Segredos de Família
6 "-eu quero o divórcio"
Fazia dez anos que Catarina estava fora de casa, ela mantinha contato com o pai por e-mail. No último ano ela estava fazendo trabalho voluntário na Síria, em campos de refugiados peal ONU, o pai bancava a ajuda humanitária e a estadia da filha, porém naquela manhã ela havia recebido um e-mail muito estranho.
O e-mail não tinha título e dizia apenas “meu amor, descobri um segredo horrível, volte para o Brasil imediatamente. Branca arruinou sua vida e vamos fazê-la pagar.”. Ela tentou ligar para o pai no momento em que viu o e-mail, porém seu telefone por satélite não estava funcionando, então ela pegou seu carro e foi atrás de um modo de contatar o pai.
Brasil, dias atuais.
Carlos chegou em casa furioso, ele nunca havia ficado com tanta raiva de Branca assim em toda a sua vida, porém o que ele acabara de descobrir havia feito seu sangue ferver! Ele andou pela casa atrás de Branca, até que achou ela na cozinha, pegou-a pelo braço a arrastou-a até o escritório do segundo andar.
— você ficou completamente louco, isso são modos de me tratar? — Branca estava furiosa por ter sido arrastada por Carlos – dá pra me soltar?
— sua cadela, como você teve coragem de fazer isso a Catarina? E com seu neto, um bebê recém-nascido? — Carlos gritou com Branca. Por um instante ela ficou apavorada, pois na hora ela percebeu que o marido havia descoberto tudo, porém ela tentou fazer-se de desentendida.
— do que é que você está falando, eu posso saber?
Perante tanta dissimulação e mentiras, Carlos perdeu a cabeça e deu um tapa em Branca que a fez cair sobre a mesa.
— como é que você teve coragem de fazer isso com a sua própria filha sua desgraçada? — ele gritou
— por que ela sempre foi uma fracassada igual a você! — Branca disse com tremenda raiva em sua voz que era perceptível – dois fracassados que eu tive que carregar a minha vida toda nas costas, você é uma criatura sem personalidade nenhuma, sem nenhuma ânsia de viver e teve todas as oportunidades do mundo de seguir uma carreira própria, construir uma vida própria, mas não foi virar advogado porque o pai obrigou já a fracassada da tua filha que teve todas as chances do mundo pra poder estudar e ser alguém na vida virou o que? Antropóloga, meu Deus, é uma vergonha saber que passei todos esses anos da minha vida casado com alguém como você e pari alguém como ela, dois fracassados nas minhas costas!
Carlos estava chocado, ele sabia que a mulher sabia ser cruel quando queria, mas nunca havia visto uma demonstração tão nua da crueldade dela.
— eu fiz um favor pra Catarina, o Paulo não cominava com ela e ela não estava preparada para ser mãe solteira, Catarina aliás não tem a fibra que precisa pra ser mãe. Ela nunca deveria ter filhos, Catarina é fraca, igual a você.
— que tipo de demônio é você?
— como foi que você descobriu a troca?
— isso não te diz respeito, sua miserável! O que te importa é que eu estou indo nesse exato momento para a delegacia para contar toda a história para a polícia e garantir que você passe o resto da vida na cadeia mais imunda desse país! Depois eu vou junto com a Catarina descobrir o que aconteceu com a criança.
Síria.
Catarina estava na embaixada brasileira na Síria tentando, sem sucesso, ligar para o celular do pai, porém naquele momento, durante a briga, ele não havia nem percebido que o celular estava tocando, então ela ligou no escritório dele “ele saiu faz um tempo Catarina, ele parecia apressado, mas não disse onde ia” disse a secretária e isso deixou Catarina ainda mais assustada, dali mesmo ela começou a ligar para as agências aéreas para conseguir o voo mais rápido que conseguisse para o Brasil.
Brasil.
— você não vai para a polícia coisa nenhuma, vamos resolver isso como uma família, sem fazer nenhum escândalo – disse Branca, com a maior calma do mundo.
