Cap 7 o caboclo.

Alice se arrumou rapidamente e desceu, encontrando sua prima Estela e a mais velha, Valentina, no fim da escada. Paradas em fila, as duas estavam sendo inspecionadas pela avó, como de costume. “Uma neta minha não sai desalinhada, não enquanto eu estiver viva” dizia ela.

Ao ver Alice descendo, a velha rola os olhos e bufa, fazendo um sinal com a mão para que ela se apressasse.

– Nós vamos fazer uma visita ao sr. Brown...- diz ela ajeitando os cabelos de Alice, os prendendo num rapo de cavalo acima da cabeça. Ela puxava os cabelos da neta sem dó, deixando o cabelo levemente enrolado da moça completamente rente à sua cabeça.

Alice não gritava nem reclamava, ela sabia que era isso o que sua avó queria, elas já se conheciam bem demais para cair uma no joguinho da outra. Mas Alice estava apenas começando a jogar, e suas estratégias eram ainda completamente desconhecidas.

Elas seguiram em silencio até o carro prateado de placa SIQ 001, carro espaçoso ao ponto de nenhuma ter de realmente de encostar uma na outra. Annete ia na frente, pois não confiava no motorista da família, mesmo ele já estando com elas a quase vinte anos.

Elas já conheciam o velho negro amigo de sua avó, ele era um bruxo homem, mais conhecidos como curandeiros. Curandeiros eram mais ligados ás ervas, pois precisavam delas para ter seu poder, já as mulheres bruxas, nasciam com um poder que lhe vinha do útero, que era responsável pela formação da vida, abençoado pela mãe terra e por Deus.

No mundo das Siqueira, as mulheres eram vista como deusas, cultuadas e temidas. Os homens, ou curandeiros, são considerados servos, mas muito raros hoje em dia. Reza a lenda que uma bruxa enlouquecida pelo poder, matou quase todos os curandeiros do mundo para aumentar o próprio poder. Mas isso é uma lenda, bem... Ou não.

Porém o tal sr. Brown é o único, pelo menos até onde Alice sabia, que podia fazer mais do que mexer com ervas e poções. Ele era cego, sua avó contou que vendeu seus olhos ao diabo para ter o poder da premonição. Ele podia ver o futuro dentro de uma bacia de prata cheia até a metade com agua, onde ele tocava com uma varinha comprida de madeira rosada a fazendo brilhar. Mas ninguém podia ver o que aparecia ali, somente ele.

Depois do que sua avó havia dito, e pelas coisas que ela gritava em sua cabeça, ou o que deixava escapar para as netas sem querer, era que ela queria saber quem seria a mais poderosa das três. Quem herdaria o demônio afinal? Parece que ela já não tinha mais tanta certeza de que seria Alice, como havia dito para o demônio, e a única pessoa que poderia responder isso para ela, era o velho.

Fazia sentido, mas dava para notar a contrariedade de precisar de um curandeiro para descobrir isso. A cada dia que passava, a que seria a nova guardiã do demônio ficava mais forte, enquanto a velha ficava mais fraca e moribunda. Ela já mancava da perna direita, por mais que tentasse disfarçar, já estava bem visível. Respirava com mais dificuldade, e seus cabelos estavam cada vez mais ralo e mais opacos.

Alice lançava olhares para Estela, tentando não chamar a atenção de Valentina, mas essa última mantinha os olhos no livro sobre ervas indianas. Depois de certo esforço, conseguiu chamar a irmã com os olhos, lançando-lhe ondas de energia. Estela olhou para ela incomodada, mas ao ver a expressão de urgência de Alice, ficou mais alerta.

A grande dificuldade do momento era passar a informação que queria para sua irmã mentalmente, sem que Valentina ou sua avó interceptasse a mensagem.

