Segredos Ilícitos
14 Capítulo 14 — Pecado
Confesso que passei o restante do dia pensando no que Tracy queria dizer com toda aquela conversa e descrição. Seu constrangimento ao se referir a forma de gerar filhos me acabou atiçando ainda mais minha curiosidade pelo fato de nunca tê-la visto daquela maneira.
Eu tinha que encontrá-la após o jantar e as horas estavam contra mim, pois se arrastavam lentamente como se brincassem com minha ansiedade em saber. Por sorte, o jantar não se estendeu tanto quanto costumava, pois o rei e Derek pareciam aflitos com algumas questões que debatiam de maneira discreta para que poucos entendessem e eu não era uma dessas pessoas. Pouco menos de vinte minutos após o início daquela refeição, eles dois já haviam terminado, se desculpado por não poderem ficar mais tempo e partido para se reunirem com mais membros importantes.
A rainha ainda tentou passar um ar mais tranquilo, após a saída do filho e do marido. Conversou com Myrella sobre a vida no campo e como era a região onde ela vivia com seu marido por mais alguns minutos, mas a inquietação estava evidente nos olhos da rainha e logo ela se desculpa para se retirar também. Tracy não fazia questão de estar ali e assim que teve oportunidade também partiu, o que me deixou ainda mais agitada, mesmo que eu não quisesse mostrar isso a Myrella, que permanecia degustando do vinho.
— Vamos, Alyssa. Acredito que já esteja exausta — falei de forma natural, para conseguir sair sem que percebessem o quanto eu queria estar longe dali.
Alyssa apenas afirmou e se levantou para me acompanhar enquanto Myrella e seu marido se levantavam uma vez mais para me cumprimentar.
No dia que caminhei com Alyssa pelo castelo, tratei de memorizar os caminhos daquela enorme estrutura para não me perder mais e isso me fez lembrar que a biblioteca estava do lado oposto de meu quarto e Tracy já deveria estar à minha espera.
— Alyssa, pode ir dormir. Eu combinei de encontrar Tracy para conversarmos na biblioteca.
— Oh, você quer companhia? — perguntou ela, e pensei se seria uma boa ideia. Até pensei em perguntar se Alyssa sabia algo sobre essa história da concepção de um filho, porém se ela soubesse de qualquer coisa a mais do que eu já teria me contado, e isso me fez questionar se seria uma boa ideia que ela estivesse presente quando Tracy explicasse.
No entanto, eu também poderia falar depois, já que a expressão de cansaço era completamente evidente nos olhos de minha amiga e eu poderia jurar que eles imploravam para que fôssemos para cama.
— Não, está tudo bem. Depois eu conto o que conversamos.
Ainda que ela estivesse exausta, parecia preocupada. Quase tentou me impedir. Porém se deteve, talvez se recordando que Tracy era a princesa e minha cunhada. Por isso não seria perigosa. Então afirmou e partiu, permitindo que eu partisse também.
Depois de um certo horário o castelo já começava a ter um aspecto mais sombrio, pois a iluminação fraca dos archotes nas paredes só iluminavam uma pequena quantidade de espaço, ainda assim era possível ver o caminho a frente e a biblioteca ao final no extenso corredor.
Tracy já estava lá, pois encontrei a porta entreaberta e vi a luz fraca de lamparina em uma das mesas ao fundo. A princesa saiu de um dos corredores com alguns livros entre seus braços, se dirigindo ao local iluminado. Ela me deu um sorriso amigável quando viu minha aproximação.
— E então? — falei assim que me sentei ali para poder conversarmos. Tracy abriu um dos livros que antes trazia junto à pilha e passou a folheá-lo em busca de algo. Sua cabeça estava abaixada como se quisesse esconder a face nas páginas. — Tracy?
Sem me olhar, ela fez um som nasal ainda mantendo seu foco nas páginas. Pigarreei para ver se pelo menos assim teria sua atenção, no entanto a tentativa foi em vão.
— Tracy, parece desconfortável. — Ela ergueu seu corpo finalmente para recostar as costas na cadeira. Passou suas mãos pelos longos cabelos, torcendo-os até que formassem um coque no alto de sua cabeça, libertando seu rosto para eu ver o quão vermelha ela estava naquele instante. A luz era fraca, mas a cor de suas bochechas não escondia seu constrangimento. — Isso é novo.
