Quando abro os olhos, sinto o mesmo de sempre: dores em todos os lugares, mas principalmente em minhas mãos, costas e boca. Sendo mais especifica: na gengiva, como se tivesse acabado de nascerem os sisos, no entanto, muito pior.

Observo o lugar onde estou sem ao menos precisar, pois já sei onde me encontro: com túmulos por todo o lado. Em um cemitério.

Eu não fico muito assustada, pois já estou acostumada a me acordar lá, porém, posso garantir que eu tenho casa e por tanto, não preciso dormir lá.

Me levanto devagar, porque ainda sinto dores nas costas e observo que estava deitada em cima de um túmulo de mármore grande, do tamanho de uma pessoa— Sério mesmo? ― que estava escrito:

Sebastian

Querido filho, irmão e amigo.

(1940-1954)

Me sinto um pouco triste por esse garoto que morreu aos dezoito anos, que não conseguiu aproveitar a vida. Olho para a foto preta e branca de um garoto sorridente. Um garoto muito lindo por sinal. De cabelos pretos e olhos que provavelmente tinham cores claras.

Em quanto estou encarando a foto, escuto paços e me viro para saber de onde vem, até notar que é do guarda que fica cuidando do portão do cemitério.

Assustada, levanto e saio correndo o mais rápido possível, não saberia o que dizer se fosse encontrada lá só de pijama em cima do túmulo.

Enquanto corria, senti olhos me seguindo, observando nas sombras das árvores.

Chego em casa e olho para o relógio que mostra que se eu não me arrumar agora, vou chegar atrasada para a escola.

Eu moro sozinha desde que me lembro. Não sei onde está minha família e não tenho contato com ela, até onde sei, eles poderiam estar mortos. Toda a semana, alguém manda dinheiro para eu comprar roupas e para me alimentar – já que tenho dezesseis anos e estou em fase de crescimento. Eu não tenho ideia de quem é também. Ele ou ela nunca escreve o seu nome ou ao menos diz se tem algo a ver com a minha família.

Em quanto me arrumo, percebo que não estou mais sentindo dor. Também não fico surpresa, pois é sempre assim. Sempre tive essas dores, desde que me lembro, e não sei por que elas aparecem. Eu não faço esporte nem nada e quando fui ao médico, ele me disse que a minha saúde estava ótima. Então não tenho ideia do por quê.

Saio correndo de casa, pego a minha bicicleta – eu sou a única adolescente que conheço que não tem um carro – e pedalo o mais rápido que posso na direção da minha escola. Eu estou muito atrasada.

Chego á escola e entro correndo. Passo por vários corredores que estão vazios.

Eu estou realmente atrasada.

Quando chego á minha primeira aula, a professora de matemática, Senhorita Sarah, me olha com censura e me manda sentar. Todos me encaram e depois de não acharem nada de interessante, viram a cara e conversam entre si.

Eu sou o tipo de garota tímida que não faz amigos simplesmente por ser tímida. Mas eu não me sinto tão sozinha assim. Eu gosto da solidão, também já estou acostumada e familiarizada com ela, então para mim é normal estar sozinha na hora do intervalo ou quando vou fazer trabalho em grupo.

Quando saio para o intervalo, paro em uma maquina de lanches. Não estou com tanta fome assim para ir comer no refeitório, então nem me dou ao trabalho de ir até lá, só pego um pacote de bala de goma e me sento no chão do corredor.

Foi quando eu estava lá, sentada no chão ao lado da maquina de lanches pensando o porquê de eu ter me acordado no cemitério como sempre faço, que eu o conheci.

Minhas pernas estavam esticadas em minha frente, então quando ele passou, acabou tropeçando nelas e quase caindo de cara no chão.

–– Será que você poderia, por favor, tirar essas suas pernas do meu caminho? –– Diz um garoto.

Olho para cima e fico admirada.