– O que você quer? — pergunta Estela mentalmente. Alice demonstra urgência, olhando para Valentina que apenas se mexe no banco para uma posição mais confortável para segurar o livro. Estela rola os olhos e passa a mão pela janela que dava para a parte da frente da cabine, e então faz um movimento singelo com o dedo e olha para Alice com um sorriso travesso- Voilá

– Tem certeza de que é seguro?

– Tenho... Já fiz isso antes sabe... Não é tão difícil fechar a mente para a vovó na verdade, é só se colocar onde ela nunca vai procurar...

– E onde seria isso?

– Com nossas mães... Nessa parte do seu cérebro, você pode ter certeza que ela não entra.

– Como pode ter tanta certeza?

– Até um monstro sente culpa quando o assunto são seus próprios filhos... Mas isso não importa, o que você quer dizer com tanta urgência?

– Tenho uma ideia de como matar a velha, só que você tem que me ajudar. — disse Alice, e Estela engasga e começa a tossir com o susto.

O detetive tirou um cigarro de uma cigarreira de couro cru, bateu o filtro artesanal na mesa, para ajustar o tabaco. Ele olhou para Mari que não fez nenhuma objeção, então o acendeu.

Logo a sala de jantar se enchia com o cheiro do tabaco orgânico, preenchendo todo o silencio dos três desde que o policial entrara. Eles apenas se entreolhavam, até que finalmente o detetive quebra o silencio.

– Como eu disse, temos interesses em comum, por assim dizer...- começa Daniel os encarando com olhos semicerrados.

– E que interesses seriam esses detetive? — pergunta Marcos.

– Meninas estão sumindo há algum tempo... Vocês, tem alguma ideia do que pode estar acontecendo? — Mari ia responder, mas Marcos é mais rápido, para evitar que Mari comece com as teorias dela.

– O que poderíamos saber sobre isso detetive? Eu acabei de chegar a cidade... E...

– Sim... Para fazer uma matéria sobre as Siqueira... Como está indo com isso?

– Ahn... Como sabia disso?

– As pessoas falam muito nessa cidade... E parece que a família tem sido o foco de muitos... Comentários...

– Ahn ...É o que ouvi falar...- diz Marcos olhando com censura para Mari, que apenas não falava nada por causa disso.

– Você não conseguiu nada não é mesmo? Aliás...Você conseguiu, a nossa amiga Mari aqui, é toda a informação palpável que tem nessa cidade... Ou melhor... Que temos...- frisa Daniel- elas não costumam deixar muitos vestígios, nada em jornais...documentos... mas deixam muitas pistas para trás...pelo menos até notarem- diz Daniel olhando para Mari, que engole seco.

– Você também acha que foram elas? — pergunta Mari sem conseguir se segurar, ela podia ouvir a cabeça de Marcos explodindo.

– Eu não estou afirmando nada... Mas se forem elas, eu vou descobrir.- Daniel olhava fundo nos olhos de Mari que corou. Marcos achou estranho o jeito do policial, a forma com que ele os encarava era diferente, o fazendo sentir-se como que violado. Os olhos do policial o invadiam fundo, lhe dando um arrepio na espinha. Depois de uma pausa dramática, o que Marcos havia notado ser um trejeito peculiar do detetive, Daniel se levantou, apagou o cigarro na sola do sapato e guardou o resto de volta na cigarreira. — Muito bem... Os vejo por ai...

– Espera, é só isso? Ei! Não é justo! – diz Mari seguindo o policial até a porta. Daniel se vira e a olha curioso — Você tirou todas as informações que quis do meu cérebro e não vai me dar nada me troca? Isso não é nada educado!

– Educado? — pergunta Daniel parecendo divertir-se com a situação.

– Você tem que me dar algo em troca! Me dê algo! Quem realmente é você? O que você quer com elas?

– Eu já disse quem eu sou! — responde Daniel sorrindo, como uma criança travessa pega em uma mentira.

– Não disse tudo! Eu estou vendo, só não consigo ver o que é! — responde Mari apertando os olhos, como que tentasse enxergar através dele- Como faz isso? Você me ensina?