Ela suspirou enquanto tamborilava os dedos na mesa, olhando para a janela dessa vez. Em um momento seus lábios se abriram como se finalmente ela fosse falar algo, porém se fecharam em seguida.
— Acho melhor perguntar a outra pessoa. Você parece que vai ter um ataque.
— Ti… — ela finalmente falou. Sua voz saiu como um sussurro e seus olhos vieram até mim. — Eu saberia explicar isso a qualquer outra pessoa, como já fiz, mas você é diferente. Não há como dizer sem te assustar, porque todas as formas em minha cabeça são realmente apavorantes.
— Tracy, já está me assustando...
— Não é que seja ruim o tempo todo, é que pode ser no início e depois fica melhor. Dependendo do seu gosto. — Ela encheu as bochechas ao perceber estar se enrolando e deu um suspiro longo. Seu corpo se mexia ao ritmo de suas pernas e era claro o quanto estava agitada. — Tudo bem.
Ela passou as mãos na face para limpar um possível suor e virou outra página do livro, virando-o para mim. Havia duas pinturas ali, ambas nuas e quase idênticas. Porém havia pequenas coisas que as tornavam distintas de certa forma. A mulher tinha os ombros estreitos e o quadris ligeiramente largos com coxas volumosas. Sua cintura fina parecia seguir o desenho de um instrumento de cordas e os seios pequenos estavam completamente à mostra. Seus ombros tinham uma largura significativa para disfarçar os quadris e coxas criando assim um equilíbrio perfeito em sua forma. Sua virilha também estava à mostra, enquanto os pelos seguiam um formato triangular, se perdendo em sua intimidade.
Já o homem tinha ombros mais largos que suas ancas. Um peitoral grande e as costas também largas seguindo seus braços. Não tinha a mesma curvatura da mulher na cintura, pois o seu corpo seguia uma linha reta. O abdômen também era diferente do dela, pois enquanto o dela era liso, o dele tinha curvaturas que apontavam para sua genitália. As coxas pareciam tão grossas quanto seus braços e mesmo que fosse uma pintura simples, ele tinha uma quantidade muito maior de pelos em todo seu corpo e principalmente em sua intimidade. Diferente da mulher, ele não tinha seios, mas tinha algo estranho entre suas pernas.
— Isso é normal? Ele está bem? — Apontei para aquele membro e Tracy assentiu parecendo mais relaxada. — Todos os homens são assim?
— São. — Mais uma vez ela suspirou. — E… homens e mulheres se unem com isso para gerar filhos.
— Unem… como? — perguntei tentando imaginar aquilo. Tracy coçou a cabeça, tornando a ficar corada.
— Eles… introduzem na intimidade da mulher.
Meus olhos se arregalaram naquele instante e tentei imaginar onde exatamente aquilo iria. Passei os olhos de uma imagem para outra por diversas vezes enquanto começava a perder o ar. Pensei por um instante sobre minha própria intimidade e cheguei a abertura entre minhas pernas, que deveria ser onde aquilo seria introduzido.
— Parece doloroso…
— É relativo. Algumas mulheres dizem que sentiram dor na primeira vez e outras que só perceberam quando viram o sangue.
— Sangue?! — exclamei, levantando-me bruscamente da cadeira apavorada.
— Ti, calma. — Ela se levantou junto. — Não é nada muito grande.
— Como não, Tracy? Você acaba de dizer que vão tirar sangue de mim e acha isso normal? — Senti o ar me faltar. — Isso acontece para se ter filhos? Minha mãe sangrou para me ter? Que coisa horrível.
— Ti, é apenas para romper o hímen só acontece uma vez, e depois passa a ser prazeroso.
Ela tinha as mãos erguidas, sua voz era tranquila para tentar me acalmar, e seus olhos, por mais que estivessem perplexos, pareciam compreensivos. Eu ainda me sentia apavorada ao entender o que aconteceria quando me deitasse com Derek pela primeira vez, porque se bem me lembrava da conversa que iniciou aquela dúvida, tudo começaria na cama.
