Segredos Submersos
26 Fuga, perguntas e respostas: parte I
Notas iniciais
Se eu pudesse resumir o que estava acontecendo comigo agora em apenas uma palavra, ela seria: caos.
Ou desespero.
Não sabia o quanto mais conseguiria aguentar, correndo desesperada pelas ruas daquela cidade movimentada. As pernas e todo o resto de meu corpo doíam, tanto pelos ferimentos da luta no cemitério como pelo esforço que tivera que suportar durante aquela fuga apressada.
Conseguia sentir o suor frio pingando em meu rosto. Meus pulmões pareciam começar a entrar em colapso. Fôlego era algo que não mais existia dentro de mim, mas eu ainda permanecia a correr. Era uma questão de vida ou morte, dissera Annabel Lee, antes de soltar minha mão e ser consumida pelo mesmo fogo cuja fumaça agora fechava meu tórax.
Eu estava próxima do centro da cidade. Se olhasse para trás, não era mais capaz de ver a fumaça e o incêndio que devorava a casa em que estive presa, muito menos gente como William Wilson em meu encalço, querendo me matar a qualquer custo. Eu já os despistara e aquela prisão decrépita há muito ficara para trás, mas eu não queria correr o risco.
Não quando eu sabia que qualquer erro poderia levar a outras conclusões ainda mais desastrosas. Não igual a vez em que não prestei atenção ao homem que nos seguia pelas sombras – William Wilson, no museu de Edgar Allan Poe (quanta ironia...), na lanchonete – e acabei por ser sequestrada por uma simples falta de cuidado.
A calçada em que corria estava lotada de pedestres, a vida continuava e o mundo seguia adiante. Alguns pareciam ficar assustados e buscavam se desviar de mim ao me ver passar, outros pareciam ficar assustados quando eu esbarrava neles, outros simplesmente me xingavam quando tal coisa acontecia. Porém, no geral, a maioria buscava me ignorar.
Se pudesse me concentrar o suficiente e se não estivesse com outras prioridades em mente – como, por exemplo, não morrer –, eu teria parado e contemplado a situação. Diria bastante sobre o conceito de natureza humana.
Eu não sentia mais meu corpo propriamente, as pernas pareciam se movimentar por puro instinto. Se fosse de modo consciente, há muito eu já teria desistido. A dor, o cansaço e a sensação de meus pulmões estarem se autodestruindo eram apenas fatores extras.
De algum modo, consegui desviar do resto das pessoas na calçada – outras apenas me olhavam com ar de curiosidade e cochichavam entre si – e sem com que eu pudesse pensar muito, vi-me em um parque.
Meus pés logo sentiram a diferença entre as superfícies do chão; do cimento e asfalto para a grama fofa. Em um instante, minhas pernas pararam. Os joelhos fraquejaram e eu caí.
(Aquele era um lindo parque.)
Tossi, vomitei as refeições magras que tivera e meu próprio corpo empurrou-me ao chão, fazendo-me cair deitada. A grama fez cócegas em meu rosto.
(As árvores refletiam que estávamos próximos do fim de verão.)
Perdi a consciência ali mesmo.
Mas não antes de ver um vulto aproximar-se de meu corpo e virar-me de barriga para cima. Um raio de sol veio ao meu olho. Pensei em Apolo e sua minivan.
Com a visão fraca e embaçada, tentei olhar o rosto do vulto que agora me olhava de cima. Não pude ver suas feições, mas reparei que sua pele era negra. E era um homem.
Segundos antes de desmaiar, tive a impressão que esse homem possuía pernas de bode.
Por alguma razão, não me importei.
Dois dias antes
O homem de cabelos e olhos castanhos me encarava, parado próximo à porta fechada.
Eu não retribuía o olhar. Preferi ficar fitando a bandeja com o prato de pão – desta vez com queijo e presunto, o que particularmente achei bondoso da parte deles em me dar – e o copo d’água à minha frente.
Eu estava sentada e minhas costas apoiadas na parede do ático da casa aos pedaços. Esfreguei os pulsos antes de me inclinar para a frente afim de pegar a bandeja, as correntes já haviam começado a arranhá-los.
O silêncio parecia nos sufocar, mas eu não queria falar com ele. Era a primeira vez que o via em minha vida.
– Foi Annabel quem veio trazer a comida da última vez, não é? – foi ele quem quebrou o silêncio. Apenas assenti, reparando em sua voz um sotaque inglês. Ele também assentiu, sem falar muita coisa.
Aparentava ter falado aquilo apenas para jogar papo fora. Por mais que, assim como Annabel Lee e William Wilson, possuísse aquele semblante tranquilo, perturbador e simultaneamente charmoso, o homem parecia estar achando aquele momento tão desconfortável quanto eu.
– Talvez não seja sempre ela que traga sua comida – ele voltou a comentar. Novamente, limitei-me a concordar com a cabeça. Não falei nada, por mais que houvesse muita coisa a qual eu quisesse falar. Muitas perguntas a fazer.
Mais silêncio, que estendeu-se por alguns minutos.