– Mari do que você está falando? — pergunta Marcos sem graça do jeito estranho de Mari.

– Ele é como eu, ou quase isso, ele leu minha mente e a sua para saber tudo o que sabemos sobre elas! Eu senti, eu vi isso! Mas eu fiz um acordo! — diz Mari dirigindo-se agora para Daniel.

– Eu não disse que concordava! — retruca Daniel.

– Mas isso não é justo! Que tipo de policial é você afinal? — responde Mari inconformada, fazendo com que Marcos a segurasse pelo braço, tentando impedi-la de seguir mais próximo do policial. Marcos temia o que ela poderia fazer, ele sabia o quanto aquilo era importante para ela. Daniel observava tudo agora sério, curioso, ela havia conseguido chamar sua atenção.

– Um tipo especial! — responde Daniel sério- Escuta garota, quanto menos você souber, mais segura você está, e acho que você melhor do que qualquer um sabe disso. Ele rastreará sua mente mais rápido do que eu

– Me ensina a fazer o que você faz! Como me bloqueia?

– Quem sabe um dia! – sorri ele colocando os óculos e se virando para a porta.

– É uma promessa? Diga que promete! — insiste Mari, Daniel se vira de volta e sorri.

– Ela é sempre assim? — pergunta Daniel e Marcus da de ombros- Ta, é uma promessa! Mas trate de não tirar isso daí! — responde ele apontando para o cordão de São Jorge que a avó de Mari havia lhe dado há muitos anos atrás. Nessa hora Marcos percebe que Daniel passa a mão pelo batente, como se o acariciasse, e então foi embora.

Mari dá pulinhos infantis quando fecha a porta para o policial bonitão. Marcos espera rolando os olhos até que ela parasse.

– Já acabou? — pergunta Marcos incomodado.

– O que?

– Segura seus hormônios e me explique direito o que aconteceu aqui!

– Esta com ciúmes é? — brinca Mari.

– Aí você acordou né garota! — responde ríspido

– Ele não estava me paquerando! Mas poderia não poderia? Ele poderia me paquerar. Ele não é tão mais velho assim! — continua Mari ignorando Marcos.

– É sei lá, que seja...- responde Marcos vendo que demoraria mais tempo até que Mari voltasse para a terra. Ao notar o incomodo de Marcos, Mari se recompõe e explica.

– Ele é como eu, ele consegue ler mentes e está atrás delas, mas eu não consegui nada tentando ler os pensamentos dele, ele me bloqueou, eu nunca consegui bloquear ninguém... Seria muito bom contra o demônio... Será que ele volta?

– A pergunta mais importante é o que ele quer com as Siqueira! Vamos ficar de olho nele.

– Você ouviu o que eu disse? Ele é como eu! É a única pessoa assim que conheci que não fosse aquelas bruxas... Mas isso é estranho... Achei que só mulheres pudessem ser bruxas!

– Como assim? Não existem homens bruxos?

– Eu nunca vi um... Minha avó disse que só existem curandeiros... As coisas que eu sei são só as que eu li por ai, mas é tudo baboseira segundo minha avó... Nada sobre elas está na internet porque elas “ainda fingem que não existem” — disse Mari fazendo o gesto de aspas com as mãos.

– Existe o wicca.- lembra Marcos.

– Isso é bruxaria de curandeiro não de bruxa de verdade...

– Sua avó sabia muito sobre bruxas não é...

– Saber ela sabia, mas me contava quase nada... Muita coisa descobri lendo os pensamentos dela... Eu não sei exatamente como ela conseguiu essas informações, mas ela sabia que existia homens curandeiros e a diferença entre as bruxas. Descobri quando um homem negro passou pela rua a uns anos atrás, ela ainda estava viva. O homem tinha ido visitar minha vizinha, ela estava tendo problemas com demônios... Estava doente.

– Ele a curou?

