Segredos Submersos

43 Uma descida ao Maelström


A captura não foi difícil de ser encenada, principalmente para alguém tão treinada como Marie Roget.

Em um momento, ambas de nós estávamos no meio do caos do campo de batalha. O ar e o tempo em si pareciam ter congelado nos únicos instantes que nossos olhares se encontraram e eu tivera de estabelecer comunicação. Por mais que no momento eu não visse, sabia que Percy e Nico estavam atrás de mim.

No outro, senti os braços magros e fortes de Marie se enlaçarem ao redor de meu pescoço, dominando-me. Fingi me debater por poucos segundos, assim como Percy e Nico fizeram quando o parceiro de Marie, Auguste Dupin – o homem que na casa abandonada me dera informações e me alimentara – apareceu e entendeu o cenário que havíamos de montar.

Alguns dos campistas ao nosso redor compraram a mentira e atacaram Marie e Dupin, de modo a nos ajudar. Os dois bruxos infiltrados no serviço de Pallas facilmente se livraram dos aliados do Acampamento, mas não machucando-os gravemente. Ainda assim, não pude evitar sentir uma pontada de culpa.

Em outro momento, então, de alguma forma os dois já haviam conseguido nos arrastar para fora do epicentro da batalha. Manteram a encenação por alguns instantes, até terem certeza de estarem fora do campo de visão dos súditos de Pallas ou de meus colegas do Acampamento.

Desvencilharam-nos de seus toques assim que alcançamos o pinheiro de Thalia. Passamos todos a correr, em direção ao mundo afora do Acampamento Meio-Sangue.

Por alguma razão, não consegui olhar para trás.

Corremos por mais ou menos quinze minutos sem trocar qualquer palavra. Tínhamos de nos assegurar que estaríamos longe o suficiente dos limites do Acampamento e que houvéssemos despistado qualquer outra pessoa – fosse aliado de Pallas ou algum campista.

Paramos para respirar e finalmente olhar um ao outro assim que alcançamos uma clareira no meio de toda aquela vegetação ao redor dos terrenos do Acampamento. Pus a mão no abdômen e sentei-me na grama rala, em um trecho onde o sol batia e fazia as folhas reluzirem em cor.

– Ei – disse Nico, também sentando-se e chamando Marie e Dupin – obrigado.

Os seguidores de Pallas, os únicos de pé, se entreolharam ao passo que tentavam recobrar suas respirações. Retribuíram a nós um pequeno sorriso – não feliz, afinal, quem estaria feliz em uma situação daquela? Mas um sorriso de entendimento, curto e mútuo.

– E então? – perguntei, após uma pausa em que todos havíamos nos mantido em silêncio. – O que vocês estão planejando?

– Bem, fugir – disse Dupin em seu sotaque inglês. Franzi as sobrancelhas. – De Pallas, quero dizer. Já passamos tempo o suficiente lá para coletar as informações necessárias sobre ele e seus planos. Temos de voltar ao Maelström.

Eu, Percy e Nico nos entreolhamos, obviamente sem saber do que aquilo se tratava. Dupin respirou fundo e obviamente nos olhou como se fosse nos explicar, mas não devesse. Lançou um olhar de dúvida a Marie, como se pedisse permissão. Ela apenas deu de ombros.

– Acho que eles merecem saber, não é? – disse ela.

Auguste Dupin pigarreou antes de se pronunciar:

– O Maelström é basicamente o grupo do qual fazemos parte.

Franzi as sobrancelhas outra vez, mas com uma pontada de excitação passando a percorrer meu corpo. Dupin e Marie Roget não eram os únicos a tentar fazer uma revolução infiltrados no exército de Pallas, de modo a derrubá-lo. Junto com a excitação, veio em minha direção uma leve onda de esperança. Ainda assim, eu tinha dúvidas.

– Tudo bem, eu entendo – falei. – Mas... vocês nem são semideuses! Apenas bruxos! Por que se meterem em um assunto que não devia estar remotamente ligado a vocês?

Pausa.

Dupin crispou os lábios e levantou as sobrancelhas. Os seguidores de Pallas ficaram momentaneamente em silêncio.

– Bem – disse ele – Quem disse que não somos semideuses?

O choque dessas palavras foi forte demais para passar despercebido. Senti meu queixo escancarar e a realidade parecer congelar ao meu redor, assim como outrora no campo de batalha. O vento que fazia as folhas das árvores balançar pareceu se tornar algo estático.

Eu havia me levantado. Marie mordeu o lábio inferior e andou em minha direção, até parar a alguns palmos a minha frente.

– Hermione – disse ela, pacientemente. – Você tem de entender que há uma forte ligação entre os bruxos e os Olimpianos.

– Eu sei disso, mas...

Ela fez um sinal para eu ficar em silêncio, interrompendo-me.

– Antes da Antiga Guerra acontecer, quase nem conseguíamos distinguir os bruxos dos Olimpianos, de tão forte era aquela história. Depois da Guerra, houve o acordo entre os dois lados, de total separação; mas você acha mesmo que um simples tratado conseguiria separar completamente o mundo bruxo do Olimpiano?

