Segredos Ilícitos

1 Capítulo 1 — Perspectivas


Aquela era a primeira vez que eu saía de Grimlee. Em todos os meus dezesseis anos de vida, o único lugar que conheci fora o meu reino natal, sem nunca por os pés em outro lugar, e eu me perguntava o motivo de meu pai nunca ter me deixado acompanhá-lo em suas viagens. Minha mãe sempre me dizia que haveria o momento certo para que me deixassem conhecer outros lugares, outros reinos. Assim como ela acompanhava o meu pai a diversos jantares políticos em outros reinos, eu acompanharia o meu marido.

E pelo visto, o momento certo já havia chegado.

Há duas semanas meu pai havia retornado de Savian, o segundo maior reino de Marloux. Grimlee ainda é um reino pequeno, mas durante o reinado de meu pai já havíamos crescido e prosperado muito. Ele era um excelente governante e sempre fazia acordos muito bons, e agora tentava alcançar acordos políticos com os reinos maiores. Eu o admirava muito e torcia para que meu irmão mais novo, Alexander, seguisse os passos dele. Mas Alex ainda era um bebê de dois anos, haveria muito tempo antes que ele herdasse o trono. Eu tinha duas irmãs mais velhas, Leah e Aysha, e as duas haviam conseguido bons casamentos e, consequentemente, bons acordos políticos.

Agora era a minha vez. Como eu disse antes, meu pai retornara de Savian há duas semanas. Ele estava radiante, animadíssimo, e mesmo ficando feliz por sua euforia eu não sabia o motivo que o levara a ficar tão empolgado. Começara dizendo que o jantar com o rei Argenus fora muito bom, que rendera ótimos resultados, e em um acordo excelente.

Eu estava noiva do príncipe Derek Millorana Semptus. Eu seria a futura rainha de Savian, uma das maiores potências de Marloux.

E lá estava eu, dentro de uma carruagem rumo a Savian, com frio na barriga e apertando os dedos nervosamente. Ao meu lado, minha dama dama e melhor amiga Alyssa acariciava meu ombro e sorria gentil, como se tentasse me passar coragem para enfrentar aquele compromisso. Eu não estava infeliz por me casar, eu sabia que em algum momento da minha vida isso aconteceria, mas eu estava com medo.

O que o príncipe pensaria de mim? Ele me acharia bonita? Ele iria gostar de mim? Ele se apaixonaria por mim? Era um casamento arranjado mas eu esperava que nós dois pudéssemos tirar vantagem disso e nos apaixonarmos. Meus pais, pelo menos, eram um casal muito apaixonado. E eu sempre fui muito otimista, acreditava que aconteceria o mesmo comigo. Era ruim demais ter esperanças?

— Se recomponha, princesa. Acho que estamos chegando — aconselhou Alyssa, de maneira gentil enquanto acariciava meus cabelos. Algumas pessoas achavam que Alyssa agia de maneira inapropriada comigo, mas nunca liguei. Crescemos juntas e, mais do que minha dama, era minha amiga. A família de Alyssa um dia fora nobre e rica, mas estavam falidos há muito tempo. Seu emprego como minha dama faziam seus pais terem esperanças de que ela encontraria um marido rico na corte, mas até agora não obtivera nenhum sucesso. Por motivos que eu nunca soube, os Velmon tinham má fama na corte.

— Como será que ele é? — perguntei, me controlando para não roer as unhas. É uma mania feia e inapropriada, sei disso, mas quando estou nervosa é a primeira coisa que tenho vontade de fazer.

— A senhorita tem medo de que ele seja um velho horroroso? — perguntou Alyssa, com um sorriso que indicava riso.

— Não! — exclamei, dando um tapa divertido nela. — Meu pai disse que ele tem apenas dezoito anos, então ele é jovem.

— Há muitos jovens feios, princesa — observou Alyssa divertida.

— Isso não me preocupa — neguei com a cabeça, suspirando. — O que me preocupa é a personalidade dele.

— Oh — assentiu. — Eu sei. No seu lugar eu também estaria assustada.

Crispei os lábios mas logo desfiz minha cara de preocupação, sorrindo otimista. Era melhor parar de criar uma imagem negativa de Derek na minha cabeça, afinal de contas eu ainda não o conhecia. Ficar com medo antes da hora era uma tolice.

— Acha que na corte de Savian você vai ter mais sorte? — perguntei a Alyssa, que me olhou confusa. — De encontrar um marido, quero dizer.