– Você tem alguma ideia de quanto tempo já se passou lá fora, menina?
Fiz que não.
– Você sabe ao menos onde está, senhorita?
Negativo, outra vez.
– Gostaria de saber?
Ergui meus olhos em surpresa e encontrei os dele ainda me fitando. O homem de cabelos castanhos andou em direção a mim, suas pernas longas e esguias dando passos largos, e parou a poucos metros à minha frente. Balancei a cabeça afirmativamente.
Ergueu as sobrancelhas e seus lábios formaram uma tênua linha.
– Tenho receio que por enquanto você não precisa saber em detalhes – meu coração afundou. – Mas, mais tarde, seria importante sim. Facilitaria as coisas, para você pelo menos.
Não entendi de imediato. Sua frase dava a impressão que, algum dia, ele contaria essas informações. Mas por que, sendo que fora a equipe dele que me sequestrara e me mantia presa? Por que ele facilitaria as coisas para mim?
Pensei na última vez em que Annabel Lee apareceu, provavelmente algumas horas atrás, e em como ela pegou minha faca e varinha e as deixou a meu alcance, fazendo sinal para que eu não dissesse a ninguém. Poderiam eles estar me ajudando? Mas não fazia o menor sentido, senão não haveria razão para me capturarem, sendo que o chefe deles queria-me morta em um futuro próximo.
(A não ser que...)
Minha cabeça voltou a doer.
– Por enquanto, saiba que – a voz dele interrompeu meus pensamentos –, não se passou tanto tempo assim. E você talvez não esteja tão longe de seus amigos.
Eu agora prestava extrema atenção no que ele dizia. Uma pontada de esperança me atingiu por um breve instante.
– Se você quer as respostas – o homem se ajoelhou à minha frente, assim como William Wilson fizera. Porém, ao contrário dos olhos azuis gélidos de William, os olhos castanhos daquele cara pareciam ser quentes. Mais receptivos. Ainda assim ele me encarava com a mesma intensidade do anterior –, você deveria ler nas entrelinhas.
– Não entendo – minha voz soou rouca.
– Hermione – ele ter chamado-me pelo primeiro nome fez-me estremecer –, então aí o problema é seu. Nós já estamos dando as pistas, faz tempo. Meu chefe adora esse tipo de coisa, esse tipo de jogo. Sem pistas, tudo isso seria tão chato para ele! O chefe insistiu em que fizéssemos isso. Não é você quem adora decifrar esse tipo de enigma?
– Não quando eu nem sei qual é o enigma escondido. Não quando eu não sei o que devo descobrir a partir das pistas. Diga... diga a seu chefe que o enigma é muito vago. O que ele quer que eu descubra pode ser qualquer coisa, desde sua identidade à quantas estrelas existem no universo.
O homem lambeu os lábios, parecendo sentir um misto de desapontamento e irritação.
– Sabe como é, o chefe é um tanto egocêntrico – pronunciou-se novamente. – Está aí algo que pode levá-la a uma possível resposta de qual seria o enigma. E ele gosta de pensar bastante em fazer com que as circunstâncias das pistas e do enigma em si estejam interligadas.
O de cabelos castanhos aquietou-se momentaneamente, como se esperasse que eu dissesse algo a mais. Não respondi, apenas permaneci a fitá-lo. Como William e Annabel, aparentava ter entre trinta e quarenta anos. Charmoso, possuía um quê de atraente. Thalia teria gostado de sua escolha de guarda-roupa. No bolso de seus jeans escuros havia uma varinha. Outro bruxo infiltrado com os Olimpianos. Essa observação trouxe-me ainda mais dúvidas.
Ele levantou e voltou à porta.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – disse eu repentinamente. A conversa ainda não havia acabado, eu queria ouvir mais. Necessitava ouvir mais, se algum dia quisesse sair daquele lugar.
– Tecnicamente você acabou de fazer uma, mas vá em frente.
– Qual é seu nome? – eu suspeitava o estilo que seu nome seguiria, considerando os nomes de Annabel e William, mas preferia confirmar.
Ele mordeu o lábio inferior e olhou-me com as sobrancelhas levantadas. Parecia reprimir um sorriso. Hesitou.
– Auguste Dupin – disse finalmente.
– Mas... este não é o seu nome verdadeiro, não é, Dupin? Assim como William Wilson e Annabel Lee.
– Claro que não é. É só que... o chefe gosta de codinomes. Alimenta a fome de ficar fazendo pistas para suas vítimas.
– E estas seriam partes das pistas dirigidas à mim?
Dupin não respondeu, mas eu soube que sim. Voltou a se dirigir à porta, dando as costas para mim.
– De agora em diante a comida será servida a cada seis horas – mudou de assunto.
– Outra coisa, Dupin! – chamei-o novamente, trazendo-o de volta ao assunto. Ele parou, porém desta vez permaneceu de costas.
– Sim?
– De todos os escritores a quem seu chefe poderia fazer referência ao escolher o codinome de seus servos, por que Edgar Allan Poe?
Auguste Dupin girou em seus calcanhares, seus coturnos arrastando no chão de madeira, vendo-me de frente outra vez.