– Não... Disse que o problema delas só uma bruxa poderia fazer ou retirar...era a dona Marilda dessa casa abandonada ai em frente, eu mesma o ouvi dizer isso. Ele tinha cabelos brancos como a neve, assim como seus olhos, ele era cego... Me deu arrepios. Olha só me arrepia só de contar.

– Você lembra do nome dele?

– Era um nome estrangeiro... Não consigo me lembrar!

– Vamos Mari, isso pode ser uma pista importante!

– Hum... Começava com b! como era? – dizia Mari lutando contra sua própria memória.

– Sr Brown, que gosto vê-lo! — disse Annete assim que a porta da casa simples do velho negro e olhos leitosos se abriu.

– Annete... Pontual como sempre. — diz o velho não parecendo muito feliz com a visita.

– Eu trouxe minhas meninas, você sabe, para você analisa-las caso não consiga faze-lo sem o corpo presente... — disse Annete com desdém, entrando sem mesmo esperar o convite, passando pelo velho com nojo tentando não encostar muito nele ou na porta. — acredito que saiba o porquê estou aqui... Afinal... Ainda é um dos únicos do seu tipo pela região...

– Eu sou o melhor, e você sabe disso, senão não estaria aqui – disse o velho fazendo Annete arregalar as narinas em desagrado – e a senhora, com toda sua inteligência, não procuraria outro curandeiro que não eu... — ameniza.

– Preciso que consulte o oraculo. Preciso da resposta!

– Eu sei... Mas essa resposta ainda não está definida. — responde o velho e um sorriu se passou no rosto de cada moça do cômodo. Não era uma competição explicita, Alice, até aquele dado momento, não estava nem um pouco interessada em se aliar àquele demônio por quem nutria tamanho pavor. Porém, ela sabia que para conseguir matar a velha e se ver livre de seus “cuidados e proteção”, somente sendo a próxima “herdeira”.

A herdeira ficará com a casa e maior parte da fortuna da família, assim como a posse do controle sobre o demônio e todo o clã. Os poderes eram inimagináveis, pois tendiam a aumentar de geração em geração.

– Como assim não está definida? Olhe para elas! Já são moças feitas! — insiste Annete, já alterando seu tom.

– Sim... Mas acontece que... Existe mais competição do que imaginava, Annete minha cara! Sua energia não está sendo drenada apenas de suas netas. — disse o velho para a surpresa das meninas, que até dado momento, não sabia de tal informação, e o velho completou- Por isso o desabrochar de Valentina foi tão tardia, o de Estela acabou de acontecer e Alice, coitada, não teve nem chance. Os dados foram jogados pelo seu demônio, que lançou sua semente para fora de sua casa!

– Uma bastarda? Você só pode estar brincando! — responde Annete desacreditada.

– Você foi desleixada, se me permite comentar... Os altos estão de olho em você! Um oficial ira lhe procurar! Melhor limpar sua bagunça Annete! Tem tempestade pior para se preocupar nesse momento!

– Do que está falando seu curandeirozinho de meia tigela? Inventando desculpas para não me dar a resposta que quero! É isso?! – vocifera Annete.

– Veja você mesma! — disse o velho agarrando o braço de Annete, que por um momento desfalece. Mas antes mesmo que pudesse cair, ele a larga, e ela imediatamente volta a si. — limpe sua sujeira senhora, antes de mais nada, sua casa tem de estar limpa!

Annete o encarava atônita. Estava pálida, gaguejou um “vamos” para suas netas que a seguiram em silencio para fora da cabana do velho. Alice olhou para o caboclo preocupada, será que ele havia mostrado seus planos para ela? O velho sorriu e deu uma piscada na direção da moça. Estela havia visto e olha confusa para Alice que dá de ombros.

Ela não sabia quais eram as sujeiras de sua avó, nem mesmo o motivo por trás da piscadela do velho caboclo. Mas agora sabia de uma coisa, ela tinha uma “meia irmã” pelo mundo, e ela não podia estar muito longe.