Alyssa era um pouco frustrada por ainda não ter casado. Ela e eu tínhamos a mesma idade, mas desde criança eu tinha perspectiva de um bom casamento, nunca precisei me preocupar. Alyssa nascera em uma antiga família nobre com o nome na lama, afogados em dívidas, que apostavam nela suas esperanças de ascender novamente aos antigos dias de glória. Eu sabia que era muita responsabilidade e ajudava como podia, mas até então não tivera sucesso.

— Não sei, princesa. Eu espero sinceramente que sim — Alyssa suspirou chateada.

— Não seja negativa — incentivei, colocando a mão sobre seu ombro. — Savian é conhecida por seus bailes. Aqui certamente vai conhecer um homem rico que vai salvar a condição da sua família.

Alyssa apertou os lábios e sorriu, na sua melhor tentativa de parecer confiante. Ela concordou com a cabeça e voltou seu olhar para a janela da carruagem, e ficamos em silêncio apenas observando o caminho e escutando o trotar dos cavalos na estrada.

Não sei como nem quando, mas adormeci no meio da viagem. Acordei com alguém me sacudindo pelo ombro, me assustando com a perspectiva de ser o príncipe ou até mesmo rei. Mas era apenas Alyssa.

— Nós chegamos, princesa — sussurrou. — Venha, vou arrumar o seu cabelo. Ele está péssimo.

Deixei que Alyssa me penteasse rapidamente dentro da carruagem, e mesmo sendo um trabalho rápido ficara bem feito. Adorava o trabalho dela, sempre era muito cuidadosa e detalhista, algumas vezes eu achava que ela com certeza seria uma princesa melhor do que eu.

Desci da carruagem com a ajuda do cocheiro, oferecendo-lhe um sorriso de agradecimento ao colocar meus pés no chão. Meus olhos se perderam na figura do palácio; mesmo que Grimlee fosse um lugar belíssimo, Savian com certeza merecia ser premiada pela arquitetura tão bem desenhada e as flores bem cuidadas. Era enorme, e eu tinha certeza que me perderia pelos corredores, mas não deixei de sorrir ao imaginar a estadia naquele lugar. Era simplesmente fabuloso.

Alguns passos me levaram diretamente para a família real, que me aguardava. Enquanto o resto da família permanecia parada, o príncipe veio nossa direção — Alyssa estava ao meu lado — e eu pude ver que era um dos rapazes mais bonitos que eu já conhecera e, pela expressão de Alyssa, ela pensava o mesmo.

Derek parou diante de nós tomou a mão de Alyssa nas suas, beijando-lhe as costas com suavidade e a mais pura educação.

— Você deve ser a princesa Tianne. Estou certo? — perguntou. Quase explodi em risos. — É um prazer conhece-la, é muito mais bela do que eu estava esperando.

Eu não sabia o que dizer. Alyssa ficara tão vermelha quanto os seus cabelos de fogo e apertou os lábios, olhando para mim sem saber o que dizer. Foi inevitável não deixar escapar um riso fraco dentre os meus lábios, negando com a cabeça.

— Sinto desapontá-lo, alteza... Mas a princesa Tianne sou eu — eu me apresentei, fazendo uma mesura respeitosa e graciosa. — É um prazer conhecê-lo.

Eu disse que Alyssa daria uma princesa melhor do que eu. Atrás de Derek pude ver uma moça deixando uma risada quase alta escapar dos lábios, tapando a boca para não fazer escândalo. Deduzi que fosse a princesa Astracyane; ouvi dizer que ela era irreverente demais para uma princesa. Observei seu rosto e constatei que ela era bonita, mesmo suas sardas pareciam completar sua aparência e seus olhos azuis vivos eram brilhantes e expressivos.

Era a filha mais velha do rei Argenus e ainda não era casada, e boatos corriam de que era ela mesma quem colocava todos os seus pretendentes para correr. Na idade dela, não ser casada era muito mal visto. Mas não acho que ela se importasse com isso.

Astracyane recebeu um olhar de censura da rainha Selyne, o que a fez forçar a tosse para disfarçar. Mas fora de forma tão cômica que tivesse certeza que fora para envergonhar ainda mais o irmão. Que, inclusive, olhava para mim e para Alyssa sem falar nada, vermelho como um pimentão.