Seus cabelos eram pretos e ele tinha olhos verdes, a pele dele era um pouco mais pálida do que a minha e ele tinha um corpo atlético. Ele era muito alto também.

Enquanto o encarava, senti que já o tinha visto antes, mas não conseguia me lembrar de onde.

Ele me encarou com um pouco de raiva, mas com um brilho de surpresa, que sumiu em segundos depois de aparecer.

––– Você não me escutou? ––– Falou ele um pouco indignado. ––– Tire elas do caminho.

Recolho minhas pernas o mais rápido possível e o observo caminhar para longe.

Nunca o tinha visto aqui nessa escola. Deve ser um aluno novo. Penso comigo mesma, mas ainda sim é estranho. Ninguém vem para essa escola, ainda mais quando o ano letivo já está quase terminando.

Me levanto ainda pensando no garoto e vou para a aula de educação física.

Quando chego em minha casa, me sentindo muito cansada, ponho algumas roupas para lavar e vou tomar alguma coisa. Olho TV por um tempo e não vejo nada de diferente nas noticias do jornal, só o mesmo de sempre: Corpos de dentro do caixão são trocados por troncos de árvore e ninguém tem ideia do por que alguém faria isso. Para que roubar corpos de quem não têm nada a oferecer? A repórter... Desligo a TV. Depois subo para o meu quarto e me atiro na cama, estou cansada, vou tirar um cochilo.

No dia seguinte, acordei no cemitério novamente deitada em cima do mesmo túmulo. E isso meio que me assustou. Apesar de sempre me acordar nesse mesmo cemitério, nunca me acordei em cima de um túmulo e se acordei, não repeti novamente.

Quando fui à escola, encontrei o garoto de novo, mas dessa vez eu estava de pé e ele estava sentado em meu lugar.

Olho para ele timidamente e penso em ir sentar no pátio quando ele fala:

― Desculpe por ter falado daquele jeito contigo. — Diz ele olhando para longe de mim. ― Eu estava um pouco frustrado e acabei descontando em você.

Eu o observo sem falar nada, esperando ele dizer que era uma pegadinha e que eu sou muito burra por cair nela, afinal, quando tropeçam em mim, nunca pedem desculpas, mas ele não parecia estar tirando sarro de mim e como eu fico quieta por muito tempo, ele vira seu rosto para mim, esperando que eu fale alguma coisa.

— Ann... Tu-tudo bem. ― Digo tropeçando em minhas palavras. — N-não tem pro-problema. ― Nossa, por que eu tinha que ser tão tímida? Talvez se você tivesse amigos, não estaria nessa situação. Me repreendo em pensamento.

Ele sorri para mim.

— Meu nome é Sebastian. ― Então ele levanta a sua mão para mim. — Qual é o seu nome?

No momento em que ele fala o seu nome, eu me lembro de por que eu ter pensado que o conhecia, ele parecia com o garoto do túmulo.

Arregalo os meus olhos, mas não falo nada. Ele já está morto há muito tempo, não tem como ele estar vivo agora.

Então apenas sorrio e aperto a sua mão.

― Meu nome é Mélanie.

Depois desse dia, ele sempre aparecia para comer comigo. Viramos amigos. Estávamos sempre juntos no intervalo e conversávamos sobre várias coisas. Depois de mais ou menos uma semana falando com ele, perdi minha vergonha e comecei a falar sem parar sobre coisas aleatórias.

Ele sempre falava alguma coisa engraçada e eu ria que nem uma louca e então, ele dava risada da minha risada e alegava que ela era engraçada. Às vezes ele era quieto e frio e outras ele era engraçado e explosivo, era meio difícil o entender e acompanhar o seu humor, mas ao mesmo tempo, era bom conversar com alguém.

Algumas pessoas passavam e diziam que a gente erámos loucos ou que desperdício, no caso de Sebastian, que, fingia não escutar ou realmente não escutava. Nós nunca falávamos sobre a vida pessoal de cada um e a cada dia que passava eu ficava curiosa para saber coisas sobre ele e menos ansiosa para falar sobre mim para ele.

