Segredos Ilícitos

18 Capítulo 18 — Invasão


Eu senti como se cada osso do meu corpo congelasse, me travando no chão, incapaz de me mover. Uma invasão?! Em todos os anos da minha vida, eu nunca havia presenciado algo do tipo. É claro que, como qualquer outro castelo, Grimlee tinha esconderijos e passagens secretas que eu sabia que serviam para o propósito de proteção e evacuação. Mas, quando eu era criança, Alyssa e eu apenas usamos os espaços para brincadeiras como esconde-esconde, ou quando nós jogávamos uma moeda para o alto para decidir quem seria o príncipe galante de nossas brincadeiras, que salvaria a donzela em perigo.

Em toda minha vida, eu nunca pensei que viveria uma situação real dessas.

— Por favor, não se afastem de mim, senhoritas! — pediu o guarda, empunhando a espada em posição defensiva. Olhei de olhos arregalados para o homem, em pânico. Se ele falhasse em nos proteger, morreria. E logo seria a nossa vez.

Eu só percebi que estava tremendo quando Alyssa segurou minha mão. Desviei meu olhar em sua direção; ela também estava assustada, mas mais controlada do que eu.

— Respire fundo — ela sussurrou, afagando minha mão. — Vai ficar tudo bem.

Engoli em seco e assenti. Eu precisava me acalmar e me esconder. O pânico não me ajudaria.

— Bem, e o que o senhor está fazendo? — trovejou a voz de Myrella. Embora houvesse autorismo em seu tom, era perceptível que ela estava apavorada. — Tire-nos daqui, imediatamente! Você sabe quem é ela? — Apontou na minha direção, e eu franzi o cenho. — Ela, seu palerma imbecil, é a noiva do seu príncipe e sua futura rainha! Exijo que nos tire daqui imediatamente.

Eu teria revirado os olhos, se não estivesse tão apavorada. Provavelmente teria replicado. Óbvio que Myrella não estava preocupada com minha vida, e sim com a sua própria, mas ela também sabia que a vida dela não valia tanto quanto a minha.

O guarda travou a mandíbula.

— Eu sei, senhorita — respondeu simplesmente, e lançou um olhar para mim. Engoli em seco, e ele suavizou seu olhar, anteriormente duro. — Vou protegê-la, vossa alteza. Apenas não se afaste, tudo bem? Vou levá-las a um local seguro.

Assenti, agarrando a mão de Alyssa. Eu me sentia mais forte e menos tensa envolvendo seus dedos nos meus.

— Obrigada. Seguiremos suas ordens.

Ele assentiu uma vez, e fez um sinal para que nós os seguíssemos. Os gritos e o som de espadas embrulhavam meu estômago, e eu apertei a mão de Alyssa com mais força, que respondeu aumentando também a intensidade do seu aperto contra meus dedos. Mas me forcei a dar um passo, depois outro, descongelando meus joelhos travados, embora eles estivessem trêmulos.

Eu não vou morrer. Nós não vamos morrer, eu comecei a repetir isso como um mantra, mexendo os lábios em silêncio.

Mas não demorou muito para que fôssemos encontradas pelo inimigo. Um homem, vestido em uma armadura de couro simples e desgastada, alto e largo, surgiu no corredor. Nosso protetor parou de andar, e eu percebi a tensão em seu rosto; ele estava preocupado. Mas não era medo de morrer, eu notei.

Era medo de falhar conosco.

— Ora, ora, olá belezinhas. — Ele passou a língua nos lábios, empunhando uma maça enorme, girando em uma única mão. O tamanho daquela coisa, sendo manuseada com tanta facilidade por um único homem, constatava a força descomunal que ele provavelmente possuía. Eu senti nojo da maneira que ele olhou para nós três, e dei um passo para trás, instintivamente me colocando na frente de Alyssa. Minha amiga parecia querer protestar e passar meu corpo para trás do seu, mas estava apavorada demais com um homem de dois metros nos olhando com malícia. — Três beldades como vocês não podem ficar sozinhas. — E riu, olhando na direção de nosso protetor. O guarda rangeu os dentes. — Um homem morto não pode proteger três lindas moças, pode?