Chegando em casa, Annete começa a gritar por Clarice. O clima na volta estava tenso. As informações ouvidas estavam sendo digeridas por todas. Alice ficou grata por Estela a ter ensinado a guardar seus pensamentos em lugares apropriados, não foi tão difícil dado a situação de emergência. Valentina vagava os olhos de uma irmã para a outra. Uma ruga nascia entre as sobrancelhas loira da irmã mais velha. Quase dava para ouvir seus neurônios geniais funcionando em sua cabeça.

Se tinha alguém que queria aquele posto era Valentina. Estela o queria por pura birra, na verdade, ela não era dada a nenhum tipo de compromisso ou obrigações. Ela só queria poder olhar para os olhos da velha enquanto ela estivesse esvaindo o resto de sua essência para elas, e cuspir em seu cabelo tão bem tratado. Ela mesma iria fazer uma maquiagem e penteado apropriados para sua avó, sentindo ainda mais raiva da velha por não estar viva para sentir o revide dos puxões de cabelos ao prender um coque perfeito acima da cabeça. E muito batom vermelho. “Batom vermelho são para raparigas! Prostitutas de terceira” ela dizia.

Annete se trancou com Clarice no sótão, o que raramente acontecia. Só que dessa vez, Alice e Estela, enquanto estavam escondidas no corredor, viram ela passar a mão sobre o rosto de Clarice antes de subirem as escadas de madeira empoeiradas. Elas sabiam, a velha não deixaria ninguém subir lá que não fosse enfeitiçado. Pobre Clarice, seu cérebro devia estar frito de tanto que a velha fazia isso com ela.

– Por isso prefiro fritar o meu cérebro com maconha! Pelo menos é divertido- diz Estela respondendo aos pensamentos de Alice, entrando em seu quarto seguido pela irmã, que logo fecha a porta atrás de si.

– Ei, não era pra você ouvir isso. — reclama Alice.

– Não dá pra usar o truque com quem o criou sua tonta. Mas não se preocupe, segredo de irmã! — diz Estela agachando-se e procurando alguma coisa em sua mala.

– Nem somos irmãs de verdade! — bufa Alice se sentando na cama.

– Somos primas criadas juntas desde que nascemos, é o mesmo que irmãs! Menos Valentina, ela não é como nós... Você acha que ela que vai ser a herdeira?

– Não sei... Pode ser essa outra menina... A perdida.

– Ahá! Achei! O restinho do de vinho do porto que o Raul me deu... Esta servida? — sorri Estela satisfeita.

– Não não...- responde Alice. Estela vira os últimos 3 dedos de vinho e fez muxoxo por ter acabado, jogando a garrafa de volta na mala.

– Quem será que ela é? — pergunta Estela.

– Só tem uma pessoa que sabe disso, bem na verdade, uma pessoa, um demônio e um zumbi. Mas como Clarice não conta, teremos de arrancar isso da vovó, ou...

– Do demônio! — conclui Estela fazendo uma careta de desagrado. E foi então que Alice se deu conta, Estela estava tão a fim de falar com aquele ser quanto ela, isso é, nenhuma. Estela também não pronunciava o nome do demônio, afinal, era assim que se afeiçoa e liga os demônios a você, dizendo seu nome em voz alta. Ela havia pego raiva do demônio, já havia perdido muitos namorados e clientes por causa dele e seus truques idiotas. O relacionamento dela com ele era tão conturbado quanto o do dele com Alice.

– Espera... E o plano de mata a velha? Você ainda não me contou! — lembra Estela deixando aquele outro plano de lado. Não chegaria perto daquele demônio se pudesse evitar.

– Ainda não... Primeiro temos de descobrir quem é essa moça!

– E depois o que fazemos com ela? Matamos?

– Credo Estela, claro que não! Não somos “Annete”!

– Não... Mas ainda somos Siqueira, se é que você me entende – ri Estela acendendo um cigarro. Para ela tudo não passava de brincadeira. Parecia que nada podia afeta-la, a não ser quando se falava de seus namoros.