– Mas não foi isso mesmo que aconteceu? – perguntou Percy, levantando-se junto de Nico.

– É o que eles querem que você pense – disse Dupin. – Todas as informações que apontavam qualquer ligação entre os dois mundos foram apagadas de livros e documentos; elas foram apagadas da história em si. Claro que não totalmente ignoraram um ao outro, mas tiveram de ser levadas em diante como lendas. A bruxaria ainda é tida como verdadeira no mundo Olimpiano, mas é fortemente ignorada por seus habitantes. Já a mitologia grega é completamente vista como lenda no mundo bruxo.

– Mas obviamente não foi um processo fácil de se realizar – completou Marie. – Apagar da história qualquer resquício sobre uma outra civilização e fazê-la se tornar apenas contos para crianças dormirem. Séculos houveram de se passar, e ainda assim é impossível conseguir cobrir com um pano tudo que se passou.

– Forjar documentos foi a parte mais fácil de tudo – disse Nico, acompanhando o raciocínio. Eu fazia a mesma coisa, mas a conclusão que minha mente parecia alcançar era inacreditável demais, ao ponto de eu quase refutá-la. – Fazer com que uma civilização acredite em seus ideais também não é tão difícil.

Marie assentia, satisfeita ao ver a linha de raciocínio.

– A parte difícil – disse ela. – Não é criar informações, mas esconder o legado da civilização que eles querem tornar esquecida. Vocês três sabem qual é o legado principal de um povo, não é?

Percebi por minha visão periférica que Percy e Nico, agora boquiabertos, olhavam para mim. Não respondi o olhar; eu sentia meu corpo começar a tremer com a nova realidade que Marie estava jogando sobre mim. Lágrimas ameaçavam subir por meus olhos.

– O legado de um povo são seus descendentes – disse eu, a voz começando a ficar pastosa. Olhei ao redor. Os quatro par de olhos, três castanhos e um azul, me encaravam com certa expectativa. – Como a civilização bruxa e olimpiana um dia foi muito interligada, é óbvio que surgiram descendentes.

– Hermione – falou Dupin. Sua voz era gentil e reconfortante. Uma lágrima conseguiu escapar de meu olho e escorreu por minha pele. Eu não sabia se era de alívio ou felicidade, mas definitivamente não de tristeza. – Eu e Marie; somos exatamente como você. E eu sei por experiência própria como é se sentir sempre dentro desse limbo entre os dois mundos, sempre... desconexo da realidade, sem pertencer a um local específico. Acha mesmo que você era a única híbrida de deuses e bruxos?

Cobri o rosto com a mão, as lágrimas agora descendo em demasiado, e fiz que não com a cabeça. Agora que haviam me explicado, parecia inconcebível pensar que eu era a única.

– As relações entre deuses e bruxos nunca acabaram de fato – disse Dupin. – Mas são poucos aqueles que reconhecem tal coisa.

Respirei fundo e enxuguei as lágrimas que ainda desciam. Minha mão tremia e eu não conseguia parar. Marie cobriu-a com a sua própria. Vi em seus olhos compreensão e senti-me mais atordoada do que nunca.

– Ei – chamou Percy. – Mas se há outros híbridos espalhados por aí, então todos os deuses quebraram o acordo, não é?

– Basicamente – disse Marie. – Mas talvez não de propósito. Lembre-se de que Hermione é filha de uma mãe trouxa.

O despejo de todas aquelas informações sobre minha cabeça fez com que um novo silêncio se instalasse no ar, quebrado apenas pelo roçar do vento nas árvores e o ruído de pequenos insetos – a realidade ao meu redor voltara a traçar seu caminho usual, saindo daquele botão de pause inicial.

– Significa que tudo que acreditei até agora era uma mentira? – murmurei, mais para mim mesma do que para eles. Dupin e Marie se entreolharam.

– Até certo ponto – disse ele. Não quis encarar seus olhos, portanto reparei em como o sol reluzia em seus cabelos castanhos. – Porque, por mais que a quantidade de híbridos por aí seja imensa, são poucos os que sabem de fato tal coisa. Geralmente os híbridos acabam por escolher um único lado: ou decidem viver a vida apenas como bruxo, ou apenas como semideus. Somos um grupo... hm, marginalizado ao extremo, eu diria.

– Esse Maelström de vocês é formado apenas por híbridos? – perguntou Nico.

– Sim – quem respondeu foi Marie Roget. – Somos tipo uma Ordem da Fênix bem underground. – Não consegui evitar sorrir com essa comparação. – Nem o Ministério ou os deuses querem nos reconhecer. Hermione foi o único caso que ganhou mais atenção, eu diria. Principalmente por você ser quem você é.

– Mas Pallas sabe sobre vocês – falei. Não era uma pergunta. Marie e Dupin assentiram simultaneamente.

– Sabe da existência dos híbridos – disse Dupin, enfatizando a última palavra. – O exército dele inteiro é formado por gente como nós. É assim que ele quer estender seus domínios, sabe como é. Não só libertando as criaturas do Tártaro, mas também jogando uma parcela do mundo bruxo contra os Olimpianos. É por isso que ele tanto a queria, Hermione; para fazer parte de seu exército.