— Eu... Ah, nossa, perdão. Eu me confundi — desculpou-se o príncipe, coçando a nuca sem jeito. — As duas são belas damas, então eu tive que arriscar.

Ele era gentil. Eu sabia que Alyssa era mais bem arrumada e tinha até seu caminhar era mais gracioso do que o meu. Eu não me incomodava, na realidade, Alyssa tinha essa natureza e muitas vezes eu a chamava de Fada, mas eu sabia que também sabia me portar. Mas ela tinha uma aura muito mais da realeza, sem nenhum esforço.

— Está tudo bem, senhor. Alyssa é uma bela jovem, eu entendo que tenha se confundido — tranquilizei-o.

— É melhor tentar novamente, certo? — ele falou simpático, pegando minha mão e beijando-a. — É um prazer conhecê-la, princesa Tianne.

Alyssa olhava o chão ser dizer uma única palavra. Acho que o fato do príncipe ter beijado sua mão havia deixado ela um pouco catatônica, mas era de se entender. Derek era realmente muito bonito.

~x~

O banquete de boas vindas parecia delicioso. É claro que Alyssa não sentara conosco para o jantar, mas estava por perto para atender minhas necessidades. Eu dissera a ela que ela poderia jantar, mas ela chegava a ser exagerada com suas tarefas. Percebi que ela olhava discretamente para o príncipe e algumas vezes ele fazia o mesmo, mas não comentei. Alyssa era bonita mesmo, o que eu poderia fazer?

— É uma honra tê-la em nossa casa, princesa Tianne — o rei me disse, fazendo-me sorrir e fazer uma mesura com a cabeça. — Seu pai falou coisas muito boas sobre você.

— Ele não exagerou. É realmente uma jovem adorável — elogiou-me a rainha.

— Eu acho que Derek prefere a dama... — a princesa Astracyane murmurou contra a taça de vinho, bebendo um gole da bebida.

— Astracyane! — sua mãe censurou.

— É Tracy — corrigiu, olhando-a com raiva ao colocar a taça de volta na mesa. — Você sabe que eu odeio esse nome. E eu só estava brincando quanto a confusão que eles fez entre as duas, é só isso — deu de ombros.

— Comporte-se — o rei pediu autoritário.

— Por quê? — Astracyane, ou Tracy como ela preferia, fingiu espanto. — Ela vai ser minha cunhada, mais cedo ou mais tarde ela vai saber que eu não tenho a cabeça no lugar.

— Ela só estava brincando, pai. Não seja rabugento — o príncipe Derek pediu simpático, em um tom de voz tão tranquilo que pareceu acalmar o ânimo de todos.

— Eu não me incomodo — sorri. — A princesa tem senso de humor, eu gosto disso. Me sinto mais à vontade.

— Pode me chamar de Tracy — falou, bebendo mais um gole de vinho. — Em troca eu posso te chamar só de Tianne? Ti? Anne? Eu gosto de apelidos — finalizou, colocando um pedaço de carne na boca.

Eu diria que a princesa tinha uma personalidade muito... Peculiar. Eu não conhecia nobres que se comportassem como ela, geralmente eram refinadas e dosavam em suas palavras, mas Tracy parecia ser ela mesma. O impressionante era que eu a achava elegante mesmo com sua língua desenfreada, ela era espontânea.

Sorri e concordei com a cabeça.

— É claro... Tracy — falei. — Bom, muitos me chamam de Anne. Se quiser...

— Então vai ser Ti — ela concluiu preguiçosamente, bebendo mais um gole de vinho antes de me lançar um olhar misterioso e um sorriso que, não sei por quê, me fez corar. Como se houvesse alguma malícia em seus lábios.

Derek e Tracy pareceram conversar pelo olhar, uma conversa que não entendi. O irmão olhou para ela e revirou os olhos, mas ela simplesmente deu de ombros e voltou a comer.

— É realmente uma pena que tenha chegado em um momento em que eu esteja tão ocupado, princesa — Derek retomou a conversa. — Estou ajudando meu pai com alguns assuntos do reino. Temo que amanhã não poderei lhe fazer companhia.

— Não se preocupe com isso — agitei a mão no ar, com descaso. — O herdeiro sempre tem responsabilidades. Logo será o rei.

— E você a rainha — pontuou o rei Argenus, arrancando-me um sorriso sem graça. Era óbvio que eu e Derek éramos noivos, mas ainda era estranho pensar nele como meu marido sendo que não o conhecia direito.

