntou os livros ao ver ela sentar do seu lado.

— E então, o que queria me falar, filho? – ele suspirou meio nervoso.

— Mamãe, é que... Bom, isso de trabalhar com vocês, eu não sei se quero.

— Mas porque não, pequeno? – estranhou o comportamento dele e sentou melhor na cama, segurando as mãos dele. – Fala pra mim, Victor.

— Mãe, eu quero ser independente, meus amigos não precisam dos pais para se sustentar e para conseguir a independência... Eu me sinto preso aqui, porque você e o papai já escreveram o meu destino por mim, mas não é assim, eu não quero isso!

Ela suspirou e acariciou a mão dele, era paciente, era cuidadosa com Victor, era seu garotinho.

— Eu entendo seu lado, meu filho e não quero te forçar a nada, mas quero saber o que está acontecendo. – foi sincera e olhou os olhos dele, queria a verdade. – Até o mês passado você queria trabalhar conosco, queria sempre estar na empresa.

— Eu só mudei minha perspectiva de enxergar algumas coisas, mamãe, não se preocupe. – sorriu a tranquilizando.

— Não tem como não se preocupar, Victor, pensa com carinho, seu pai e eu precisamos muito de ajuda lá. – ela apelou para os olhos pidões que tinha.

— Mãe, poxa... – passou a mão na nuca e suspirou. – Eu prometo pensar, tá bem? Mas não me olha assim, está jogando sujo, dona Inês.

— Isso eu aprendi com seu avô, cada um joga com as armas que pode, filho. — sorriu e acariciou o rosto dele.

— Ah, claro... O vovô te ensinou a ser mala, mãe.

— Mala não, mas esperta. – piscou para ele. Ele sorriu e trouxe a mãe para perto, a encheu de beijos e carinhos.

(...)

Ele olhou a enorme janela de vidro a sua frente, sorriu vitorioso com a bela vista que tinha daquela cidade, sorveu mais um pouco da sua bebida e virou seu corpo, olhando toda a sala.

Ele estava de volta, para a felicidade de alguns e a tristeza, e pavor de outros. Agora, se dizia um homem regenerado, um homem diferente, casado e com uma família que havia sido reconstruída das cinzas.

Andou mais um pouco pela sala, deixou o copo de uísque na mesinha do centro e sentou no sofá, pegando uma pasta que estava ali. Abriu e pegou uma foto, a olhou com atenção e seus olhos faiscaram em uma mistura de desejo e obsessão.

Mesmo com o passar dos anos, ainda sim nutria um sentimento por ela, mesmo falando amar a esposa, ele ainda amava aquela outra mulher...

— O que tanto olha nesses envelopes, meu amor? – Pilar se aproximou do marido, era uma mulher doce e sensível, totalmente o oposto dele.

— Não é nada importante, apenas documentos da empresa... – guardou a foto entre os papéis e sorriu levemente para ela, era linda.

— A Diana já dormiu, vim chamar você, já está tarde e precisamos dormir. – chamou ele com o dedo indicador é um sorriso cúmplice.

— Você ainda está confusa com isso de fuso horário, verdade? – levantou e deixou as pastas ali mesmo. Ela se aproximou e tocou o peito dele.

— Um pouco, moramos em Paris por muito tempo, Olavo.

— Sim, eu sei Pilar, mas conversamos antes de vir pra cá, lembra disso?

— Lembro, é claro que lembro e não pense que estou reclamando, eu não estou!

— Eu sei, mulher! – segurou o queixo dela e beijou seus lábios levemente. – Vamos dormir, você descansa e eu também, vamos tirar essa semana de folga.

— Não vai falar com o Victoriano e com Inês? São seus sócios, deveria avisar que voltou.

— Irei falar com eles, meu bem, mas não agora... – beijou os cabelos dela e deu um sorriso sombrio, carregado de maldade.

(...)

Era madrugada, se passavam das 02:00 da manhã e Inês se mexia na cama, balbuciou algumas palavras sem nexos e o choro veio em seguida.