Ele segurou a maça no ar e atacou, mas nosso protetor já estava preparado. Separando as pernas e travando os joelhos, ele aparou o ataque, embora com dificuldade devido ao peso da arma e a força do agressor. Girando, ele estocou na direção do inimigo, mirando sua barriga, mas o homem defendeu o golpe com facilidade.

Eu caminhei para trás, ainda com Alyssa atrás de mim, seguindo meus passos, e nós grudamos na parede. Myrella fez a mesma coisa, e estava de olhos fechados, parecendo rezar em voz baixa pelo movimento frenético dos seus lábios. Eu percebi que ela estava tremendo, não muito diferente de mim e de Alyssa.

Um fato caiu sobre minha cabeça: um deles sairia morto. E se fosse nosso protetor, seria a nossa vez. E pelo modo repulsivo que ele nos observara, eu sabia muito bem que não seria uma morte rápida. Não, ele tinha planos para nós. Planos asquerosos, e eu não gostava nem de imaginar quais.

O guarda, resistindo aos ataques corajosamente, voltou a usar suas habilidades para acertar um golpe com o cotovelo no queixo do nosso inimigo. Embora ele fosse alto, o guarda que nos protegia também era, embora fosse alguns bons centímetros mais baixo, e menos forte fisicamente. Mas ele era corajoso e persistente, também era habilidoso. O homem com quem lutava, eu percebi, não tinha o mesmo preparo para o combate. Ele compensava sua falta de habilidade com músculos e tamanho.

Mas, apesar disso, não durou muito. Nosso protetor aparou um de seus golpes, abrindo a defesa do inimigo, e no mesmo instante aproveitou para cravar a espada no fundo de sua garganta, puxando a lâmina de volta. Sangue jorrou para todos os lados e ele largou a maça, engasgando com o próprio sangue e levando as mãos ao ferimento. Ele caiu de joelhos e, com um golpe de misericórdia, o soldado o degolou.

Nós três gritamos, horrorizadas. Fechei os olhos instintivamente, como se isso me protegesse de ver o que eu já havia visto.

— Vamos! — o guarda gritou, sua voz parecendo cansada. — Não podemos ficar aqui.

Nós não discutimos — nem Myrella, que momentos atrás estava tão autoritária. Ela estava assustada demais para falar. Seguimos o soldado, nós quatro acelerando o ritmo, quase correndo. Precisei erguer minhas saias para não tropeçar nelas. Felizmente eu havia escolhido não usar anáguas naquele dia, o que facilitou para correr, mas Myrella não teve a mesma sorte. Ela se emaranhava nas anáguas, mas parecia firme no seu propósito de não ser deixada para trás para morrer.

À medida que o tempo passava, mais e mais rebeldes entraram no castelo. Nosso protetor já havia lutado com vários para nos proteger, e ao nosso redor nós víamos outros soldados lutarem bravamente, pessoas correndo para fugir. Pessoas morrerem — fossem inimigos, soldados ou pessoas inocentes que não tiveram sorte.

Eu nunca tinha visto ninguém morrer na minha frente. E só naquele dia, eu havia perdido as contas de quantos corpos eu vi estirados no chão. Um deles de um menino de cozinha, que não devia ter mais que dez anos. Os olhos vidrados do menino e seu corpo sem vida acabaram me fazendo vomitar, juntamente com lágrimas que começaram a encher meus olhos.

Era só uma criança. E ninguém havia se dignado a protegê-lo, por ser um plebeu.

Um menino. Uma criança.

— Princesa — a voz do soldado me chamou. Não havia qualquer carinho em sua voz, mas eu percebi que havia solidariedade em seu tom duro. — Não podemos parar agora. Vamos.

Eu assenti, limpando o canto da boca com as costas da mão. A mão de Alyssa acariciava minhas costas, num gesto que tinha como intuito me ajudar. Não estava funcionando.

Eu não conseguia parar de pensar naquele menino.

— Se você quer morrer, — sibilou Myrella ao meu lado, assim que me recompus e voltamos a fugir — morra sozinha. Leve sua dama consigo se quiser.

Eu a olhei, chocada.

— Você não percebeu que havia um garoto morto? Uma criança? — perguntei, exasperada. Não é possível que ela fosse fria a esse ponto.

— Um menino da cozinha. Um plebeu. Quem se importa?

As palavras frias de Myrella me fizeram agir sem pensar. Ignorando tudo ao nosso redor, eu a puxei pelo pulso e fiz parar de correr. Ela me encarou, confusa, o que não durou muito tempo quando abri a mão e acertei seu rosto com força.