– Só que agora ele quer me matar – disse eu. Dupin deu de ombros, como se dissesse “tanto faz”.

– Bem, você acabou o aborrecendo ao tentar fugir – falou, como se aquilo tudo fosse uma situação corriqueira. – De qualquer forma, ele sabe sobre os híbridos, mas não sobre o Maelström. Suspeita que nós estejamos tramando um levante, porém não creio que tenha alguma ideia sobre toda a organização por trás. Ninguém sabe sobre o Maelström, na realidade. Talvez o Ministério tenha começado a nos rastrear, mas nada muito concreto.

Outro momento de silêncio, desta vez mais longo. Quando vi que Marie ou Dupin nada mais teriam a adicionar, percebi que haviam chegado ao fim de sua explicação. Suspirei e levei minha mão à têmpora, voltando a me sentar. Minha cabeça latejava com tantas informações.

– Tá, e onde fica o esconderijo desse tal de Maelström? – questionou Percy, quando nós já havíamos voltado a caminhar.

Já saíramos dos terrenos ao redor do Acampamento e alcançado a estrada, a mesma em que meu grupo pegara o ônibus para ir a Manhattan no nosso primeiro dia da missão, antes de sermos atacados por dementadores. Tudo aquilo parecia ter ocorrido há uma eternidade. Eu andava um pouco mais à frente de Percy, Nico, Marie e Dupin, portanto apenas ouvia sua conversa junto do vento que soprava em meus ouvidos. Eles haviam entendido que eu precisava de um pouco de tempo a sós para absorver tudo que haviam me contado, e por isso eu era grata.

Eu mal sabia o que pensar. Sentia-me simultaneamente aliviada e assustada ao pensar que não era a única híbrida por aí, e que Pallas estava se aproveitando disso para desestabilizar tanto o mundo bruxo como o olimpiano. A ideia do próprio Maelström – o grupo de resistência interna sem um lado específico no meio da guerra, dentro do limbo que separava as ideologias dos bruxos, olimpianos e titãs – era o suficiente para me sentir extasiada e confusa.

– Bem, não podemos dizer agora – ouvi a voz de Marie conversando com os rapazes, um pouco mais para trás de mim. – Afinal, é um esconderijo, não é? Como vocês acham que o Maelström conseguiu se manter? Gritando a quatro cantos nossa localização é que não foi.

Conseguia imaginar Thalia revirando os olhos com tal afirmativa, caso estivesse aqui. Esperava que ela e Annabeth estivessem bem, assim como esperava que as Caçadoras de Ártemis já houvessem chegado.

– No fim das contas, estamos sempre em movimento, nunca ficando no mesmo lugar por muito tempo – finalizou Marie. – Ainda assim, vocês já vão ver. Chegaremos lá.

Não parei para marcar quanto tempo andamos, mas foi bastante. O suficiente para chegarmos em Manhattan a pé e minhas pernas ficarem levemente doloridas de tanto andar. Havíamos basicamente andado o mesmo trecho que eu e meus amigos andáramos no primeiro dia da missão, antes de falarmos com Héstia no 600º andar do Empire State. Marie e Dupin nos guiavam pela Quinta Avenida e já era possível ver de onde eu estava o Empire State e sua imponência – por um momento, cheguei a acreditar que iríamos até lá –, quando os dois seguidores de Pallas nos fizeram virar na 30th Street e depois nos empurraram para dentro de um beco estreito e mal iluminado.

Andamos até pelo menos metade do beco, até Dupin parar subitamente e eu quase esbarrar nele. Ele e Marie haviam se abaixado e retiravam a tampa circular de um bueiro.

– Um bueiro? – não resisti a pergunta, levemente cética. – O que, vocês tem um túnel subterrâneo?

Marie assentiu. Se percebeu o leve escárnio em meu tom de voz, não o demonstrou.

– Você poderia dizer que fazemos de fato uma “descida ao Maelström” – disse Dupin, obviamente vendo graça no trocadilho e abrindo o bueiro. Marie revirou os olhos, entretanto pude perceber um sorriso de canto se formando em sua boca enquanto passava seu corpo para dentro do bueiro, apoiando-se na escada que descia em direção àquela escuridão subterrânea.

Não resisti e tive de revirar os olhos também.

– Sério, qual é o requisito para se tornar parte desse clube secreto de vocês? – perguntei, surpreendendo a mim mesma ao perceber que eu ainda era capaz de ter um senso de humor. A cabeça de Marie desapareceu no bueiro; poucos segundos depois, ouvi seus pés aterrissarem no solo, em cima de uma poça d’água. Dupin logo fez sinal para que eu fosse a segunda a ir. – Além de ser bruxa e meio-sangue ao mesmo tempo, deveria eu mudar meu nome para algum personagem de Edgar Allan Poe também?

Apoiei meus pés na escada e comecei a descer. Dupin soltou uma risada baixa e encolheu os ombros.

– Não necessariamente Poe – disse ele. – Se quiser, temos personagens de Ernest Hemingway ou George Orwell disponíveis também.

Com isso, voltou a rir.