– Você deveria tentar ler nas entrelinhas, Hermione.
Algo bom naquele homem ter dito o intervalo de tempo em que a comida seria trazida era que pelo menos eu era capaz de ter uma noção das horas que passavam.
Após nossa inicial conversa, ele apareceu mais três vezes, o que já totalizava dezoito horas desde sua primeira visita. Por mais que me ajudasse a ter uma noção do tempo, ainda não contava os momentos em que fiquei desacordada, antes e depois de conversar com William Wilson e Annabel Lee.
Não soube dizer o porquê, mas aos poucos fui sentindo-me mais confortável para falar com ele. A hesitação inicial não era mais a mesma, e por um momento senti culpada. Como se aquilo estivesse errado. Eu era uma prisioneira, então por que ele me tratava tão bem? Por que Annabel, em primeiro lugar, permitiu que eu voltasse a ter porte de minhas armas, mesmo que fosse obviamente contra o que seu chefe pedia?
Eu esperava que Auguste Dupin me tratasse como lixo assim como Wilson, mas ocorreu o contrário. Não que eu gozasse de privilégios – eu ainda comia como cachorro e estava acorrentada – todavia ele me tratava com uma grande decência.
(E onde estariam Harry, Ron, Annabeth, Percy, Thalia e Nico? Com certeza me procurando. Tentei imaginá-los na situação em que estariam; o desespero e a urgência ao ver a missão mudar tão drasticamente de rumo com o sequestro de um dos membros, e fiquei surpresa ao perceber que não conseguia pensar nisso.)
Foi na terceira vinda de Dupin, quando meu corpo já estava relativamente melhor bem como minha sanidade mental, que eu soube.
Nesta visita que as coisas mudaram. Ele deixou de jogar para mim apenas dicas sutis sobre o que poderia acontecer comigo, o que me trazia cada vez mais dúvidas, e finalmente resolveu ser direto.
– É o seguinte, moça – seu tom de voz diminuíra drasticamente. Voltara a se ajoelhar em minha frente. – Você já deveria estar se perguntando o porquê de eu estar sendo legal e não estar tratando-a do mesmo modo que o Wilson.
Assenti fervorosamente, o que fez com que por um instante minha cabeça girasse.
– E também o porquê de Annabel ter dado suas armas.
Dupin fez uma pausa. Involuntariamente segurei a respiração.
– Não posso contá-la tudo – olhou ao redor, certificando a si mesmo que ninguém mais além de nós estaria ouvindo –, porque traria muitos riscos, principalmente a mim. Mas há algo que necessita saber: você e seus amigos correm perigo.
– Eu meio que já sabia disso – respondi. Ele revirou os olhos e abanou o ar.
– Não pense que o exílio de Poseidon é a única coisa importante para você. Talvez seja a principal, mas um evento primário sempre está rodeado de outros eventos menores, secundários, mas ainda peças chaves para as consequências que o primário sofre. Significa que se, além de não resolver a coisa com os deuses, alguém não lidar com o meu chefe, as consequências virão.
O chefe de Auguste, Annabel e William era a peça principal do desastre que poderia surgir, com o exílio de meu pai culminado pelo mundo bruxo colidindo com o olimpiano. A perspectiva não estava nada boa.
– Por que você não me diz quem é seu chefe, então? – perguntei, levemente irritada.
– Receio que terá que descobrir isso de outra forma.
– Por quê? – minha voz permanecia um murmúrio, ainda assim exasperado.
– Porque é assim que as coisas têm de ser! É o destino, que saco! Eu gostaria de poder ajudar mais, Hermione, mas não é assim que as coisas estão funcionando. Eu realmente não posso.
(Destino?)
Calei-me, bufando e encarando seus olhos castanhos.
– Isso não respondeu o porquê de você estar me ajudando. Quer dizer, agradeço por ter informado o quão condenada a realidade está, mas não explica as suas razões ou as de Annabel. Se você está ao lado do seu chefe, então por que me conta isso? Se ele quer ver-me morta e possivelmente dominar o caos ou algo do tipo.
Dupin esfregou o rosto.
– Quem disse que estou ao lado do meu chefe?
Minha boca abriu mas não conseguiu formular uma resposta.
Só porque ele estava subordinado a um sistema, não significava que o aprovava.
A intensidade a qual nos encarávamos era imensa. Não soube como explicar, mas tive vontade de cuspir na cara dele como cuspira na de William Wilson. Mais por frustração do que raiva.
Alguém bateu na porta – toc, toc, toc – e a discussão acabou. Dupin levantou e afastou-se alguns passos de mim.
– Entre – disse ele, um tanto tensionado.
Entrou no cômodo timidamente uma moça, bonita, negra e mais jovem do que Dupin, porém mais velha do que eu. Os ombros do homem relaxaram ao vê-la e pela boca soltou a respiração.
Ela apresentou-se como Marie (não disse o sobrenome, mas eu não me surpreenderia se por acaso fosse Roget) e falou para o quarto, sem se focar diretamente em mim ou em Dupin.
– Hm... ele quer vê-la.
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