Segredos

7 O filho do presidente


Na hora do almoço, cheguei adiantada à sala de jantar, logo após veio Christian, e então o presidente, e Philip, sentando-se ao lado do pai.

–Acho sinceramente, que devo me desculpar. –falei ao presidente, me referindo a noite passada.

–Não se dê ao trabalho, querida. –disse ele.

–Me dou sim, afinal, eu errei em invadir o seu espaço.

–Não. O Philip errou.

Naquele instante olhei discretamente para o Philip, que pareceu não se incomodar com aquela acusação, mas isso não me deixou tranquila, o que há de errado comigo, céus? Por que é que eu sempre me safo dos problemas colocando as pessoas no meio?

Retirei-me da sala assim que acabei o almoço, dando aquela velha desculpa de que estava com dor de cabeça. Ao chegar ao quarto, Chloe estava lá, sentada ao pé da cama, pensativa.

–Há algo errado? –perguntei.

–Não, senhorita. –disse assustada, levantando da cama.

–Desculpe por entrar assim, sem avisar –sentei –, eu só queria me deitar e chorar um pouco.

–Oh, então me desculpe. Já estou de saída.

Eu queria muito impedi-la e não estragar aquele momento onde ela pensava na sua própria vida em paz. Mas não deu. Eu estava tão imunda, precisava limpar minha alma com as lágrimas do meu ser.

E assim foi naquela tarde, chorei como bebê;

Bateram a minha porta, por volta das seis horas da noite: era Philip, meu coração congelou, pensei logo que ele iria me dar uma bronca, ou que ia pedir algo ridículo em troca daquela mentira.

–Você por aqui?

–É a minha casa. –disse ele, sorrindo.

–Eu sei, quis dizer, você pelo meu quarto?

–Você saiu de repente na hora do almoço, e não apareceu mais pelos arredores, o que houve?

–Ah, nada.

Tudo.

–Eu só estava me culpando por fazer as pessoas sofrerem tanto, quem sabe eu não sou daquelas loucas que se culpam pelas coisas.

–Ei –disse, levantando minha cabeça –não foi sua culpa, e você não é louca.

–Não é isso que os médicos dizem.

–Bom, só se louca quiser dizer: inteligente, engraçada, e bonita.

Fiquei sem graça, e senti como se estivesse da cor da minha blusa: vermelha. Então sorri.

–E também tem o sorriso mais bonito. –continuou.

–Por que você fez aquilo ontem? –mudei o rumo da conversa.

–Porque você é especial. E eu não estava preparado para ver você sair daqui.

–Acha que ele iria nos expulsar? –estava na cara.

–Eu não sei, mas não quis arriscar.

–Entendo.

Acho que nem eu estava preparada para ir embora daqui, já tinha se passado duas semanas que estava aqui e já tinha um carinho especial por todos. O presidente, por mais que o sentimento não seja recíproco, era como um pai que eu nunca tive. O Philip era um grande amigo. E o Christian, que já completara um mês que o conhecera, não tinha rótulos para o que ele significava pra mim.

–Você quer sair? –perguntou Philip me fazendo voltar ao mundo real.

–Ah, não. Eu estou bem aqui. Dá última vez que sai, acredite, não foi tão bom. –ainda estávamos um de frente ao outro, encostados na porta.

–Vamos lá! Tem uma sorveteria aqui perto.

Sorveteria? Há quanto tempo não ouço esse nome?

–Você gosta de sorvete?

–Não sei, nunca provei. –dei os ombros.

Ele claramente se assustou com a grande revelação que tivera feito, e fez questão de me levar a uma sorveteria que ficava em frente da casa do presidente Lowtner.

–Aonde vocês vão? –Christian perguntou, sentado no sofá.

–Christian... oi! –sorri falando. –o Philip vai me levar a uma sorveteria aqui perto, quer ir?

–Acho que ele não iria gostar muito. Vai você, e se divirta.

–Obrigada.

****

Chegamos à sorveteria, totalmente enfeitada, e fria, havia vários ares-condicionados ao redor, e alguns bonecos de gelo feitos de isopor.

–Vai querer de que sabor?

–Sei lá, me surpreenda.

Ele me trouxe um sorvete de baunilha, que era igual ao dele, e que realmente me surpreendeu. Tão saboroso.

–E aí? Gostou?

–Não, amei! É tão... bom!

Ele sorriu, satisfeito. E eu também.

Lembro que, lá no manicômio, ás vezes depois de almoçar, as enfermeiras me traziam algumas sobremesas como gelatina sem sabor, ou uma fruta tipo melancia, ou maçã. Algumas vezes me traziam tipos de doces escondidos e me fez pensar que eu também era especial ali.

–Algo errado?

–Não. Só me lembrei de algo que acontecia lá no manicômio.

–Ruim?

–Não, era bom, ótimo. Era sobre as enfermeiras.

–Você tem uma grande simpatia com enfermeiras, né? Vejo sua relação com a Chloe. Ela gosta de você.

–Ah, que nada. Elas que são umas fofas.

–E o Christian? Você gosta dele?

–Sim. –sorri.

–Dá pra perceber.

–Dá?

–Seus olhos... Eles brilham quando você fala nele.

Conversamos mais um pouco antes de voltar para casa, e trocamos ideias, até tomamos mais um sorvete, foi superdivertido estar ao lado dele. Até me fez esquecer que sou louca, e que meus pais nem sabem que eu existo.

–Por que faz isso?

–Isso o quê?

–A gente está conversando normal, e então você voa pra outro mundo, de repente.

–Ah, desculpa. É coisa de louca. –brinquei.

Ele sorriu. Seus dentes eram brilhantemente brancos.

De volta à porta do meu quarto, ele pareceu arrumar um jeito de se despedir, mas não sabia como, então resolvi dizer algo.

–Tchau, foi muito bom hoje, obrigada.

–Eu que devo agradecer.

Sorri, e o abracei forte. Pra mim, abraços só são abraços quando são dados fortes, sem pestanejar, sem frescura.

–Foi realmente um prazer.

–Digo o mesmo.

Entrei no quarto, e avistei Christian dormindo. Feito um anjo.

Queria muito acorda-lo e contar sobre o meu belíssimo dia, mas não o faria. Ele deve ter tido um dia longo, e eu também.

Peguei um livro que fica em cima da prateleira e comecei a ler, mas não absorvia bem as palavras enquanto lia, pois meus pensamentos estavam longe de demais do planeta terra.

Eu tinha um amigo! É claro que também tinha Christian e o Presidente Lowtner, mas ter Philip como amigo, um garoto –que não é meu ex médico, e nem o homem que me adotou – era incrível.