Uma criança morreu! — eu berrei. — Uma criança! E você o trata como se fosse menos que um animal? Ele era só um menino, Myrella! — explodi, com as lágrimas descendo pelo meu rosto. — Você é um monstro! — cuspi a palavra.

— Alteza! — O soldado voltou, indo até nós para entender o que estava acontecendo. — Por favor, não temos tempo pra isso! Estamos chegando a um dos esconderijos, preciso que as senhoritas se apressem!

Assim que ele terminou a frase, ele fez um som estrangulado. Nós gritamos e demos um pulo para trás, vendo uma espada transpassada na barriga do soldado.

— Então essa é a princesa de Grimlee, eu suponho? — Diante de nós, puxando a espada ensanguentada de volta e empurrando o corpo molenga do guarda, havia um homem de barba por fazer, alto e musculoso — mas não igual ao primeiro que nos deparamos. Ele devia ser pouca coisa mais velho do que Derek, mas as cicatrizes em seu rosto denunciavam que tinha uma vida muito mais arriscada. — Bem, olá — ele cumprimentou, com um sorriso maldoso. — Sinto muito que isso tenha que acabar assim.

Eu senti meu rosto empalidecer, e dei um passo para trás. Ele soltou uma risadinha, e deu um passo na minha direção, parecendo um predador prestes a devorar sua presa.

— Fique longe dela! — gritou Alyssa. Na ponta de suas mãos trêmulas, havia a espada do soldado caído, apontada na direção do nosso algoz. — Não dê mais um passo! — ela ameaçou. Sua voz trêmula denunciava o medo, mas ela estava agindo de modo mais corajoso que eu já a havia visto.

O homem soltou uma sonora gargalhada, olhando-a como se ela fosse uma gatinha mostrando os dentes, como se fosse uma coisa fofa e engraçadinha. Alyssa trincou os dentes, mas não desistiu de ameaçá-lo, ainda segurando a espada na direção dele.

— Abaixe isso, docinho — ele instruiu, com a voz melosa. — Isso pode te machucar, sabia?

Ela não abaixou.

— Se… Se afaste de nós — ela ordenou, mas estava assustada demais para parecer ameaçadora.

Ele riu de novo, e deu um passo para frente, se colocando ainda mais na direção da ponta da espada.

— Vamos, docinho. Nós dois sabemos que você não tem coragem — ele debochou. — Jogue essa espada no chão e eu prometo que acabo com isso rápido, sim? Você nem precisa morrer.

Os olhos de Alyssa se arregalaram e seu tremor se intensificou, mas ela não jogou a espada no chão, ainda empunhando-a na direção do homem. Então ela franziu os olhos e eu vi ódio refletido neles, apertados, e ela gritou, movendo os braços para atacar.

Mas, antes que ela furasse o homem com a espada, uma o perfurou no peito, mas pelas costas. O homem engasgou, com os olhos se arregalando com a surpresa e o sangue escorrendo pelo canto da boca.

— Ela não precisa morrer — uma voz feminina soou atrás dele, firme e segura, e puxou a espada com violência, fazendo o homem gemer de dor antes de cair no chão. — Mas você, sim.

Tracy!

Alyssa jogou a espada no chão, se jogando de joelhos no chão, chorando sonoramente de alívio. Eu corri até ela, me ajoelhando ao seu lado e passando os braços ao redor da minha amiga, beijando o topo de sua cabeça, sussurrando que estava tudo bem. Ela afundou a cabeça no meu peito, abafando seu choro contra meu vestido, e eu comecei a acariciar a sua cabeça.

Ela ia matar um homem. Ela ia matar um homem pra me salvar.

— Vocês estão bem? — Dessa vez era uma voz masculina. Ergui a cabeça e me deparei com Derek vindo em nossa direção. Vi nitidamente a preocupação espelhada em seus olhos ao ver Alyssa naquele estado. Ele lançou um olhar rápido para Myrella, que encarava o homem morto, boquiaberta. Soube naquele instante que ele só não se ajoelhou e envolveu Alyssa nos braços porque ela estava presente.

