Segredos Submersos
35 O homem de areia
No chão, reparei, a partir do ponto onde a caixa e a flor haviam sido colocadas, havia um rastro de areia que seguia em frente, como se traçasse um caminho.
Era óbvio que isso era uma mensagem para mim.
Olhei ao redor. O grupo de turistas com o qual eu estava agora se posicionava um tanto mais distante, mas ainda assim estranhei como que ninguém poderia ter percebido o fino, porém constante e uniforme rastro de areia que se alastrava pelo corredor do museu.
Mesmo parada, eu conseguia perceber que o rastro era longo. Não havia como ter sido feito nesse instante, o que significava que já estava esperando por mim há algum tempo; horas, talvez. Como ninguém teria percebido, como ninguém teria pisado nele?
Talvez fosse a Névoa, o que apenas reafirmou em minha mente o fato de tal caminho ser traçado para que eu o encontrasse.
Dei uma outra olhada no quadro que eu estivera antes observando. Hipnos e Tânatos, as respectivas personificações do sono e da morte, Hipnos pai dos Oneiros, como Morfeu. De certa forma fazia sentido, se encaixava no que eu – e possivelmente o restante do grupo – estava passando; a falta de controle no sono, os sonhos constantes. E obviamente toda essa situação estava intrisecamente ligada ao homem – o negro careca que em meus sonhos era um caucasiano de cabelos castanhos e olhos azuis, que soprou areia em meus olhos.
Aquela sensação onírica que eu presenciara ao chegar no museu – o sentimento do irreal, como se tudo ao meu redor borrasse leve mas constantemente, fazendo com que a realidade se dobrasse em volta de mim como em um sonho; como se uma suave voz me empurrasse aos poucos para fora de mim mesma, controlando-me – voltou com tudo, fazendo eu derrubar a caixa de areia. Ela bateu no chão com um estalo, que fez-me voltar à lucidez em uma fração de segundo.
Olhei para o chão. Toda a areia que estivera dentro da caixa agora se esparramava pelos meus tornozelos, considerando que eu havia derrubado-a de modo nada discreto. Bati os pés contra o piso, de modo a retirar o excesso de areia dos meus sapatos. Ao realizar tal movimento, porém, reparei algo a mais próximo a meu pé esquerdo – um pequeno papel.
Olhei em volta por uma segunda vez. Ninguém parecia ter reparado em qualquer coisa, o que me fez suspirar de alívio.
Adiantei-me para pegar o papel, que estava dobrado como um bilhete. Em uma caligrafia apressada, mas caprichada havia o seguinte endereço:
Falls Road, 6080.
Era óbvio que eu deveria ir a tal lugar, por mais que uma crescente voz em minha cabeça alertasse que poderia ser perigoso.
Antes de tudo, no entanto, resolvi seguir a trilha de areia que se espalhava pelo museu, que já estava presente lá antes mesmo de eu chegar.
Por um último instante, a pintura atraiu meu olhar novamente. As feições serenas de Hipnos e Tânatos, adormecidos, fizeram um arrepio percorrer minha espinha. Pela primeira vez na missão senti algo concreto parecer me guiar.
E eu não sabia se eu deveria ficar feliz ou assustada.
A trilha de areia pelos corredores era extensa. Meus olhos estavam colados ao chão, seguindo-a pelo labirinto que o museu aparentava ser. Devo ter percorrido ao menos metade da construção ao seguir o rastro, que em certos momentos parecia levar-me a lugar algum.
O ponto em que a areia repentinamente parava estava próximo à saída do museu; a trilha acabava em frente a uma parede lisa. Eu teria estranhado, se meus olhos não houvessem encontrado outro pequeno papel, colado à parede e dobrado cuidadosamente.
Retirei-o e o desdobrei. A caligrafia era a mesma do bilhete anterior – tive a leve sensação que tais papéis eram do misterioso homem de aparências distintas que eu tanto tentava alcançar.
Terra dos Sonhos, 17-20, de NG
Franzi as sobrancelhas, sem saber o que pensar. Não sabia do que isso se tratava, mas era uma pista.
Fiquei aliviada quando vi que o endereço que o bilhete me indicara era, na realidade, uma livaria. Falls Road, 6080 – The Ivy Bookstore.