– Já conseguiu falar com seu namorado? – pergunta Alice

– Não... — diz Estela perdendo o sorriso. — Ele não quer falar comigo... Aposto que ela o enfeitiçou, ou pior, o aterrorizou como fez com os outros... Assim que der eu escapo de novo! Tenho que procura-lo! — os olhos azuis da morena se encheram de lagrimas. Nem mesmo a franja charmosa de Estela poderia esconder a tristeza que sentia, e o rancor que só crescia pela sua avó.

– Não Estela! Preciso de você! Preciso de ajuda para achar essa menina! A nossa família depende disso! — diz Alice sem chamar a atenção da irmã que já começava a procura novamente, dessa vez no armário- ela ficara com a casa e 70% da herança, você me jura que não vai se incomodar de viver só de seus quadros para pagar seus luxos! — diz Alice agora chamando a atenção de Estela- ou você pode ser garçonete... Ou enfeitiçar um ricaço, também é uma opção... Ela pode querer se vingar de todas nós e nos deixar sem nada, ou nos matar! — dramatiza Alice.

– Ta ta ta eu já entendi...- resmunga Estela virando os olhos- o que você tem em mente?

– Nossos poderes estão aumentando gradualmente... Eu li num daqueles livros da biblioteca que podemos direcionar alguns dons... Então eu pensei...você consegue esconder onde você está... Será que não conseguiria achar alguém? Eu sei como se faz, vi a vovó fazendo enquanto procurava por você! Ela usava um pendulo, um mapa, uns incensos e um sino de vento de ouro.

– Ah, me lembrei! — diz Estela de repente, se enfiando dentro do armário e tirando uma garrafa de vodka com um dedo restante. Ela o sorve frustrada, não era o suficiente. Joga a garrafa de volta no armário e se volta para a irmã — Você acha que ela não está fazendo isso agora mesmo?

– Bem... Pra isso ela tem de saber quem é ela, e não me aprece que ela saiba.

– E como você esperava que eu conseguisse então gênio?

– Dons direcionados! Não sabemos o que vovó pode fazer, mas sabemos o que ela não pode! A moça tem o mesmo sangue que nós, pode ter alguma variação do feitiço! Onde será que está aquele livro? — se pergunta Alice praticamente correndo escada abaixo em direção da biblioteca- E outra né...- continua ela assim que entram na biblioteca e se certifica de que não tem ninguém para ouvi-las- você não viu o alerta do caboclo? Ela tem de limpar a sujeira dela, seja lá o que for era grave, você viu a cara dela?

– Ela é louca, a gente sabe disso, e vai saber o que aquela psicopata esconde naquele sótão,

– E tem outra coisa que não estou conseguindo tirar da cabeça. – diz Alice se virando para a irmã, — Como ela não sabia? Como? O demônio não faz só o que ela manda?

– Eu não sei, ela seria responsável pelo acidente que matou minha mãe? Ela seria capaz de enlouquecer a sua? Elas eram filhas dela! – Estela falava um pouco mole por conta da recente bebedeira — Essas são perguntas de um milhão de dólares. O fato é, não sabemos ao certo o quanto esse demônio pode ser mandado!

– Não até uma de nós sermos as próximas herdeiras!

– Círculo vicioso de perguntas não te dá vontade de uma tequila? Quem sabe ajuda a pensar! — diz Estela se dirigindo ao bar da sala, fazendo Alice ter de correr atrás dela,

– Como entorpecer a mente vai fazê-la pensar melhor?

– Não sei, mas pelo menos a raiva dá umas afogadas! Saúde! — diz Estela virando uma dose de José Cuervo ouro.

– Precisamos daquele livro!

– Tá bom! Vamos atrás do seu livro! – diz Estela pegando a garrafa e um copo, seguindo a irmã de volta para a biblioteca.

Notas finais
*Voilá é uma expressão em francês que significa "esta pronto".
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.