Segredos de Família
14 A Proposta de Elizabeth
“Consultório de Psicologia Ferreira e Associados” dizia na faixada do prédio.
— é aqui que ela trabalha? — perguntou Catarina, ela e Paulo estavam parados na frente do prédio.
— na verdade, ela é uma das donas. Ela e os dois irmãos são psicólogos com carreiras longas, ela tem doutorado em psicologia infantil – respondeu Paulo – eu marquei um horário pra falarmos com ela agora a tarde.
— como é que vamos fazer isso Paulo, eu não faço ideia de como vou conversar com ela. Como é que se introduz um assunto desses?
— eu não faço a mínima ideia, mas imagino que o fato de ela ser uma psicóloga nos ajudará muito, imagino que ela vá nos compreender.
O dois entraram e a secretária informou que eles logo seriam atendidos e os dois sentaram-se nas poltronas para aguardar, com o estômago na boca de tanta aflição.
***
Regina mandou colocar todas as coisas de Rafael e Pedro do lado de fora da casa e mandou avisá-los para que viessem buscar, mas ela deixou claro que não os receberia, mas quando Rafael chegou, ele entrou e foi até o quarto onde estava Regina. Ela havia acabado de chorar a pouco tempo, seu rosto ainda estava inchado.
— saia daqui seu desgraçado, a partir de agora eu só entro em contato com você por meio dos meus advogados!
— Regina, eu sei que não estou em condições de te pedir nada, mas eu te peço, nós tivemos uma vida juntos, eu te peço em nome dessa vida que você me ouça.
— uma vida sim, uma vida que você destruiu da maneira mais torpe possível! Rafael, você consegue imaginar como eu me sinto tendo sido traída dessa maneira?
— eu sei que o que eu fiz é indefensável mas tenta entender, eu amo o Pedro do mesmo modo que eu amo você, eu sinto o mesmo desejo pelos dois, eu não queria que fosse assim, eu não pude evitar – Rafael começou a chorar – eu sinto o mesmo que sinto por você por ele! Eu sei que a traição não é uma coisa boa, mas eu não quero perder vocês, eu amo vocês!
— amor da tua boca parece uma ofensa, você está proibido de dizer que me ama! — gritou Regina – o problema não é a sua orientação sexual, você pode amar homens, mulheres, golfinhos ou anões, o escambal que for Rafael, se você tivesse me contato que tem uma fantasia assim e que queria transar com homens você sabe que eu sou liberar, eu até ia gostar sabe, mas o problema é que você colocou seu amante dentro de casa Rafael, você tirou de mim para sustentar o seu amante e ainda me fez dar amor para o seu amante, eu criei o Pedro como se fosse um filho meu, um filho que aliás você nunca me deu! Você entende o tamanho da maldade de colocar um amante dentro de casa, debaixo do meu nariz e me fez amá-lo, como se fosse meu filho, seu canalha!
— mas Regina, tenta entender que… — Rafael foi interrompido.
— chega, cala a boca, as suas tralhas e do seu amante estão todas lá fora, suma daqui, não perca tempo de humilhando mais do que já se humilhou pois eu não vou te perdoar, nunca.
Rafael viu que não surtiria efeito nenhum implorar o perdão de Regina, então ele secou suas lágrimas e saiu.
***
Elizabeth e Paula chegaram na casa de Branca sem se anunciarem e foram entrando, Branca foi chamada aos gritos pelo hall de entrada.
— mas o que é que está acontecendo aqui? — disse ela descendo a escada a deparando-se com elas duas – o que é que vocês estão fazendo aqui?
— temos assuntos do seu interesse para tratar minha querida – disse Elizabeth erguendo um envelope grande e grosso que tinha em mãos.
As três foram até o escritório e quando chegaram lá, Elizabeth jogou sobre a mesa o envelope.
— posso saber o que é isso? — perguntou Branca.
— são os documentos que eu peguei da época em que eu era casada com Carlos, são os documentos que provam que tudo o que Douglas construiu foi de maneira ilícita, ou seja, tudo o que você tem, ou acha que tem, são fraudes, fraudes que a polícia federal vai amar descobrir.
— Douglas, o pai de Carlos? Mas isso tem mais de anos! Se é que isso é verdade, os crimes já prescreveram e eu não tenho relação nenhuma com isso.
— não tem, será? Depois de tantos anos, tantos crimes contra o leão nunca foram descobertos, é porque foram encobertos, não acha? E pode até ser que os crimes prescreveram, mas isso abrirá uma investigação e essa investigação vai bloquear todos os bens da família e durante esse período você estará com o nome tão sujo que não vai conseguir comprar nem um pão fiado na padaria e eu vou amar te ver na sarjeta mais imunda desse país.