Era um ambiente agradável e reconfortante, todo de madeira clara e com luzes amareladas que traziam uma sensação de aconchego. Meu coração pareceu transbordar momentaneamente, ao ver tantas prateleiras com tantos livros dispostos. A última vez que eu vira um local com tantos livros fora na última vez em que eu estivera na biblioteca de Hogwarts. Parecia ter sido há um século...
Percorri por alguns minutos as prateleiras, sem um foco específico. Era bom, às vezes, simplesmente se afogar nas palavras, em todas as possibilidades que as páginas amareladas poderiam trazer. Eu estava tão imersa que mal reparei quando esbarrei em alguém. Mais especificamente, em Percy Jackson.
– Percy?
– Hermione?
Encaramos um ao outro em absoluta incredulidade por alguns segundos, antes de eu irromper em felicidade e alívio e correr para abraçá-lo. Parecia fazer tanto tempo desde que eu vira pela última vez alguém de meu grupo, que agora eu nem ao menos conseguia acreditar que encontraria de modo tão coincidental.
Separamos-nos do abraço, não antes de eu notar que o aroma dele permanecia o mesmo que ficara impregnado em minhas roupas na madrugada do meu aniversário. Senti meu rosto esquentar.
– Onde estão os outros? – perguntei.
Percy deu de ombros. Seu olhar possuía um rastro de confusão tão nítido quanto o meu.
– Sei lá – murmurou ele, ainda com as mãos próximas de minha cintura, como se, a seu ver, eu pudesse desaparecer a qualquer segundo. – Eu nem sei direito o que está acontecendo.
– Também está acontecendo com você? O negócio de ficar dormindo e acordando de sonhos estranhos sem ter a mínima noção de qualquer coisa?
Ele assentiu, sério. Havia pequenas olheiras em volta de seus olhos claros, ressaltados pela pele branca. Mencionei a Percy que eu chegara a reencontrar Annabeth, entre dois dos momentos em que eu dormira, logo depois a perdendo.
– Isso aconteceu comigo e Thalia – disse Percy. – Mas no meio tempo em que conseguimos nos encontrar, marcamos de tentar nos encontrar no Aquário daqui de Baltimore.
– Ok – falei – isso é bom. Talvez nós consigamos encontrá-los. Só que... tenta não escapar de mim, tudo bem? Não sei se eu aguentaria perder de vista outra pessoa.
Percy sorriu e afagou um de meus ombros.
– Hermione, você sabe que tem alguém nos controlando com tudo isso, certo? – lancei a ele um olhar que apenas dizia “obviamente”. – Tem alguma ideia?
– Até que tenho – respondi. Era uma quase certeza, na realidade; eu iria provar a mim mesma ainda aqui, na Ivy Bookstore. – Durante os intervalos entre cada momento de sono, acabei parando em alguns lugares da cidade um tanto relevantes para a missão. Mas não sei se ainda devo arriscar um palpite do que está causando tudo isso a nós.
Eu e Percy percorríamos a livraria, sem exatamente saber o que estávamos fazendo lá. Eu sabia que tinha de encontrar o que estava no bilhete – a Terra dos Sonhos, de NG, 17-20 –, mas até agora eu não havia encontrado resultados.
– A propósito – voltei a falar – o que trouxe você aqui, Percy? Não deve ter sido uma coincidência.
– Estive andando por Baltimore também, quando não estava dormindo – disse ele. – A cada vez que eu acordava, eu estava em um lugar diferente, mas aos poucos fui encontrando... pistas. E sempre havia um homem, que por alguma razão parecia ser o cara... certo, entende? Eu nunca o alcançava, mas ele sempre estava lá, parecendo me observar.
– Ele por acaso chegou a aparecer em seus sonhos? – Percy balançou a cabeça negativamente. – Era negro e careca? – Ele negou, outra vez. – Como ele era?
Percy balançou os ombros outra vez, franzindo os lábios, como se tentasse se lembrar.
– Ele era branco, isso eu sei. Cabelos castanhos, devia ter uns quarenta anos.
– Olhos azuis? Barba para fazer?
– Não cheguei a reparar. Ele sempre parecia distante.
Suspirei. Ainda assim, devia ser o mesmo homem, o misterioso. Tinha de ser ele.
– Mas enfim – disse Percy. Colocou uma das mãos no bolso da jaqueta e tirou de lá dois pedaços de papel branco, dobrados como bilhetes – só queria dizer que essas foram as pistas que eu encontrei. E tenho uma sensação muito forte de que esses recados foram escritos pelo tal homem.