Passei a caminhar de um lado a outro para tentar organizar meus pensamentos e não imaginar nada horrendo.
— Ti… — Tracy me chamou, enquanto eu ainda pensava comigo mesmo sobre a conversa constrangedora e entendia o motivo dela relutar tanto para me contar. — Ti.
Comecei a pensar na crueldade de uma mãe por não contar a sua filha o que a esperava depois do sim no altar, e na mesma crueldade que haviam feito com ela também. Isso deveria ser passado de geração em geração, e as pobres garotas acabavam tendo a dolorosa experiência do sangue na noite que deveria ser perfeita para elas.
— Ti? — Tracy! A voz da princesa me fez questionar a forma como ela deve ter descoberto aquilo e isso me fez parar encarando-a de maneira duvidosa.
— Você… — Meus olhos desceram por seu corpo tentando imaginar como ela seria embaixo de tanto tecido. — Gosta de garotas.
Ela franziu as sobrancelhas, sem entender o que eu quis dizer com aquela observação, então prossegui.
— Seu corpo… é como o dele?
Quando ela finalmente compreendeu onde eu queria chegar achou graça, pois deu um sorriso tentando segurar a gargalhada.
— Não, Ti. É como o seu.
— Mas se eles dois sentem prazer com esse… — Olhei a imagem novamente para tentar distinguir o que era aquilo, mas não havia definição certa para mim. — Troço. E você tem a mesma coisa que eu, como tem esse prazer?
— Existem diversos métodos de fornecer e receber prazer, e o troço nunca me proporcionou.
— Então você já… — questionei, mesmo sem saber como aquilo poderia se chamar, e ela assentiu. — Diversos métodos.
Apoiei as costas em uma das estantes ainda imaginando como seria esse prazer, ou qualquer outro que precisasse tocar aquela região.
— Não vou explicar essa parte — ela se pronunciou ao notar que eu estava em busca de respostas. — Acho que nem é bom que você se aprofunde em meu lado, se preocupe apenas em estar relaxada em sua noite de núpcias. Sei que De… — Ela se deteve por um instante engolindo em seco antes de seguir. — Sei que meu irmão fará de uma forma que ambos se sintam confortáveis.
— Não me sinto confortável no momento.
Ela revirou os olhos, parecendo arrependida de toda aquela conversa, seu corpo se aproximou para ela poder segurar meus ombros de forma amigável e me dar um doce sorriso. Realmente tentando me tranquilizar.
— Tenho certeza que dará tudo certo. — Olhei fundo em seus olhos e tentei pegar um pouco de sua energia positiva. — E se quiser conversar sobre esse e outros assuntos, pode me procurar.
Mordi o lábio, pois a questão dos diversos métodos ainda martelavam fortemente em minha cabeça. O olhar de Tracy se tornou vibrante com um misto de questionamento, mas segundos depois ela compreendeu e tentou sair de perto, negando com a cabeça.
— Por favor, Tracy. Eu vou morrer de curiosidade se não me contar, e a conversa já está pra lá de constrangedora. O que custa?
— Tianne, para quê quer saber? — Ela se deteve em meio a uma das prateleiras por onde tentou fugir de mim.
— Eu não sei, só queria entender como funciona para você.
— Diferente. — Ela tentou sair novamente de perto de mim, porém entrei em sua frente.
— Diferente como?
— Estranhamente diferente. — Suas mãos seguraram meus cotovelos tentando me tirar de sua frente, mas me mantive firme e também segurei seus braços. — Tianne.
Sua voz foi de reprovação, e minhas mãos não a soltavam de forma alguma, assim como as suas se cravaram em minha pele. Nossos olhares se prenderam um ao outro e usei isso para tentar convencê-la de me contar com o olhar mais comovente que poderia.
— Por favor.
Tracy fechou seus olhos, pressionando as pupilas em meio a um riso. Ela mordeu o lábio inferior com tanta força que pude ver o vermelho dele se intensificar. Suas mãos apertaram firmemente minha pele, fazendo meus dedos soltarem seus braços.