— Sim — eu respondi, sabendo que Alyssa era incapaz de fazer outra coisa além de chorar. O choque havia sido demais pra ela, e o alívio que a atingiu foi o necessário para fazê-la parar de conter as emoções que tão corajosamente havia escondido dentro de si mesma para dar voz ao seu instinto protetor.

Ela ia matar aquele homem, eu sei que iria. Ela moveu a espada na direção dele. Se não fosse por Tracy, a imagem daquele homem morrendo por suas mãos assombraria a mente de Alyssa para sempre.

Falando nela, ela estava limpando a espada suja de sangue na roupa do homem que havia acabado de matar, não parecendo muito preocupada com o fato de que havia acabado de tirar uma vida. Só então ela ergueu a cabeça e olhou na nossa direção, e eu vi a preocupação em seus olhos assim que eles se encontraram com os meus.

Isso foi o suficiente para fazer uma paz e sensação de segurança se espalhar dentro de mim. Tracy havia acabado de salvar a minha vida, como tantas vezes eu havia sonhado quando criança, que um príncipe belo e corajoso me salvava em um momento de perigo.

Mas não era um príncipe. Era uma princesa, linda e corajosa, e que eu amava até meu coração doer de tanto amor explodindo dentro de mim. O pensamento me fez sorrir para ela, e eu vi a preocupação ser varrida dos seus olhos quando ela me devolveu com o mesmo sorriso carinhoso.

— Tracy! — Myrella gritou de alívio, jogando-se nos braços da princesa. Tracy arregalou os olhos, sem saber exatamente o que fazer. — Obrigada por me salvar, eu sabia que…

— Acredite, a última pessoa que eu pensei em salvar foi você — resmungou a princesa, empurrando Myrella para o lado e a olhando com desgosto. — Se ele estivesse ameaçando apenas você, eu teria ficado feliz em deixá-lo cortar sua garganta.

— Tracy — censurou Derek, olhando-a com repreensão.

— Certo, eu não deixaria ele te matar. Por pior que você seja — Tracy respondeu, revirando os olhos, e logo voltou a ficar séria. — Alyssa, eu sei que está assustada, mas você precisa se levantar, tudo bem? Nós temos que sair daqui.

Alyssa não respondeu, mas assentiu com a cabeça, ainda colada no meu peito.

Derek mordeu os lábios e se abaixou, dobrando os joelhos e se apoiando na ponta dos pés, acariciando o braço de Alyssa. Isso a fez erguer a cabeça e olhar em sua direção, os olhos vermelhos e molhados. O príncipe sorriu para ela, terno e carinhoso.

— Você foi muito corajosa.

Ela deu um sorriso mínimo.

— Obrigada — sussurrou.

Com minha ajuda, Alyssa se levantou. Secou os olhos e respirou fundo, buscando se acalmar. Eu percebi que ela evitava olhar os dois corpos no chão, o soldado que nos protegia e o homem que ela quase havia matado.

Eu, por outro, fitei o homem a quem eu devia nossas vidas. Ele havia morrido para nos proteger, e eu nem mesmo sabia o nome dele. Parecia cruel e mesquinho que a vida de alguém fosse usada como escudo para que pessoas como eu ficassem em segurança, afinal aquele homem era uma pessoa. Ele tinha família, amigos. Será que era casado? Ele tinha filhos? Eu precisava saber.

— Ti? — Tracy chamou minha atenção. — Está tudo bem?

No momento, o corredor parecia seguro. Eu assenti para a princesa.

— Eu só preciso de um momento.

Eu andei até o corpo do jovem soldado, caído e com os olhos vidrados, sem vida. Apertei os lábios, me ajoelhei ao seu lado e peguei sua mão, dando um beijo na pele que esfriava, como forma de agradecimento.

— Obrigada por salvar a minha vida — agradeci baixinho, mesmo sabendo que ele não me ouvia. — E sinto muito por não poder fazer nada por você. Se eu descobrir quem é sua família, juro que vou fazer o que puder por eles. É o mínimo que posso fazer.

É claro que ele não respondeu, estava morto. Meu coração doeu por ele, mas coloquei sua mão sobre seu peito cuidadosamente, antes de me levantar e olhar para o grupo. Tracy me olhava com admiração, como se estivesse orgulhosa do que havia acabado de ver. E Myrela… Ela parecia irritada, mas não me importei.

— Vamos sair daqui. Precisamos nos esconder antes que mais alguém apareça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.