Arranquei-os de sua mão, apressando-me para abrir as pequenas folhas. A caligrafia era a mesma e uma das mensagens era a mesma destinada a mim – Falls Road, 6080, o endereço em que estávamos agora. A outra pista era diferente, porém ainda tinha uma mensagem tão vaga e abreviada quanto a minha.
F451, de RB.
Ainda assim, eu entendi a pista de Percy. Estávamos em uma livraria; era um título. O fato de eu já ter lido tal título facilitava as coisas, o que me deixou aliviada.
Tirei os meus papéis do bolso e deixei que Percy os lessem. Ele franziu as sobrancelhas, obviamente não entendendo o que as palavras dirigidas a mim queriam dizer.
Agarrei-o, então, pelo pulso e puxei-o pelos corredores de estantes. Meu corpo estava em êxtase, dominado pela ansiedade e adrenalina, ao chegarmos à prateleira correta. Percy parecia estar confuso.
Dei uma breve examinada pelos livros dispostos, puxando, segundos mais tarde, um título em específico. Coloquei-o nas mãos de Percy.
– Fahrenheit 451, de Ray Bradbury – disse ele. Abriu o livro e folheoou-o rapidamente, suas sobrancelhas se franzindo. – Ok. Encontramos o dito cujo, mas eu ainda não entendi a razão.
Encolhi os ombros.
– Também não sei – murmurei. – Ainda não sei. Já é um começo, de qualquer forma.
– É, mas a gente não pode ficar só presos ao começo, Hermione.
Eu não soube como responder. Permaneci encarando as prateleiras, de costas para Percy. Sentia o olhar dele preso em minha nuca, e por um breve instante um silêncio constrangedor pairou no ar, com as lembranças da noite do meu aniversário querendo voltar a inundar minhas memórias. Lembrei-me do gosto de seus lábios.
Pigarreei e voltei a me pronunciar:
– É, eu sei. Só... tente encontrar algo de relevante nesse livro. Eu ainda tenho que descobrir o que a “terra dos sonhos” de minha pista quer dizer.
Ele apenas assentiu, finalmente desviando o olhar para tornar a observar as páginas.
– “Segunda parte: A peneira e a areia” – disse Percy de repente. Virei-me para olhá-lo, sem entender, e só então percebi que ele estava lendo passagens do livro. Virou alguma folhas. – “E quanto mais rápido ele despejava, mais rápido a areia passava pela peneira, silvando de calor. Suas mãos estavam cansadas, a areia fervia, a peneira estava vazia. Sentado ali, em pleno mês de julho, em total silêncio, sentiu as lágrimas lhe escorrerem pela face”.
Percy tornou a me observar, baixando o livro, as sobrancelhas erguidas, em uma quieta confusão. Crispei os lábios, silenciosamente dizendo-lhe que não sabia o que tal passagem poderia ter de importante. Ainda assim, falava de areia, e areia parecia ser tudo a que estávamos agora conectados.
Suas mãos ergueram o livro novamente à altura de seus olhos, conforme seus dedos viravam outras páginas ativamente. Aproximou-se de mim, apontando uma passagem da obra e dizendo em voz alta:
– Hermione, olhe isso. “A praia de Dover”. É um poema.
– O Mar da Fé... – murmurei, passando o olhar rapidamente por alguma das passagens, acompanhando o caminho que o dedo indicador de Percy traçava pelas linhas. – Vastas margens lúgubres, seixos desnudados do mundo... – seu dedo parou em cima de três palavras no fim do verso. – Terra de sonhos.
Nos entreolhamos em silêncio, como se uma faísca houvesse sido acendida entre nós dois.
– Tudo bem – disse ele. – Estamos no caminho certo. Mas o que tudo isso quer dizer? O que aquele homem quer dizer com tudo isso, com todas essas pistas para seguirmos? Será que é um enigma?
– Está tudo interligado. Tudo é areia, ou mar, ou os dois. Sonhos e sono também. Percy, acho que nós dois somos o mar. Totalmente no sentido literal, quero dizer, sendo filhos de Poseidon e tal. Rachel disse na profecia que os mundos se atariam pelas mãos do tridente.
Um silêncio breve se instalou, deixando-me inquieta e incomodada. Tudo se resumia à areia, à praia, à água, à terra dos sonhos que deveríamos encontrar. As mãos de Percy voltaram a folhear o livro, desta vez em um rápido movimento, de modo que segundos mais tarde ele mostrava a mim uma das últimas páginas.