— sem fazer escândalo? Você é uma psicopata, pessoas como você não podem viver em sociedade com gente normal, você é uma doente! — Carlos virou-se e saiu do escritório indo em direção a escadaria, e então Branca percebeu que Carlos dessa vez não sucumbiria a vontade da mulher, ela foi atrás dele, parou na porta do escritório e gritou o nome do marido, ele parou se virou-se para ela.
— chega Branca, eu quero o divórcio! — Disse Carlos parado no topo da escadaria, encarando Branca.
— você quer o divórcio? Depois de tudo o que eu aguentei todos esses anos acordando e olhando para essa tua cara de fracassado? — ela continuou a falar enquanto andava em direção ao marido – todos esses anos mantendo a sua vida e a sua casa em ordem para agora você pedir divórcio? — ela parou diante do marido, encarando-o, enfrentando-o – e acha que é homem o bastante para me pedir divórcio? Aqui está o seu divórcio! — Branca estendeu os braços em direção ao peitoral do marido e o arremessou escada abaixo.
Carlos rolou pela escadaria e caiu, desacordado, no final dela. Por alguns instantes ela ficou muda, então ela caminhou calmamente até o telefone e discou o número de emergência, assim que uma voz atendeu, ela começou a chorar compulsivamente “eu preciso de ajuda, meu marido caiu da escada” ela disse, e logo em seguida, passou o endereço para a atendente.
Quando o socorro chegou, Branca estava pálida, ela não demonstrava nenhuma emoção, apenas um rosto branco e apavorado, enquanto os socorristas colocavam Carlos na ambulância, Margot chegou e foi abraçar a mãe.
— o que foi que houve mãe? — Margot sabia que algo estava errado.
— ele caiu da escada, estávamos discutindo e ele caiu da escada – ela falou baixo para que ninguém ouvisse.
— ele caiu ou foi empurrado? — perguntou Margot, falando igualmente baixo.
Branca não respondeu, apenas olhou nos olhos da mãe e aquela foi a resposta que Margot precisava.
— calma mãe, vai dar tudo certo, não se preocupe.
As duas foram no carro de Margot para o hospital e Branca contou que os dois começaram a discutir porque Carlos pediu o divórcio e disse que deixaria ela sem nada e no decorrer da briga e tomada pelas emoções ela empurrou ele da escada, mas ela não falou o real motivo para a filha, pois embora Branca e Margot fossem muito próximas, Branca nunca havia revelado a ninguém que havia feito a troca dos bebês.
— mas bem que você fez mãe, você carregou esse infeliz nas costas a vida toda e agora ele querer divórcio? — Margot estava, como sempre, do lado da mãe – no mínimo ele arrumou alguma garotinha que estava aplicando o golpe do baú.
— será que ele morreu? — Branca ainda estava meio aérea com toda essa situação, apesar de tudo ela estava chocada, pois nunca havia matado ninguém.
— eu espero que sim – Margot falou com um tom de preocupação – se ele estiver vivo, ele pode te complicar né?
Quando as duas chegaram no hospital, Branca estava muito aflita, ela estava arrependida de ter jogado Carlos da escada, porém se ele acordasse, ele colocaria ela na cadeia pela troca dos bebês e pela tentativa de homicídio, porém após quase uma hora, um médico veio andando pelo longo corredor e parou em frente a Branca e Margot que estavam sentadas.
— dona Branca, nós fizemos todo o possível, porém infelizmente ele não resistiu devido as múltiplas fraturas que acabaram perfurando alguns órgãos internos…
Branca nem prestou muita atenção no que o médico falou. Quando ela ouviu as palavras “infelizmente ele não resistiu” ela respirou aliviada, porém ela notou que havia polícia ali no hospital e ela esperta o bastante para saber que uma morte em circunstâncias como aquelas geraria uma investigação.
Síria.
Catarina estava sentindo algo ruim em seu peito, ela sabia que aquela e-mail significava que algo estava muito errada na casa de seu pai mas ela estava intrigada demais em saber o que ele havia descoberto sobre Branca? O que teria feito Branca que arruinou sua vida?
Ela não tinha ideia de que chegaria no Brasil para o velório do pai.
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