— Tracy poderá ser uma companhia agradável — a rainha Selyne ofereceu, fazendo com que Tracy olhasse para ela.

— Eu? Eu por quê? — perguntou confusa, apontando para si mesma.

— Logo vocês serão cunhadas. É bom que comecem a ter uma boa convivência — esclareceu a rainha. — Espero que se tornem amigas.

Tracy olhou de soslaio para a mãe, suspirando e assentindo com a cabeça. Por um momento me senti mal com a ideia de que poderia ser um estorvo na rotina da princesa, mas não sabia se seria certo simplesmente dispensá-la. Poderia parecer que eu não queria por perto, e na verdade eu estava ansiosa para conhecer a princesa que tanto falavam. Tracy parecia fascinante, embora fosse um péssimo exemplo na realeza.

— Tudo bem — Tracy concordou. — Ti, você gosta de arquearia?

Juntei as sobrancelhas.

— Hã... Nunca pratiquei.

— Eu posso ensinar — ofereceu Tracy, sorrindo daquela maneira outra vez. — Eu pratico já faz um tempo. Podemos treinar pela manhã, e terei o resto do dia para apresentar o palácio. Já que o seu noivo está dando desculpas para não fazer lhe fazer companhia — provocou o irmão. Derek olhou-a risonho; provavelmente aquela relação de provocações era comum entre eles.

— Responsabilidades de herdeiro, Tracy. Fique feliz por não ser você — brincou Derek.

— Agradeço todos os dias por ter nascido mulher — Tracy concordou, bebendo um grande gole de vinho. Soltou um som pelos lábios ao terminar sua taça, enchendo-a novamente. — Se eu fosse homem, essa vida terrível seria minha.

Prosseguimos o jantar e logo percebi que deveria ir aos meus aposentos, me banhar e então dormir. Mas não sabia onde era meus aposentos, e por isso Tracy se ofereceu para me levar.

— Não é longe do meu quarto, posso te mostrar o caminho — dissera.

Alyssa recebera um quarto ao lado do meu, e deixei que ela entrasse para conhecer seus aposentos antes de me ajudar com o banho. Tracy e eu entramos no meu quarto, e fiquei maravilhada ao ver a decoração detalhada, as cores e a organização, mesmo sendo uma princesa eu não conseguia deixar de me surpreender com Savian.

— Espero que goste do quarto — Tracy se jogou sentada na cama. — Mas sabe... Acho que todas essas flores e tons de rosa são bem a sua cara.

Sentei ao lado dela. Era estranho, mas eu já me sentia muito mais a vontade com Tracy do que com Derek.

— Ah é? Por quê? — perguntei.

Tracy sorriu e deu de ombros, olhando em volta.

— Você parece ser daquelas princesas muito menininha — provocou. Eu ri.

— Me pegou. Eu adoro coisas fofas — revelei, fingindo confessar um crime.

Tracy riu. E riu de verdade, o som do seu riso era contagiante e eu ri também. Ela era divertida e diferente, e de alguma forma isso me fazia gostar muito dela mesmo sem conhecê-la direito. Tracy fazia com que eu me sentisse tranquila ao seu lado, sem precisar ser formal o tempo todo, de uma maneira natural.

— É melhor eu ir — ela suspirou. — Sem acordo cedo pra treinar com o arco. Posso bater na sua porta amanhã? É bem cedo — advertiu.

Eu nunca havia conhecido uma princesa que treinasse arquearia, e estava curiosa para vê-la atirar flechas. Assenti com a cabeça.

— É claro! Estarei ansiosa para vê-la.

Tracy sorriu e se aproximou, me beijando demoradamente na bochecha. Arregalei os olhos e tenho certeza que corei, porque meu coração bateu forte. Sei que é ridículo ficar assim por causa de um beijo na bochecha, mas sei lá... O gesto de Tracy pareceu desconcertante, mas eu gostei dos seus lábios encostando no meu rosto.

— Até amanhã, Ti — sussurrou ao afastar os lábios do meu rosto, saindo e fechando a porta.

Fitei a porta por um longo tempo, mas logo me joguei na cama para observar a parte de cima da cama dossel. Tracy fazia eu me sentir a vontade, mas também me desconcertava. Era fácil de conversar, ao mesmo tempo em que era misteriosa. Além de ser uma princesa muito diferente, falava o que pensava e até mesmo sabia atirar com arco e flecha.

Eu queria conhecê-la melhor.