– Há um personagem nesse livro chamado Granger – falou. Suspirei, sem nada a comentar.
– Acho que isso está ligado a Hipnos ou Tânatos – mudei suavemente de assunto. Percy ergueu as sobrancelhas. – Quer dizer, eles são a representação do sono e da morte, e eu encontrei uma caixa com areia e uma flor de papoula em frente a uma pintura dos dois. Talvez devemos encontrá-los, ou algo do tipo.
– Como você espera que encontremos Hipnos ou Tânatos? Não deve ser muito fácil... a não ser que procuremos em um cemitério ou alguma loja de colchões – a voz de Percy soou sarcástica. Revirei os olhos e ignorei seu comentário, mas não consegui impedir um sorriso.
– Ainda assim, a areia e a papoula não parecem fazer sentido.
Repentinamente, os olhos de Percy se arregalaram e sua boca se entreabriu, como se a realização de algo houvesse caído em sua cabeça como um estrondo.
– Meus deuses! – exclamou ele, levando uma mão aos cabelos. Fiquei com cara de ponto de interrogação. Percy arrancou os pedaços de papel de minha mão abruptamente.
– Terra dos Sonhos, 17-20, NG – leu-o e repetiu a mensagem para si mesmo diversas vezes. Eu ainda não sabia o que fazer. – Hermione, eu sei que você vai achar um tanto idiota, mas isso aqui é uma HQ.
– Tipo, um gibi? – perguntei, o cenho franzido, entre a confusão e a incredulidade.
–HQ – ele me corrigiu. Revirei os olhos outra vez. – Enfim! Não vou ficar discutindo isso com você – e pegou minha mão, arrastando-me para outra seção da livraria.
Desta vez foi Percy quem começou a avidamente procurar pelas prateleiras, manuseando as HQ’s do modo como eu fazia com livros – como um experiente, conhecendo tais objetos pedaço por pedaço, explorando-os. Não pude deixar de admirar tal coisa.
– Não sabia que você lia HQ’s – comentei. Percy deu de ombros, sem olhar para mim.
– Antes de eu descobrir ser um semideus, já fui um garoto nova-iorquino comum, Hermione – seus olhos pareceram brilhar ao encontrar o que ele queria. Passou a HQ com cuidado para mim.
Sandman, escrita por Neil Gaiman, dizia. Terra dos Sonhos. Compilava os volumes 17 a 20.
– Tudo faz sentido, não é? – disse ele.
Meu coração pareceu dar um salto.
– Sandman – continuou – o homem de areia.
– Como na música do Metallica que estava tocando no rádio quando enfentei as Fúrias. Enter Sandman. A figura folclórica cuja lenda se baseia em assoprar areia nos olhos de crianças para fazê-las dormir.
– Não sei em relação ao folclore em si – disse Percy – mas na HQ, pelo menos, Sandman também é conhecido como o Sonho.
– Ou Morfeu – minha voz completou a dele –, cujo símbolo é a papoula. Filho de Hipnos. Percy, você disse uma vez que o conheceu. E que ele era um homem de aparência incerta, como se houvesse algo nele em constante transição. Isso explica a questão dele mudar de aparência, do negro careca ao cara de olhos azuis.
– Ele deve estar controlando a área.
– Mas por quê? – perguntei. – Qual é o objetivo de ficar nos fazendo dormir e acordar, dormir e acordar, presos em um ciclo contínuo?
– Talvez ele simplesmente esteja nos fazendo de bobos – Percy olhou ao redor e sua voz baixou de volume, como se percebesse que havia chegado em um assunto cauteloso. – Não podemos ter certeza de nada, Hermione, mas se de fato é Morfeu que está querendo nos atrapalhar, a coisa é séria. Ele tem poder não só de nos colocar para dormir, mas uma população inteira. Ele fez isso a toda Nova York na Batalha de Manhattan, enquanto lutávamos contra Cronos. Morfeu esteve ao lado de Cronos na Batalha, então é provável que...
A voz de Percy morreu aos poucos, como se ele não quisesse encarar tal possibilidade. Fechei os olhos e respirei fundo. Afaguei uma das mãos de Percy em um gesto de reconforto. Eu mesma também não queria encarar a realidade, mas era necessário.
– Que Morfeu esteja ao lado de Pallas? – questionei, no entanto ela soou retórica. – Também acho.
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