Ela me empurrou alguns centímetros até que meu corpo grudasse na grande estante de livros, então seu rosto se aproximou do meu e me proporcionou calafrios por todo corpo.
— Se eu pudesse tocá-la, você sentiria minhas mãos passearem por seu corpo, explorando cada canto seu para que eu pudesse conhecer suas fraquezas. — Engoli em seco com aquelas palavras, pois eu conseguia sentir aquilo mesmo que ela apenas descrevesse. — Poderia beijar todas as partes que te causam arrepios até que você explodisse em meus braços.
Ela me olhou profundamente nos olhos com tanto desejo que meu coração quase parou de bater naquele instante. Minha respiração não conseguia encontrar uma forma de sair enquanto eu sentia os olhos de Tracy invadirem minha alma, despindo-a por completo. Suas mãos se mantinham firmes em meus braços e eu já nem conseguia me manter em pé sozinha. Não demorou muito para minhas pernas cederem, e Tracy apertou firme meu corpo contra a estante para apoiar-me.
— Mas que merda — rosnou ela, com frustração. Segundos depois seus lábios já estavam em contato com o meu e seu beijo parecia algo completamente novo.
Tracy estava nervosa e tentava equilibrar aquilo com um pouco de doçura. Por mais que sua boca maltratasse a minha, era como se estivesse louca para não deixá-la. Ela levou minhas mãos para seu ombro e tratei de envolvê-la em um abraço apertando. Uma de suas mãos acariciou minhas costas enquanto a outra pressionou minha cintura. Eu não sabia o que fazer, e a sensação de estar novamente nos braços da mulher por quem estava apaixonada era a melhor que eu poderia sentir. Por essa razão deixei que ela me conduzisse e ensinasse cada toque.
Algo em minha cabeça gritava para me alertar do quão errada era aquela situação, e no mesmo instante eu já pensava em não sair dali. O calor que Tracy transmitia fazia com que eu me hipnotizasse em seu toque e desejasse por mais. Ignorei meu lado racional e aprofundei nosso beijo, me entregando por completo ao que já estava desejando há dias.
Em um momento Tracy parou aquele toque bruscamente, apenas para me puxar para longe das prateleiras. Ela me encostou na mesa ao fundo da biblioteca e me ajudou a sentar ali, tornando a atacar meus lábios com todo desejo de antes. Agora suas mãos apertavam cada centímetro de mim e sua boca intercalava dos meus lábios ao meu pescoço. Um arrepio ainda maior percorreu meu interior e se tornou algo mais intenso, fazendo-me desejar estar sem nada. A cada beijo que ela deixava em minha pele, eu queria ainda mais me aprofundar naquela sensação.
— Isso está errado — ela lamentou. — Mas eu quero tanto você.
Suas palavras me tiraram o pouco de ar que ainda havia em mim, e a sensação de bolhas apareceu em meu estômago. Era como se eu aguardasse aquelas palavras há tanto tempo. Segurei seu rosto com ternura e olhei em seus olhos iluminados pela fraca luz que nos rodeava para ter certeza que aquilo estava mesmo acontecendo, porque parecia que a qualquer momento eu seria acordada por Alyssa para um novo dia. Mas não era um sonho, e aproveitei para voltar a beijar os lábios que tanto desejei.
Dessa vez, Tracy estava mais carinhosa e manteve nosso contato visual enquanto me beijava com ternura. Ela tinha razão, suas mãos estavam tocando cada parte de mim como se estivessem em busca de algo, e em alguns momentos conseguiam arrancar gemidos de meus lábios que ela abafava com seus beijos. Suas mãos passaram a tentar abrir o espartilho de meu vestido, e um nervosismo maior subiu em mim, se misturando a adrenalina de estar sendo tocada por ela. No entanto, Tracy caiu em si e se afastou por completo dando-me, as costas para passar suas mãos pelo rosto de maneira nervosa.
— Derek.
Lembrar do príncipe também acendeu meus sentidos e o ar inundou todo meu organismo novamente. Um som de porta se abrindo nos fez levar os olhos para a porta e nos deparamos com Alyssa parada ali, completamente perplexa com o que vira. Agora meu coração estava disparado por dois motivos: o beijo e a descoberta dele.
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