Ela se debatia nervosa na cama, parecia que queria fugir, não estava ali, sua cabeça estava em outro lugar.

Victoriano acordou assustado e ligou o abajur rapidamente, sentando na cama. Olhou ela e tocou os ombros da mulher com cuidado, há tempos ela não tinha aqueles pesadelos tão fortes.

— Inês? Meu amor, acorda... – falou preocupado e balançou ela levemente.

Inês soltou um grito cheio de dor e sofrimento, e sentou na cama rapidamente. O coração batia em ritmo descompassado, todo o corpo tremia e ela chorava sem controle. Se sentia tão frágil e desprotegida, que parecia mais uma garotinha assustada.

Ele passou a mão nas costas dela com cuidado e viu a esposa se jogar em seus braços, abraçou ela com amor e proteção e apertou Inês cuidadosamente. Queria passar segurança a ela, queria que a esposa notasse que estava tudo bem e que ele estava ali.

— Victoriano, eu... Ele... – ela soluçou nervosa e afundou o rosto no peitoral dele.

— Shi... Depois você fala, amor, fica calma! Respira fundo, Inês. – acariciou o braço dela e beijou os cabelos da mulher.

Ela assentiu e deitou a cabeça ali, sentia o carinho dele e fungava mais calma.

— Você se assustou, desculpa... – falou envergonhada e baixinho, só queria que ele ouvisse.

— Lembra do que conversamos alguns dias atrás? Meu amor, você não tem que guardar essas coisas que te fazem mal só pra você, estamos casados há mais de vinte anos, Inês. – a voz soava calma, mas como uma espécie de cobrança. – Pode conversar comigo, pode me chamar, me acordar a hora que for, eu sempre vou estar aqui!

— Eu sei que sempre vai estar aqui, eu sei de tudo isso, mas tem coisas que eu me sinto desconfortável, amor... – olhou nos olhos do marido e apertou ele com sofreguidão. – Não me olha assim, por favor.

— Estou te olhando normal... – suspirou cansado e se encostou na cabeceira da cama, ela voltou a se enfiar em baixo do edredom e se aninhou ao marido. – Só que às vezes não entendo a sua cabeça, sabia?

— Mesmo com mais de vinte anos juntos? Eu já sei até o que você pensa, isso é injusto, Victoriano.

— Eu conheço você, amor, que isso? Só disse que ainda não te entendo totalmente, só isso.

— Eu realmente espero que me conheça, seu bode safado... – deu um tapinha no braço dele e se assustou ao ver a porta abrir.

— Mamãe... – fungou nervosa, agarrada ao ursinho e com a chupeta na boca.

— Mais um pesadelo, filha? – Victoriano chamou ela, viu a filha correr em sua direção e pegou a garotinha, colocando ela em seu peito.

— Já está aqui, Clara... Já passou. — passou a mão nos cabelos dela e beijou o bracinho da filha.

— Num pode deixa eu sozinha, mamãe! Num pode! – falou birrenta e agarrou o pai, era o maior amor dele.

— É realmente uma mini Inês.

— Mas tem seu gênio, Santos... Ela já está cochilando novamente, foi só um susto. – fechou os olhos sentindo o cansaço pesar.

— Dorme, eu fico aqui olhando vocês duas... – se acomodou melhor na cama e olhou as duas agarradas em seu corpo.

— Papai... – abriu um só olho e olhou ele com um sorriso travesso.

— Você ainda não dormiu, sua danadinha? Princesinha de papai... – beijou o rosto dela e ouviu o riso da filha. – Vai dormir, filha, sua mãe tá cansada e o papai também.

— Tá papai, Calinha ama papai! — falou timidamente e escondeu o rosto no pescoço do pai, fechando os olhinhos e dormiu ali mesmo.

— Eu também te amo, meu amor... – cheirou os cabelinhos dela e como prometido, velou o sono tranquilo das duas.