Eu continuei a me acordar no mesmo túmulo toda manha, mas não estava dando tanta bola para isso, pois me acordava ansiosa para ver Sebastian. Acabava me esquecendo de tudo quando estava com ele.

As notícias sobre os corpos dos mortos sendo trocado por troncos de árvores e sobre algumas pessoas estarem morrendo, também aumentaram, aviam rumores em que algum ser sobrenatural os estava matando, mas ninguém sabia quem estava pegando os corpos dos mortos.

Então em uma noite, acordo-me com sede, muita fome e dor nas costas e em todo resto do corpo. Então levanto-me e caminho para minha janela.

Abro-a e pulo para fora dela. Meu quarto é no segundo andar e quando eu pulo uma parte de mim fica apavorada, mas a fome e a sede ofuscam tudo e eu não consigo parar de pensar em sangue.

Quando eu pouso no chão, levanto a cabeça e inalo os cheiros, há tantos cheiros, mas inalo até chegar á um que eu queira e então o sigo.

Não noto até olhar para baixo que estou voando, no entanto, não dou muita importância, o que importa agora é que eu consiga chegar o mais rápido possível onde o que eu queria estava.

Enquanto estava voando, senti como se alguém tivesse me seguindo, porém, não conseguia me parar para ver o que ou quem era.

Quando posei, tinha uma garota no chão, ela estava atirada lá, sem ninguém para ajuda-la e ela estava machucada, eu conseguia ouvir o seu coração mais fraco em cada batida e sentir cheiro de sangue nela. Ela se parecia muito com alguém que eu conheço, mas não estava com vontade de tentar me lembrar dela agora.

Fui chegando mais perto e a observei mais.

Ela tinha cabelos loiros longos que estavam tapando o rosto inteiro dela. Fui chegando mais perto e mais perto e então quando estava na frente dela, me baixei e a cheirei, percebendo que era o mesmo cheiro que estava seguindo. Pegando-a em meus braços, mordi-a.

Mordi-a fortemente e depois puxei, mastiguei e engoli. Após ter a saboreado, tomei seu sangue e comi quase todos os seus órgãos, menos o coração. Peguei seu coração e o lambi. Tinha um gosto muito bom, saudável e eu estava louca para provar, então o levei até a minha boca é...

––– NÃO FAÇA ISSO! –– Alguém grita atrás de mim e então eu sinto como se tivesse acabado de acordar de um sonho. Escuto passos se aproximarem de mim e olho para trás.

Era Sebastian.

Ele estava todo vestido de preto, com os cabelos em sua testa e o seus olhos, aqueles lindos olhos verdes tinham a cor de sangue. E quando ele chegou perto de mim, senti algo diferente nele, como se ele não fosse humano.

Com seu rosto retorcido de raiva e nojo, ele fala:

–– Você sabe o que está fazendo?— Ele me pergunta com raiva. ― Por que você matou essa garota?

Eu o encaro.

Do que ele está falando? Uma parte da minha mente se pergunta. Sinto algo quente e pesado em meu colo e olho para baixo.

Tinha uma garota morta em cima das minhas pernas, solto um grito alto, jogando-a no chão e me afastando o mais longe possível.

Olho para todos os lados e percebo que estava perto da escola, talvez uma rua antes dela.

––– O que eu estou fazendo aqui? ––– Pergunto para mim mesma.

––– Comendo. ––– Me responde Sebastian parado em minha frente e pegando a garota em seus braços. ––– Isso.

Ele aponta para a garota.

––– Eu não fiz isso. ––– Digo horrorizada.

Ele suspira.

––– Ela nem sabia o que estava fazendo? ––– Ele sussurra para si mesmo e depois me olha. ––– Sim, você fez. ––– Ele me vê aterrorizada e pergunta. ––– Você ao menos sabe o que é?

