Segredos
10 Es(clarecer)
Notas iniciais
Em desespero, sai frenética do quarto, deixando os dois de lado. Acabei dormindo no quarto dos fundos, logo, não voltei para sala a noite toda. De dia, a minha enfermeira me trouxe remédios junto com o meu café da manhã.
— Tem certeza que ainda preciso tomar esses remédios? —perguntava, cansada
—Estes são diferentes, senhorita. Vai te ajudar a recuperar a memória.
Eu não estava nem um pouco entusiasmada para retrucar, apesar de saber que eu não iria recuperar minha memória. Nunca, e de forma nenhuma.
Algumas horas depois, Philips bate na porta, e eu o impeço de entrar, eu não queria falar com ninguém, isso só pioraria as coisas.
— Vai embora! —gritava com qualquer um que quisesse entrar.
Desta vez, o presidente disse que entraria. E quando eu digo “disse” quer realmente dizer uma ordem, e não um pedido.
— O que está havendo? —ele pergunta, sentando-se ao meu lado.
—Coisas... —eu respondo-o, fitando o chão.
—Que coisas são essas?
—São só coisas.
Percebo que volto a me fechar, como no dia em que conheci Christian, recordo-me de como éramos diferente um do outro, nos tornando tão iguais.
— Na verdade, eu... —comecei a falar —, acho que seria maravilhoso se pudesse voltar lá no manicômio qualquer dia desses. — sugeri.
— Sim, claro. Lá está a sua segunda família. Sei que deve ser importante pra você visita-los. —o presidente diz, apreensivo — você vai sair para jantar?
— Sim, claro.
Então ele se levanta, e sai do quartinho dos fundos.
Philips bate a porta de novo, e desta vez, o deixo entrar.
— Oi. — ele diz, entrando.
— Olá.
— Christian me contou o que aconteceu — ele tornou-se a falar.
— Que bom! Então agora você sabe que eu não sou a única culpada da história, não como sempre — digo aliviada, e olho-o nos olhos.
— Nenhum dos dois foi — Philips retruca.
— Ele a beijou, eu beijei você. Somos idiotas.
— Primeiro que, Isabel: sem querer te magoar, mas vocês não namoram — eu reviro os olhos — mas sei que você gosta dele. Ele entraria aqui se você não estivesse uma fera, e te explicaria exatamente tudo nos mínimos detalhes porque ele se importa com você.
— Explicar o que? Que eles formam um casal feliz e lindo? — falo, num tom irônico.
— Nós somos um casal feliz e lindo só porque nos beijamos? — ele pergunta.
— Não, claro que não! — eu respondo, ele ergue uma sobrancelha como se dissesse que um beijo não significa nada — é totalmente diferente.
— Ah, é? E por quê?
— Porque eles estavam noivos, eles iam se casar se ela não tivesse desistido para fazer faculdade em Búzios, que por sinal não deu certo, então ela volta e BUM! o Christian se apaixona por ela novamente — comento, quase sem ar.
— Você está certa em partes, Natalie beijou-o, e não ao contrário.
— Tudo bem, Philips, só que ninguém beija sozinho.
Pensei nessas palavras, eu não podia mesmo julgar o Chris. Eu fiz a mesma coisa noite passada; certo que foi para causa-lo ciúmes, mas mesmo assim.
— Talvez devessem conversar e explicar as coisas — ele pede — eu gosto de você Isabel, e de como você é diferente, gosto do seu olhar, do seu jeito, dos fios dourados do seu cabelo longo. E é por esse motivo, dentre outros, que eu exijo que fique com quem você ama.
Philips sempre foi muito gentil comigo, ele sempre estava lá quando eu precisei desde sua chegada aqui. Ele tem me ajudado bastante, e de certa forma, eu também gostava dele. E muito.
— Mas...
— Não retruque! Isso é o melhor para você.
Levantei a cabeça, e Philips foi embora. Comecei a arrumar-me para o jantar, pois eu falaria com ele esta noite. Já está mais que na hora de esclarecer os fatos.
O jantar estava uma delicia, não tenho duvidas, era um tipo de filé mignon, e suco para os menores de idade, mas todos ao redor da mesa estavam em silencio, como se alguém tivera morrido.
Decido quebrar o gelo:
— Christian — ele me olha, quase na mesma hora que digo seu nome —, eu preciso falar com você, por favor.
Ele faz que sim com a cabeça, e nós vamos para a sacada.
— O que foi? — Chris pergunta, num tom cuidadoso.
— Nada, eu só queria dizer que... Ah, você sabe... Não sinto nada pelo... ahn... Philips — concluo.
— Eu também não sinto nada pela Natalie, Isabel. Eu nem sei porque ela me beijou, ela só pode estar louca mesmo.
Ao ouvir essa palavra, meus olhos se fecham.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei que não — concordo baixinho — fique tranquilo, eu estou bem — minto.
— Você não precisa ser forte 24h por dia. Você pode chorar se quiser.
Christian era atencioso, e quente, ele era o verão quando tudo o que eu tinha era o inverno. E eu agradecia por tê-lo aqui, bem pertinho de mim.
— Obrigada — suspiro, deitando minha cabeça em seu ombro esquerdo.
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