— sua desgraçada, se você me denunciar você também perde a parte da sua filha da herança e saem tão prejudicadas quanto eu! — esbravejou Branca.
— serei obrigada a discordar minha querida, eu ao contrário de você sou milionária, sempre fui e os trocados que a Paula vai herdar não me fará diferença, pra nós não fará a menor diferença, não é mesmo meu amor? — disse Elizabeth em direção a Paula, que assentiu com a cabeça.
— o que você quer pra destruir esses papéis? — perguntou Branca.
— simples, você vai abrir mão da sua parte da herança e vai dar para os filhos do Carlos.
Branca ficou chocada e houve alguns instantes de silêncio, silêncio que foi quebrado quando Elizabeth tornou a falar.
— eu ainda vou ser querida e te deixarei ficar com a casa, pode ficar com a casa, vender ela e viver só valor, mas você ficará proibida de comprar qualquer investimento como imóveis pra gerar lucro ou investir, você vai ter que aprender a trabalhar, o seu castigo, ou melhor, o presente que vou te dar por você ter destruído o meu casamento vai ser ter que aprender a trabalhar pra viver.
— você é louca? Como e que eu vou abrir mão do que eu lutei a vida toda pra conquistar!
— isso é pra você ver que você nunca conquistou nada na vida Branca, tudo o que você acha que tem foi construído em cima de mentiras e esse castelo de cartas vai cair, pois ou você aceita os termos da minha proposta ou eu vou puxar a primeira carta – Elizabeth virou e foi caminhando em direção a porta – essas cópias vão ficar com você pra você analisar, vou dar um tempo pra você pensar, mas ó, não abusa da minha boa vontade tá? Você tem até segunda pra me dar uma resposta.
Elizabeth e Paula saíram sem batera a porta.
***
— a doutor vai receber vocês agora — disse a secretária educadamente para Catarina e Paulo, os dois levantaram-se e foram até a sala dela, um mais apreensivo que o outro.
— boa tarde, sentem-se – disse Solange, sorrindo e cumprimentando os dois – vocês estão atrás de terapia de casal? Só de olhar pra vocês eu já consigo notar que estão com problemas, mas que há muito amor entre vocês.
— na verdade não doutora, o assunto que temos a tratar com você é muito mais tenso do que isso – respondeu Paulo.
— o, nossa, então vamos lá –Solange sentou-se à frente de Paulo e Catarina.
— vai soar estranho doutora, mas você tem uma filha? — perguntou Paulo.
— tenho – respondeu ela com um semblante de completo estranhamento pela pergunta.
— eu não sei como dizer isso, então eu vou direto ao assunto, acontece que eu tive um bebê no mesmo dia e no mesmo hospital que você e nós fomos cuidadas pela mesma enfermeira que… — a fala de Catarina foi interrompida pois nesse momento, Solange começou a chorar.
— Lívia procurou vocês também? — ela secou as lágrimas, tentando controlar-se – eu achei que esse dia nunca chegaria, eu queria que ele nunca chegasse.
— então você já sabe? — perguntou Paulo.
— sim, ela veio atrás de mim tem uns 4 anos. Na época tudo foi mais fácil, eu falei para Carla que ela era adotada e conversei muito com ela – Solange respirou fundo – desde essa época eu venho preparando ela para se algum dia os pais dela quisessem conhecê-la, pois pouco antes de morrer Lívia me procurou novamente e disse que iria atrás de vocês.
— é, ela veio, realmente ela estava muito debilitada por causa da doença quando veio atrás de mim, mas acho que podemos ir atrás dela pra ela depôr a nosso favor nessa causa, pois eu quero ver a minha mãe atrás das grades! — disse Catarina.
— depôr? — Solange reagiu com estranheza – como assim depôr? Eu não sei qual é a crença de vocês mas juiz nenhum vai aceitar carta psicografada ou coisas do tipo como depoimento.
— carta psicografa, como assim? — perguntou Catarina, com estranheza.
— você não sabe? Lívia foi encontrada morta dentro de casa, a polícia constatou que foi latrocínio.
— meu Deus – Catarina apertou a mão de Paulo que estava recostada na poltrona a seu lado – foi a Branca! Ela matou a Lívia e deu um fim nos papéis para que não pudesse ser presa!
Catarina ficava cada segundo mais chocada com a brutalidade daquela mulher que ela achava que conhecia a tantos anos.
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