Eu o encaro por um segundo e depois respondo.

––– Uma garota. ––– Quando eu falo isso ele revira os olhos.

––– Sério? Não brinca. ––– Ele nota que eu começo a tremer, suspira e então fala o que iria mudar a minha vida para sempre. ––– Você é uma Aswang. Um ser que é metade vampiro, metade bruxa.

Então eu arregalo os olhos, pois já tinha escutado isso antes.

Mas nego com a cabeça. Não posso ser uma coisa dessas.

— Não, eu não sou essa coisa de Aswa-sei-lá-o-que-mais.

Ele acena com a cabeça.

― Sim, você é. — Diz ele seriamente. ― Mas você por algum motivo não sabia.

Balanço a cabeça novamente.

— Você não está me entendendo. ― Digo em pânico crescente. — Eu não sou essa coisa... E outra, como você sabe disso?

Ele suspira e então caminha até mim.

― Por que eu sou um vampiro que foi mandado para cuidar de você.

Eu o encaro e noto de novo o quanto ele estava diferente, estava mais sombrio e o seus olhos estavam da cor vermelho sangue. Sua atmosfera estava diferente, ela alertava perigo.

— Você só pode ser louco. ― Digo me levantando devagar e me afastando dele aos poucos. — Você está imaginando essas coisas e...

Ele me interrompe furiosamente.

― Então como essa garota morreu? E o que ela estava fazendo em seus braços? Ela tropeçou, caiu em seus braços e morreu do nada? — Ele me encara com frustração estampada em seu rosto.

Eu começo a tremer e a balançar a cabeça.

— Você ainda não quer acreditar? ― Diz ele chegando mais perto. — Você por acaso se viu no espelho agora?

Ele continua a avançar em minha direção e por mais que tudo em meu corpo alertasse para eu sair de perto dele, fico para em meu lugar e o observo até ele estar em minha frente. Ele pega meu braço e me leva para perto de um carro com janelas escuras.

Para-me na frente dessas janelas e quando encaro meu reflexo, não acredito no que vejo.

Eu estava muito pálida, com os olhos pretos e dentes afiados saltando de meus lábios que estavam cobertos com sangue. Eu olho para as minhas costas e vejo asas negras e grandes.

Eu estava horrorizada com a minha aparência, essa não sou eu!

E então, depois de me ver, lembro-me a primeira vez em que matei alguém ou comi gente morta. E percebi com um grande susto.

Era eu quem trocava o corpo das pessoas nos caixões por troncos de árvores.

Caio de joelhos no chão com a mão em meu rosto. Não pode ser. Eu não posso ser esse monstro. Mas você é! Então me lembro do reflexo na janela e começo a chorar.

Alguns segundos após eu começar a entrar em desespero, braços gelados e confortáveis ficam em minha volta. Sebastian me abraça fortemente, mas com um pouco de cautela, como se eu fosse de vidro.

— Calma, vai estar tudo bem. ― Diz ele calmamente. — Eu estarei aqui para te ajudar a enfrentar qualquer coisa e a se controlar.

E depois que ele disse essas palavras, me senti bem, calma e protegida. Mas ao mesmo tempo um pouco aterrorizada. Eu não queria ser essa “coisa”, eu não queria ter que aprender a me controlar.

― Okay. — Digo respirando fundo.

E com isso, ele me leva para longe do carro, para longe do meu pecado, da garota que matei sem querer, para longe de tudo e de todos para me proteger e os proteger.

Então ele me levava, lembrei-me de algo.

— Você é o garoto do túmulo, certo?

Ele sorri para mim.

― Estava me perguntando quanto tempo levaria para você me perguntar sobre isso.

Ele não fala mais nada.

Ergo uma sobrancelha.

— E não vai me contar o que aconteceu?

Ele se vira para longe de meu rosto e fala com uma voz distante.

― Temos muito tempo para você saber da minha história, muito tempo.

Fim

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